MEU TRATADO POLÍTICO PESSOAL

Se alguém quiser me conhecer melhor, em primeiro lugar, não concordo com NENHUMA visão do grupo social que o prof. Juremir retrata e critica neste artigo. Em alguns casos, eles agem por ignorância; em outros, por medo; por oportunismo; em busca de vantagens financeiras custe o que custar, por preconceito de classe e até mesmo por falta de caráter. De qualquer forma, para saber com quem e por que vale a pena conviver dentre os que pensam e agem dessa maneira, só mesmo conhecendo melhor um por um.

Ao mesmo tempo, essa constatação não isenta de responsabilidade nem de culpa e não protege moralmente nenhuma pessoa que concorde com a minha visão de esquerda: afinal de contas, dentro da própria esquerda há ignorantes, covardes, oportunistas, gananciosos, preconceituosos e maus caracteres. Pra separar o joio do trigo, em que pese o julgamento de cada um ser extremamente subjetivo e exclusivamente pessoal, só mesmo conhecendo melhor um por um.

Há pessoas solidárias e profundamente sensíveis para conosco de direita e pessoas extremamente hipócritas de esquerda. De qualquer forma, perde-se menos tempo e produz-se conversações mais gratificantes e com um sentido social mais amplo em discussões com pessoas de esquerda do que com pessoas de direita.

O que fica bastante claro para mim: salvo em raríssimas e honrosas exceções, muito dificilmente uma pessoa de esquerda e uma pessoa de direita irão concordar em uma série de assuntos relacionados à economia, à política, aos direitos humanos, à identidade, ao respeito, à valorização da cultura e à compreensão das peculiaridades físicas, emocionais e comunitárias de gênero, de etnia, de religião; ao estado de bem-estar social; ao que é público e o que é privado; às preferências sexuais; ao que é liberdade de imprensa e o que é liberdade de empresa e assim por diante.

Infelizmente, poucos entendem que todos tem lado, sim. E que não é assim tão simples crer que deve-se buscar o que de melhor cada um tem a oferecer quando, para essa interlocução, é impossível haver um altruísmo genuíno, pois sempre será preciso dar algo muito precioso em termos morais em troca, além de não existir “almoço grátis”.

Apartidarismo pode até existir. Eu, mesmo, um simpatizante e militante jamais filiado e que jamais pedi emprego a político algum (ser prestador de serviços na minha área é uma outra história), mantenho-me à esquerda, mas vejo o PSOL como anacrônico, histriônico e sem projeto nem quantidade e qualidade técnica e de estabelecimento de redes de contato sólidas o suficiente. É um conjunto de pessoas geralmente éticas, porém, pouco capazes de fazer mais do que reunir estudantes para manifestações populares (o que – convenhamos – já seria suficiente, mas não o justifica como partido).

Nenhuma outra opção mais à esquerda pode ser seriamente considerada, como PCO e PSTU. Todo o resto do espectro é claramente de direita, pois não existe centro. Alguns podem ser mais conservadores do que reacionários; outros, podem ser mais populares do que oligárquicos; outros, podem ser mais empresariais do que trabalhistas… Mas são todos voltados à direita.

Não voto nulo. Não voto em branco. Não voto na pessoa. Não faço “salada de frutas” partidária com o meu voto. Não me vejo na obrigação de ser fiel mas, sim, de ser coerente. E, INFELIZMENTE, não existe outra opção para mim, apesar de todos os imensos pesares, de votar em alguma alternativa que não seja o PT.

Me vejo, sim, obrigado – por uma questão de honestidade e de coerência – a criticar severamente o sistema. Mas não é um sistema político-partidário-legal que vitimiza o PT nem que o força a fazer o que não quer apenas em nome da manutenção da governabilidade: trata-se de um modelo de democracia obtuso e controverso do qual o próprio PT obtém vantagens à medida que parte do seu staff ora no poder defende que “os fins justificam os meios”. E é aí que o PT deixou de ser O BOM E VELHO PT.

