O 1º TURNO DO BRASILEIRÃO 2014

Mais uma vez, o excelente trabalho do Footstats nos revela impressões bastante significativas sobre o que todos os nossos clubes viveram nas primeiras 19 rodadas, após a primeira de duas pernas de todos contra todos.

O nosso Grêmio parece estar em um momento crescente. Contudo, o líder Cruzeiro e o novo vice líder São Paulo apresentam uma consistência impressionante. Creio que nosso campeonato seja o de – novamente – brigarmos “apenas” por uma vaga à Libertadores 2015.

Nesse miolo, temos como oponentes: 1) o nosso Tradicional Adversário (ou T.A. – este blog evita ao máximo pronunciar o seu nome); 2) o Fluminense (que, a exemplo da Raposa e do S.P.F.C., também é ofensiva e possui boa qualidade equivalente em várias posições de seu plantel); 3) o Corinthians, que possui muita consistência defensiva, um belo meio-de-campo, mas dificilmente consegue jogar por mais de uma bola por jogo no ataque.

Felipão parece estar muito bem assessorado e motivado: apesar de eu achá-lo defasado (nada a ver com a Copa do Mundo, que foi apenas a “cereja do bolo” em meio a uma série de vários trabalhos insuficientes que o rebaixaram da Europa para o Brasil) e de ter considerada injusta a demissão de Enderson Moreira (que – por sinal – começou muito bem no Santos), parece que a gestão Koff finalmente apresenta uma comissão técnica em sinergia com a cultura do clube e também com o modelo de futebol no qual a direção acredita.

Enfim… Matematicamente, tudo é possível. Contudo, apenas o “campeão” do turno (entre aspas porque tal título é meramente simbólico, pois é somente um indicativo de sucesso que precisa ser confirmado na longa segunda metade do certame) está garantido na Série A para a temporada 2015.

Não duvido da capacidade do Tricolor. Porém, sou muito mais realista, objetivo e pragmático, pois prefiro esperar o tempo rolar: por isso, HOJE, acho tão irreal quanto megalomaníaco pensar no título. Claro que irei torcer MUITO para que isso aconteça. No entanto, a pontuação, a quantidade de gols marcados, o saldo de gols e a grande quantidade de pontos perdidos (ainda que antes de Felipão, por uma série de circunstâncias que todos podemos recordar, jogo a jogo) infelizmente não nos dá esse alento.

Analisemos as tabelas abaixo:

panorama1

Tirar 21% de aproveitamento da Raposa é muito. Quem sabe se melhorarmos em 11% e os mineiros perderem 11%? Por outro lado, é absolutamente plausível podermos tirar 8,8% dos são-paulinos, 5,2% dos colorados, 3,5% dos corintianos e ultrapassarmos os pó-de-arroz pela diferença mínima.

Sendo um pouco mais realista, o Tricolor Paulista vem num momento crescente semelhante ao nosso e é difícil crer que piorem. Além disso, todos os clubes que estão à nossa frente possuem – conforme a avaliação da Bola de Prata Placar/ESPN – vários jogadores mais bem posicionados do que o nosso Tricolor dos Pampas.

Por hora, nosso saldo de gols é risível: somos o oitavo e último time do BR14 com saldo positivo. Ainda assim, é um reles +3, enquanto Cruzeiro (+23), Corinthians e Fluminense (+12), São Paulo (+11), T.A. (+9), Santos (+6) e Atlético-MG (+5) estão à nossa frente.

Por sinal, essa segunda tabela do Footstats – a do saldo de gols – revela exatamente todos os times cujos planteis possuem uma qualidade acima da (baixa) média do nosso futebol nacional: não exatamente nessa ordem, são aqueles que podem até oscilar, mas dificilmente darão mole para os times que estão na rabeira da tabela.

Uma prova disso é que o Flamengo, ainda que venha em uma crescente após amargar a zona do rebaixamento por mais de dois terços do turno, perdeu para todos os seis primeiros colocados, apresentando contra eles um saldo negativo de -16. E que o desgarramento do T.A. para o Cruzeiro resulte de algumas derrotas bisonhas para times da rabeira da tabela.

