A ECONOMIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO III

Nos dois últimos posts, tratei: a) do contexto político, esportivo e econômico que atrai os organismos internacionais para o Brasil, bem como do esperado novo papel internacional do nosso país – ainda sem entrar em questões sociais e midiáticas; b) das iniciativas de expansão da rede social dos clubes de futebol com objetivos comerciais mais vultosos e menos dependentes do oligopólio da mídia corporativa nacional – sobretudo em relação aos direitos de televisionamento; e c) dos principais patrocinadores das principais entidades do futebol mundial e sobre a política de distribuição do faturamento por parte da CBF em relação às seleções e aos clubes.

Ressalto que toda a exposição de dados que constam nos dois posts anteriores carecem de uma análise mais intensa acerca das imbricações sociais e econômicas que perpassam a relação direta entre anunciante, mídia, clubes e federações. A expansão das redes e os acordos mais complexos envolvendo outros tipos de troca (até mesmo junto ao Poder Público e a outros grupos de interesse privado em negócios particulares dos executivos do futebol em diversos outros setores) merece uma análise muito mais complexa que demanda tempo. Mas isso será feito.

Em função de tudo o que já foi dito, a crescente credibilidade do Brasileirão resulta de um calendário claro e de uma fórmula de disputa simples, que facilita sobremaneira a sua comercialização. Na temporada de 2009, ocorreu um fator inverso de atração de patrocínio, público e de visibilidade do Brasileirão no exterior: ao invés do simples êxodo de nossos jogadores mais jovens para o exterior e do corriqueiro retorno de jogadores veteranos que pouco ou nunca tenham passado pela Seleção e de jogadores que haviam “desaparecido” em campeonatos obscuros dos pontos-de-vista técnico e midiático (muitos deles tendo passado por lesões graves e cirurgias delicadas em uma ou mais articulações), houve o caríssimo retorno de duas celebridades de indiscutível capacidade técnica, cujo carisma e reputação internacionais superam quaisquer fases de queda de rendimento: Adriano para o Flamengo e Ronaldo para o Corinthians. Não raro, os clubes das duas maiores torcidas do país, das duas maiores cidades brasileiras e ambos como os únicos clubes nacionais que possuem o mesmo fornecedor de material esportivo da Seleção Brasileira. Ronaldo foi peça-chave nos títulos Paulista e da Copa do Brasil (que rendeu ao Corinthians uma vaga à próxima edição da Copa Santander Libertadores em 2010, ano do centenário do clube) no primeiro semestre, assim como Adriano tem sido o principal goleador e o grande pivô da inesperada ascensão do rubro-negro carioca rumo ao G4 – e, quem sabe, até mesmo ao título.

Apesar da importância dos resultados de campo de cada clube a fim de que o mesmo mantenha-se em alto nível nas disputas, outro fator de atração de torcedores para o consumo material, simbólico, presencial e midiático dos produtos relacionados ao futebol é a solidariedade diante da miséria: assim como o Palmeiras e o Botafogo em 2004, o Grêmio em 2005, e o Corinthians em 2007, o Vasco de 2009 tem tido um apoio formidável, tendo lançado um plano de sócios nos moldes dos bem-sucedidos planos do Grêmio e do Internacional, que faz dos dois clubes gaúchos dois entes cada vez menos dependentes das verbas da televisão ao julgarem ser possível obter uma exposição e rendimentos mais vantajosos do que aqueles ora proporcionados pela Globo.

Com isso, os clubes estão-se tornando mais criativos e passam a investir cada vez mais em marketing e comunicação: vários clubes do país já possuem rádios e TVs vinculadas ao próprio site oficial enquanto também procuram conhecer melhor o seu associado através do uso de redes sociais na internet, como  é o caso do EXÉRCITO GREMISTA que – aos poucos – tem feito um uso crescente e estratégico das mídias sociais (blogs, comunidades no Orkut, canais de vídeo no You Tube e de fotos no Flickr) a partir de um conjunto de ações coordenadas entre os departamentos de Marketing e Comunicação e de TI (informática) do clube.

