MÍDIA BRASIL: POR UM MODELO BBC

Este debate precisa ser expandido. Infelizmente, não tenho tempo nem dinheiro que me possibilitem viajar nem sei de alguma entidade disposta a me ouvir e que concorde em grande parte das questões que eu levanto nessa discussão. Mesmo assim, entre acertos e erros, considero-me razoavelmente apto a falar sobre a questão da democratização nos meios de comunicação no Brasil.

É uma questão muito importante, pois trata da soberania nacional e, acima de tudo, da autonomia social e econômica da maioria de nossa população em relação à sua capacidade de reconhecer o mundo a partir de um determinado conjunto de histórias contadas como se fossem a expressão da verdade de uma época sob um determinado contexto.

Assim como só vejo como possível a capacidade de se atrair novos atores sociais dispostos a exercer a sua cidadania política, econômica, social e simbólica pressionando o poder a partir de iniciativas em rede que podem retomar o espaço público como uma ágora eliminando-se uma visão partidária e sindicalizada,  considero o debate pela democratização dos mídias no Brasil a partir do viés acadêmico influenciado pela escola marxista que resultou na TEORIA CRÍTICA da Comunicação um tanto limitado. Afinal de contas, regular, regulamentar, moralizar, educar, propor ações sociais e quebras de paradigma com autonomia e liberdade é uma equação muito difícil de ser solucionada e, definitivamente, não há almoço grátis.

Um erro nessa resistência à mídia hegemônica é o de não reconhecer a importância da estética da linguagem como um fator de necessidade econômica e simbólica voltado para a produção de bens de consumo mais racionais e gratificantes a partir da experiência social resultante do contato com tudo o que é produzido, transmitido e discutido sob o olhar mediado. Considero que, invariavelmente, a limitação das conquistas em relação à democratização dos meios de comunicação deva-se muito ao fato de que reconhece-se muito pouco a fundamental importância do custo de produção e da falta de apuro estético.

O conteúdo só se torna atraente se a edição e o discurso tiverem uma linguagem adequada à linguagem do público predominante. Em termos de empoderamento de pequenas comunidades, qualquer equipamento serve. Porém, quando entra-se no broadcast, o furo é muito mais embaixo.

Embora sejam fatores nada desprezíveis em relação ao consumo de baixarias e da alienação oferecida por conteúdos frívolos que não podem ser chamados de informação (partindo-se do pressuposto bergsoniano de que informação é aquilo que produz diferença), deve-se levar em conta o fato de que, para muitas pessoas, a sua preferência por esse tipo de programação (bem como a preferência dos mídias pela sua produção) não decorre da ignorância nem da falta de escolaridade ou de politização. A preferência por uma estética funcional costuma estar de acordo com a dinâmica social de seu tempo. A maioria das pessoas não têm tempo nem saco pra assistir a um programa de TV com cenário pobre, trilha sonora mal gravada, linguagem de 10 anos atrás e assim por diante. Ser honesto e tecnicamente correto não é suficiente: é preciso ser surpeendente. E há muita surpresa mesmo naquilo que não possui conteúdo relevante. Essa é a fórmula do sucesso de quem está por cima da carne seca.

Talvez a preocupação moral e conservadora que, em certos pontos, também conquistou a minha adesão no momento em que se descobre o quanto certas mensagens podem transformar a educação de uma criança, não deva ser vista como um cavalo de batalha. Ignorá-la, jamais; porém, que ela não se torne a principal bandeira nessa modalidade de resistência política e simbólica. Digo isso porque cada vez menos pessoas assistem televisão. Conheço dezenas de pessoas que, ao começar a trabalhar e a fazer novas amizades, simplesmente perderam até o prazer de assistir aquilo que costumavam assistir.

TV aberta?! Rádio?! Jornal?! Revista?! A mídia de massa não é mais tão forte quanto já foi. É por isso que eu acho um exagero (e até perda de tempo) discutir algo que nunca irá mudar (isto é, o discurso de sempre da Grande Mídia). A RBS, a ABRIL, a FOLHA, o ESTADO e outros menos votados não exercem a menor influência na minha vida. Sinceramente, não me considero mais culto, mais inteligente e nem tampouco mais “esperto” ou “do contra” por preferir (com restrições) CAROS AMIGOS, CARTA CAPITAL ou coisa parecida. Eu acho que, mesmo sendo uma minoria, há um monte de gente que não é necessariamente de esquerda ou com alto grau de escolaridade capaz de fazer as mesmas escolhas.

