Os leões não são mais indomáveis. O time é excessivamente pragmático e jogou com muita morosidade ontem. Não é questão de desinteresse ou arrogância mas, sim, de atitude: afinal de contas, o futebol só funciona sem apatia.
Assisti a todo o jogo. A família Song definitivamente é inconfiável: o tio Rigobert, zagueiro e ex-capitão de 33 anos, embora não tenha comprometido ontem, já entregou a classificação para a 2ª fase na Copa de 2002 para a Alemanha e entregou o título da última edição para o Egito. Acho que chegou a hora de testar a gurizada.
O sobrinho Alex, por sua vez, já deu uma bola atravessada a curta distância (diria que bem pior do que a de Toninho Cerezo em 1982 contra a Itália no fatídico terceiro gol de Paolo Rossi) a um ou dois minutos do 1º tempo e o Gabão por pouco não abrira o marcador ali, mesmo. Aquela voluntariedade observada no Arsenal não se repete na sua seleção nacional.
Njitap (Geremi) não cobra mais faltas de longa distância com qualidade e tampouco avança frequentemente à linha de fundo.
Makoun, o outro centromédio, embora não comprometa na marcação, não chama o jogo para si e não distribui jogadas com a mesma competência com que o faz no Olympique Lionnais.
Eto’o, um dos melhores do mundo em sua posição, o grande líder e capitão da equipe, foi hiperbem marcado e apareceu muito pouco. Sua atuação foi pra lá de fraca.
Mbia fez algumas grandes jogadas. Porém, após um drible no qual deixou dois adversários para trás com uma jinga de calcanhar e avançou com uma velocidade espantosa para a conclusão na trave (um dos maiores pecados que eu vi recentemente), parece que se complicou.
Destaque para o uniforme mais lindo da CAN 2010: a Puma caprichou em Camarões. Até mesmo o lilás caiu muito bem no bom goleiro Kameni (um dos poucos que se salva entre os 16 titulares desta competição).
O Gabão conhece muito bem Camarões. Apesar da não-classificação à Copa de 2010 e das duas derrotas consevutivas para os mesmos Leões Indomáveis nas eliminatórias (Camarões 2×1 em Yaoundé e 2×0 em Libreville), a terra de uma das mais temíveis víboras do planeta e co-sede da próxima CAN em 2010 junto com a Guiné Equatorial, o ex-craque francês e grande parceiro do lendário Michel Platini, Alain Giresse, foi mantido como técnico dos gabonenses.
A continuidade e a seriedade de um time fisicamente parecido com o plantel desse tradicional adversário o faz disputar a fase final de grupos da principal competição africana depois de muito tempo. Em um grupo com Zâmbia (tradicional nas fases finais porém sem grandes conquistas) e Tunísia (pouco melhor do que a Argélia mas pior do que o Egito, com um estilo de jogo muito parecido), pode, sim, passar adiante sem que isso faça do Gabão uma zebra.
O resultado inesperado agora obriga Camarões a jogar a morrer. Pior: à exceção da África do Sul (fora da CAN) e de Gana (que ainda não estreou), todos os africanos classificados à Copa 2010 encerraram a primeira rodada SEM VITÓRIA.