A questão toda está relacionada a uma profunda reforma que não é apenas política, não é apenas voltada ao financiamento das campanhas nem de formatação hierárquica de cargos técnicos e políticos nos âmbitos municipal, estadual e federal: é uma reforma MORAL, que deve necessariamente empoderar e – mais do que isso – responsabilizar o cidadão para agir mais e delegar menos; para esclarecer-se mais acerca do que se vota e se discute nos parlamentos, pois, afinal, essas decisões irão definir a sua vida, a vida de seus familiares, amigos, etc.

Grande parte das boas soluções socioeconômicas, culturais e afetivas têm sido realizadas em rede, de maneira independente, sem a necessidade de obter financiamento junto a governos que fazem pouco ou a empresas que exigem contrapartidas muitas vezes inaceitáveis do ponto-de-vista puramente humano.

De qualquer forma, até mesmo essas iniciativas brilhantes (economia popular solidária, crowdsourcing, crowdfunding, wikicidades, etc.) dependem enormemente da estrutura política, partidária e empresarial predatória e anacrônica.

O Brasil ainda está muito distante de uma verdadeira democracia horizontal, emergente. Estmos barbaramente distantes de uma justiça justa, que não seja uma mera defesa patrimonial e classista dos oligarcas e de seus herdeiros. Muito já foi feito – inclusive por vias tortas – desde que Lula assumiu o país em 2002. estamos com dez anos e meio de um governo que faz bonito quando inclui como nunca e erra feio quando vende a alma ao diabo por medo de um golpe de estado.

A chance de largarmos esse modelo idiossincrático, contraditório, incoerente e predatório é a de realmente procurarmos deixar o puxa-saquismo, o chapa-branquismo, o clientelismo, o lumpesinato, o oportunismo, o ódio, a ganância, a ignorância e a estupidez de lado sendo simplesmente HONESTOS.

O EFEITO TOSTINES: MÍDIA E REACIONÁRIOS

O título deste post atualiza e propõe uma brevíssima problematização acerca de uma variação recente do publicitariamente bem-sucedido “Paradoxo de Tostines”:

A maioria dos brasileiros é reacionária e ignorante por causa do discurso hegemônico simplista e classista da mídia corporativa ou o discurso hegemônico da mídia corporativa é simplista e classista porque a maioria dos brasileiros é reacionária e ignorante?”

Se o Brasil tivesse congressistas, governantes e uma quantidade maior de acadêmicos de  Psicologia Social, Ciências Sociais (Antropologia, Ciência Política e Ciências Sociais), Filosofia, História, Geografia, Direito, Ciências da Comunicação e Serviço Social dispostos a investir tempo e dinheiro para investigar esse paradoxo ao redor do mundo com ênfase na nossa realidade, certamente estaríamos em um grau de desenvolvimento civilizatório amplamente superior ao atual. Primeiro, porque haveria um retrato confiável e devidamente segmentado (faixa etária, gênero, escolaridade, religião, ideologia, profissão, porte da região, do estado, da cidade, etc.); segundo, porque esse mapeamento proporcionaria a definição de políticas públicas de Comunicação de Massa e de Comunicação Digital com amplos reflexos no aperfeiçoamento da cidadania e também da economia. Por hora, só podemos contar com iniciativas isoladas.

De qualquer forma, mesmo sem o necessário aporte financeiro e sem a devida priorização oficial (seja no âmbito público, seja no privado) dessa discussão, felizmente, graças às mídias sociais na internet, é possível conversar, debater, aprofundar, cocriar e co-responsabilizar pessoas inteligentes e estudiosas de forma voluntária.

Como não fico em cima do muro, tenho uma intuição. Mas intuição não é ciência. Logo, se eu quisesse ser tão simplista quanto o discurso dessa mídia, diria que a minha crença aproxima-se da célebre frase de um saudoso jornalista húngaro naturalizado estadunidense (e ex-congressista nos EUA) chamado Joseph Pulitzer (que tornou-se nome de prêmio):

“Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma” PULITZER

Portanto, só o fato de eu me posicionar sem uma comprovação científica apurada, já me põe em contradição com o discurso acima: eu prego a comprovação, a apuração, a presença da palavra de todos com o mesmo espaço e sob o mesmo tom, mas tenho uma IMAGEM sobre como o microcosmo da pequena fração da realidade na qual estou inserido se parece.

