A DEMOCRACIA NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA TEM LIMITE

Depois de tanto tempo lendo críticas pertinentes porém, em sua maioria, infelizmente inócuas a respeito do discurso da Grande Mídia, passei a me interessar pelo ativismo em rede em pequena escala e pelo empoderamento dos excluídos através do ensino e da prática do uso simultâneo de uma série de mídias sociais, pois tanto a mídia de massa precisa da blogosfera alternativa, ativista e politizada como esse nicho precisa da mídia de massa. Do contrário, o gigantismo e a arrogância da mídia corporativa irá sempre perder espaço para o jornalismo cidadão e a blogosfera ativista será lida sempre por meia dúzia de gatos pingados.

Prefiro fazer coisas mais produtivas do que ficar criticando o que os jornais ou a TV dizem o tempo inteiro por quatro razões atravessadas entre si (isto é, todas influenciam e são influenciadas, refletem e são reflexo das outras em infinitos graus de crença, de agendamento e de práticas sociais):

1) A mídia corporativa sempre irá defender o lado de seus patrocinadores, dos políticos que podem ajudá-la a reduzir encargos trabalhistas, impostos e pagar menos pelos insumos que utiliza. Quem se opuser a eles em questões pontuais, será defenestrado, mesmo que já tenha sido muito seu amigo. E quem sempre se opôs a seus interesses explícitos e ocultos jamais deixará de ser ou ignorado, ou criminalizado. Porém, a Pequena Mídia também possui patrocinadores, valores e interesses que podem, um dia, deixar de ser valores universais e perderem o seu caráter de tentativa de eqüidade social, tornando-a um pouco direitista e fazendo com que a reação da direita seja um pouco esquerdista sem nenhum constrangimento ou contradição;

2) Mesmo os seus profissionais mais honestos e competentes são conservadores que escrevem para uma esmagadora maioria conservadora. No dia que a esquerda tiver um poder semelhante ao da direita, ela também se tornará tão excludente, criminalizadora e totalitária quanto sua ideologia mais siamesa do que oposta em vários sentidos;

3) A clara contradição de copiar, linkar e citar o grosso das posições com as quais a esquerda concorda ou discorda a partir da informação publicada pela própria mídia corporativa em relação ao pequeno número de citações sobre a mídia declaradamente de esquerda (ou, se não for de esquerda e nem nanica, que pelo menos não tenha o péssimo hábito de brigar com a notícia);

4) Logo, o PIG só é PIG e ele só possui um pensamento único quando convém, seja à esquerda, seja à direita. Sim, ele é contraditório, mentiroso e comprometido com a direita. Mas, ao mesmo tempo, ele não deixa de orientar, de situar, de informar e de realizar algumas denúncias e investigações mais cidadãs, de interesse comunitário e solidário – nem que exerça um jornalismo honesto, tecnicamente correto e socialmente relevante em não mais do que  15% a 20% de seu conteúdo.

O mundo da mídia apresenta muitos exemplos que justificam a minha posição. Talvez o mais significativo seja o da Inglaterra, que tem a grande mídia menos desonesta, mais educativa e mais controlada por um governo (ao menos juridicamente tido como) democrático em todo o planeta. Nem por isso sua população altamente escolarizada e com alto poder de compra deixou de ser conservadora ou passou a protestar nas ruas de maneira sistemática.

No plano político, caso a esquerda (a inteligente e coerente – infelizmente, uma pequena minoria) tivesse dinheiro e poder, acabaria criando uma mídia hegemônica às avessas que, por sua vez, tornar-se-ia autoritária e mentirosa às avessas. Além disso, as ações políticas e sociais públicas ou privadas verdadeiramente voltadas para aqueles que mais precisam são muito pequenas e ainda deixam muita gente de fora (até mesmo a política de cotas nas universidades, o Bolsa Família, o investimento pesado em pesquisa acadêmica, o piso nacional para professores de escolas da rede pública, o aumento salarial para boa parte do funcionalismo federal, o investimento em infra-estrutura e a independência do FMI e dos EUA até determinado ponto).