Infelizmente, são poucas as pessoas com acesso a TV a cabo e internet. E, o que é mais grave, é a total falta de conhecimento de outros idiomas, a fim de fazer com que o Brasil descubra imediatamente tudo o que está sendo feito em termos de empoderamento.

A minha mãe só estudou até a 4ª série e assiste a todos os programas de fofoca e noticiários espreme-sangue da TV aberta. Ela não consegue acompanhar as legendas e não assiste nada em outras línguas porque não consegue entender.

O mundo, em todos os sentidos, é uma coisa extremamente complexa pra ela. Ela não se interessava e não tinha coragem nem saúde pra assistir a uma programação decente, até que vários dos canais a cabo voltados para questões de família, educação dos filhos, novidades da medicina, evoouções tecnológicas e sexualidade fossem duplados para potuguês. A visão de mundo dela pode até não mudar muito, mas, pelo menos, ela aprende um montão de coisas e apresenta assuntos bem mais interessantes pra gente conversar em casa.

Portanto, não podemos considerar a programação como um todo de baix qualidade ou excludente.

As origens dessas questões são muito mais profundas e complexas do que meramente discutirmos sobre quem são os donos dos poderes político, econômico e coercitivo ou por que a mídia corporativa emburrece a população em geral: por mais leis que se tente aprovar e por mais mecanismos de fiscalização, infelizmente, é tudo uma questão de desligar o botão ou de se arranjar outra coisa pra fazer. Ou, pelo contrário, seria a televisão um meio “hipnótico”?! Creio que não. O que deve-se quebrar é a barreira do condicionamento, a partir de uma campanha voltada à uma vida social mais intensa vivida presencialmente junto a seus afetos e atividades ao ar livre.

Por outro lado, há programas maravilhosos na televisão, em grande quantidade. A maioria deles a cabo.

Então, defendo um modelo igualzinho ao da BBC: 50% + 1 das ações pertencentes à emissora estatal, que oferece educativos de altíssima qualidade e interesse no horário nobre (das 19h às 21h) e possui quatro emissoras abertas com conteúdo diferente entre si, mais ou menos como os canais Discovery (só que com qualidade melhor).

A BBC produz programas de primeira porque contrata o melhr iluminador, o melhor fotógrafo, o melhor maquiador… DO MUNDO, por empreitada (como free-lancer).

Eis o grande impasse: a BBC cobra 10 libras/mês para fornecer uma set-top box  e corta o sinal de quem não paga a mensalidade. Essa set-top box, além de proporcionar todos os canais de qualidade educacional e noticiosa da BBC, também libera o acesso a uma série de outros canais.

No Brasil, há uma lei que fala sobre o direito universal à Comunicação. Com isso, a TV aberta foi baixando a qualidade técnica, subtraindo a relevância social e foi espetacularizando a sua programação, quase unificando o discurso em função da pequena quantidade de proprietários e de centenas de patrocinadores em comum.

Temos uma TV a cabo muito cara e de alcance restrito somente aos grandes e médios centros urbanos dos estados do Sul, do Sudeste e das regiões litorâneas do Nordeste. É uma programação cara, repetitiva e redundante, mas que possui, inegavelmente, uma qualidade média de discurso e de apuro técnico superior às produções abertas.

Há, ainda, a questão da TV PÚBLICA, que não é pública mas, sim, ESTATAL: qualquer governo pode optar entre torná-la chapa branca, extingui-la ou fazer dela um cabide de emprego. Caso a TV BRASIL operasse em condições ideais em TV aberta ou fechada no país, teríamos acesso a toda a sua programação em canal próprio – coisa que não ocorre.

Com o equivalente a R$10,00/mês de todas as pessoas interessadas em possuir programação de TV em suas casas, certamente teríamos acesso a um conjunto de canais de programação segmentada com programação de qualidade suficiente para dar um banho em todas as GLOBO, RECORD, RBS, BAND, SBT e emissoras estatais juntas.