Todos têm os seus próprios valores. E nenhuma opinião pode ser calada. De qualquer forma, quais são os critérios necessários para se dar mais espaço ou mais ênfase ou a um determinado viés, ou à consagração como especialistas de indivíduos qualificados, sim, mas que – assim como demonstrei acima sobre mim mesmo – possuem os seus próprios valores e crenças?

O problema está na mediação ou na curadoria: a definição do que é notícia; da importância de uma determinada opinião em detrimento de outras; e a opção pela hierarquia de cada informação são 100% subjetivas.

Todos os administradores de conteúdo estão no seu direito. Mas, por uma qustão de honestidade, é importante (pra não dizer decisivo para a sua credibilidade) declarar quais bandeiras os donos da mídia levantam em cada questão e sob quais critérios.

Finalmente, a distribuição e o padrão tecnoestético (que são fruto de um maior investimento e de uma maior permissividade da lei, que não prevê a igualdade de oportunidades a partir de um mesmo ponto de partida) são decisivos na escolha de qual versão será a mais acessada: entra aqui uma outra frase feita, que diz

Quem não é visto, não é lembrado.

Existem visões diferentes da hegemônica. Mais do que isso, existem visões oferecidas por especialistas tão ou mais competentes do que os comunicadores que são privilegiados por se expressarem e por acreditarem sob a forma mais comumente repetida pela maioria das pessoas. Contudo,

“Toda unanimidade é burra.” RODRIGUES, Nelson.

Por isso, na minha dissertação de mestrado, pesquisei sobre a sociabilidade entre blogueiros políticos de esquerda da Grande Porto Alegre. Por isso, a conversação e as dinâmicas sociais presenciais e no ambiente digital sempre me atraíram. Foi por isso que problematizei a questão do contraponto à mídia hegemônica.

E é pelos mesmos fatores de motivação que defendo a descentralização e a desinstitucionalização do poder, procurando tornar as discussões mais amplas.

Quem sabe quando a sociedade estiver madura o suficiente para ser despartidarizada, sob um modelo democrático verdadeiramente representativo, responsabilizante e esclarecedor

Nesse sentido, ou passamos à ação com urgência, ou permaneceremos assim

A PRIVATARIA TUCANA

A longa entrevista acima foi concedida pelo responsável pela maior investigação do jornalismo brasileiro no século XXI. Porém, antes de assisti-la, quero muito que @ amig@ interagente leia com muito carinho e atenção a este post. ;)

Mal posso esperar para por as mãos no livro A PRIVATARIA TUCANA, no qual o brilhante autor, o repórter investigativo Amaury Ribeiro Jr., desvenda, detalha, demonstra e comprova aquele que foi o maior saque ao patrimônio e ao serviço público no Brasil em todos os tempos. O livro vendeu tão rapidamente que sua primeira edição esgotou-se em menos de uma semana nas lojas de todo o país: foram 15.000 exemplares vendidos em um único dia (09/12/2011), além de uma nova edição de outros 15.000 ter sido impressa para esta segunda-feira dia 12/12/2011 e já estar quase esgotada.

Como “o povo quer saber” de tudo, não adiantou nem mesmo o próprio Serra tentar intervir de maneira arbitrária, ilegal e autoritária, pois a editora lançou a obra sem nenhum alarde.

O Eduardo Guimarães blogou uma tabela que consta no livro referente ao percentual de cada uma das principais corporações midiáticas do país na privatização das teles. Isso comprova que é impossível termos um jornalismo investigativo, detalhado, sem distorções e sem omissões em política e economia dentro dos grupos Folha, Abril, Estado, Globo e RBS (que mente MESMO). Apesar de conservadores, o SBT, a REDE TV! e a RECORD são menos inconfiáveis em relação a esses temas – mas apenas porque não participaram diretamente do saque.