Os próprios políticos são extremamente movidos por interesses diversos, que os impedem de votar 100% a favor do programa ou da ideologia a qual pertencem. Portanto, o ativismo em rede voltado para a solução presencial a partir de um chamamento e de um esclarecimento não-presencial e pulverizado na rede tende a ser mais eficiente como mecanismo de resistência, desde que não almeje o poder e exerça uma pressão sistemática e descentralizada sobre todas as formas de opressão e exclusão (econômica, simbólica ou coercitiva).

Por mais regulado que seja um mercado de mídia por qualquer governo, em qualquer lugar e a qualquer época, a dominação de qualquer viés político-ideológico via mídia de massa como instrumento de propagação de valores depende menos da ignorância de quem não tem estudo e é pobre, da cantilena reacionária ou do exercício da falácia de que “a gente noticia aquilo que o nosso consumidor quer”: afinal de contas, repito mais uma vez que a esmagadora maioria da população é ou torna-se conservadora com o passar do tempo.

Isso leva a outro ponto: não dá pra forçar a barra exigindo uma lei que restrinja os investimentos em mídia de quem é hoje hegemônico e que proíba ou regule qualquer viés discursivo: primeiro, porque eles podem cobrar o mesmo do lado oposto (jurisprudência); segundo, porque, mesmo que se casse as concessões irregulares, a rede social dos ricos é infinitamente mais inteligente, ampla e complexa do que a dos pobres ou da esquerda, pois eles sabem se relacionar melhor entre si e defendem com maior unidade seus interesses.

Isso explica facilmente os tentáculos de Rupert Murdoch em mais de 100 países: aonde puder, ele fará uso de lobby político, econômico e simbólico. Porém, em muitos lugares, ele não precisa entrar na política, não precisa de uma bancada parlamentar parceira e nem tampouco burlar leis de concessões. O que o impede de comprar zilhões de veículos caso não seja comprovada nenhuma atividade ilegal? Afinal de contas, ele não precisa ter ações nem patrimônio em seu nome nem no de qualquer parente ou funcionário seu. Tudo  isso se arranja sem burlar a lei.

Por fim, a Lei da Potência, Curva de Paretto ou Cauda Longa é um processo que não foi até hoje convincentemente contestado nem pela Matemática, nem pela Biologia e nem pelas Ciências Sociais: a humanidade sempre possui infinitas formas de escolher uma referência e a ela dar credibilidade. Sua preferência por um e não por outro é algo muito mais profundo e subjetivo do que a crença do senso comum de esquerda de que qualquer valor individual tem como origem os embates e as crenças político-partidárias, midiáticas ou econômicas. Sim, elas fazem parte. Contudo, não explicam as preferências e as repulsas por si próprias.

Mais um exemplo: digamos que fosse possível igualar o alcance (ou a tiragem) de TVs, rádios, jornais, revistas; igualar os valores de todos os padrões de anúncios publicitários nessas mídias; obrigar todos os veículos a terem vários concorrentes do mesmo setor anunciando ao mesmo tempo; fiscalizar a ocorrência de matérias pagas; garantir a distribuição de mídia impressa nos mesmos pontos de venda, na mesma quantidade de exemplares e com a edição seguinte de tudo que uma banca vender chegando ao mesmo tempo e possuindo igual espaço na vitrine…

…Mesmo assim, mesmo que houvesse eqüidade e diversidade de opiniões, cada uma com uma definição ideológica clara, o consumidor rapidamente se encarregaria de optar por algumas referências, pois não tem tempo nem vontade de comparar posições diferentes. Ele vai acabar indo atrás daquela opinião com a qual concorda mais.

Conseqüentemente, a escolha do cidadão e do consumidor a partir da sua liberdade de expressão e de ter o direito a consumir o produto que bem entender irá desequilibrar novamente o mercado midiático, que terá toda a razão em cobrar a perda de anunciantes em função dessa eqüidade artificial e forçada, pois até os pequenos estarão ao lado dos grandes em uma questão de subsistência.