Tudo custa dinheiro. E não se pode aumentar impostos ou realizar descontos compulsórios a torto e a direito. Ao mesmo tempo, leis que definem um percentual x do orçamento público ou privado para o investimento em qualquer setor dependem das oscilações de mercado muito mais do que a oscilação resultante do aumento ou da diminuição da audiência em si.

Por que a TV BRASIL não colou ainda?! Simples: porque sua política de distribuição e sua infra-estrutura são pífias, já que falta coragem e interesse nesse investimento pesado sem uma contrapartida.

No meio textual (impresso ou internet), o cara escreve como e sobre o que quiser. Acredita ou duvida dele quem bem entender. Porém, a propagação da voz e da imagem através de ondas eletromagnéticas é uma concessão pública, que deve obedecer a uma política social e educacional.

A DEMOCRACIA NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA TEM LIMITE

Depois de tanto tempo lendo críticas pertinentes porém, em sua maioria, infelizmente inócuas a respeito do discurso da Grande Mídia, passei a me interessar pelo ativismo em rede em pequena escala e pelo empoderamento dos excluídos através do ensino e da prática do uso simultâneo de uma série de mídias sociais, pois tanto a mídia de massa precisa da blogosfera alternativa, ativista e politizada como esse nicho precisa da mídia de massa. Do contrário, o gigantismo e a arrogância da mídia corporativa irá sempre perder espaço para o jornalismo cidadão e a blogosfera ativista será lida sempre por meia dúzia de gatos pingados.

Prefiro fazer coisas mais produtivas do que ficar criticando o que os jornais ou a TV dizem o tempo inteiro por quatro razões atravessadas entre si (isto é, todas influenciam e são influenciadas, refletem e são reflexo das outras em infinitos graus de crença, de agendamento e de práticas sociais):

1) A mídia corporativa sempre irá defender o lado de seus patrocinadores, dos políticos que podem ajudá-la a reduzir encargos trabalhistas, impostos e pagar menos pelos insumos que utiliza. Quem se opuser a eles em questões pontuais, será defenestrado, mesmo que já tenha sido muito seu amigo. E quem sempre se opôs a seus interesses explícitos e ocultos jamais deixará de ser ou ignorado, ou criminalizado. Porém, a Pequena Mídia também possui patrocinadores, valores e interesses que podem, um dia, deixar de ser valores universais e perderem o seu caráter de tentativa de eqüidade social, tornando-a um pouco direitista e fazendo com que a reação da direita seja um pouco esquerdista sem nenhum constrangimento ou contradição;

2) Mesmo os seus profissionais mais honestos e competentes são conservadores que escrevem para uma esmagadora maioria conservadora. No dia que a esquerda tiver um poder semelhante ao da direita, ela também se tornará tão excludente, criminalizadora e totalitária quanto sua ideologia mais siamesa do que oposta em vários sentidos;

3) A clara contradição de copiar, linkar e citar o grosso das posições com as quais a esquerda concorda ou discorda a partir da informação publicada pela própria mídia corporativa em relação ao pequeno número de citações sobre a mídia declaradamente de esquerda (ou, se não for de esquerda e nem nanica, que pelo menos não tenha o péssimo hábito de brigar com a notícia);

4) Logo, o PIG só é PIG e ele só possui um pensamento único quando convém, seja à esquerda, seja à direita. Sim, ele é contraditório, mentiroso e comprometido com a direita. Mas, ao mesmo tempo, ele não deixa de orientar, de situar, de informar e de realizar algumas denúncias e investigações mais cidadãs, de interesse comunitário e solidário – nem que exerça um jornalismo honesto, tecnicamente correto e socialmente relevante em não mais do que  15% a 20% de seu conteúdo.

O mundo da mídia apresenta muitos exemplos que justificam a minha posição. Talvez o mais significativo seja o da Inglaterra, que tem a grande mídia menos desonesta, mais educativa e mais controlada por um governo (ao menos juridicamente tido como) democrático em todo o planeta. Nem por isso sua população altamente escolarizada e com alto poder de compra deixou de ser conservadora ou passou a protestar nas ruas de maneira sistemática.

