INTERNET: CULTURA GLOBAL DE GUETOS EM REDE

Em um primeiro momento, a internet não é aquele espaço tão democrático como se pensava. Em termos técnicos e idealistas (muito em função de o Brasil possuir o maior e melhor programa de inclusão digital do mundo para a população de baixa renda), poder-se-ia até dizer que sim. Contudo, o fato de a internet possuir uma dimensão infinita e de proporcionar maior independência de criação e uma ampla pluralidade de opiniões não significa necessariamente poder e autonomia para todos os plugados.

A maioria esmagadora dos sites é encontrada através de um punhado de ferramentas de busca – ferramentas que põem freqüentemente no topo da página inicial do resultado de qualquer busca não necessariamente os links mais visitados, os mais completos sobre determinado assunto e nem tampouco os preferidos da maioria dos internautas, pois a preferência vai para aqueles que pagam mais para aparecer melhor. Apesar da enorme gama de inteligências e de produtos que vão além do site de buscas, o que vale mesmo é o binômio publicidade e negócio – uma fórmula bem antiga que muitos devem conhecer.

80% dos internautas não passam da primeira página de busca. Apenas 10% passam da terceira. Além disso, a proporção de resultados encontrados em inglês é maior do que a diferença entre a quantidade de sites existentes em inglês e a quantidade de sites encontrados em outras línguas.

À exceção dos sites de órgãos do governo (tanto daqui quanto de qualquer outro país – um serviço muito procurado em todo o planeta) e das grandes universidades, a terceira grande parcela dos sites mais visitados e mais referenciados do mundo são os portais da mídia corporativa.

Apesar da enorme queda na circulação de jornais impressos nos últimos 20 anos no mundo inteiro, da recente porém contínua queda da audiência da TV aberta no Brasil e do envelhecimento do público leitor dos jornalões e que assiste aos telejornais e ouve notícias no rádio, a maioria das pessoas tende a preferir encontrar na internet os mesmos assuntos com o mesmo viés dos seus gostos e valores desenvolvidos no cotidiano e também através da mídia de massa.

De fato, a mudança de hábito de apropriação técnica e de transformação de valores e de discursos pela qual estamos passando trouxe com muita força a percepção da necessidade de um sistema de relacionamento, de troca de informações e de aprendizagem horizontal cujos caminhos são 100% definidos individualmente, descentralizado, infinito e imensuravelmente segmentado imposto de cima para baixo em detrimento de um sistema intrusivo, massivo, segmentado, impessoal e que não lida com o interesse de cada um, apenas com interesses definidos por terceiros que juram que vão conseguir obter o mesmo efeito sobre uma multidão que se move junta somente enquanto for necessário resolver um determinado assunto em comum, mas que preza a liberdade e a individualidade acima de qualquer coisa.

Muito mais do que desencaixes, desencontros, falta de noção de identidade e uma tentativa muitas vezes perdida, desorganizada e até mesmo violenta (neotribalismo) de retornar à afetividade, ao encontro e ao reconhecimento de si, do outro e do mundo justificados por uma crença tardia na teoria hipodérmica, a dificuldade pessoal e coletiva da maioria das pessoas que têm acesso mas que passam longe de um computador é a de aceitar conviver em um ambiente ubíqüo no qual o tempo e o espaço estão dissociados e onde ainda não é possível perceber a relação mediada apenas por três sentidos (visão, audição e fala).

Todas essas constatações não apontam necessariamente para um mundo melhor e nem pior mas, sim, diferente. Hoje, creio que a questão da concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos é anti-democrática quando a maioria das pessoas humildes acredita piamente na TV ou no rádio e quando o alcance dos jornais feitos para donas-de-casa conservadoras de classe média passa a abarcar uma parcela muito maior da sociedade.

Nesse ponto, a população menos letrada porém mais curiosa é mais crítica. Mesmo com o ensimo público sucateado resultando em semi-analfabetos com 3º grau, há uma série de estímulos que aguçam a inteligência e despertam a pró-atividade rolando através de uma pedagogia informal e, não-raro, não-escolar.

Em função disso, as corporações de mídia precisarão gastar centenas de vezes mais recursos a fim de segmentarem seus veículos para uma audiência não apenas heterogênea e segmentada como quase individual, que prefere receber informações personalizadas. Na internet, isso é fácil e barato. No papel e na TV, mesmo com a TV digital (que também será concentrada nas mãos dos mesmos poucos e irá oferecer um nível de segmentação de conteúdo bem menor do que o da internet, dos jornais e das revistas – não se iludam), é uma brincadeira tecnicamente quase inviável.