Somos o terceiro melhor mandante: nosso percentual de pontos obtidos na Arena (74,1%) equivale ao do Botafogo (75% – imediatamente à nossa frente) e é ótimo. O líder Cruzeiro é um ponto fora da curva, com seus monstruosos 92,6%, tendo perdido apenas dois pontinhos em um empate contra o – não por acaso – vice líder São Paulo.

O Grêmio precisa mesmo é melhorar o seu desempenho como visitante: embora até estejamos bem posicionados em oitavo lugar, nosso percentual pode melhorar bastante. Nossos atuais 36,7% podem muito bem chegar até uns 45%. Esse crescimento é bem mais difícil do que melhorarmos o aproveitamento como mandantes em 5%, pois precisaremos crescer como visitantes 8,3% com um índice de trabalho de praticamente o dobro disso para que possamos atingir essa meta.

É bom lembrarmo-nos de que há alguns times seguramente inferiores a nós superando-nos neste quesito: o Figueirense (com 53,3%, em terceiro) e o Flamengo em sétimo, com 37%. No caso de ambos, são franco-atiradores, pois não cairão nem irão à Libertadores do ano que vem. Essa falta de responsabilidade aliada à necessidade de não caírem para a Zona Perigosa (©Luxa 2014) lhes possibilita surpreender fora de casa, pois podem jogar “fechadinhos” explorando os contra-ataques. Inclusive o próprio Figueira provou no último domingo que toda a “faceirice” será castigada (LOL).

Saliento esta tabela: o Cruzeiro tem 60% de aproveitamento como visitante. Na sequência, o São Paulo tem 55,6% (mais uma vez, um indicativo importante do porquê ter finalizado a sua participação no turno em 2º); o Figueirense (53,3%); o Corinthians (51,9% – e tivemos o mérito de vencê-lo bem aqui em Porto Alegre); o T.A., com 48,1% (excelente para o padrão deles, que é bom mas muito menor do que seus irritados fãs imaginam que seja); a dupla Fla-Flu, ambos com 37%… E só aí viemos nós. Precisamos admitir que ainda é pouco.

Em gols marcados, somos apenas o 10º colocado, com apenas 17. O líder Cruzeiro marcou 41 em 19 jogos (média superior a dois/partida). Portanto, ao passo que não chegamos a marcar um gol por jogo (afinal, nossos 17 gols foram marcados em apenas 10 jogos, pois deixamos o placar em branco em quase metade dos confrontos, 9).

Desses 17, gols, quase metade foi assinalada pelo nosso centroavante Barcos (7) que, apesar de tantas críticas devido à perda de vários gols fáceis dentro da área adversária, é o 3º lugar entre os goleadores, perdendo apenas para os cruzeirenses Marcelo Moreno (que é nosso e está emprestado) com 10 e Ricardo Goulart (merecidamente convocado para a Seleção), com 9 gols.

Definitivamente, o que nos deixa bem posicionados e com uma boa margem de crescimento no segundo turno é a nossa estupenda defesa: apesar das justíssimas queixas sobre Pará e sobre Werley pelo lado direito; da inconstância de Geromel; da desconfiança sobre Saimon, após tanto tempo fora do futebol; e do medo que Bressan desperte em muitos torcedores, é preciso notarmos que não é apenas pela regularidade de Rhodolfo, pelo início brilhante do já negociado Wendell ou pelo retorno de Zé Roberto à sua posição original: agora, nós temos volantes que são muito mais do que meros “quebradores de bola”, como os meninos Matheus Biteco e Wallace, além da melhor contratação da temporada, Fellipe Bastos. O pequenino Dudu, apesar de concluir muito mal, é quem mais e melhor prente a bola no campo de ataque, mantendo-a longe da nossa zaga.

E de novo volto para elogiar e reconhecer o esforço do Pirata: além de conferir na frente (menos do que precisamos e gostaríamos, seja dita a verdade), ele é inteligente e muito lúcido na ajuda à defesa nos escanteios contra o Grêmio, pois é quem mais “espana” as cobranças para longe da nossa área.