No plano político, caso a esquerda (a inteligente e coerente – infelizmente, uma pequena minoria) tivesse dinheiro e poder, acabaria criando uma mídia hegemônica às avessas que, por sua vez, tornar-se-ia autoritária e mentirosa às avessas. Além disso, as ações políticas e sociais públicas ou privadas verdadeiramente voltadas para aqueles que mais precisam são muito pequenas e ainda deixam muita gente de fora (até mesmo a política de cotas nas universidades, o Bolsa Família, o investimento pesado em pesquisa acadêmica, o piso nacional para professores de escolas da rede pública, o aumento salarial para boa parte do funcionalismo federal, o investimento em infra-estrutura e a independência do FMI e dos EUA até determinado ponto).

Os próprios políticos são extremamente movidos por interesses diversos, que os impedem de votar 100% a favor do programa ou da ideologia a qual pertencem. Portanto, o ativismo em rede voltado para a solução presencial a partir de um chamamento e de um esclarecimento não-presencial e pulverizado na rede tende a ser mais eficiente como mecanismo de resistência, desde que não almeje o poder e exerça uma pressão sistemática e descentralizada sobre todas as formas de opressão e exclusão (econômica, simbólica ou coercitiva).

Por mais regulado que seja um mercado de mídia por qualquer governo, em qualquer lugar e a qualquer época, a dominação de qualquer viés político-ideológico via mídia de massa como instrumento de propagação de valores depende menos da ignorância de quem não tem estudo e é pobre, da cantilena reacionária ou do exercício da falácia de que “a gente noticia aquilo que o nosso consumidor quer”: afinal de contas, repito mais uma vez que a esmagadora maioria da população é ou torna-se conservadora com o passar do tempo.

Isso leva a outro ponto: não dá pra forçar a barra exigindo uma lei que restrinja os investimentos em mídia de quem é hoje hegemônico e que proíba ou regule qualquer viés discursivo: primeiro, porque eles podem cobrar o mesmo do lado oposto (jurisprudência); segundo, porque, mesmo que se casse as concessões irregulares, a rede social dos ricos é infinitamente mais inteligente, ampla e complexa do que a dos pobres ou da esquerda, pois eles sabem se relacionar melhor entre si e defendem com maior unidade seus interesses.

Isso explica facilmente os tentáculos de Rupert Murdoch em mais de 100 países: aonde puder, ele fará uso de lobby político, econômico e simbólico. Porém, em muitos lugares, ele não precisa entrar na política, não precisa de uma bancada parlamentar parceira e nem tampouco burlar leis de concessões. O que o impede de comprar zilhões de veículos caso não seja comprovada nenhuma atividade ilegal? Afinal de contas, ele não precisa ter ações nem patrimônio em seu nome nem no de qualquer parente ou funcionário seu. Tudo  isso se arranja sem burlar a lei.

Por fim, a Lei da Potência, Curva de Paretto ou Cauda Longa é um processo que não foi até hoje convincentemente contestado nem pela Matemática, nem pela Biologia e nem pelas Ciências Sociais: a humanidade sempre possui infinitas formas de escolher uma referência e a ela dar credibilidade. Sua preferência por um e não por outro é algo muito mais profundo e subjetivo do que a crença do senso comum de esquerda de que qualquer valor individual tem como origem os embates e as crenças político-partidárias, midiáticas ou econômicas. Sim, elas fazem parte. Contudo, não explicam as preferências e as repulsas por si próprias.

Mais um exemplo: digamos que fosse possível igualar o alcance (ou a tiragem) de TVs, rádios, jornais, revistas; igualar os valores de todos os padrões de anúncios publicitários nessas mídias; obrigar todos os veículos a terem vários concorrentes do mesmo setor anunciando ao mesmo tempo; fiscalizar a ocorrência de matérias pagas; garantir a distribuição de mídia impressa nos mesmos pontos de venda, na mesma quantidade de exemplares e com a edição seguinte de tudo que uma banca vender chegando ao mesmo tempo e possuindo igual espaço na vitrine…

…Mesmo assim, mesmo que houvesse eqüidade e diversidade de opiniões, cada uma com uma definição ideológica clara, o consumidor rapidamente se encarregaria de optar por algumas referências, pois não tem tempo nem vontade de comparar posições diferentes. Ele vai acabar indo atrás daquela opinião com a qual concorda mais.

