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O 3-5-2 DO GRÊMIO ESTÁ MANJADO OU NÃO?

Não faz muito, elogiei bastante o fato de o GRÊMIO ter um padrão de jogo com RENATO – algo que quase nunca se viu na malfadada versão 2013 do técnico anterior.

Logo após esses dois últimos jogos em casa, nos quais conquistamos um mísero ponto e nos descredenciamos à luta pelo título deste BRASILEIRÃO 2013 (tanto é que sequer tive tempo de postar análise alguma dos confrontos contra Atlético-MG e Santos), acompanhei vários debates nas redes sociais da internet e em vários blogs.

De cara, descartei as opções meramente passionais (a do amor ou do ódio em função do calor do resultado do momento) e também aquelas meramente oposicionistas ou situacionistas, nas quais o proselitismo define ou se está tudo bem apesar dos erros, ou se está tudo péssimo apesar dos acertos.

Apesar desse filtro, restaram boas ideias, que merecem um aprofundamento maior. Eis a dúvida mais atroz que tem tirado o sono de muitos gremistas:

“O 3-5-2 DE RENATO ESTÁ MANJADO. É PRECISO MUDAR O ESQUEMA TÁTICO”:

Renato ganhou o plantel e, segundo diversas fontes internas, parece haver um consenso entre os jogadores e a comissão técnica de que a maioria deles sente-se mais à vontade e – principalmente – mais segura jogando com três zagueiros, transformando os laterais em alas, tendo um volante que corre de área a área privilegiando a marcação, com dois meias que combinam com esse volante e com o ala do seu respectivo lado, além de dois atacantes, sendo um deles mais aberto e outro mais de área, no estilo pivô.

Independentemente das falhas que irei relacionar a seguir, é importante lembrarmo-nos de que, apesar de mais de 70% dos titulares de Renato serem os mesmos de Luxa, nós não sabíamos nunca o que esperar do 4-4-2 ou o 4-3-1-2 que o técnico anterior utilizava. Ao menos eu, percebia os jogadores muito confusos. Com isso, abríamos verdadeiras avenidas às costas dos laterais e verdadeiros abismos entre a linha de defesa e a linha de meio e entre a linha de meio e  a linha de ataque.

Renato percebeu que a adoção de um terceiro zagueiro poderia explorar melhor as qualidades dos laterais, pouco qualificados na marcação. Com isso, Pará deixou de ser um claudicante apoiador que parava a 45 graus do bico da grande área adversária e Alex Telles se tornou o melhor cruzador do campeonato.

A perda de Fernando (um centromédio que não lança e que apresentava um passe curto falho, porém, um excelente senso de posicionamento, inteligência, muito bom na marcação e alguma coragem para arriscar de fora da área – poderia avançar mais) pesou, pois Souza é um jogador mais afeito à interação com os meias do que com uma marcação mais forte. Adriano, definitivamente, não era esse jogador, por apresentar n falhas em muitos quesitos (passe, marcação, e por aí afora). E Souza passou bastante tempo lesionado. A partir dessas premissas, entende-se que o plantel tricolor realmente viu com simpatia esse desenho tático por sentir-se mais protegido, além de reconhecer que falta velocidade e técnica à maioria dos jogadores mais experientes.

Como diz Paulo Vinicius Coelho dos canais ESPN, no futebol contemporâneo, o volante é a posição mais importante de qualquer time.

Eis que surgiram na parada os meninos Ramiro e Matheus Biteco. O primeiro, apesar de pequenino, é mais regular e melhor na marcação. Possui um excelente lançamento (que já ocasionou duas belíssimas assistências) e gosta de arriscar finalizações de longa distância. Já o irmão do meio e mais recuado membro da família Bittencourt apresenta um toque de bola mais refinado e maior coragem de avanço, mas é irregular e carece de uma maior força na marcação.

Pois Adriano foi desbancado por Ramiro e Matheus Biteco ainda parece não estar pronto.

ZÉ ROBERTO É – TECNICAMENTE – O MELHOR JOGADOR DO GRÊMIO. POR QUE O TIME PARECE PIOR DESDE QUE VOLTOU DE LESÃO?

Zé Roberto é meu contemporâneo: sou um perna-de-pau mais do que pavoroso que teve o imenso prazer de ter podido acompanhar a sua carreira por todos os clubes pelos quais passou:  Portuguesa, Real Madrid, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, Santos, Hamburgo e Grêmio.

