ARGÉLIA 0×3 MALÁUI

Embora não tenha podido assistir a essa histórica e surpreendente partida, há que se destacar uma série de fatos interessantíssimos:

1) Pelo que tenho visto dos jogadores argelinos (sobretudo o falsamente incensado lateral-esquerdo Belhadj do Portsmouth), o time é veloz, porém não se diferencia muito daquele joguinho de toque de bola que tenta, tenta, tenta e consegue muito pouco – bastante observado na Tunísia da Copa de 2006. Classificou-se para a Copa do Mundo muito em função da rivalidade de morte contra o Egito, além de possui uma intimidade muito maior com a adrenalina principalmente quando atua contra equipes similares (Norte da África – principalmente países árabes como Tunísia e Marrocos). É um estilo de jogo que, diferentemente das n configurações étnicas, físicas e anímicas verificadas na África negra, nivela os árabes entre si. Essa rivalidade entre os países saarianos com margens para o Mediterrâneo lhes proporciona uma injeção extra de adrenalina;

2) O provérbio klingon no cartão do início do genial Kill Bill vol. 1 poucas vezes se mostrou tão adequado: “A VINGANÇA É UM PRATO QUE SE COME FRIO”. O Maláui havia sofrido 3×0 da mesma Argélia na CAN de 1984 na fase de grupos. Passou 26 anos comendo um mingau gelado e quase seco, até que, finalmente, a vitória veio. Diga-se de passagem, esta é a décima participação do pequeno e conturbado país do sul da África em uma fase de grupos da CAN e – pasmem – esta foi recém a sua primeira vitória na fase de grupos em todas as edições. Isso justifica a legenda bíblica do criativo produser que postou os gols do vídeo acima no YouTube;

3) Desta vez, a Argélia classificou-se para a Copa do Mundo como jogou o Grêmio de Mano Menezes na Libertadores de 2007: ganhou todas as partidas em casa e perdeu todas menos uma fora. Garra e fator local superaram – e muito – a qualidade técnica da equipe;

4) As Raposas do Deserto estão em pé de guerra: como infelizmente é habitual na África (seja a seleção árabe do norte ou negra subsaariana), os jogadores e o técnico Rabah Saâdane parecem não estar se entendendo bem. É preciso dizer que o velho e bom Saadane foi quem classificou a Argélia para a Copa de 1986. Até prova em contrário, não lembro de outro técnico de seleção africana ter classificado a mesma seleção para mais de uma Copa do Mundo, pois eles trocam de treinador como quem troca de cueca. Um cara que treina a seleção argelina pela quinta vez desde 1981 e que possui em seu currículo passagens pelos grandes clubes africanos Raja Casablanca (Marrocos) e Ètoile du Sahel (Tunísia) definitivamente não é pouca coisa para os padrões continentais.

Saâdane foi zagueiro até do outrora grande clube francês Stade Rennais (equivocadamente conhecido por aqui como Rennes, o nome da cidade). Esse homem foi o primeiro técnico a classificar a seleção Sub-20 da Argélia para um mundial da categoria. Foi no distante ano de 1979, quando este blogueiro estava no jardim da Infância da Escola de Ensino Fundamental General  Daltro Filho em Porto Alegre, no bairro Auxiliadora. Pois essa seleção de cadetes dirigida pelo professor Saâdane atingiu as quartas-de-final da competição, quando parou somente na poderosa Argentina de Diego Maradona (não por acaso a campeã).

No comando do Raja Casablanca, ele foi “apenas” campeão marroquino e campeão da CAF Champions League. “Só” isso.

O costume com os frequentes camaroneses, argelinos, marroquinos, tunisianos, egípcios, nigerianos, ganeses, marfinenses, senegaleses e malineses nas principais ligas européias desde que comecei a acompanhar o futebol africano em 1982 tornou seus nomes e sobrenomes originários de uma plêiade de línguas e dialetos nativos um lugar comum. Porém, a sonoridade e a novidade dos nomes dos malauienses (ou seria malauianos?) é um bálsamo para os ouvidos. Sempre senti uma enorme simpatia por essas palavras que, independentemente do seu significado original (que confesso desconhecer maioria das vezes), fazem com que se queira cada vez mais conhecer a África: Russel Mwafulirwa, Elvis Kafoteka, David Banda (homônimo do bebê aditivo de Madonna).

