[CAN 2010 B 1ª] COSTA DO MARFIM 0×0 BURKINA FASSO

Post com atraso em função da indisponibilidade de imagens do jogo no YouTube a tempo.

Bem… A incensada Costa do Marfim não disse a que veio em sua estréia. A despeito do medo das ameaças sofridas pelos marfinenses na sede de Cabinda e apesar do fato de que a maioria das seleções negras com presença frequente na CAN (ou, então, que terminem seus grupos eliminatórios para a Copa do Mundo em terceiro lugar) costumam não ter ido adiante por um mero detalhe, os burquinenses não possuem absolutamente nenhum título ou final e tampouco incluem-se entre as seleções africanas que disputam os mundiais Sub-17 e Sub-20 seguidamente.

Não posso falar bem nem mal de Burkina Faso. Afinal de contas, foi uma seleção atacada o tempo todo e que não teve quase nenhuma situação de gol durante os 90 e poucos minutos de ação em campo. Se o objetivo deles era não perder para uma seleção classificada para a Copa do Mundo, estão de parabéns e só.

Então, vou criticar a atuação da Costa do Marfim, pois conheço a maioria de seus jogadores muito bem.

Gervinho (Lille) é goleador da Ligue 1. Porém, vi apenas um driblador que não conseguiu completar uma jogada sequer.

Didier Drogba (Chelsea) foi obrigado a sair da área, pois os cruzamentos não eram precisos. O zagueiro Kolo Touré (Manchester City) parece ter deixado a calibragem do seu pé direito no belíssimo estádio City of Manchester. Mesmo assim, como zagueiro, era estranho vê-lo como lateral.

Bakari Koné (Olympique de Marseille) teve várias chances de gol. Pelo menos duas delas perdidas sozinho, na cara do goleiro adversário. na França, ele jogava mais aberto.

Não vou me estender para falar bem ou mal do resto do time, que teve 20 chances de gol contra uma do adversário e uma posse de bola muito alta. Lembrou muito aquele Grêmio 0×0 Universidade de Chile pela estréia tricolor na Libertadores de 2009: um jogo de meia-linha, onde o dono da casa pressionou horrores.

Agora, Costa do Marfim x Gana tornou-se um jogo decisivo: imaginem se os Garanhões resolverem aprontar pra cima dos Estrelas Negras assim como fizeram com os Elefantes?!

[CAN 2010 C 1ª] BENIM 2×2 MOÇAMBIQUE

Não assisti ao jogo (que não foi transmitido para o Brasil). Mais uma atuação patética de um arqueiro põe um resultado a perder…

Infelizmente, a África carece de uma profunda reformulação na formação MENTAL de seus goleiros. Em termos de força física, obediência tática e técnica, as cinco ou seis principais seleções do continente não devem nada para NENHUMA seleção sul-americana ou européia de nível médio. Aos poucos, as duas ou três melhores seleções do continente estão se aproximando dos melhores do Novo e do Velho mundos.

Porém, o furo ocorre exatamente na posição de máxima retaguarda: eles não sabem que coragem e arrojo são irmãos da parcimônia e que são eles que influenciam se o comportamento da zaga será mais ou menos sereno, inclusive diante da pior pressão possível.

[CAN 2010 C 1ª] EGITO 3×1 NIGÉRIA

Quanto mais eu penso que o Egito está envelhecido (seleção que não consegue ir à Copa do Mundo; Al Ahly perdeu a hegemonia continental), mais ele me faz morder a língua: no melhor jogo da CAN 2010 até aqui, os Faraós saíram atrás contra as fortes e velozes Super Águias da Nigéria, mas reagiram com MUITA autoridade.

Em comparação com todas as demais escolas do continente, o Egito é, disparado, o melhor exemplo de profissionalismo e de MATURIDADE. Embora a Nigéria tenha tido atuações muito boas de jogadores conhecidos como o zagueiro Yobo do Everton (realmente impressionante: vigoroso, leal, alto, veloz, bem posicionado – anulou no 1º tempo a referência do ataque faraó, Mohamed Zidan, do Borussia Dortmund) e o lateral-esquerdo Taiwo (o iniciador das jogadas pelo lado canhoto do campo no Olympique de Marseille), o experiente goleiro Enyeama pôs o belo gol inicial do velocíssimo e preciso Chinedu Obasi (parceiro do querido Carlos Eduardo – ex-Grêmio – no Hoffenheim) a perder por uma saída precipitada do arco, mesmo com a cobertura atenta de Yobo, que chegaria no lance.

A Nigéria começou sendo atacada, mas reagiu. Logo após o gol de Obasi, começou a se impor e o Egito sentiu a pressão. Porém, como já havia me queixado no parágrafo acima, o empate egípcio veio no contra-ataque: um lançamento para Meteeb da direita para o meio pegou a defesa – em linha – adiantada. Yobo estava lá, mas Enyeama se jogou com tudo para fora da área. Bastou Meteeb tirar do goleiro e tocar a bola rasteiro de fora da área.

Esse é o tipo de gol que não se pode levar. Angola levou o empate de Mali por causa do goleiro; a Argélia levou uma sumanta do Maláui por causa do goleiro; e o Benin deixou de vencer Moçambique por causa do goleiro… Pior: até a precipitação de Enyeama (titular há muito tempo), eu dizia que esse era o jogo entre os dois times mais técnicos e um duelo entre os dois melhores goleiros da África.

O velho e bom El Hadary continua sendo o melhor goleiro da África. O cara é tranquilo e possui uma liderança positiva. Ms o seu maior diferencial é NÃO INVENTAR.