Retomando a importância da expansão da rede de contatos com vista ao incremento do consumo; da menor dependência ao oligopólio da mídia corporativa nacional; da obtenção de novos patrocínios, de financiamentos públicos, de mudanças favoráveis na infraestrutura viária e em alterações favoráveis à valorização de seu patrimônio imobiliário em suas respectivas cidades, os clubes movem-se ora em conjunto (Clube dos 13), ora individualmente. No caso do Grêmio, o ex-presidente (1987-1990 e 2005-2008) e deputado estadual Paulo Odone (PPS; aliado do Governo Yeda Crusius – do PSDB – no RS e do prefeito José Fogaça – do PMDB, com breve passagem pelo PPS – em Porto Alegre) é secretário estadual extraordinário da Copa 2014 em Porto Alegre; o conselheiro do clube e ex-membro do Conselho de Administração (2007-2008) Eduardo Antonini é o vice. Já a secretaria extraordinária municipal da Copa 2014 em Porto Alegre é exercida pelo vice-prefeito e conselheiro do Grêmio José Fortunatti, do PDT (ex-PT). Os ministérios dos Esportes, das Cidades e a Casa Civil (pasta da candidata a presidente em 2010 Dilma Rousseff – ex-PDT, hoje PT).

Recentemente, o diretor de Marketing do Grêmio, conselheiro Cesar Pacheco, deu CTGs (Cartões de Torcedor Gremista) ao presidente da CBF Ricardo Teixeira e ao presidente de honra da FIFA João Havelange.

Não por acaso, o estádio José Pinheiro Borda (mais conhecido por Gigante da Beira-Rio) do Sport Club Internacional – subsede de jogos da Copa 2014 em Porto Alegre – enfrenta um processo judicial que o impede de negociar seu valioso terreno do antigo estádio dos Eucaliptos a fim de obter fundos para as obras exigidas pela FIFA a fim de poder sediar competições internacionais de alto padrão. O deputado estadual Beto Albuquerque (PSB), conselheiro do clube e assessor do presidente colorado Vittorio Piffero (um ator significativo no setor da construção civil gaúcha) está pleiteando um empréstimo a juros baixos com um prazo de carência e quantidade bastante generosa de prestações junto ao BNDES cujo interesse inicial beneficiaria apenas aos únicos três estádios particulares do país (além do Beira-Rio, beneficiar-se-iam também o Cícero Pompeu de Toledo – o Morumbi – do São Paulo Futebol Clube e a Arena da Baixada, do Clube Atlético Paranaense).

Nessa mesma toada, o Grêmio depende da aprovação de um empréstimo para a construtora OAS (vinculada à família Magalhães da Bahia) e da aprovação definitiva do aumento no índice construtivo da área ocupada pelo Estádio Olímpico Monumental desde 1954, a fim de poder entregar esse terreno hipervalorizado como interessa à OAS, para construir a tão falada Arena do Grêmio no bairro Humaitá.

Todos esses acordos políticos e comerciais alteram a identidade e o fluxo urbano (comércio, indústria, escolas, hospitais, praças, transporte coletivo, transporte privado e meio ambiente). Diversas entidades de bairro questionam esses projetos que, por jurisprudência, poderão permitir a liberação da construção de prédios residenciais com 10, 15 ou até mesmo mais de 2 andares em bairros onde o atual Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA) de Porto Alegre atualmente não o permite.

A mídia de massa tem minimizado o impacto de todas essas transformaçõs iminentes em Porto Alegre sem que haja a possibilidade de pensar-se em um desenvolvimento econômico e social alternativo. Essa suspeita recai sobre o Grupo RBS em função de dois fatores: primeiro, porque ele possui uma construtora de imóveis para a classe A chamada MAIOJAMA ; segundo, porque a maior lucratividade do seu caderno de classificados parece vir exatamente dos anúncios de imóveis novos e usados feitos por imobiliárias e construtoras.