Aliás, vale aqui o TROCADALHO infame que poderia ter virado uma bela manchete caso houvesse uma versão brasileira do corneteiro espirituoso diário esportivo argentino Olé cobrindo a CAN 2010 com afinco:

“ARGELIA VIU ‘A’ BANDA PASSAR” ou, ainda, “RAPOSAS DO DESERTO CERCADAS PELAS CHAMAS”.

Melhor dizendo, quem viu toda a fanfarra malauiense passar (e quem mais se chamuscou na brincadeira) foi o goleiro Faouzi Chaouchi. Tudo bem: ele tem 1,94m de altura, apenas 25 anos e raspa a cabeça como qualquer goleiro. Até muito recentemente, ele era um “bancário” com pouquíssima experiência na seleção até o jogo que pôs a Argélia na Copa do Mundo. Enfim, contra o poderoso Egito de Hassan Shehata e Abou Atrika (é assim que está nas costas da sua camiseta e não Aboutrika), chegou a ser escolhido para a seleçao africana da semana pelo site Goal.com.

Porém, o fato de ter tido a sorte de estar no lugar certo e na hora certa não necessariamente é sinônimo de qualidade nem tampouco de estabilidade. Como todos sabem, goleiro é um cargo de confiança, que exige continuidade, ritmo de jogo. Salvo em raríssimas e honrosas exceções, não se troca a titularidade do arco por causa da superstição. Os fatos mostram que o antigo titular, que fora suspenso pelo cartão amarelo para o jogo de desempate em Cartum (Sudão), possui experiência e, acima de tudo, estrela: Lounès Gaouaoui foi tricampeão da Copa da CAF (equivalente à Liga Europa e à Copa Sul-Americana) em 2000/01/02, campeão argelino em 2004 e 2006 pelo Kabylie, o  clube mais popular da Argélia. Foram 43 partidas pela seleção.

Exceção ou não, Chaouchi cometeu contra o Maláui não uma mas, sim, duas presepadas que dificilmente são vistas até mesmo no glorioso Parque Ararigboia – palco da fina flor da várzea portoalegrense e de um sensacional exemplo de cidadania.

Embolou tudo. E o raio não costuma cair duas vezes no mesmo lugar. Angola vem no desespero contra o Maláui, que não pode sequer pensar em se deslumbrar com o resultado merecido porém bastante fortuito de ontem. A Argélia, por sua vez, tende a realizar o jogo mais importante do grupo, contra o encorpado Mali.

Tá bom esse grupo, heinhô, Batista? :P

ANGOLA 4×4 MALI

Nasci no dia 23/05/1973. Minha primeira aparição no estádio foi em 1979. A primeira grande decisão da qual tenho alguma memória foi a decisão do Brasileirão de 1980, entre Flamengo x Atlético MG. O primeiro campeonato que acompanhei pra valer foi o Brasileirão de 1981, quando o Grêmio foi campeão.

Não lembro do lendário Gauchão de 1977, nem dos de 1979 e 1980, quando o Grêmio foi campeão. Tampouco lembro da Copa de 1978. Mesmo na derrota, creio que minha lembrança mais remota de decisão de Gauchão foi aquela do Geraldão (1982?)

Desde então, abertura e estréia de diversos tipos diferentes de campeonatos e torneios oficiais, já vi centenas. E, apesar de não ser infalível, minha memória é muito boa.

Nunca havia visto uma partida em que um clube ou seleção saísse com 4×0 e terminasse com um empate em 4×4. Já havia visto empates e viradas com diferenças de três gols e uma única ocasião na qual um 5×1 virara um 5×5. Mas buscar um 4×0 (ainda mais a partir dos 34′ do 2º tempo) definitivamente nunca.