De novo: o equilíbrio que precisamos atingir graças a um aproveitamento melhor fora de casa e a uma maior eficiência no ataque é a chave para o sucesso. Há clubes com um ataque melhor do que o nosso mas com uma zaga bem mais vazada, cuja classificação é risível e desalentadora. Para provar que nada é por acaso, apenas ter uma defesa fraca não é sinônimo de Z4, desde que o ataque seja bastante eficiente. Por outro lado, o topo da tabela reserva um lugar para quem marca muito e sofre poucos gols. Logo, cada vez mais a antiga assertiva de que “caso sofra três gols, desde que faça cinco, está tudo bem” mostra-se menos verdadeira.

Apenas seis clubes passaram mais jogos do que o Tricolor dos Pampas sem marcar gols no primeiro turno. Ao mesmo tempo, fomos quem teve mais partidas com a ficha limpa. Precisamos ao menos manter essa razão de pouco mais de 0,5 gol sofrido/jogo, mas temos que lutar muito para chegarmos o mais próximos possível dos 2 gols marcados/partida. Se chegarmos a 1,6 feitos e não passarmos de 0,7 tomados, dá pra crescermos horrores.

Após tantos comentários, creio que podemos finalizar o Brasileirão 2014 entre 2º e 4º lugar. Para isso, teremos que passar por uma peleia das brabas. ;)

[B14 18ª] GRÊMIO 1×0 BAHIA

A vitória do nosso GRÊMIO FBPA sobre o EC BAHIA ontem à noite na Arena traz consigo uma lição óbvia do futebol. No entanto, não custa nada repeti-la antes que tenhamos uma recaída e voltemos a cometer os mesmos erros observados nos técnicos anteriores.

A maior virtude de quem reconhece suas próprias limitações dentro de campo é entender que, mais do que procurar driblar e tocar a bola em velocidade quando a marcação adversária não permite tal demonstração de habilidade, deve procurar resolver o placar a seu favor por meio da vontade e da insistência rumo à meta adversária: afinal de contas, uma hora a bola tende a entrar.

Ao mesmo tempo, é fundamental não “inventar” atrás: defensivamente, o dito popular “bola pro mato que o jogo é de campeonato” deve ser um mantra, a fim de garantir que “mais vale um pássaro na mão do que dois voando” [1].

Todo erro é admissível quando se entende que a maioria dos jogadores do plantel não apresenta as valências que deles se esperaria caso tivéssemos um time de técnica incontestável. O que não deve haver é a repetição de jogadas que determinados jogadores são incapazes de realizá-las: afinal de contas, perder a bola dominada com o time todo adiantado pode representar um contra-ataque fatal contra si próprio.

Por exemplo: se Barcos não possui o drible em velocidade como elemento característico da motricidade de seu corpo, a tendência é a de que ele erre 90% das tentativas. Ele sabe fazer a parede, distribuir o jogo, cabecear e cutucar a bola para o fundo das redes. Portanto, seu maior trabalho deve ser o de atrair a marcação de mais de um homem, a fim de deixar algum companheiro desmarcado.

Dudu, por sua vez, não pode abusar das tentativas de passe de calcanhar. Alan Ruiz, um jogador que não acelera a bola com o ritmo que dele se esperaria, deve procurar manter-se pela faixa intermediária central de ataque, visando o chute de longa distância ou a distribuição aberta para o lateral ou meia que avança pelos lados do campo.

Acredito que Felipão esteja vendo tudo isso. Todavia, por estar no clube há muito pouco tempo, parece que o técnico ainda tentará, ao longo de mais algumas semanas de treinamento, procurar aprimorar aquilo que – a meu ver – não se pode aprimorar em uma série de jogadores do nosso plantel.

Pois bem: Zé Roberto mantém uma regularidade incrível aos 40 anos, atuando na posição em que tornou-se referência mundial durante a sua juventude. Foi pela lateral-esquerda que foi vendido pela Portuguesa para o Real Madrid. Depois, foi assim que adaptou-se à Bundesliga e virou ídolo no Bayer Leverkusen e no Bayern München. No Hamburgo não tinha como dar certo, pois o time era muito fraco. Logo, com Zé não se inventa. Ele sabe o quanto o seu corpo pode aguentar e, sempre que tenta infiltrar-se em diagonal como um meia, costuma dar certo. Mas isso não significa que ele possa ou deva jogar como volante ou como meia, pois essas são posições que exigem maior correria e vigor na marcação. Como lateral-esquerdo, ele é insubstituível. E que bom que Felipão observou isso.