GRÊMIO, ARENA: OAS, COPA, PORTO ALEGRE, PLANO DIRETOR

Um dos principais dirigentes da construtora OAS é genro de ACM. Em função de uma série de favorecimentos políticos, a sigla OAS é, na Bahia, conhecida por “Obrigado, Amigo Sogro!”

Mas o que está por detrás de um discurso corporativo tão correto e formal? Seu respeitabilíssimo portfólio de vultosas construções e os milhares de empregos que gera e gerou em pelo menos três continentes seriam suficientes para o Grêmio dispensar-lhe total credibilidade?

Qual o lado contestável e controverso da construtora da futura Arena do Grêmio que a imprensa e a justiça questionam há tanto tempo?

A empresa é listada pela mídia em uma série de participações em obras sem licitação. A OAS também é responsabilizada pela construção de grandes edificações de baixa qualidade em curto prazo de consequências catastróficas.

Não sou eu quem está inventando coisas nem sendo alarmista: se o acordo está feito, que haja TRANSPARÊNCIA, HONESTIDADE e QUALIDADE.

Fica o registro para todos os que me acham desinformado, inexperiente ou mal influenciado: eu apenas vou atrás de fontes desvinculadas da influência empresarial, econômica e publicitária que sustenta a mídia corporativa.

Este é um exercício que todo cidadão minimamente inteligente, culto e bem intencionado deveria fazer com regularidade: PONDERAR e saber que sempre há, NO MÍNIMO, duas versões sobre o mesmo fato.

O tempo que dispensei na busca e na leitura do material abaixo e que me trouxe a crença na veracidade das informações que seguem é o tempo que um sócio patrimonial que se criou no Olímpico e pretende que o clube siga sempre forte deveria dedicar à sua paixão.

Antes de deixá-los à vontade para repensarem os seus conceitos a partir das leituras que ofereço, farei minha derradeira pergunta acerca do endosso e do aval de tantos conselheiros experientes em Direito, Economia, Contabilidade, Administração e Engenharia – muitos dos quais responsáveis pela autorização de receitas e despesas do nosso Grêmio há muitas décadas:

- AO INVÉS DE PAGAR PRIMEIRO AS PIORES DÍVIDAS A FIM DE RECUPERAR A CREDIBILIDADE DO GRÊMIO NO MERCADO FINANCEIRO PARA, MAIS ADIANTE, APOSTAR SEM MEDO DE ERRAR EM UM NOVO ESTÁDIO…

…COMO CONFIAR 20 ANOS DO NOSSO FUTURO A UMA EMPRESA DE PROCEDIMENTOS TÃO… DUVIDOSOS?

http://www.terra.com.br/istoe/politica/155632.htm
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=443MEM003
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=309869 http://veja.abril.com.br/300703/holofote.html
http://heliopaz.com/tag/arena/
http://www.alertatotal.net/2007/12/governo-quer-acesso-dados-pessoais.html http://www.claudiohumberto.com.br/busca/index.php?filtro=opositores&pagina=17
http://www.tboa.com.br/forum/index.php?showtopic=1829&mode=linearplus
http://www.correiodesergipe.com/lernoticia.php?noticia=16142 http://www.skyscraperlife.com/projetos/13969-porto-alegre-rs-estadio-beira-rio-copa-2014-a-10.html

http://amigosdabahia.blogspot.com/2007/06/oas-e-gautama-dividiram-300mi-no.html

http://heliopaz.com/2008/12/15/arena-oas-quanto-mais-eu-rezo-mais-assombracoes-aparecem/
http://heliopaz.com/2008/05/26/arena-gaspari-denuncia-oas/ http://aurora.proderj.rj.gov.br/resenha/resenha-imagens/2009-05-23_135.PDF http://esquerdafestiva.blogspot.com/2008/03/quem-semeia-vento.html http://heliopaz.wordpress.com/2008/12/17/gremio-conselho-aprova-arena-da-oas/
http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/10/430156.shtml http://www.fazendomedia.com/2008/politica20081004.htm
http://impunes.intocaveis.com.br/267-1OvoDaSerpente.html
http://www.scribd.com/doc/15688898/CarosAmigos146Maio2009 (pp. 34 a 37)