Pois em QUASE TODOS esses clubes (sem exceção), Zé Roberto foi utilizado como LATERAL-ESQUERDO (quando possuía mais fôlego e velocidade) ou como… VO-LAN-TE.

Ouso aqui estabelecer um paralelo com um grande craque alemão que também teve carreira longeva – Lothar Matthäus: Matthäus começou como meia. Ele corria o campo inteiro, batia faltas, escanteios, lançava, chutava de fora da área e, de quebra, ainda ajudava na marcação. Ele foi aquilo que Steven Gerrard era no Liverpool enquanto ainda tinha pernas e não sofria com as constantes lesões dos últimos anos. Maravilhoso.

Mais adiante, Matthäus recuou para a volância, com menos necessidade de correr e, sim, de fazer a bola e os companheiros correrem. Já no final da carreira, foi um excelente zagueiro, eventualmente atuando até como líbero, em função de sua técnica apurada.

Enfim… Voltemos ao Grêmio: Zé Roberto é um OPERÁRIO. Caraterizou-se por isso durante a sua vida inteira – e, justamente por isso, tornou-se ídolo no exigente Bayern, com direito a um setor inteirinho do museu da Allianz Arena em sua homenagem.

Diria que Renato tem duas opções para que o 3-5-2 não se torne manjado, a partir de um – a meu ver – correto posicionamento de Zé Roberto:

a) Efetivá-lo como volante e passar o menino Ramiro para o banco, como uma opção interessante para si e não para Souza (assim como acho que o reserva de Souza é Matheus Biteco): a técnica de nosso camiseta 10 e a amplitude da visão do campo inteiro que se tem a partir do miolo do gramado favorecem as suas principais características e respeitam as limitações do seu corpo;

b) Testá-lo como líbero: no Brasil, salvo Sebastião Lazaroni, os outros técnicos de renome que utilizam ou utilizaram o 3-5-2 (Tite, Celso Roth e Renato) incorrem no equívoco de o zagueiro-central não atuar efetivamente livre. Isso mostra que ele não é um a mais para surgir como um efeito-surpresa no ataque. Logo, não se escolhe o responsável por essa posição devido à sua técnica ou devido ao seu fôlego mas, sim, apenas mais um grandalhão, ainda que, no caso do Grêmio, Rhodolfo seja menos lento e mais técnico do que todos os seus medíocres colegas de posição (Werley, Gabriel, Bressan, Saimon, etc.).

E aí? O que vocês acham? ;)

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A FORMAÇÃO DE JOGADORES SUBSTITUÍDA PELO MARKETING

Jamais seria louco de remar contra a maré e de negar a necessidade e a importância do marketing esportivo. Tampouco nego que – atualmente – o jogador precise ser uma empresa repleta de assessores para agenciar a sua carreira (os mais promissores e os já consagrados contam com assessoria de imprensa contratada, media training para não falarem muitas bobagens, estilista pessoal, marca própria, etc.). Afinal de contas, ele é um componente-chave dentro de uma cadeia produtiva.

Contudo, a recente contratação de um jogador chinês pelo Corinthians e as falhas da Lei Pelé nocivas aos clubes põem em sério risco a priorização da formação de jogadores nas categorias de base por parte dos grandes clubes brasileiros.

Apesar do fantástico exemplo do Barcelona – cujo investimento em La Masia é crescentemente recuperado dentro e fora do campo (inclusive no Brasil e na Argentina) – temos, no Brasil, um fator limitador: os clubes só podem firmar um contrato profissional com jogadores a partir do dia em que eles completarem 16 anos de idade. Antes, eles são agentes livres – podem sair gratuitamente para qualquer lugar, sem que a instituição formadora seja minimamente ressarcida.

A partir da Lei Bosman na Europa, as leis trabalhistas passaram a impedir os clubes de ter aquilo que chamávamos antigamente de “passe” – apesar da multa rescisória pela negociação anterior ao prazo definido nos ora ditos “direitos federativos” resultar quase na mesma condição anterior. Além disso, por uma questão de isonomia e para evitar qualquer jurisprudência trabalhista nesse sentido, seria injusto com outras categorias profissionais ou flexibilizar, ou tornar mais rígida a condição do atleta profissional. Portanto, a solução precisa de um outro mecanismo – mesmo que seja necessário abrir uma exceção jurídica, o que nossos amigos da área do Direiro podem ajudar a operar com as devidas salvaguardas para evitar o risco da jurisprudência. Se não agirmos nesse sentido, casos de aliciamento como o deste triste exemplo irão minar o interesse dos grandes clubes em seguirem bancando as categorias de base.