O futebol africano costumava primar pela ofensividade e pelo vigor físico. A desobediência tática e a falta de traquejo na formação de goleiros, zagueiros, laterais, centromédios ainda prevalece no continente – inclusive em países adiantados que passam por um período de entressafra, tais como Camarões e Nigéria (posso morder a língua, mas é o que vejo nos campeonatos europeus).

O infelizmente paupérrimo Mali possui três valores de alto nível para qualquer clube do planeta: o centromédio barcelonista Seydou Keita (que veio do Sevilla e desbancou o marfinense Yaya Touré), seu companheiro de posição e rival clubístico Mahamadou Diarra (Real Madrid) e o multilaureado centroavante Frèdèric Kanouté (que ainda permanece no Sevilla). Outro bom jogador (porém sem nada de especial) bastante conhecido é o centromédio reserva Mohamed “Momo” Sissoko (ex-Liverpool, atualmente na Juventus).

Do meio para frente e sem desfalques, coloco o Mali entre as quatro seleções mais fortes do continente. Todavia, sua defesa apresenta uma estatura abaixo da média inclusive para os padrões extra-africanos (setor em que, logo abaixo dos países nórdicos, a África apresenta a segunda maior média de altura do planeta – muitas vezes maculada pela exceção de um dos laterais que, em geral, costuma ser bem baixinho).

Angola, por sua vez, possui apenas jogadores de boa qualidade, mas nenhum craque. Só para ficar com aqueles que realmente jogaram bem a estréia, cito o centroavante Flávio, o meia Gilberto e o lateral-esquerdo e capitão Kali. Enquanto os angolanos tiveram pernas e mantiveram-se mentalmente fortes em virtude de uma atuação primorosa em cerca de 70% da partida, os xarás mais velhos de dois dos meus sobrinhos simplesmente destruíram a defesa malinesa: Gilberto foi primoroso na armação pela meia-esquerda, assim como seus cruzamentos de bola parada a partir da intermediária foram muito eficientes. Flávio, por sua vez, é um competente homem-gol, embora seja baixo para um  centroavante. Porém, é bastante movediço e possui boa impulsão.

O que aconteceu? Mais do que o time ter cansado, cada gol sofrido mostrou que o lado emocional dos angolanos é muito fraco: a intensa tranquilidade e a possante autoconfiança foram caindo por terra, resultando em falhas de posicionamento e de marcação bisonhas a partir dos 34′ do 2º tempo. Ficou provado também que os atletas não observaram os toques de seu técnico português e que Angola não possui banco: o time ficou completamente órfão e desqualificado tanto na ofensividade quanto no primeiríssimo combate no campo de ataque.

O Mali, por sua vez, jogou excessivamente aberto, pois Diarra marcou menos e guardou pouco a sua posição, enquanto Keita só entou após o 30º minuto da primeira etapa. Ele estava longe de suas melhores condições físicas. Porém, o inteligentíssimo técnico NIGERIANO Stephen Keshi percebeu que a vaca poderia ir para o brejo cedo demais caso não o pusesse no sacrifício.

Keita também teve a mesma percepção de Diarra: jogou-se mais à frente porque sabe da qualidade de passe e da chegada junto à área adversária que tem, pecando por desguarnecer a sua defesa. O juventino Momo Sissoko, por sua vez, foi poupado. Devido ao susto da estréia e à clara percepção de que Keita é muito melhor do que os meias ofensivos titulares, creio que isso não mais ocorrerá contra Maláui e Argélia pela sequência malinesa de adversários por este Grupo A.

O meia-esquerda angolano Gilberto fez um gol e uma assistência. O centroavante angolano Flávio fez dois gols. O lateral-esquerdo angolano Kali fez toda a diferença junto a Gilberto durante a maior parte do jogo e também colaborou com uma assistência. Senti falta dos meias André Macanga e Zé Kalanga e do atacante Mantorras – todos de boa participação na Copa do Mundo de 2006. A aposta em Manucho (uma ex-promessa que não deu certo no Manchester United) e que não armou nem concluiu decentemente, foi equivocada: o jogador conseguiu apenas cavar o pênalti do 4º gol e, por isso, Gilberto foi benevolente e concedeu-lhe a honra de definir o tento.