Fellipe Bastos é um volante que coube como uma luva no nosso escrete principal: ele desarma com lealdade e firmeza; possui boa visão de jogo e também aproxima-se dos meias, além de cobrir o avanço do lateral e saber triangular com meia e lateral na hora de avançar. Trata-se de um jogador inteligente, que dificilmente fica fora de posição.

No entanto, considero que, além dos “furos” já bastante reconhecidos pela torcida tricolor (os laterais Pará, Matías Fernández e Breno; os volantes Edinho e Riveros e o centroavante Ronan) vou levantar um outro jovem, que, apesar de querido e extremamente sério, erra passes demais, não apresenta velocidade nem vigor nos desarmes. Sua principal virtude tem sido cada vez menos explorada – o chute de longa distância. Enfim… Percebo que Ramiro tornou-se “bruxo” de Felipão, mas só é titular porque os demais são muito menos vigorosos do que ele.

Ontem, o desarme, a arrancada e o passe preciso para o drible de Dudu cujo arremate respingou no zagueiro e sobrou para o decisivo gol de Barcos foram dados por Matheus Biteco, que é o único volante que o Grêmio possui com a possibilidade de tornar-se um jogador completo em nível mundial: ele marca, dribla, desarma, é veloz, sabe driblar e possui excelente visão de jogo

Aliás, é preciso ressaltar que o “Pirata” é terceiro goleador do Brasileirão 2014, com oito gols. À sua frente, estão Ricardo Goulart e Marcelo Moreno do Cruzeiro, com nove gols.

A posição de centroavante apresenta cada vez menos jogadores com uma alta média de gols. Messi e Cristiano Ronaldo, que não são homens de área, não são os melhores do mundo à toa, pois sua média de gols no facílimo campeonato espanhol supera um gol por partida. Aqui no Brasil, na saudosa década de 1980, quando tivemos muitos grandes times e a distribuição de títulos nacionais foi mais sortida, os maiores tinham média de aproximadamente 0,7 gols/jogo. Pois hoje, na Europa, verifica-se que avantes que tenham 0,4 gols/partida sejam tidos como muito bons.

Por essa razão, não pego mais no pé dos gols perdidos por Barcos com veemência nem com irritação. Ao mesmo tempo, o que importa é por a bola pra dentro: se é de esquerda, de direita, de voleio, de cabeça, de pênalti, de fora da área, com a bunda, depois de ricochetear na defesa adversária feito fliperama… Enfim… Gostaria de valorizar o gol, a feitura do gol.

Afinal de contas, vencemos. ;)

Que venha o Flamengo no fim de semana que vem no Maracanã: depois de cinco vitórias consecutivas de Luxa e de um perde-e-ganha que Felipão salientou na coletiva de ontem ainda precisar de mais tempo para atingir a desejada regularidade, vamos ver como nos saímos fora de casa, em um momento de inferioridade de retrospecto no campeonato frente a um adversário tradicional que está motivado.

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[1] Por mais antiecológica que essa frase seja, vocês entenderam que eu não defendo literalmente esse pensamento mas, sim, que o seu sentido figurado é o de não arriscarmos perder tudo, certo? ;)

[BR13 28ª] FLUMINENSE 1×1 GRÊMIO

Fiquei bastante impressionado com a diferença da atuação do nosso GRÊMIO contra o Fluminense no primeiro tempo da partida no Maracanã em relação aos últimos três adversários enfrentados tanto dentro quanto fora de casa pelo Brasileirão 2013.

O TRICOLOR DOS PAMPAS ousou, arriscou… Enfim, foi protagonista: ainda que com uma posse de bola menor do que a do mandante e também sofrendo vários ataques contra si, tivemos mais coragem e mais velocidade, pois o FLURANJA MECÂNICA dava bastante espaço para os nossos contragolpes.

Saímos vencendo. Novamente, a partir de uma bola parada: o zagueiro Bressan finalmente desencantou, de cabeça. A partir daí, entre perigosíssimas alvejadas sobre Marcelo Grohe (que substituiu com grandeza o titular Dida) e alguns contra-ataques velozes e muito bem encaixados (sobretudo pelo lado direito com Pará), pressentíamos aquela alegre tendência de vitória gremista em solo hostil.