Se o que interessa é expandir o universo de consumidores e de fãs, apesar de o nosso país ser demograficamente vasto, a fidelidade, a identidade regional, a tradição familiar e a necessidade de faturar cada vez mais para contratar e reter talentos são limitadores do crescimento do público de um clube. Apesar de a globalização levar à procura rumo aos mercados superpopulosos e financeiramente prósperos da Ásia, a pesquisa da Pluri Consultoria sobre o torcedor brasileiro aponta para uma maior proximidade do fã para com a sua respectiva identidade regional.

Mesmo assim, demográfica e culturalmente, não posso afirmar, hoje, que haja – demográfica e culturalmente – certeza de que a maioria dos jogadores que poderão vir a proporcionar frutos valiosos para o nosso Grêmio em um futuro próximo repliquem a mesma lógica que permeou a maioria de nossas equipes multicampeãs (isto é, a de jogadores predominantemente gaúchos feitos em casa). Todavia, a forma com que os agentes (insisto: mal denominados como “empresários”) prospectam, oferecem e adquirem os meninos como mercadorias faz com que eles circulem de maneira muito precoce por mercados aos quais a maioria deles terá imensa dificuldade de adaptação.

Paralelamente, temos um exemplo bastante próximo do RS no Uruguai, onde a AUF, sob o comando do técnico Óscar Tabarez, tem obtido resultados extremamente significativos dentro de campo e – mais do que isso – contribui para um culturamento formal mais amplo, reduzindo a chance de os jogadores serem descartados como qualquer bem de consumo material de obsolescência programada. A intenção uruguaia é bem diferente da brasileira, que é uma réplica do que ocorre na maioria dos grandes centros europeus: enquanto nossos vizinhos cisplatinos investem na formação do cidadão, do homem culto, politizado e autônomo em relação ao seu futuro, sabedor da sua identidade sociocultural, aqui se tem muito medo de que os jogadores deixem de ser as ovelhinhas preferidas por muitos técnicos e dirigentes.

A formação uruguaia traz consigo um gigantesco bônus para o futebol: ao invés de seguidores, líderes; ao invés de alienados e/ou semianalfabetos, profissionais capazes de se manifestar como formadores de opinião qualificados; ao invés de respostas evasivas, de polemizações desnecessárias e de um falso bom-mocismo, entrevistas mais francas e mais repletas de significado, com as quais a mídia e os torcedores terão muito a aprender.

Em função de todo esse contexto, precisamos urgentemente de uma verdadeira UNIÃO dos clubes para que as comissões + cessão ou divisão dos direitos federativos de todo e qualquer menino das categorias de base para agentes FIFA não ultrapasse os 30% e que, neste caso especialíssimo – o dos atletas em formação – o primeiro contrato profissional possa ser firmado aos 12 anos.

Finalmente, que todo e qualquer clube dito profissional deva necessariamente manter e desenvolver sempre TODAS as categorias de base, a fim de manter-se federado e presente em ligas competitivas. Isso garantiria a geração de empregos em todas as instâncias do futebol e tornaria a ação dos agentes mais transparente.

Contudo, há um fortíssimo entrave para a concretização desse modo de trabalho: a poderosa articulação entre dirigentes e patrocinadores que faturam alto com as constantes transações e agentes que funcionam ora como mecenas, ora como agiotas. E se esse tipo de relacionamento promíscuo ocorre até mesmo no seio dos clubes (eventuais diretores de escolinhas inescrupulosos, conselheiros que tormaram-se agentes e o costumeiro constrangimento que impede que conhecidos e partidários desses entes revelem a verdade).

Na área da Administração, costuma-se incentivar o empreendedorismo afirmando-se que, para toda a ameaça, surge uma oportunidade. Eis, portanto, o meu, o teu, o NOSSO desafio para, ainda que lentamente, possamos alterar esse estado de coisas que é comprovadamente nocivo ao Grêmio.

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