Muito se idolatra a liberdade de expressão, a diversidade de opiniões, a criatividade, a multiculturalidade, a transdisciplinaridade, a convergência midiática e uma forma mais sensível de se relacionar através de um ambiente no qual não somos meros receptores mas, sim, produtores/usuários/interagentes ao mesmo tempo. Porém, toda essa liberdade só torna-se evidente no sentido de “cada um faz o seu do jeito que quiser” e “cada um vai atrás do que bem entender na ordem que quiser”.

O fato de executar uma série de ações simultâneas como, por exemplo, postar no blog, enviar o orçamento de um trabalho para um cliente por e-mail, fazer videoconferência com um professor, combinar uma cervejada por mensageiro instantâneo e acompanhar as últimas notícias do seu time no portal tende a pulverizar ainda mais as opiniões.

Dessa forma, creio que a auto-organização das redes sociais (tanto online como presenciais) tende a reproduzir reuniões visando reivindicar uma quantidade cada vez menor de pautas em comum, porém de uma maneira cada vez mais global, a partir de um número cada vez maior e mais heterogêneo de atores.

A isso dou o nome de metaefemeridade, ou uma efemeridade do efêmero, onde eu posso simultaneamente fazer parte de uma multidão que exige plano de saúde integral para todos em uma empresa japonesa, verba municipal para comprar o último terreno baldio da minha rua a fim de cultivar uma horta comunitária, a cabeça do técnico do meu time de futebol na Inglaterra e contribuir com um fundo contra a miséria no Uzbequistão.

Tudo isso se resolve ou não de maneira muito veloz e a simultaneidade de atividades é apenas parcial, assim como a intersecção de indivíduos com mais de um interesse em comum tende a ser cada vez menor.

Enfim, embora a sociedade urbana contemporânea esteja completamente midiatizada, vejo a mídia (tanto a ‘boa’ como a ‘má’) como um instrumento a serviço de um poder maior, ao invés de ser a materialização do poder. Porém, à medida que eu e centenas de milhões de leigos vamos nos apropriando da técnica e da discursividade como produtores e usuários de veículos não-massivos e em rede, grande parte do discurso midiático cai no ridículo.

E não pensem que ele cai no ridículo apenas para os tecnófilos ou para os ricos: do contrário, Serra teria sido eleito presidente – e em 1º turno.

Peço desculpas por não ter citado direta ou indiretamente vários autores que inspiraram este post. Perdoem-me também por não ter aprofundado diversos conceitos dos quais me apropriei, mas acho que pude dar uma idéia geral do que eu penso. Tem um quê de Bauman, Maffesoli, Giddens, Foucault, Marcondes Filho, Fragoso, Lèvy, Hardt e Negri, De Masi, Adorno, Horkheimer e outros.

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A MÍDIA CORPORATIVA DENTRO DE UM SISTEMA CONSERVADOR

A mídia corporativa, Grande Mídia ou MSM (Mainstream Media) é um problema. Porém, não é exatamente um problema para todos. Mesmo com os Trump, Murdoch, Berlusconi e Marinho da vida atuando em muitos países, há um incontável contingente de seguidores dos valores irradiados por esses protagonistas. O problema maior é a forma como a mídia corporativa estabeleceu-se no Brasil. As corporações de mídia daqui estabeleceram-se através de oligopólios familiares associados a grupos midiáticos estado-unidenses, banqueiros, megacorporações globais, latifundiários e políticos corruptos. Essa casta jamais irá regular o setor do qual tomam conta em prol da sociedade.

Tal modo de produção baseado nesse modelo econômico é extremamente nocivo e espraia-se através de milhares de tentáculos pelo mundo inteiro. No entanto, é preciso perceber que, apesar disso, não é exatamente a mídia corporativa (recursos financeiros + meios técnicos + mentalidade de seus donos + competência técnica, perspicácias e artimanhas dos editores) o principal problema da democracia. Dentre tantos problemas poíticos, econômicos e sociais, embora este seja um problema que, de certa maneira, interfere nos demais, ao mesmo tempo, essa mídia não representa o pior dos problemas que nos afligem.

Contraditório? Não: é apenas uma constatação. O problema maior é o baixo grau de solidariedade, de compaixão, de capacidade de desenvolvimento sustentável, de auto-estima, de confiança e de empreendedorismo consciente e responsável. Embora os valores dos donos do capital sejam reverberados pela mídia corporativa, caso houvesse interesse em promover o esporte, a cultura e o respeito, já teriam sido adotados valores capazes de originar um verdadeiro projeto de nação.