Infelizmente, deixamos de “matar” o jogo ainda na primeira etapa do cotejo, pois perdemos alguns gols feitos – como de costume. Mais uma vez, apenas para provar que o Princípio de Muricy (“a bola pune”) é mais verdadeiro do que nunca, sofremos o gol de empate aos 45′ do segundo tempo.

A tirada de pé de Souza – que teve medo de cometer pênalti em Rafael Sobis – foi decisiva, assim como o desvio no calcanhar do sempre regular Rhodolfo, que culminou no golpe de vista equivocado do goleiro Grohe. De qualquer forma, foi um lance que serve de lição para que a nossa zaga não desista nunca, não pare, não acredite de antemão na trajetória que a bola poderá vir a percorrer.

Como consequência desse gol, após cinco rodadas, o GRÊMIO perdeu a segunda colocação no Brasileirão para o Botafogo, que venceu o Flamengo no clássico que ocorreu no mesmíssimo Maracanã, porém, no domingo.

Apesar da boa atuação e do gol de empate ter sido marcado do jeito que foi, Renato pecou por ter apenas trocado o seis pelo meia dúzia nas três alterações, além de tê-las efetuado muito tardiamente. Como agravante, tínhamos um homem a mais durante cerca de metade da segunda etapa e essa vantagem não foi explorada.

Portanto, aos 51 anos de idade e já com uma bagagem considerável como técnico, Renato Portaluppi ainda precisa amadurecer bastante, a fim de ampliar o seu leque de opções e de tornar as suas convicções menos cristalizadas.

A pior de todas as consequências dos últimos jogos (derrota em plena Arena para o Criciúma e empate contra o Fluminense) não foi a perda da segunda colocação para a Estrela Solitária pelo quarto critério de desempate (gols pró): foi a repetição de um erro recorrente que  não poderia mais acontecer.

Quarta-feira, contra o Corinthians, há uma grande chance de empate em 0x0 ou de vitória macérrima para quem quer que seja, em um confronto muito parelho: além de ambos os sistemas defensivos serem muito fortes, as duas equipes costumam marcar poucos gols.

[BR13 26ª] BOTAFOGO 0x1 GRÊMIO

Acima: o gol mais bonito do GRÊMIO no Brasileirão 2013. Percebam o detalhe da excelente assistência do importantíssimo volante Riveros para o jovem lateral-esquerdo Alex Telles, que deu um drible/ajeitada para estilingar com o peito do pé no ângulo oposto do goleiro Jefferson, sem nenhuma chance de defesa. A torcida tricolor dos pampas silenciou o estádio Mário Filho (Maracanã), em uma doce rotina de campeão carioca moral para o exército de ferro com a alma castelhana.

A exemplo da vitória anterior contra o São Paulo Futebol Clube em pleno estádio Cícero Pompeu de Toledo (Morumbi) no final de semana anterior, estabelecemos uma rotina bastante árdua: como sói nesta temporada, o pragmatismo portaluppiano tem-nos proporcionado vitórias muito doídas. Mas, acima de tudo, VITÓRIAS.

Alguns jornalistas fazem enquetes pra descobrir se a amostragem de gremistas que as responde prefere que o time jogue bonito mas nem sempre ganhe ou se prefere que o time jogue “feio” e seja capaz de conquistar títulos.

Pessoalmente, prefiro jogar bonito E ser campeão. Essa é a utopia a ser perseguida em um esporte cuja presença massiva de público nos estádios e de audiência televisiva depende cada vez mais da sua capacidade de proporcionar LAZER e ENTRETENIMENTO.

O entretenimento não pode ser cansativo nem angustiante: ele deve, sim, trazer consigo fortes componentes de dramaticidade, equilíbrio e momentos de superação. Contudo, ele precisa proporcionar muito mais do que o mero alívio – deve, acima de tudo, oferecer esperança e gozo com uma certa dose de plasticidade.

No entanto, ainda precisamos pesquisar (a partir de uma metodologia científica adequada) sobre o que a maioria dos gremistas entende por lazer, entretenimento, vitória, título, alegria, satisfação, resultado positivo e prazer.