Após a goleada de 3×0 do surpreendente Maláui sobre a Argélia, creio que o caldo engrossará demais para os angolanos neste grupo. E o Mali, que achava que não iria longe, poderá, sim, comer pelas beiradas.

Emoção é o que não irá faltar por este Grupo A, de excelente média de gols em sua rodada inicial.

ANTHONY YEBOAH: GANÊS BRILHOU NA ALEMANHA E NA INGLATERRA

Peço mil perdões pelo atraso no post, mas estou procurando emprego como professor universitário, estudando para um concurso público e mantendo contato com ativistas de Porto Alegre para importantes eventos a seguir. Naturalmente, todos esses assuntos são prioridade absoluta no momento.
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MOTIVAÇÃO E COLETA DE INFORMAÇÕES

Se Abedi Pelé foi “O” cara na França, no mesmo período brilhou na Alemanha e na Inglaterra um conterrâneo seu que primava não exatamente pela mesma habilidade como meia-atacante mas, sim, por ter-se caracterizado como um centroavante de gols bonitos e decisivos. Falo de Anthony Yeboah.

Comecei a acompanhar tanto a carismática, equilibrada e vigorosa CAN como também a Bundesliga graças às saudosas transmissões da TV Cultura (cujo narrador me foge à memória), com comentários de José Trajano, Flávio PradoGerd Wenzel (Bundesliga only) e reportagens de Helvídio Mattos (CAN only). Trajano, Wenzel e Mattos hoje estão na ESPN Brasil, meu canal de esportes predileto.

Naquele comecinho dos anos 1990′s, o time que despontava na terra das deliciosas bratwursts era o Eintracht Frankfurt. Embora não tenha sido campeão nenhuma vez, manteve-se entre os quatro primeiros da 1.Bundesliga durante cerca de quatro temporadas. Nem mesmo no site do Leeds United, um grande clube inglês que, infelizmente, quase faliu e hoje amarga a terceira divisão, encontrei algo.

Após uma busca exaustiva no Google em vários idiomas, como Yeboah foi um craque do último período imediatamente anterior ao início da internet comercial, infelizmente não encontrei artigos, notícias e entrevistas nem em quantidade nem em qualidade suficientemente significativas. Não há quase nada a ser aproveitado nem mesmo nos sites dos clubes por onde passou e tampouco no da própria Federação Ganesa de Futebol. No caso de Abedi Pelé, a França e a UEFA possuem um acervo bem maior pelo fato de Pelé ter sido campeão francês, campeão da Liga dos Campeões da Europa e, de quebra, ter atuado por um clube de massa. Quanto a Yeboah, a Wikipedia e o You Tube foram suficientes.
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Assim como eu, Yeboah é um geminiano: nasceu no dia 06/06/1966. Fará, em 2010, 44 anos. Ele é de Kumasi, terra do poderoso Asanté Kotoko, um dos grandes clubes de Gana. Já falei um pouco sobre rivalidade e tradição neste post.

Tony Yeboah disputou três edições da CAN na década de 1990. O atacante disputou 59 partidas e marcou 29 gols entre 1985 e 1997, segundo a Wikipedia. Ele é o segundo maior goleador da história das Estrelas Negras, ficando atrás apenas de… Abedi Pelé. ;)

Naquela época, a esmagadora maioria dos jogadores africanos ainda era contratada primeiro por pequenos clubes do Velho Mundo. De 1988 a 1990, Yeboah precisou mostrar serviço no modestíssimo Saarbrücken. Naquele período, ele foi o segundo jogador negro a disputar a Bundesliga, sendo precedido – e também contemporâneo – de um outro patrício e seu xará que, por sua vez, não vingou (Anthony Baffoe). Portanto, os jogadores africanos que anteriormente haviam jogado na Alemanha haviam lá trabalhado no período pré-Bundesliga. Portanto, antes da temporada 1963-1964 – como foi o caso de Charles Kumi Giamfi.

