Sou um crítico sistemático da Seleção Brasileira Masculina Adulta Profissional de Futebol. Essa é a única modalidade pela qual não me comporto como um torcedor de fato. Isso não quer dizer que eu esteja correto ou que eu torça contra (embora isso tenha ocorrido em 1998). Quando o assunto são as categorias de base SUB-17 e SUB-20 ou – sobretudo – quando o torneio envolve a Seleção FEMININA, aí, sim, me emociono e me envolvo com mais passionalidade.
Desde 1982, passei a simpatizar muito com as seleções africanas. Já postei sobre Camarões e Argélia daquela época e lembro bem de Marrocos 1986, Camarões 1990, Senegal 2002 e Gana 2006 – as quatro últimas passaram de fase uma ou até duas vezes, como no caso dos Leões Indomáveis e dos Leões de Teranga.
A partir de 1992, passei a acompanhar, de dois em dois anos, a CAN (Copa Africana de Nações). A África me encanta muito por uma série de motivos – a maioria deles de cunho emocional: a alegria e a paixão daquele torcedor que é, em média, muito mais miserável do que o brasileiro é contagiante e comovente, pois ainda contém um quê de esperança misturada ao sonho que o profissionalismo exacerbado e a encheção de saco de boa parte da imprensa brasileira se ocupam de tentar desfazer.
As cores, as diferentes culturas (vestuário, culinária, etnias, crenças, idiomas) e a musicalidade (baseada em uma variedade muito maior de estilos de coro e percussão do que as nossas) criam uma atmosfera envolvente e leve, que fazem com que – mesmo no meu imaginário – eu me realize na fruição desse mundo tão especial.
Copa do Mundo, pra mim, é diversidade: a relação do atleta com o estado nacional faz com que ele atue de uma maneira muito diferente daquela a que estamos acostumados a assistir nos clubes. O futebol envolve variáveis tão imensuráveis quanto qualitativas e subjetivas que qualquer detalhe pode alterar o entrosamento, a forma física e o estado anímico de cada um.
Do ponto-de-vista de quem convoca (ou de quem contrata, no caso dos clubes), o futebol parece um quebra-cabeças de 10.000 peças que precisa ser montado em tempo recorde. Já do ponto-de-vista de quem observa o adversário e estabelece a estratégia que julga como a mais adequada para superar o próximo oponente, o futebol parece xadrez.
Quando falo no Grêmio, aí, sim, deixo-me levar por uma certa dose de passionalidade. Em um grau menor, diria que sinto um carinho especial que me leva a torcer também por clubes como Liverpool, Barcelona, Porto e Bayern.
Sinto uma simpatia especial pelos argentinos: eles possuem uma escola de garra, refinamento e muita dramaticidade que é mais parecida com o Brasil do que se possa imaginar. Aqui, só se muda do tango para o antigo samba “estilo dor-de-cotovelo” e as diferenças entre o malandro do morro e o malandro do porto.
Isso posto, eu procuro observar cada jogo sob uma perspectiva mezzo etnográfica, mezzo psicológica: como o futebol é um jogo, considero que ele apresenta um perfil agonístico de disputa, de superação e de guerra associado ao lúdico. Portanto, mais do que torcer por alguém, eu torço por um ótimo jogo.
O que entendo por um bom jogo? Independentemente da quantidade de gols, que os jogadores de ambos os lados não se machuquem e que eles disputem cada lance no melhor de suas condições. Os lados atlético e intelectual se completam, mas funcionam melhor quando existe solidariedade, perspicácia, criatividade e dedicação.
Gosto de ver muitos gols. Porém, não me agrada ver um time golear o outro: senão, parece um halterofilista espancando um menino de sete anos. O bom jogo, pra mim, é recheado de alternâncias: lá e cá, contra-ataques fulminantes, toque de bola, desarmes, mudança de posicionamento, chances parelhas para ambas as equipes. Quem errar menos e quem tiver mais força e talento, na maioria das vezes, sairá vencedor.