Eu ainda não sei dizer o que a maioria dos gremistas prefere. Por enquanto, definir o que a maioria pensa sem uma pesquisa não passa de uma visão deturpada via senso comum.

Também vejo uma imensa dificuldade em entendermos como um time  – aparentemente (?!) – tão limitado  tem conseguido manter-se há 15 rodadas consecutivas no G4, sendo vice-líder há três rodadas e estar garantido nesta posição por pelo menos mais uma.

Segundo o comentarista dos canais ESPN e colunista da Folha Paulo Vinicius Coelho, a cada Copa do Mundo, há uma mudança de comportamento tático generalizada no mundo inteiro, refletida não apenas pelas seleções, mas também pelos clubes: se o futebol vitorioso for mais ofensivo, a maioria procura imitá-lo; se for defensivo, ocorre o mesmo fenômeno. Basta vermos o que ocorreu nas fases decisivas da Libertadores e da UEFA Champions League dos anos subsequentes aos das Copas em comparação com o estilo de jogo dos campeões mundiais recentes… ;)

Pois bem: ao contrário do que o Grêmio tem demonstrado em campo – por incrível que pareça –, tanto a média de gols por partida quanto uma maior ou menor facilidade em obter-se pontos é extremamente parecida, seja nas ligas de cultura mais ofensiva, seja nas de hábitos mais frequentemente defensivos. Portanto, em termos de sucesso, a plasticidade pouco importa.

Outra comparação descabida é a de times que não atuam no mesmo contexto espaço-temporal: não se pode comparar a Seleção de 1970 com a de 1982, nem a de 1994 com a de 2002, ou a de 1990 com a de 2010. Afinal de contas, o preparo físico, a alimentação, a facilidade de obtenção de informação e a mensuração estatística da performance baseada em valências individuais e coletivas evoluíram assombrosamente na última década.

O único dado objetivo que temos para medir este Grêmio de Renato é que ele está mantendo uma sequência de vitórias muito maior do que os empates e derrotas, que – felizmente – surgem como eventuais.

Acredito que a bola não entre por acaso: assim, não podemos nos preocuparmos com a distância que o Cruzeiro (que joga bonito, vence e convence) abriu como virtual campeão brasileiro da temporada 2013. O que realmente conta é o Grêmio dar o seu máximo, a fim de podermos terminar com um honroso vicecampeonato, que nos garantirá uma vaga direta à Libertadores 2014, sem precisarmos passar por uma fase preliminar.

Assim como escrevi no post anterior, precisamos depositar esperança no amadurecimento físico, tático, técnico e emocional de nossos mais jovens jogadores. Além deles, outros irão surgir. Outra boa notícia é a de que o Grêmio tem conseguido manter seus principais jogadores já há algumas temporadas. E, em 2014, tendo o mesmo técnico e a mesma direção trabalhando juntos pela primeira vez em muitos anos, Renato poderá, enfim, indicar contratações pontuais para posições carentes.

Por exemplo: não temos um meia maduro e consagrado, suficientemente confiável para lapidar e deixar como legado um comportamento confiante, criativo e autônomo para Maxi Rodríguez e Guilherme Biteco poderem tornar-se protagonistas do nosso time.

Também não temos um lateral-direito suficientemente confiável para substituir Pará.

De qualquer forma, percebo uma evolução bastante interessante na forma como o Grêmio pensa a prospecção e a formação de jogadores: assim como o mesmo PVC já citado costuma dizer, a posição mais importante do futebol contemporâneo é a de volante. Então, temos evoluído bastante da visão amadora, imatura e antiquada do jogador “brucutu” para alguém que marque duro sem sofrer cartões em demasia, capaz de sair jogando e de concluir, com uma excelente qualidade de passe e de lançamento.

O passe ainda não é uma de nossas maiores virtudes. A eficiência nos contra-ataques, tampouco. Mas vejo este Grêmio que venceu a São Paulo e Botafogo quase de maneira “criminosa” para muitos e que venceu com segurança (porém sem traduzir a sua vantagem em gols) como mandante contra o Atlético-PR um time transicional, que está longe de ser o que dele se espera, mas que tende a ser bastante melhor no ano que vem.