Yeboah foi o goleador da Bundesliga em duas temporadas consecutivas: 1992-1993 e 1993-1994. Aquele grande time do técnico Jupp Heynckes tinha também o nigeriano Jay-Jay Okocha e o suíço Maurizio Gaudino fechando um trio ofensivo bastante poderoso no Eintracht.

Foram quatro temporadas e meia de (infelizmente) poucos registros internéticos na Alemanha. Em Frankfurt, Yeboah disputou 154 partidas e marcou 88 gols. Porém, suas duas temporadas e meia em Elland Road foram igualmente marcantes e muito mais midiatizadas – apesar de ter jogado pouco em função de várias lesões, que permitiram que atuasse apenas 65 vezes para guardar 32 cocos nas redes adversárias.

Na temporada 1995/1996, Yeboah marcou dois golaços inesquecíveis. Ele obteve o raríssimo feito de ter feito o gol mais bonito do mês na Inglaterra em dois meses consecutivos. O primeiro deles, contra o Wimbledon, também foi um dos indicados para o gol da década de 1990. Percebam a bicanca do zagueiro, o domínio, a limpada em dois oponentes e a bucha indefensável de fora da área. O gol foi tão explosivo que até o narrador soltou a franga. Depois, o time inteiro amontoou o craque na comemoração:

Como se a pintura acima não bastasse, Tony Yeboah nos brindou com mais uma de suas mágicas. Já que nem tudo é perfeito, foi sobre o meu querido Liverpool:

Muitos dizem que o futebol africano é primitivo e que falta-lhes disciplina, profissionalismo e organização. Em parte, os defensores dessa hipótese não estão totalmente equivocados. Contudo, ninguém mais pode dizer que a ocorrência de histórias bonitas e de episódios inesquecíveis protagonizados por jogadores da Mãe Negra África são meramente eventuais… ;)

OS ANOS DE OURO DO FUTEBOL DE GANA


History of Football – Football Culture Ghana

A história é a ciência humana que mais reverencio. A partir dela, costumo constatar que nada surge por acaso.

No início do documentário acima, a narração do vídeo pressupõe que Gana é o país mais bem-sucedido do continente no futebol e que a sua história começou com o já extinto clube Excelsior, em 1903 (Por acaso o ano indica alguma coisa aos gremistas? E o atual fornecedor esportivo, hein?!). Os britânicos fundaram a Football Association of Gold Coast em 1922. Pra quem não sabe, até a sua independência em 1957, Gana era então chamada de Costa do Ouro pelos colonizadores ingleses. Hoje, Gana é o segundo maior produtor de cacau do planeta. O maior produtor é a Nigéria.

O clube ainda existente mais antigo de toda a Àfrica Ocidental é o Hearts of Oak (Corações de Carvalho – a árvore), de 1910, campeão africano de 2000. O Hearts foi o primeiro campeão nacional profissional, em 1956. Porém, um perigoso rival do norte também passou a merecer todas as atenções: é o Asanté Tokoto, de Kumasi, campeão africano de 1970. Não-raro, ambos são os representantes mais assíduos de Gana na CAF Champions League. Embora haja outros clubes nas mesmas cidades, em princípio, o futebol ganês desenvolveu-se  a partir de torneios locais mais especificamente em Acra e em Kumasi. Daí o enorme contraste usualmente verificado na tábua de classificação do campeonato nacional entre os times de Acra e Kumasi em relação aos demais.

O futebol africano floresceu da mesma forma que ocorreu no Brasil (não por acaso o segundo maior contingente negro do mundo, não por acaso uma terra de péssima distribuição de renda): pelos campos de chão batido, sem chuteiras nem arquibancadas, a juventude se unia e todos assistiam maravilhados aos jogos dos times adultos.