Poderia falar sobre as virtudes individuais da Nigéria que, apesar da derrota, jogou um bom futebol. Suas duas falhas graves foram a do goleiro no 1º gol e o mandrake geral no 2º gol egípcio, ainda nos primeiros minutos após a virada de campo. O atacante Ayegbeni Yakubu (companheiro de Yobo no Everton) estava jogando o fino, assim como Obasi e Yobo. Mesmo assim, Obafemi “Oba Oba” Martins ainda é um centroavante mais efetivo, daqueles que sabe prender a bola e, se não gira pro gol, sabe dar belas assistências. Não o considero um “bancário” dessa seleção.

Obi Mikel, sim, poderia ter jogado muito mais: o volante do Chelsea teve que fazer o mesmo que seus colegas de posição malineses tiveram que fazer por falta de alguém mais técnico um pouquinho mais à frente. Ao invés de proteger a zaga para depois sair jogando, adiantou-se para municiar os bons atacantes. Não entendi por que o veterano Kanu (ex-Arsenal, hoje no Portsmouth, mesmo time dos argelinos Yebda e Belhadj; do ganês Boateng; do seu conterrâneo Utaka, também de boa atuação; e do marfinense Dindane) entrou em seu lugar se é atacante – muito provavelmente pela falta de um reserva para a mesma posição. O problema é a falta de um herdeiro para a posição de Jay Jay Okocha, que foi selecionável entre 1993 e 2006.

De uma maneira geral, Costa do Marfim, Nigéria, Gana e Camarões (este um pouco abaixo – tomara que esteja enganado) possuem muita qualidade do meio para a frente. Porém, o Egito possui uma zaga taticamente mais obediente e um toque de bola maior ao invés de depender exclusivamente das individualidades ou da ligação direta.

Hassan Shehata é o cara: talvez seja um dos poucos técnicos africanos capaz de, mesmo na base do feijão com arroz, pensar fora da caixa. Por isso, está no cargo desde 2004.

[CAN 2010 A 1ª] PERFIL DE ANGOLA x MALI

A sede da terceira competição continental de seleções mais importante do mundo não poderia ser mais interessante: os anfitriões angolanos desejam mostrar ao mundo que seu país é muito mais do que petróleo, guerra e miséria. Com a economia crescente, construíram alguns belos estádios e estão na mídia mundial.

Apesar do abandono da seleção de Togo em função da triste emboscada sofrida na última sexta-feira e da infeliz manutenção da instável Cabinda como uma das sedes, a competição realizar-se-á de maneira tão normal quanto possível.

Voltando aos times: o futebol angolano só passou a ser respeitado a partir das eliminatórias para  a Copa de 2006, quando os Palancas Negras eliminaram as Super Águias (Nigéria – uma das grandes potências do continente). Na Copa, apesar de não terem se classificado para as oitavas-de-final, não fizeram feio: sua única derrota foi para a forte 4ª colocada, a seleção de Portugal de Felipão, Figo, Simão Sabrosa, Maniche e Cristiano Ronaldo por apenas 1×0. Depois, empatou com o México em 1×1 e com o Irã em 0×0. Aliás, o México quase passou para as quartas  - só foi parado pela Argentina na prorrogação, em um jogaço. Portanto, Angola não demonstrou medo nem um futebol fraco. Sua primeira participação em mundiais foi bastante honrosa, apesar de não ter tido o brilho de Camarões e Argélia em 1982 e do Senegal em 2002.

Dois dos melhores jogadores angolanos, infelizmente, tem lutado contra sérias lesões nos últimos anosȘ Mantorras, atacante do Benfica, e Flávio, centroavante do Al Shabab da Arábia Saudita, estão na CAN. Porém, longe de suas melhores condições físicas. No mais, o lateral Kali (que foi bem na Copa da Alemanha, mas joga apenas no pequeno Arles-Avignon da França); o volante Stélvio (que não esteve na Copa e tem-se destacado no União Leiria em Portugal) e o bom meia Zé Kalanga (Dínamo București) são valores de um plantel parelho, porém sem brilho.

Apesar de não ir à Copa 2010, Angola joga com um país inteiro a motivar o seleccionado nacional. Em que pese a experiência de um Mundial de boa parte do plantel (que, felizmente, não possui uma idade avançada) e a reconhecida competência defensiva, agora parece que Angola possui um treinador ainda mais capacitado, que é o português Manuel José, multicampeão egípcio e africano pelo Al Ahly – onde atuam o meia Gilberto e também já jogou o citado Flávio – esperança de gols do time.

Porém, o Mali possui uma seleção forte. Apesar de nunca ter-se classificado para uma Copa do Mundo e de nunca ter vencido uma CAN, trata-se de uma seleção muito experiente, com alguns destaques que – em alguns casos – são tecnicamente superiores a todos os angolanos. Há pelo menos três destaques importantes: o goleador Kanouté do Sevilla e a dupla de volantes Mahamadou Diarra (Real Madrid) e Seydou Keita (Barcelona, ex-Sevilla). Outros jogadores de valor são o meia Momo Sissoko (Juventus; ex-Liverpool); o meia Abdou Traoré, bem na Champions e líder da Ligue 1 pelo Bordeaux; e os atacantes Diallo (Le Havre) e Bagayoko (Nice).

Enquanto muitos angolanos ainda atuam por clubes locais, apenas um goleiro e um zagueiro malineses ainda atuam no país de origem. Enquanto os três maiores destaques estão na Espanha, mais de 50% dos convocados atuam na França – e quase todos na Ligue 1. Outro detalhe do qual gosto muito na seleção de Mali é que o técnico é africano: o experiente Stephen Keshi, que levou a Nigéria à sua última participação em Copas e obteve belos resultados nas categorias de base do seu país.