A mídia corporativa não manda nada: ninguém lê, ouve ou assiste o seu conteúdo com uma arma apontada para a cabeça. Mesmo na falta de qualidade conteudística, ninguém é obrigado a manter seus olhos e ouvidos antenados para a mensagem dela: há várias outras formas de lazer, cultura e informação disponíveis – mesmo sem dinheiro, há muito o que ver pela cidade e muita gente para conversar. Quem acredita ou deixa de acreditar em alguém ou em alguma coisa, ou acredita que acredita e sente-se bem com esse condicionamento, ou acredita que não acredita e vai buscar outra coisa pra fazer.

Como não existe unanimidade nem consenso (apenas uma tentativa discursiva de), seus donos e editores conseguem apenas um determinado grau de convencimento junto a determinados nichos dentro do universo que julgam compor sua audiência. Assim, o fazer técnico da mídia corporativa busca satisfazer os interesses dos políticos, do latifúndio, dos bancos e das megacorporações globais através de demandas que, caso atingidas, por tabela também irão beneficiar o negócio dos donos da mídia e tornarão mais famosos os seus funcionários mais pelegos.

Obviamente, como o negócio deles é grana a qualquer custo, se eles não tivessem uma ampla base de consumidores conservadores, mesmo que jamais pendesse à esquerda, seu discurso seria menos extremista, a fim de evitar perder pontos na audiência. Conseqüentemente, os abusos da mídia corporativa só ocorrem porque a sociedade em geral não é necessariamente influenciada mas, sim, porque ela alimenta o conservadorismo e os valores neoliberais de volta para a mesma mídia corporativa. Esta, por sua vez, aperfeiçoa e modifica o seu discurso em função do retorno (feedback) desse receptor, seja ele conservador ou não, procurando agradar mais ao perfil dos conservadores.

O procedimento técnico e a ideologia escolhidos para defender os interesses dessas oligarquias (manipulação, mentira, omissão, espetacularização, etc.), por sua vez, também é utilizado pela mídia dita pequena, seja esta militante de esquerda ou não. Afinal de contas, todos têm um lado e isso não pode ser escondido. A única verdade é que a maioria dos indivíduos deseja convencer o outro de que estão certos. Todos adorariam que houvesse um pensamento único voltado para a preservação dos seus próprios valores e do status quo. Em uma análise sincera e sem hipocrisia, o mundo seria muito mais tranqüilo, seguro e a vida seria muito mais fácil se não houvesse necessidade de discutirmos, certo?

As únicas regras
estabelecidas pela mídia são as regras que ela impõe aos integrantes de outros campos sociais para discursarem sob a formatação de suas técnicas e enunciados quando precisam aparecer através dela. Isso posto, a mídia como um todo (até mesmo a pequena, alternativa ou não-corporativa) serve como um megafone para espraiar toda e qualquer
ideologia, pois a política, a economia e a comunicação estão presentes em tudo e em todos. Ela serve de tradutora do discurso dos vários campos sociais através de uma gramática (falas, gestos, entonação, vocabulário)
didaticamente genérica, a fim de que os mais diversos segmentos da
sociedade laica conheçam aquilo que cada campo deseja revelar de si ou
como os seus mediadores acham que enxergam esses campos sociais.

Dessa forma, a denúncia e a investigação sobre tudo e sobre todos não faz parte desse modelo econômico. A pluralidade, a neutralidade e a objetividade não passam de simples mitos, já que o jornalismo não exprime “A” verdade mas, sim, uma dentre tantas verdades possíveis contada e editada por alguém que, como sujeito, interfere na sociedade e é afetado por ela, de tal sorte que essa vivência define a forma que sua história irá tomar e para quem ela será contada.

Então, os veículos que EU escolho para me dar a sensação de estar bem informado ou os veículos que EU escolho para criticar através de suas contradições que fazem com que eu me sinta mal informado também dependem da minha vivência, das minhas influências e do meu poder individual e exclusivo de intervir em meu próprio ambiente.

O fato de eu acreditar que acredito ou de acreditar que não acredito em algo ou em alguém pode mudar. Porém, esta mudança, na maior parte das vezes, far-se-á de maneira lenta e gradual. Mudando ou não, nada garante que eu esteja certo depois de mudar, ou que eu estivesse certo enquanto pensava da maneira anterior. Ao mesmo tempo, os valores são tantos que há diferentes pesos entre certezas e incertezas. Portanto, mesmo um analfabeto faminto perdido no meio do mato com uma TV onde só pega o canal 12 não é necessariamente influenciável por todos os enunciados da mídia.