Obviamente, em termos de democracia, a inclusão cidadã de novos internautas, as rádios e TVs digitais, a não-criminalização de rádios comunitárias, a execução e obediência das leis de concessão de emissoras e restrições à baixaria na programação proporcionarão um maior empoderamento social a partir da própria experiência do sujeito no manejo de uma mídia pequena. No entanto, o que impediria que uma corporação de mídia conservadora, muito rica e com patrocinadores poderosos mesmo agindo à luz da legalidade de comprar veículos, distribuir infra-estrutura e empoderar à sua maneira pequenas comunidades fornecendo cursos e montando rádios, TVs e jornais comunitários?

Diante de tudo o que foi exposto neste longo artigo, de maneira chutada, diria que se, hoje, sob esta lei da selva e nestas condições econômicas e culturais, o senso crítico e os valores mais progressistas apreendidos pelos raros consumidores da Pequena Mídia não passariam de 5% a 10% da população, mesmo diante do quadro ideal que eu pintei nos parágrafos anteriores, duvido muito que mais do que 30% da população deixaria de seguir um modus operandi conservador.

Finalmente, comprova-se cada vez mais aqui no Brasil a complementaridade da blogosfera ativista independente com a divulgação de suas demandas através da mídia de massa, em uma relação na qual essa mídia de massa passa a perder credibilidade caso deixe de divulgar a notícia a respeito dos micropoderes dispersos em rede, capazes de comer seus pés de barro. A exemplo do que já se verifica nos EUA há mais de meia década, Atualmente, aqui no Brasil, já podemos comprovar que, na maioria das vezes, os blogs só adquirem maior visibilidade quando citados pela mídia de massa e que eles têm o poder de mobilizar e de fazer política de baixo para cima intercambiando a troca de informações e a sociabilidade tanto no ambiente online (tecnologias da informação e da comunicação – blogs, e-mail, mensageiros instantâneos, etc.) como no offline (encontros presenciais).

Pesquisadores experientes e iniciantes (que é o meu caso) têm realizado pesquisas  acadêmicas que apontam nessa direção, através da análise quantitativa e/ou discursiva da audiência de blogs e do conteúdo de seus links, posts e comentários, cruzadas com entrevistas qualitativas. É  a adaptação da etnografia (método consagrado no início do século XX pela antropologia) para aquilo que chamamos de netnografia ou etnografia digital, onde o pesquisador realiza um trabalho militante de envolvimento pessoal com o público observado, que só funciona quando os depoimentos presenciais e o material coletado na ida ao campo (no meu caso, um coletivo de blogs bastante significativo no cenário gaúcho de resistência ao neoliberalismo e ao autoritarismo) são tensionados por teorias das áreas da Comunicação, das Ciências Sociais e da Filosofia, cada vez mais atravessadas por alguns princípios da Biologia e da Matemática que não podem ser ignorados.

Por enquanto, isso é o que eu concluo de tudo o que eu já vi sobre midiatização, economia política da comunicação e das discussões sobre a democratização dos meios de comunicação.

BREVE CRÍTICA DO JORNALISMO

Mais do que tentar influenciar e realizar a manipulação, a distorção, a descontextualização e a omissão, QUALQUER tipo de mídia (seja a corporativa ou a alternativa) produz enunciados que revelam não apenas os interesses dos seus patrocinadores financeiros e políticos como também seus próprios interesses cruzados em negócios paralelos através do conservadorismo da classe média ou do idealismo de menos de 20% dos integrantes de cada classe social.

Pobre quase não lê jornal ou revista: mídia de pobre é TV aberta e rádio. Quando uma pessoa pobre de pouco estudo e sem nenhum tipo de engajamento político ou social relevante ascende socialmente – se já não é – torna-se conservadora e entra no ciclo dos graúdos, tendo-os como referência de sucesso. A essa altura dos acontecimentos, eles nem querem saber se 80% dos ricos obtém seu lucro de maneira ilícita.