FORTUNATTI: FUTURO PREFEITO DE POA E GOVERNADOR DO RS

…E governador por mais oito: porque seus laços supostamente fortes dentro do PT acabaram se rompendo e ele decidiu estabelecer laços com formadores de opinião que lhe proporcionassem chegar à sua aspiração pessoal de chegar a algum cargo majoritário no Executivo.

Entenda-se por formadores de opinião os caciques de partidos conservadores, os patrocinadores graúdos e os profissionais mais expostos da mídia corporativa. Assim, ele saiu de um gueto meramente portoalegrense para um universo mais ampl0o de contatos em todas as classes sociais e setores da economia.

Seu gueto anterior ainda é repleto de pessoas que, por mais bem-intencionadas que sejam, não têm por hábito ceder onde for inevitável nem se impor através da gentileza diante de seus antagonistas não por ignorância ou por excesso de radicalismo mas, sim, por preconceito em relação ao planejamento e às metas que suplantam as ideologias.

Questionável dos pontos de vista ético e afetivo, no que tange à um caminho essencialmente pessoal, a escolha de Fortunati hoje comprova que ele acertou, pois  detém um gigantesco capital social (seja legítimo em função da economia do mérito ou artificial por meio da mentira e/ou da coerção e da corrupção usualmente protagonizados pelos nós da rede que sustentam a sua permanência e o seu crescimento no poder).

A questão meramente partidária já foi suplantada por Fortunati. Para ele, assim como para a esmagadora maioria das pessoas, os fins justificam os meios. Com isso, não quero dizer que concordo ou que aceito suas escolhas. Todavia, seu capital social hoje é enorme. Tanto é que ele percebeu que, caso saísse do PT, teria acesso a mais dinheiro, a uma maior exposição midiática e a pessoas menos burocráticas e mais ágeis.

O desencaixe do qual tanto falo (Giddens), a midiatização da sociedade e a hoje estúpida obrigatoriedade do voto são muito mais responsáveis pelo voto na pessoa do que pelo voto em um projeto, em um plano e em um modelo de governo, de participação e de realização qualquer.

Hoje, Fortunati é aquilo que NINGUÉM na política gaúcha é capaz de ser: carismático, acessível, bem-articulado, inteligente, maduro, simpático, assertivo, sem nenhuma prova de corrupção financeira ou moral. Embora coligado com PMDB, PSDB, DEM, PTB e outros menos votados, ele escolheu o PDT porque o gaúcho é extremamente conservador e porque, no interior, o respeito aos idosos como formadores da opinião de uma família ainda é visto como um valor corrente. Como o PDT tem o rótulo do brizolismo e da Internacional Socialista, seja na prática, seja apenas na teoria, ninguém poderia afirmar que o ex-bancário teria mudado de time.

Pra terminar: oriundos do PT no RS, tão-somente José Fortunatti e Paulo Paim tem um potencial de crença e de adesão da classe média em geral, independentemente do partido ao qual estejam filiados.

Se Fortunatti pulou o muro da concentração e foi para a noite antes de um jogo decisivo, certamente que sua punição pessoal não poderia jamais servir como forma de punir a equipe. Caso o PT ainda tenha como deixar de ser um partido como um outro qualquer, vai pagar caro por décadas em função dessa decisão.

No RS, enquanto os atuais formadores de opinião mais carismáticos e mais poderosos não morrerem e forem substituídos por uma geração mais burra, o PT não governa mais.