O cerne da discussão não deve
ser técnico mas, sim, de uso: não importa se a mídia é grande ou
pequena, se é militante ou não, se é declaradamente de esquerda ou de
direita e nem tampouco se é plurigenérica ou se transmite um único
gênero específico: o que não pode é haver o abuso de práticas que
prejudiquem a vida, que julguem, que rotulem ou que defendam um lado
sem apresentar ou – pior – demonizar o outro.

O poder da mídia corporativa é
menor na pós-modernidade – pelo menos nas grandes metrópoles do planeta
altamente conectadas. Mesmo no Brasil nota-se essa perda de poder. Caso
contrário, o “nordestino preto analfabeto desempregado feio e burro”
teria dado ouvidos às milhares de emissoras de rádio e TV, revistas e
jornais que circulam neste imenso país.

Por conseguinte, quem decide o que é notícia, quem deve ser promovido, quem deve ser defenestrado, a quem defender, a quem atacar, quando, como, aonde, por que e a quem investigar e denunciar possui a mesma formação conservadora dos patrocinadores, de seus chefes e de boa parte da sua audiência. Essa questão explica parcialmente o fato de que o gaúcho médio não
é “tapado” do jeito que é pura e simplesmente por causa da atividade
midiática: ele é “tapado” porque, antes de existir a mídia, já haviam a
retórica, o discurso, a boataria e a coerção.

O quarto poder atribuído às corporações de mídia não existe como tal. Nem o discurso e nem as personas dos editores e dos donos das corporações de mídia possuem controle sobre a audiência e sobre o seu próprio modo de fazer. O verdadeiro primeiro poder (e não segundo, terceiro ou quarto) está muito acima do executivo, do legislativo e do judiciário. Trata-se do poder simbólico circulante na rede, onde os bancos, o latifúndio, as indústrias de armamentos, tabaco, bebidas alcoólicas, medicamentos, a indústria farmacêutica, parte do crime organizado (contrabando e tráfico de drogas, animais silvestres, plantas e pedras preciosas), políticos corruptos com as costas quentes e políticos donos de concessões das afiliadas das nove famílias articulam-se em rede. Todos se conhecem. Todos fazem negócios entre si. Todos pedem coisas uns aos outros e se esforçam ao máximo para atender e ser atendidos, custe o que custar. E todos possuem patrimônio, investimentos, perdas e ganhos em diferentes segmentos econômicos.

A questão é: como desconstruir esse sistema de redes sociais altamente profissional, competente, ágil e adaptável? Em toda a história da civilização ocidental, sempre houve uma casta nababesca e excludente que só pôde ser derrubada pela parte mais ambiciosa e mais esclarecida da casta colocada imediatamente abaixo da primeira. Ambas as castas precisam deum grande volume de pessoas, a fim de defender um lado ou outro. A massa é constituída por uma série de inocentes úteis, que não passam de meras buchas de canhão. Quem luta pelo poder político e simbólico fica na retaguarda, pois não vai correr o risco de morrer. Feita a troca de bastão, no período histórico seguinte, a mesma massa permanecerá sendo excluída. A única diferença é que a aristocracia anterior agora é decadente e serve muito bem à burguesia emergente como referência de dominação. Isso sempre ocorreu, com ou sem mídia de massa, com ou sem internet, com ou sem naves espaciais, com ou sem cavalos.

Com base na teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu, na caracterização dos mídias (grande, pequena, ruim, boa) como um campo social (Adriano Duarte Rodrigues) e na midiatização da sociedade (Eliseo Verón), chega-se à conclusão de que o campo dos mídias é o único campo social que atravessa e é atravessado pelos outros campos. Essa intromissão dos mídias nos demais campos sociais (jurídico, esportivo, médico, político, científico, religioso, militar, etc.) não necessariamente coincide com uma posição de maior poder (seja ele econômico ou simbólico).

O papel da mídia não é nem deseducar, nem educar. A mídia é tão-somente um instrumento técnico. O tipo de uso que se faz dela depende da intenção das pessoas que a patrocinam. E a crença sobre como deve-se “ensinar” a audiência a viver depende sobremaneira da ideologia e dos valores dos produtores de cada programa.

É preciso mudar a maneira de pensar e de viver como um todo. Afinal de contas, se há desinformação, omissão, manipulação descarada, tentativa de consenso através de um pensamento político e econômico único, é porque existe tanto um grupo de financiadores, de produtores e de legisladores como sobretudo uma enorme parcela de público cidadão e consumidor como protagonistas desse processo. A mídia corporativa alimenta sua audiência…

…Mas também é fartamente alimentada por ela.