A mensagem trafega por uma via de mão dupla, de tal forma que a mídia influencia e é influenciada pela sociedade. As palavras são escritas sob encomenda do público-alvo. O jornalista é um romancista, um cronista ou um ensaísta de ficção que conta uma história segundo seu modo particular de ver o mundo, mas não percebe isso: ele acredita estar lidando com a verdade. Ele acredita ser imparcial. Ele acredita estar prestando um serviço de utilidade pública relevante à população. Contudo, verdade e imparcialidade não existem: cada um conta a sua versão e fim de papo.

No caso da mídia corporativa, ela escreve para pessoas conservadoras e eleva ao cargo de editor e de repórter-sênior na maioria das vezes profissionais conservadores.

Isso não deveria surpreender a ninguém. Afinal de contas, quem critica essa mídia corporativa como nós o fazemos sabemos muito bem que pouquíssima gente possui interesse e preparo para perceber que não faz parte do público-alvo desses jornais e revistas.

Logo, seria mais producente criticar suas palavras a partir de algum resultado prático nocivo ao exercício da cidadania sob uma visão de esquerda.

A chave que torna as histórias menos falsas chama-se EDUCAÇÃO.

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A MÍDIA CORPORATIVA DENTRO DE UM SISTEMA CONSERVADOR

A mídia corporativa, Grande Mídia ou MSM (Mainstream Media) é um problema. Porém, não é exatamente um problema para todos. Mesmo com os Trump, Murdoch, Berlusconi e Marinho da vida atuando em muitos países, há um incontável contingente de seguidores dos valores irradiados por esses protagonistas. O problema maior é a forma como a mídia corporativa estabeleceu-se no Brasil. As corporações de mídia daqui estabeleceram-se através de oligopólios familiares associados a grupos midiáticos estado-unidenses, banqueiros, megacorporações globais, latifundiários e políticos corruptos. Essa casta jamais irá regular o setor do qual tomam conta em prol da sociedade.

Tal modo de produção baseado nesse modelo econômico é extremamente nocivo e espraia-se através de milhares de tentáculos pelo mundo inteiro. No entanto, é preciso perceber que, apesar disso, não é exatamente a mídia corporativa (recursos financeiros + meios técnicos + mentalidade de seus donos + competência técnica, perspicácias e artimanhas dos editores) o principal problema da democracia. Dentre tantos problemas poíticos, econômicos e sociais, embora este seja um problema que, de certa maneira, interfere nos demais, ao mesmo tempo, essa mídia não representa o pior dos problemas que nos afligem.

Contraditório? Não: é apenas uma constatação. O problema maior é o baixo grau de solidariedade, de compaixão, de capacidade de desenvolvimento sustentável, de auto-estima, de confiança e de empreendedorismo consciente e responsável. Embora os valores dos donos do capital sejam reverberados pela mídia corporativa, caso houvesse interesse em promover o esporte, a cultura e o respeito, já teriam sido adotados valores capazes de originar um verdadeiro projeto de nação.

A mídia corporativa não manda nada: ninguém lê, ouve ou assiste o seu conteúdo com uma arma apontada para a cabeça. Mesmo na falta de qualidade conteudística, ninguém é obrigado a manter seus olhos e ouvidos antenados para a mensagem dela: há várias outras formas de lazer, cultura e informação disponíveis – mesmo sem dinheiro, há muito o que ver pela cidade e muita gente para conversar. Quem acredita ou deixa de acreditar em alguém ou em alguma coisa, ou acredita que acredita e sente-se bem com esse condicionamento, ou acredita que não acredita e vai buscar outra coisa pra fazer.

Como não existe unanimidade nem consenso (apenas uma tentativa discursiva de), seus donos e editores conseguem apenas um determinado grau de convencimento junto a determinados nichos dentro do universo que julgam compor sua audiência. Assim, o fazer técnico da mídia corporativa busca satisfazer os interesses dos políticos, do latifúndio, dos bancos e das megacorporações globais através de demandas que, caso atingidas, por tabela também irão beneficiar o negócio dos donos da mídia e tornarão mais famosos os seus funcionários mais pelegos.