Fortunatti é incomparavelmente superior a qualquer outro político gaúcho atual em termos de comunicação. Ele aprendeu a discursar. Ele é bem-articulado ao se expressar. Ele não possui rejeição significativa.

Certo ou errado, ele é a bola da vez. Certo ou errado, não duvido que seja possível diminuir o poder de seus assessores atuais e futuros ligados à pior das políticas partidárias existentes de maneira lenta e gradual. Afinal de contas, dourar a pílula é, ao contrário do que se pensa, fundamental. O PT gaúcho é a prova viva de que quem tenta uma ruptura tão brusca diante de adversários muito mais fortes do que se imaginava ter também é alijado do poder de maneira brusca.

Aliás, Lula ensinou o PT inteiro. No RS, ainda não se aprendeu a lição. E até Obama seguiu o exemplo de Lula. Hoje, Obama é o líder político mais poderoso do planeta e Lula é um dos mais carismáticos.

Do ponto de vista atual, quem é grosso, desajeitado e feio não vai longe. O marketing político e a comunicação vendem uma imagem ao invés de idéias porque as pessoas não entendem outra linguagem que não seja a linguagem do consumo. Dilma tinha mais é que fazer a plástica, mesmo.

Apesar dessa suposta superficialidade e ausência de fundamentação teórica, prática e programática, além da exposição midiática, das verbas de campanha e do tratamento do candidato como um bem de consumo, é preciso haver, SIM, conteúdo e clareza no discurso.

Afinal de contas, quem tem razão ou quem se acha mais honesto não pode falar difícil nem deixar de falar com certa parcela do eleitorado.

COPA 2014 EM PORTO ALEGRE

Selo da Copa 2014 no Brasil seguindo a programação visual da FIFA

Selo da Copa 2014 no Brasil seguindo a programação visual da FIFA

No momento em que a desgovernadora cara-de-pau ergueu aquele fake da Copa FIFA junto de Fogaça (que terá oito anos de desgoverno), Fortunati (que terá 10 anos de prefeitura) e do bom dono de restaurante, folclórico, conservador e oportunista Gaúcho da Copa, somente eu ouvi a minha própria voz berrar “LADRA!” bem alto por três ou quatro vezes. Todavia, ao contrário das visões dos jornalistas André Machado (RBS) e Marco Weissheimer (AGÊNCIA CARTA MAIOR), cheguei ao local 40 minutos antes e permaneci por mais 15 ou 20 minutos após o anúncio de Porto Alegre e não ouvi vaia alguma.

Por outro lado, não havia defronte ao palco (circo) armado as três mil pessoas que Zero Hora disse que havia: o público seguramente não superava algo entre 2000 e 2500. Os aplausos e a vibração foram poucos, mas bem maiores do que o silêncio que não se traduziu em vaias por parte dos transeuntes. os portoalegrenses mais empolgados eram disparado os mais humildes entre todos os presentes.

Ninguém contrariou meus brados. Porém, só recebi apenas uma comedida concordância de uma senhora.

Cidadãos de todas as idades e predominantemente dos estamentos B, C e D vindos das mais diversas regiões da capital estavam no Parque Farroupilha durante as horas que cercaram o anúncio da óbvia escolha de Porto Alegre como uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014. Como sempre, prevalecia mais a classe C, os moradores dos bairros cercanos ao parque e as pessoas da classe D vindas sobretudo dos bairros e dos municípios limítrofes da capital ao norte.

A Redenção, sempre tida como o mais simpático, mais central, maior e mais antigo parque da capital bovina, é o termômetro da politização e do interesse solidário e cidadão do Rio Grande do Sul. A localização e a história privilegiada desse parque atraem e repercutem uma série de práticas sociais. A amplitude dessa repercussão no Parque Farroupilha é maior do que a repercussão que se costuma nas demais áreas públicas de lazer e desporto contidas neste estado sulino.

