Além das imagens repetitivas de medo e insegurança acima, procurei uma série de matérias em várias fontes diferentes da África e da Europa (Sapo, de Moçambique; EuroSport; AllAfrica e GloboEsporte.com) – muito mais fontes do que aquelas que aqui cito. Como o tempo é curto, vou resumir o conjunto de fatos coincidentes que formou a minha opinião, pois considero as eventuais e pequenas divergências como detalhes verdadeiramente irrelevantes:
– O território cabindense não é contíguo a nenhuma das demais 17 províncias angolanas, pois há uma faixa litorânea pertencente à República Democrática do Congo que as intercala. Trata-se de um status de soberania semelhante aos do Alasca e do Havaí em relação aos EUA;
– Cabinda é uma região riquíssima em petróleo (70% do petróleo que enriquece o país inteiro vem dessa região), que é responsável por grande parte do crescimento econômico verificado no pós-guerra – especialmente nesta década;
– Desde a guerra civil que culminou na independência tardia do país em relação a Portugal no ainda relativamente próximo ano de 1975, as Forças de Libertação do Estado de Cabinda/Posição Militar (FLEC/PM) realizam n ações terroristas com o objetivo de tornar a província independente de Angola. Portanto, AS FRONTEIRAS entre Cabinda e República Democrática do Congo (sul e leste) e Congo (norte) sempre foram alvo de milícias;
– No momento em que o técnico de Burkina Fasso já instalado em Cabinda afirma que o governo angolano recomendou o transporte aéreo Qualquer Lugar – Luanda – Cabinda, pressupõe-se que os responsáveis pela logística da seleção de Togo cometeram um erro imperdoável por terem crido que a belicosidade do contexto miliciano fronteiriço da província não lhes afetaria. No caso, foi a típica economia burra.
A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR: se o próprio presidente da Federação Togolesa de Futebol afirmou à AP que a delegação deveria ter viajado de avião, quem deu a ordem para a viagem de ônibus? Qual o tom de sua declaração: de arrependimento, de indignação ou de lamento? O grande problema do futebol africano não está dentro de campo mas, sim, no absurdo amadorismo da sua cartolagem.
– A organização e o clima geral para a competição estavam excelentes segundo o padrão angolano. As notícias que vinham até o incidente de ontem eram todas positivas. O país está engajado, as pessoas pretendem ser grandes anfitriãs e tanto o Governo quanto o COCAN (comitê de organização da CAN) trabalham duro para que assim o seja: percebam como são bonitos e modernos o estádio, o aeroporto e a ponte sobre o Rio Zaire, além de políticas econômicas voltadas à pesca e também à instalação de uma universidade em Cabinda.
Em princípio, creio que a intenção do Governo Federal de Angola não parece demagógica. Apesar de ser uma matéria meramente frívola sem a profundidade dos programas que estamos acostumados a assistir na série Nova África (by Maria Frô, Luiz Azenha e Baboon Filmes), parece que a importância sociocultural de Cabinda está sendo lembrada. Acompanhem:
Por outro lado, não podemos esquecer de que há uma fortíssima oposição à integração da pequena porém riquíssima Cabinda com o restante do vasto território angolano. O vídeo abaixo nos dá uma breve noção acerca desse impasse. Cabe descobrirmos se essa realidade ainda se verifica no presente com tamanha intensidade:
– O site oficial do COCAN peca por ser única e exclusivamente institucional. Na minha opinião, jornalismo misturado à publicidade e às relações públicas não é jornalismo, pois omite fatos negativos e não realiza investigações e apurações. Assessoria de imprensa é apenas uma forma de fazer com que um representante institucional diga aquilo que os outros querem ouvir de forma que a sua imagem seja o menos maculada possível por eventuais deslizes. Logo, não há nenhuma informação a respeito do incidente com os togoleses.
Diante do ocorrido (três mortos na comissão técnica e dois jogadores feridos), Togo definitivamente não possui estrutura emocional para seguir na competição e desistiu oficialmente da sua participação. Como poucos de seus atletas são valiosos e como não há nenhum prejuízo nem em relação ao ranking da FIFA e tampouco em relação à sobrevivência dos atletas, é mais do que aceitável – sob todos os ângulos – que a seleção desista de competir.
Por outro lado, apesar do Manchester City ter no seu plantel o único jogador togolês de ponta, o centroavante Emmanuel Adebayor (ouça o depoimento dessa ilustre vítima), mesmo com a volta deste à Inglaterra, não há razão para nenhum clube inglês exigir a volta de todos os seus jogadores.
Já vi jornalistas indignados afirmando que o país não possui condições de sediar o evento, que o incidente mancha até mesmo a reputação da África do Sul em relação à Copa do Mundo em junho próximo e assim por diante.
Pois eu discordo. E digo que o único senão é que Togo deveria ser substituído pela seleção de Marrocos, que foi a menos pior quarta colocada entre os quatro grupos das eliminatórias, alterando-se as datas dos jogos do Grupo B que envolveriam Togo (e, a meu ver, Marrocos) em um ou dois dias a mais em cada rodada do grupo, a fim de dar tempo para que cheguem e possam atuar.
O que traria um desequilíbrio técnico à competição seria Togo sair e seus jogos serem considerados como W.O. a favor de Gana, Burkina Fasso e Costa do Marfim. Dessa forma, todos disputariam uma partida a menos, correndo menos riscos de lesões e suspensões, possibilitando aos classificados chegarem às quartas-de-final mais descansados do que qualquer outro adversário.