Obviamente, como o negócio deles é grana a qualquer custo, se eles não tivessem uma ampla base de consumidores conservadores, mesmo que jamais pendesse à esquerda, seu discurso seria menos extremista, a fim de evitar perder pontos na audiência. Conseqüentemente, os abusos da mídia corporativa só ocorrem porque a sociedade em geral não é necessariamente influenciada mas, sim, porque ela alimenta o conservadorismo e os valores neoliberais de volta para a mesma mídia corporativa. Esta, por sua vez, aperfeiçoa e modifica o seu discurso em função do retorno (feedback) desse receptor, seja ele conservador ou não, procurando agradar mais ao perfil dos conservadores.

O procedimento técnico e a ideologia escolhidos para defender os interesses dessas oligarquias (manipulação, mentira, omissão, espetacularização, etc.), por sua vez, também é utilizado pela mídia dita pequena, seja esta militante de esquerda ou não. Afinal de contas, todos têm um lado e isso não pode ser escondido. A única verdade é que a maioria dos indivíduos deseja convencer o outro de que estão certos. Todos adorariam que houvesse um pensamento único voltado para a preservação dos seus próprios valores e do status quo. Em uma análise sincera e sem hipocrisia, o mundo seria muito mais tranqüilo, seguro e a vida seria muito mais fácil se não houvesse necessidade de discutirmos, certo?

As únicas regras
estabelecidas pela mídia são as regras que ela impõe aos integrantes de outros campos sociais para discursarem sob a formatação de suas técnicas e enunciados quando precisam aparecer através dela. Isso posto, a mídia como um todo (até mesmo a pequena, alternativa ou não-corporativa) serve como um megafone para espraiar toda e qualquer
ideologia, pois a política, a economia e a comunicação estão presentes em tudo e em todos. Ela serve de tradutora do discurso dos vários campos sociais através de uma gramática (falas, gestos, entonação, vocabulário)
didaticamente genérica, a fim de que os mais diversos segmentos da
sociedade laica conheçam aquilo que cada campo deseja revelar de si ou
como os seus mediadores acham que enxergam esses campos sociais.

Dessa forma, a denúncia e a investigação sobre tudo e sobre todos não faz parte desse modelo econômico. A pluralidade, a neutralidade e a objetividade não passam de simples mitos, já que o jornalismo não exprime “A” verdade mas, sim, uma dentre tantas verdades possíveis contada e editada por alguém que, como sujeito, interfere na sociedade e é afetado por ela, de tal sorte que essa vivência define a forma que sua história irá tomar e para quem ela será contada.

Então, os veículos que EU escolho para me dar a sensação de estar bem informado ou os veículos que EU escolho para criticar através de suas contradições que fazem com que eu me sinta mal informado também dependem da minha vivência, das minhas influências e do meu poder individual e exclusivo de intervir em meu próprio ambiente.

O fato de eu acreditar que acredito ou de acreditar que não acredito em algo ou em alguém pode mudar. Porém, esta mudança, na maior parte das vezes, far-se-á de maneira lenta e gradual. Mudando ou não, nada garante que eu esteja certo depois de mudar, ou que eu estivesse certo enquanto pensava da maneira anterior. Ao mesmo tempo, os valores são tantos que há diferentes pesos entre certezas e incertezas. Portanto, mesmo um analfabeto faminto perdido no meio do mato com uma TV onde só pega o canal 12 não é necessariamente influenciável por todos os enunciados da mídia.

O cerne da discussão não deve
ser técnico mas, sim, de uso: não importa se a mídia é grande ou
pequena, se é militante ou não, se é declaradamente de esquerda ou de
direita e nem tampouco se é plurigenérica ou se transmite um único
gênero específico: o que não pode é haver o abuso de práticas que
prejudiquem a vida, que julguem, que rotulem ou que defendam um lado
sem apresentar ou – pior – demonizar o outro.