Em meio aos festejos da independência em 1957, a lenda do futebol inglês, sir Stanley Mattews, participou de um jogo com os Hearts em Acra e foi então coroado como o “Rei do futebol em Gana”. Era interessante ver que – na maioria dos jogos –mesmo em estádios de chão batido (a maioria deles sem arquibancadas), o público parecia respeitar bastante o jogo e não tinha cara de quem invadia o campo antes do apito final.

O presidente de Gana, o Dr. Kwame Nkrumah (1909-1972), percebeu dois detalhes: 1) pipocavam independências políticas de várias ex-colônias inglesas e francesas por todo o vasto continente africano entre o final da década de 1950 e o início da década de 1960; 2) havia uma enorme diversidade cultural, distâncias geográficas bastante consideráveis e muitas barreiras linguísticas; 3) considerava positivo tentar unir a África em uma grandiosa nação. Para isso, apostou que o futebol seria o grande catalisador para a fundação dos Estados Unidos da África. Portanto, o presidente ganês pretendeu – sem sucesso – realizar uma atualização do chamado Panafricanismo. Com esse intuito, criou o seu próprio time com interesse político, o The Real Republicans, no início da década de 1960. Nkrumah formou seu time a partir da base sólida do vitorioso plantel dos Hearts. Em 1958, houve inclusive uma reunião entre vários líderes do continente  para tratar do assunto – não por acaso com sede em Gana…

Em se tratando de um dos raros países africanos que, entre meados da década de 1950 e meados da década de 1960 pouco sofreu com ditaduras e guerras civis mesmo dentro de uma pequena área superpopulosa com várias etnias e seus diferentes dialetos transitando livremente, o ambiente pareceu bastante favorável para a aparição de um futebol de qualidade – ainda que pecasse pela falta de organização administrativa, financeira e  tática, além de uma desscoberta muito tardia de seus principais valores pelos principais polos futebolísticos europeus.

Enfim… Como diz o vídeo, o futebol era uma forma de autoexpressão diante do poder colonial e das idiossincrasias do tribalismo.

[Taí um bom tema pra investigar: será que as condições políticas e sociais de Gana também não foram semelhantes na Costa do Marfim, na Nigéria e em Camarões? Afinal de contas, as semelhanças são bastante grandes, apesar desses vizinhos não terem tido nenhum presidente com ambições tão grandes quanto as de Nkrumah]

Notem, por volta dos 06″20′ do vídeo que mostra um trecho de um jogo daquela época, que havia uma enorme estrela negra nas costas das camisas dos jogadores da seleção de Gana, caracterizando aí o carinhoso apelido The Black Stars.

[o apelido The Black Stars remete ao navio mercante estadunidense Black Star, que, de 1919 a 1922, influenciado pelo movimento pacifista anti-segregacionista, fez o caminho de volta da América para a África, levando de volta à terra-mãe muitos negros. Por linhas tortas, isso livrou alguns negros do terrível racismo da época, onde imperava o terrorismo racista da Ku Klux Klan, que predominava nos estados do sul dos EUA. O então todo-poderoso do FBI, Edgar Hoover, pôs espiões infiltrados nas viagens do Black Star e encerrou a linha em 1922]

Por incrível que pareça, o momento mais marcante da história do futebol ganês em todos os tempos não consta no documentário: o heróico empate contra o todo-poderoso Real Madrid (de Alfredo Di Stefano, Gento, Puskas, etc.) pentacampeão espanhol e europeu em 1960 por 3×3.

Em 1961, na tentativa de nacionalizar o futebol ganês como exemplo para o panafricanismo, Nkrumah trouxe como técnico um ex-jogador ganês do Hearts vindo do Fortuna Düsseldorf. Seu nome era Charles Kumi Gyamfi. Aliás, em 2006, comemorou-se o cinquentenário do intercâmbio futebolístico entre Gana e Alemanha, no qual usualmente o país africano mandava jogadores e recebia treinadores. O caso de Gyamfi foi sui generis, pois representou a inversão dessa lógica.

[No próximo post, falarei sobre outro fruto desse intercâmbio – o craque Anthony Yeboah, que marcou época na segunda metade da década de 1980 e no início da década de 1990 no Eintracht Frankfurt.]