Muito provavelmente, as quatro únicas revistas de circulação nacional que falam sobre o assunto são a CARTA CAPITAL (semanal), além da próxima edição da mensal CAROS AMIGOS, da LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL (semanal) e da FORUM, do meu querido amigo Renato Rovai, que pôs um link para a leitura do 11o capítulo do livro. Afinal de contas, todas as outras (Veja, Época e IstoÉ) estão alinhadas com o neoliberalismo e com a oligarquia coronelista, corrupta e entreguista, sendo que Veja nem jornalismo faz mais: é um reles panfleto criminalizador e acusatório que não comprova seus factoides e, de quebra, ainda forja provas.

É importante, ainda, salientar o post do cineasta Jorge Furtado no magnífico blog da CASA DE CINEMA DE PORTO ALEGRE, com suas considerações acerca do que leu.

No Observatório da Imprensa, o jornalista Luciano Martins Costa tocou em um ponto que, particularmente, me é muito importante: a repercussão do livro nas mídias sociais tem sido muito mais ampla e as discussões tem sido muito mais ferrenhas do que nas centenas de veículos da mídia corporativa majoritária e de seus dezenas de sócios e parceiros espalhados por todos os rincões desta nação continental de mais de 8,5 milhões de Km2 de área e quase 200 milhões de habitantes. Em função do que o Edu expôs (aqui, de novo, o link para o seu post), é mais do que natural que a verdade dos fatos não seja a história editada ao gosto do dono da mídia, de seus financiadores e de seus amigos. Na mesma linha, a jornalista Maria Inês Nassif publicou na AGÊNCIA CARTA MAIOR sobre o “silêncio” da mídia corporativa em relação a essa pauta que, caso fosse contra pessoas ligadas ao PT, já teria virado n edições com mais de cem páginas a pipocar pelas bancas do país.

No site do JORNAL DO BRASIL (que já foi o melhor jornal de circulação nacional do país e perdeu bastante espaço por não ser propriedade de nenhum banco multinacional ou por não ter sido comprado por nenhuma corporação hegemônica), o jornalista Jorge Lourenço cita o fato de o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ter sido o único peessedebista a manifestar-se sobre o assunto. Afinal de contas, aos 81 anos de idade e relegado ao ostracismo, sem nenhuma ambição política e repleto de incompetentes como seu herdeiros políticos, nem o serrismo e tampouco o aecismo foram capazes de se defender publicamente – sem contar que o telhado do próprio FHC é de vidro por pelo menos duas razões: esta e mais esta

De qualquer forma, o livro de Amaury também cita o deputado estadual do PT-SP Rui Falcão e o ex-ministro Antônio Paloci por relações de envolvimento com parte desse esquema. Por isso, Falcão proce$$a o jornalista.

Ontem, no Twitter, amigos de esquerda não-alinhados ao Governo Dilma e – em sua maioria – descrentes na política partidária e no atual modelo de democracia dita representativa comentavam comigo algo em que concordo: apesar do tamanho da gravidade do fato e de ser impossível que não haja ninguém do PT envolvido em uma série de outros escândalos (ainda que, num montante aparentemente menos vultoso e muito menos danoso ao erário do que os promovidos pelos neoliberais de fato), em política, não se deve torcer para nenhuma personalidade e por nenhum partido ou coligação como se torce por um time de futebol. Não se deve ter nenhuma reverência a ideologia alguma, seja ela pura ou híbrida, como se fosse uma religião. Mas, principalmente, não podemos JAMAIS tornar essa crença ou essa torcida algo hipócrita, preconceituoso ou revanchista em relação a nada nem a alguém. Afinal de contas, o sistema não dá mais conta da multiplicidade de demandas da sociedade e, ao invés de alterá-lo para melhor, quem antes clamava por mudanças infelizmente tornou-se um intransigente defensor de um legalismo injusto que perpassa a necessidade de, à luz do debate, procurarmos implementar uma nova legislação, aí, sim, legalmente mais justa.