O poder da mídia corporativa é
menor na pós-modernidade – pelo menos nas grandes metrópoles do planeta
altamente conectadas. Mesmo no Brasil nota-se essa perda de poder. Caso
contrário, o “nordestino preto analfabeto desempregado feio e burro”
teria dado ouvidos às milhares de emissoras de rádio e TV, revistas e
jornais que circulam neste imenso país.

Por conseguinte, quem decide o que é notícia, quem deve ser promovido, quem deve ser defenestrado, a quem defender, a quem atacar, quando, como, aonde, por que e a quem investigar e denunciar possui a mesma formação conservadora dos patrocinadores, de seus chefes e de boa parte da sua audiência. Essa questão explica parcialmente o fato de que o gaúcho médio não
é “tapado” do jeito que é pura e simplesmente por causa da atividade
midiática: ele é “tapado” porque, antes de existir a mídia, já haviam a
retórica, o discurso, a boataria e a coerção.

O quarto poder atribuído às corporações de mídia não existe como tal. Nem o discurso e nem as personas dos editores e dos donos das corporações de mídia possuem controle sobre a audiência e sobre o seu próprio modo de fazer. O verdadeiro primeiro poder (e não segundo, terceiro ou quarto) está muito acima do executivo, do legislativo e do judiciário. Trata-se do poder simbólico circulante na rede, onde os bancos, o latifúndio, as indústrias de armamentos, tabaco, bebidas alcoólicas, medicamentos, a indústria farmacêutica, parte do crime organizado (contrabando e tráfico de drogas, animais silvestres, plantas e pedras preciosas), políticos corruptos com as costas quentes e políticos donos de concessões das afiliadas das nove famílias articulam-se em rede. Todos se conhecem. Todos fazem negócios entre si. Todos pedem coisas uns aos outros e se esforçam ao máximo para atender e ser atendidos, custe o que custar. E todos possuem patrimônio, investimentos, perdas e ganhos em diferentes segmentos econômicos.

A questão é: como desconstruir esse sistema de redes sociais altamente profissional, competente, ágil e adaptável? Em toda a história da civilização ocidental, sempre houve uma casta nababesca e excludente que só pôde ser derrubada pela parte mais ambiciosa e mais esclarecida da casta colocada imediatamente abaixo da primeira. Ambas as castas precisam deum grande volume de pessoas, a fim de defender um lado ou outro. A massa é constituída por uma série de inocentes úteis, que não passam de meras buchas de canhão. Quem luta pelo poder político e simbólico fica na retaguarda, pois não vai correr o risco de morrer. Feita a troca de bastão, no período histórico seguinte, a mesma massa permanecerá sendo excluída. A única diferença é que a aristocracia anterior agora é decadente e serve muito bem à burguesia emergente como referência de dominação. Isso sempre ocorreu, com ou sem mídia de massa, com ou sem internet, com ou sem naves espaciais, com ou sem cavalos.

Com base na teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu, na caracterização dos mídias (grande, pequena, ruim, boa) como um campo social (Adriano Duarte Rodrigues) e na midiatização da sociedade (Eliseo Verón), chega-se à conclusão de que o campo dos mídias é o único campo social que atravessa e é atravessado pelos outros campos. Essa intromissão dos mídias nos demais campos sociais (jurídico, esportivo, médico, político, científico, religioso, militar, etc.) não necessariamente coincide com uma posição de maior poder (seja ele econômico ou simbólico).

O papel da mídia não é nem deseducar, nem educar. A mídia é tão-somente um instrumento técnico. O tipo de uso que se faz dela depende da intenção das pessoas que a patrocinam. E a crença sobre como deve-se “ensinar” a audiência a viver depende sobremaneira da ideologia e dos valores dos produtores de cada programa.

É preciso mudar a maneira de pensar e de viver como um todo. Afinal de contas, se há desinformação, omissão, manipulação descarada, tentativa de consenso através de um pensamento político e econômico único, é porque existe tanto um grupo de financiadores, de produtores e de legisladores como sobretudo uma enorme parcela de público cidadão e consumidor como protagonistas desse processo. A mídia corporativa alimenta sua audiência…

…Mas também é fartamente alimentada por ela.