Constato tristemente que a crise política, moral, econômica e educacional do RS contemporâneo não é causada somente ou primordialmente pelos protagonistas decanares dos poderes financeiro, coercitivo e político ora em voga nessa região do Brasil: a responsabilidade vai desde os raros empresários honestos que não sonegam impostos, pagam salários justos, oferecem benefícios e assinam a carteira de seus funcionários até o pedinte doente e analfabeto porém educado e pacífico.

Não se pode creditar única e exclusivamente ao poder econômico o ao não-cumprimento das leis antitruste brasileiras contra a concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos daqueles poucos sempre mancomunados com entes da política partidária e do controle patronal. A técnica do discurso simples e editado objetiva positivar os valores interessantes aos patrocinadores da mídia corporativa e negativar os valores antagônicos a esses interesses. No entanto, a ignorância, o consumismo, o egoísmo e a não-percepção da sociedade como um campo de colaboração e de convivência em rede iniciou-se muito tempo antes.

O cansaço e a preferência por não reivindicar “para não se incomodar” resulta da divisão dos três lugares (1º casa; 2º trabalho-escola; 3º lazer - sendo que os terceiros lugares presenciais e os terceiros lugares online proporcionam diferentes discursividades) trazida pela industrialização massiva sob o método da linha de montagem taylorista-fordista do início do século XX. A passividade e o não-envolvimento com questões coletivas de grande escala são fruto do desmanche do ensino público gratuito e de qualidade proporcionado pela ditadura militar. O consumismo e o oportunismo barato, por sua vez, são frutos da exponencialização das características anteriores ocorrida em função do neoliberalismo.

Ocorre então a desorientação das gerações anteriores em função da dissociação entre o espaço e o tempo: tais características já eram observadas durante a primeira metade do século XX por alguns pensadores. Ainda de maneira incipiente e em uma escala muito menor do que a escala com a qual tais heterotopiasheterocronias (Foucault, também discutido posteriormente por Bergson) ora são percebidas, começou ali a ocorrer o que hoje verifica-se em um sentido muito mais dramático.

A inadaptação à velocidade das mudanças de discurso e de valores da pós-modernidade que ocorre com a esmagadora maioria das pessoas nascidas nas gerações anteriores àquela que já utilizava o computador e a internet resulta na incompreensão da sociedade tal qual ela se apresenta na atualidade. Esse desencaixe (Giddens) desconsidera que o trabalho e o ativismo da atualidade podem ser feitos a partir de um tom menos grave e mais lúdico.

Portanto, a dinâmica social é muito mais complexa do que se possa imaginar. Como já escrevi em vários posts anteriores, insisto na defesa da percepção da importância das redes sociais. As redes sociais mostram relações pessoais, lúdicas, comerciais, políticas e econômicas que afetam a toda a humanidade. Queiram ou não, tudo está interligado. E, concordando ou não com os caminhos que o nosso ambiente tem tomado na sua caminhada, concordando ou não com os formadores de opinião de cada campo social (midiático, médico, jurídico, político, industrial, esportivo, artístico, militar ou religioso), todos somos responsáveis por tudo o que ocorre de positivo ou de negativo.

Se as coisas não ocorrem como os valores da esquerda gostariam que acontecesse, ela é responsável pelo seu atraso e pela sua ignorância. Por isso, quem quer fazer e quem quer acontecer dá muito mais importância ao estabelecimento de relações solidárias e temáticas com indivíduos de origens heterogêneas do que compartimentando a sociedade em bons e maus.