Se alguém quiser me dar um presente de Natal que me faça pegar ainda mais nojo do que de pior há em termos de antidemocratização da Comunicação brasileira, será aceito de muito bom grado. ;)

O SONHO DOS JOVENS BRASILEIROS X O DISCURSO ANACRÔNICO DOS BLOGUEIROS DE ESQUERDA NO BRASIL

Sonho Brasileiro from box1824 on Vimeo.

A pesquisa Sonho Brasileiro é um projeto sem fins lucrativos e sem viés de consumo. Fomos para 173 cidades em 23 estados perguntando para jovens de 18-24 anos “Qual é seu sonho para a nossa nação?”

Ajude-nos a divulgar os resultados da pesquisa que sairá em junho com conteúdo 100% aberto e livre na internet.

Música deste vídeo gentilmente cedida por Lucas Santtana

Realização: BOX 1824
Patrocínio: Itaú e Pepsi
Parceiros: RED, Colméia e Aktuell

Apoio: Rede Globo

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O fato da minha rotina profissional e de boa parte do ambiente familiar serem partilhados junto ao público-alvo da pesquisa O SONHO BRASILEIRO (leiam-na inteira) me leva a crer que o caminho para uma verdadeira revolução cidadã no Brasil precisa passar por um discurso essencialmente assertivo, desinstitucionalizado, horizontal e – sobretudo – colaborativo. A solidariedade, o engajamento cívico e o reconhecimento do outro como igual dependem da aprendizagem coletiva cujo fruto será o de desfazermos o rótulo de alienação e egoísmo atribuído à nossa juventude.

Essa minha crença não põe em segundo plano a colaboração e os ensinamentos dos bravos heróis da resistência à ditadura militar no país. Porém, o discurso que a maior parte deles conhece e sabe professar via blogosfera segue um modelo linguístico familiar ao seu grupo de interesse, mas que não surte o mesmo efeito diante de quem não vivenciou essa triste realidade e não tem como imaginar um panorama antidemocrático.

Todo e qualquer blogueiro “progressista“, e-blogueiro e mais a galera da Teia Livre e da Rede Liberdade, a despeito de uma série de aprendizagens e de adaptações ao pensamento em rede, infelizmente ainda apresentam uma série de opiniões formadas acerca do mundo dos jovens que não coincide nem com o mundo de quando eram eles próprios os jovens, nem tampouco com o mundo de seus pais e avós, que, salvo raríssimas e honrosas exceções, sequer tem noção do que seja exílio, tortura, censura e prisões. O Brasil “livre” que herdaram está distante demais de poderem compreender o que era não ter direitos nem poderes para fazer quase nada.

Conforme a pesquisa, os jovens entre 19 e 24 anos da atualidade desejam transições tranquilas, sem rupturas. Em oposição aos jovens marginalizados vítimas de todas as nossas mazelas sociais, eles não são de briga e não creem que a solução esteja no embate partidário ou sindical. Essa característica predominante mostra que a maioria dessa geração é mais afeita a realizar algo pelos outros sem muitas delongas ao invés de discutir leis ou de participar de manifestações presenciais de massa.

Infelizmente, os ativistas mais experientes tendem a considerar essa atitude passiva ou, então, incorrem no equívoco de culpar as redes sociais na internet como responsáveis pela “alienação”. Contudo, os resultados da pesquisa mostram que o egoísmo, o consumismo, a ignorância, a alienação, a passividade e uma agressividade projetada sobre objetos distantes do exercício da cidadania são a exceção e não a regra. Portanto, trata-se de uma forma diferente de representar o seu envolvimento social.