A RAIVA DA CLASSE MÉDIA GAÚCHA EM AÇÃO

Às vezes, o blogueiro precisa ter sorte pra sustentar seu argumento em uma pauta proposta: eis um gancho para comprovar o que a dona NITA FREIRE, viúva do grande PAULO FREIRE, disse em entrevista ao Jornalista LUIZ CARLOS AZENHA no VI O MUNDO (OUÇA):

Extraí a seguinte conversação de um tópico em uma comunidade do ORKUT. Todos os membros possuem pelo menos 30 anos de idade e não há nenhum pobre ou rico (nomes e link suprimidos):
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1) Dessa vez eu reagi.

Eu não sei se isso é uma boa ou má notícia mas me senti bem mais aliviado, com o que aconteceu.

Lembram-se que no ano passado fui assaltado dentro de um ônibus, certo ? Pois é, aconteceu de novo hoje, pleno sábado, só que dessa vez eu reagi.

O cara fingiu que estava armado, mas não estava. Estava assaltando o cobrador bem na minha frente. Quando eu vi que ele estava blefando, agarrei o braço dele, por cima da roleta e meti um direto de direita que mandou o cara ao chão. Acertei o cara mais ou menos em cheio, o olho direito dele “tapou” na mesma hora. Mas ele tentou se levantar pra fugir.

Daí foi aquilo. Cobrador e motorista e um outro funcionário da empresa “grudaram” ele.

O carinha com o dinheiro na mão e não soltava !

O que esse cara apanhou não está no mapa. Sentaram uma verdadeira surra no cara, até que ele desistiu e entregou a grana. Eu nem fiz coisa nenhuma depois que derrubei o cara. Parecia que havia uma raiva e revolta gerais, não precisava mais ninguém pra conter o chinelão.

E é com um certo constrangimento que digo que fiquei bem contente.

Ele estava visivelmente sob o efeito de drogas, resistiu bastante, mas o ônibus rumou direto pra delegacia e ainda apareceu um carro da brigada pro apoio. Uma passageira ligou do celular e eles foram chamados.

Consegui descer perto da minha casa mesmo e fui caminhando, tranquilamente, de volta ao lar..

A tentativa de assalto aconteceu por volta da 13;30 neste Sábado, dentro do ônibus T2.

Mas dessa vez o final foi diferente.

Um abraço a todos e cuidem-se sempre !!!
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2) Dááá-lhe Balboaaa!!!!!!!!!

é isso aí!
foste muito corajoso.

o direito do cidadão se defender é sagrado.
e pensar que quiseram e querem nos tirar até isso…

abraço
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É isso aí, Mike Tyson!!!

Ser sempre vítima também não dá. Ninguém agüenta mais tanta roubalheira de político, empresas, golpistas e ladrões. Eles estão achando que é fácil roubar, que ninguém faz nada, que ninguém vai reagir. Chega uma hora que a casa cai!

Não fique constrangido, amigo! Você fez o que todo mundo quer fazer.
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Tenho um grande amigo que, ao mesmo tempo em que é voluntário de um curso pré-vestibular para excluídos que obtém bastante resultados e está habituado a fazer trabalho social desde sempre, diz que, se um “vagabundo” atacá-lo no trânsito e ele tiver tempo de reagir com certa segurança, “não quer nem saber: passa por cima”.
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Eu mesmo postei um assalto do qual fui vítima defronte ao edifício ao lado do meu há cerca de 14 ou 15 meses atrás. Acabei com a sensação de otário, sem pena nenhuma de dois guris que não estavam sujos, fedendo, drogados nem mal vestidos e que, provavelmente, também não estavam armados.

O QUE FAZER?! EXISTE TER OU NÃO TER RAZÃO AO REAGIR OU DEIXAR DE REAGIR?!

Por que há formas de violência que matam mais gente no Brasil do que os crimes que não são tidas nem como crime, nem como violência?