Independentemente do fato de aqui ainda haver um nível escolar um pouco menos pior do que o do resto do país e de haver uma diversidade étnica maior, o Rio Grande do Sul tornou-se a vanguarda do atraso não por causa direta ou primeira da RBS, dos latifundiários, dos banqueiros e dos “cordéis de fora” como dizia meu pai: o RS é atrasado e bovino porque existem os hipócritas e os ignorantes que propagam o discurso do “caminho do meio” e o resto são maniqueístas que, seja de esquerda ou de direita, ao invés de trabalharem por uma política de estado que concentre esforços na inclusão permanente da maioria da população, trabalham para privilegiar única e exclusivamente aqueles que rezam a sua cartilha.

Postos os fatos e determinados sejam os atores que estarão no centro das decisões, o que importa é fiscalizar, informar-se, participar, envolver-se. O futuro da cidade, não foi nem nunca será aquele que os partidarizados, sindicalizados e atrasados “proletários” desejam. E tampouco será aquele que os igualmente atrasados ricos conservadores, excludentes e intolerantes e a sua medíocre claque famosa por comer galinha e arrotar faisão desejariam que fosse. Dessa forma, a realidade que se desenha está mais próxima das aspirações destes últimos do que dos primeiros.

Consequentemente, as redes de afeto e de cooperação que determinam as articulações, a forma e o tamanho das forças que compõem a pressão por determinadas demandas precisam necessariamente atravessar e ser atravessadas por protagonistas que seguem ambas as matrizes ideológicas. Afinal de contas, é importante salientar que há, tanto na esquerda quanto na direita, uma cooperação conservadora e repleta de trocas de favores entre seus protagonistas mais bem-relacionados com o dinheiro, com os negócios, com a política e com a comunicação. Há, tanto na esquerda quanto na direita, uma maioria de excluídos das decisões que, menos conservadores e mais abertos, encontram pontos em comum que podem ser resolvidos a partir de uma união de forças.

Não dá mais pra confundir política com partido. Não dá mais pra dizer que a esquerda é “do bem” e que a direita é “do mal”. Ao mesmo tempo, não há heróis nem vilões, não existe ninguém insubstituível e tampouco deve-se depender de uma liderança centralizada.

A competência profissional, a inteligência emocional e o poder decorrem da comunicação. A comunicação eficiente decorre da sensibilidade e do aprofundamento das redes sociais de cada indivíduo ou coletividade. E não é ignorando ou detratando comportamentos típicos da mídia, dos empresários ou de políticos tradicionais que se irá solucionar os problemas. Afinal de contas, tudo o que está posto sempre foi e sempre será assim no decorrer da história da humanidade.

Tanto os otimistas como os intelectuais puristas dirão que não se pode ser determinista nem tampouco inteligente tentar convencer a si e aos outros de que não existe mudança ou que existiriam certas características inerentes a uma suposta natureza humana. Talvez seja um tiro no pé eu me expor publicamente com um pensamento aparentemente conformista, conservador e até mesmo ditatorial dependendo da falta de sensibilidade e de conhecimento do interlocutor. No entanto, o que eu busco aqui é apenas mostrar que, como a maioria tem feito até agora, as medidas mais socializantes e inclusivas não tem funcionado.

Com isso, proponho que se procure fazer do limão uma limonada. Mas que essa limonada não seja aguada, azeda e nem doce demais. A falta de método e de planejamento da esquerda tradicional e a hoje aberração que significa seguir um líder carismático ou procurar fazer de tudo para pertencer a uma determinada classe ou instituição são a sua parcela de culpa por ter deixado o Rio Grande do Sul ter chegado aonde chegou.

Concordo com Cristóvão Feil quando o sociólogo comparou o Acampamento Farroupilha a uma feira medieval. Pois a partir do exemplo de ontem na Redenção, comparo a movimentação de qualquer festividade ou de  qualquer fato espetacularizado (Debord) com uma ópera bufa. De agora em diante, o que realmente importa é verificar como, quando, em que ritmo e a que custos (financeiro e, principalmente, social) as melhorias na qualidade de vida da população prometidas serão efetivamente cumpridas ou até mesmo superadas.

ALEA JACTA EST