De fato, a quantidade de militantes políticos antigos que se tornaram exemplos diretos de ativismo nas ruas, nas ONGs, nas escolas e nas comunidades carentes é muito reduzida: vários deles já morreram, outros desiludiram-se e eles próprios tiveram o privilégio de proporcionar melhores condições a seus filhos e netos. E a pesquisa aponta que, para a galera de 19 a 24 anos em 2011, eles tem como exemplos de vida pessoas simples com as quais convivem no dia a dia. Portanto, o herói urbano de hoje não é alguém que erga uma bandeira mas, sim, alguém que está disponível aqui e agora pra dar o exemplo, para ser um tutor, para deixar fazer de maneira anárquica, sem apresentar-se como uma autoridade.

Por outro lado, há uma contradição entre o espírito de luta que os antigos militantes apresentam de fato e entre a atitude que gostariam que seus filhos e netos tivessem no atual contexto: primeiro, que as gerações anteriores de ativistas não tinham como pensar nem realizar uma mudança social dialogada porque havia um abismo muito grande entre a liberdade e a violência. Isso posto, não havia (entre 1964 e 1979) como pensar em uma transição suave quando a maior parte desses grupos acostumou-se a conviver com um retrocesso que violentou pelo menos quatro gerações de brasileiros; segundo, que a quantidade de informação disponível é imensurável e cresce exponencialmente dia após dia; terceiro, que a sociabilidade que atravessa e é atravessada pelos ambientes digital e presencial torna as causas pelas quais os jovens resistem dissociadas no espaço e no tempo, isto é, para muitos, é mais importante investir $5.00 contra o apartheid israelense sobre os palestinos via AVAAZ.ORG do que ajudar o filho do vizinho a passar em Química.

Sinto desapontar grande parte dos meus queridíssimos e valiosíssimos AMIGOS de todos esses foruns que se amalgamam por um sentimento bonito e comum, mas até mesmo a solução de problemas locais que afligem os nossos jovens necessitam cada vez mais da experiência de quem vivencia barras semelhantes porém muito mais pesadas em lugares muito pouco aprazíveis por eles descobertas na internet. Ao discuti-las em comunidades virtuais, o excedente cognitivo que produzem gera uma economia não-rival que resulta na adaptação da solução encontrada n’além-mar para a nossa realidade sociocultural sem armas, sem conspirações, sem terem como base o marxismo. E esse mesmo excedente cognitivo é apropriado por jovens de outras paragens com o mesmo intuito: nunca foi tão verdadeira a afirmação de que a soma das partes é cada vez maior do que o todo.

Parte dos ativistas mais experientes que lutaram contra a ditadura ou de seus herdeiros ideológicos – que lhes enchem de orgulho por causa de um modus operandi muito parecido (senão igual) – precisam tomar o cuidado de não esquecerem de que a sua credibilidade está balizada em um ethos que prima pela justiça equânime, pela razão, por balizarem os seus argumentos em uma série de referências mais profundas do que aquilo que a mídia corporativa geralmente costuma oferecer e pela verdade. No entanto, a verdade precisa ser a verdade verdadeira e não a mera verdade que oculta o lado incompetente, burocrático, autoritário, preconceituoso e hipócrita de seus pares que hoje ocupam cargos no atual governo federal.

Por mais difícil que seja apurar, denunciar e serem tão implacáveis na multiplicação da informação contra os “seus”, o grupo político-partidário-sindical que apoiam em função da compatibilidade de afetos e das afinidades, crenças e valores também deve ser desconstruído com o mesmo peso que tem a desconstrução da direita.

Felizmente, sei que a maioria não pensa assim: blogueiros de esquerda de 40, 50, 60 e 70 anos sempre mostram-se bastante dispostos a conhecer ideias novas e a conviver com as gerações mais recentes, que precisam dos mais velhos.

Ambas as gerações possuem diferenças muito grandes acerca de como surge o embasamento teórico e as motivações que envolvem as práticas políticas e sociais de contingentes que não são concorrentes e nem mesmo antagônicos. Nessa questão, a lacuna mais importante a ser preenchida é a do entendimento de que não é porque vivemos em uma sociedade mais consumista, mais individualista, mais competitiva e menos intelectualizada que não é possível pensar e agir de maneira cidadã.

Pra refletir… ;)

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