A indignação e a falta de noção com o que atinge um único inocente de forma brutal são muito maiores do que a inação perante quem realmente rouba e mata milhares ou até mesmo milhões. Tal nível de ignorância faz com que a classe média (sobretudo a gaúcha, que é a pior do Brasil e uma das piores da América do Sul sem nenhuma dúvida) mantenha-se muito mais próxima da estupidez do que da lucidez.

Portanto, pergunto: à maioria da classe média gaúcha só resta reagir dessa forma porque ela é covarde, maniqueísta, chauvinista, estúpida, covarde e muito ignorante? Ou eu é que sou covarde e sensível demais?! Ou eu é que perdi minha paciência com essas questiúnculas transformadas em questões importantes e estou sendo preconceituoso em função do distanciamento que meu início de carreira como cientista me obriga a ter dos entes sociais a quem, mesmo sem querer, analiso?

A vida é muito complexa para determinismos, maniqueísmos e dicotomias. Por isso, não tenho como aplaudir a reação nem como achar prudente a inação.

De qualquer forma, vivemos em um estado e em uma capital onde o sensível se perdeu. Nesse ponto, a resistência globalizada da multidão pra mim faz muito mais sentido do que me preocupar ou dar mais valor a uma cultura regional que está longe de ser a prioridade do ativismo – embora não possa ser jamais negligenciada.

Em termos de RS e de PORTO ALEGRE, definitivamente, enchi o saco: a maioria não merece meu esforço. Aliás, nem sei se eles querem ou precisam do meu esforço ou se realmente acham que a qualidade de vida deles é ruim.

FODA-SE O RS E VIVA O PLANETA!!!

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VIRGÍNIA, ARKANSAS, TEXAS E RS: TUDO A VER

Do VI O MUNDO, de LUIZ CARLOS AZENHA, alguns indícios de que o pensamento predominante no RS é o mesmo capaz de fazer com que se acredite em HILLARY CLINTON como capaz de derrotar BARACK OBAMA nas prévias do PARTIDO (pseudo) DEMOCRATA.

Por outro lado, é a mesma lógica que fez com que as forças ultraconservadoras do PARTIDO REPUBLICANO (para poucos) fizessem o marketing que elegeu GEORGE W. BUSH.
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“O estado tem um grande número de eleitores brancos de classe média baixa.”

VIRGINIA e RS: qual a diferença além do PIB?!

 

“Fato: Obama já começou a campanha contra o republicano John McCain.”

Conto com o “já ganhou” em função da pesquisa CORREIO DO POVO / METHODUS que aponta suave vantagem para o prefeito JOSÉ FOGAÇA sobre MARIA DO ROSÁRIO.

 

“Fato: A perspectiva para Hillary Clinton é sofrível, para dizer o mínimo.”

A perspectiva para YEDA, A SENHORA DA NOSSA DESGRAÇA (entenda melhor aqui) caso a CPI DO DETRAN não termine em pizza, idem.

 

“Fato: A grande maioria dos democratas quer que ela continue no páreo. De acordo com pesquisa divulgada hoje, 64%.”

A direita guasca quer que a esquerda esteja sempre dividida.

 

“Este último fato tem passado batido pela mídia corporativa americana. Os comentaristas políticos já publicaram a eulogia e o necrológio de Hillary, muitos com um claro ar de prazer.”

ALERTA VERMELHO!!! Quando o PIG gaudério começar a sepultar alguma candidatura alternativa de direita, podem crer que a aliança total e irrestrita da direita (inclusive financeira e classista) já está mais do que definida, trabalhando 24h/dia em ritmo acelerado.

 

“Existe antipatia em relação à ex-primeira dama, vista como arrogante, carreirista e capaz de fazer qualquer coisa para atingir seu objetivo.”

A desgovernadora YEDA CLINTON também é arrogante carreirista e capaz de fazer qualquer coisa para atingir seu objetivo.

 

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PORTO ALEGRE tem 20% de petistas ou de esquerdistas, 25% de reaças e de ignorantes e o resto volta com o bolso ou com a verborragia midiática.