Os Black Stars eram os embaixadores de Gana: espalhavam a palavra do Panafricanismo que tanto Nkrumah desejava tornar realidade. Em 1963 o pequeno país era então um dos mais prósperos de toda a África: não apenas sediou como ergueu a CAN pela primeira vez. Em 1965, o bicampeonato veio movido pela premiação de uma casa nova para cada atleta, feita pelo presidente Nkrumah.

No mesmo ano, o ex-craque local Osei Kofi relata (por volta de 7′ do vídeo) que os Estrelas negras foram convidados para um amistoso de independência do Quênia e deram uma sonora sumanta no adversário (13×0). Foi a visita mais indigesta que o futebol ganês já realizou. Kofi foi escolhido como o jogador africano do ano e recebeu um televisor e várias honrarias de estado como prêmio.

Porém, o futebol ganês passou por um enorme ostracismo a partir do gole de estado que derrubou Nkrumah em 1966, durante uma viagem à China.

[China -> comunista -> "Estados Unidos da África" -> independência + união = v. Zeitgeist Addendum, especialmente a questão dos "assassinos econômicos]

MUNTARI, A CONTRATAÇÃO DO ANO

Divulgação/Site oficial

A maior vantagem do grande técnico JOSÉ MOURINHO ter trabalhado em um clube riquíssimo como o CHELSEA foi a de poder garimpar um mercado tão diversificado quanto atraente como é o da PREMIER LEAGUE. Agora na INTERNAZIONALE, Mourinho, que tinha MICHAEL ESSIEN, um dos dois melhores volantes do mundo, agora contrata a cara-metade de Essien: o também ganês SULLEY MUNTARI, de estilo parecido, porém mais marcador e menos apoiador do que Essien.

Pra quem acompanha este blog e viu a intensa cobertura que eu fiz da ACN ou CAN (Copa Africana de Nações) em janeiro, a dupla foi decisiva para que seus colegas menos experientes que jogam em ligas pouco expressivas do Velho Mundo conseguissem, empurrados por uma das mais apaixonadas torcidas que eu já vi na vida, chegar ao honroso 3º lugar na competição. Muntari marcou três gols e Essien dois.

Muntari volta à Itália. Antes de ir para o PORTSMOUTH, atuava com sucesso pela UDINESE (clube o qual ajudou a participar da UEFA CHAMPIONS LEAGUE em 2005/2006, com o técnico revelação LUCIANO SPALLETTI, hoje na ROMA). Como dizem os portugueses do excelente blog JOGO DIRECTO, Muntari volta à Bota pela porta da frente, para atuar no clube de maior expressão de sua carreira até o momento. E ele é ainda mais jovem do que sua “alma gêmea” Michael Essien: Muntari completará em agosto apenas 24 anos de idade. É vigor físico e qualidade técnica para uma década adiante.

Em termos práticos, Mourinho já deve ter observado que uma das principais razões pela qual a Inter não consegue ir muito longe na Champions é que o volante argentino ESTEBAN CAMBIASSO e o francês PATRICK VIEIRA são muito técnicos. Cambiasso é mais leve e avança além da conta, enquanto Vieira, por melhor que seja, já possui idade avançada. A idéias é evitar sobrecarregar a zaga nos contra-ataques.

Por falar em Portsmouth, o clube praiano recebeu uma injeção de dinheiro através de um novo proprietário e fez uma boa campanha na Premier League 2007/2008 (8º lugar, à frente de clubes tradicionais como MANCHESTER CITY, WEST HAM UNITED e TOTTENHAM HOTSPUR) apostando em veteranos africanos como NWANKWO KANU (de triste lembrança para os brasileiros), goleador do time em uma temporada na qual chegou a liderar na 5ª rodada e manteve-se em 2º lugar até a 7ª rodada.

Coincidentemente, na primeira rodada da temporada 2008/2009, o Chelsea de FELIPÃO recebe o Portsmouth em STANFORD BRIDGE no domingo 17/08/2008 ao vivo às 09:30h da manhã pelos canais ESPN.