Conseqüentemente, a escolha do cidadão e do consumidor a partir da sua liberdade de expressão e de ter o direito a consumir o produto que bem entender irá desequilibrar novamente o mercado midiático, que terá toda a razão em cobrar a perda de anunciantes em função dessa eqüidade artificial e forçada, pois até os pequenos estarão ao lado dos grandes em uma questão de subsistência.

Obviamente, em termos de democracia, a inclusão cidadã de novos internautas, as rádios e TVs digitais, a não-criminalização de rádios comunitárias, a execução e obediência das leis de concessão de emissoras e restrições à baixaria na programação proporcionarão um maior empoderamento social a partir da própria experiência do sujeito no manejo de uma mídia pequena. No entanto, o que impediria que uma corporação de mídia conservadora, muito rica e com patrocinadores poderosos mesmo agindo à luz da legalidade de comprar veículos, distribuir infra-estrutura e empoderar à sua maneira pequenas comunidades fornecendo cursos e montando rádios, TVs e jornais comunitários?

Diante de tudo o que foi exposto neste longo artigo, de maneira chutada, diria que se, hoje, sob esta lei da selva e nestas condições econômicas e culturais, o senso crítico e os valores mais progressistas apreendidos pelos raros consumidores da Pequena Mídia não passariam de 5% a 10% da população, mesmo diante do quadro ideal que eu pintei nos parágrafos anteriores, duvido muito que mais do que 30% da população deixaria de seguir um modus operandi conservador.

Finalmente, comprova-se cada vez mais aqui no Brasil a complementaridade da blogosfera ativista independente com a divulgação de suas demandas através da mídia de massa, em uma relação na qual essa mídia de massa passa a perder credibilidade caso deixe de divulgar a notícia a respeito dos micropoderes dispersos em rede, capazes de comer seus pés de barro. A exemplo do que já se verifica nos EUA há mais de meia década, Atualmente, aqui no Brasil, já podemos comprovar que, na maioria das vezes, os blogs só adquirem maior visibilidade quando citados pela mídia de massa e que eles têm o poder de mobilizar e de fazer política de baixo para cima intercambiando a troca de informações e a sociabilidade tanto no ambiente online (tecnologias da informação e da comunicação – blogs, e-mail, mensageiros instantâneos, etc.) como no offline (encontros presenciais).

Pesquisadores experientes e iniciantes (que é o meu caso) têm realizado pesquisas  acadêmicas que apontam nessa direção, através da análise quantitativa e/ou discursiva da audiência de blogs e do conteúdo de seus links, posts e comentários, cruzadas com entrevistas qualitativas. É  a adaptação da etnografia (método consagrado no início do século XX pela antropologia) para aquilo que chamamos de netnografia ou etnografia digital, onde o pesquisador realiza um trabalho militante de envolvimento pessoal com o público observado, que só funciona quando os depoimentos presenciais e o material coletado na ida ao campo (no meu caso, um coletivo de blogs bastante significativo no cenário gaúcho de resistência ao neoliberalismo e ao autoritarismo) são tensionados por teorias das áreas da Comunicação, das Ciências Sociais e da Filosofia, cada vez mais atravessadas por alguns princípios da Biologia e da Matemática que não podem ser ignorados.

Por enquanto, isso é o que eu concluo de tudo o que eu já vi sobre midiatização, economia política da comunicação e das discussões sobre a democratização dos meios de comunicação.

MÍDIA + IDEOLOGIA: TENDÊNCIA + HIPOCRISIA

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Normalmente, textos desconstrutivos são chatos e, em muitos casos, incompreensíveis ou polêmicos. Isso ocorre porque, de maneira geral, todo estranhamento e toda a tentativa de enxergar a questão “de fora” permitem que se encontre várias contradições embutidas dentro das instituições e grupos nos  quais todos sem exceção participam na sociedade. Tal processo é doloroso porque todos têm crenças e posicionamentos e desejam ardorosamente conquistar novos adeptos às suas causas. Todo mundo (inclusive eu e quem pensa como eu) é incoerente, preconceituoso, ardiloso e mesquinho quanto quem pensa die maneira diametralmente oposta. E, eventualmente, podemos até estar do mesmo lado em determinadas questões.

Eu acredito que QUALQUER mídia (grande ou pequena, de massa ou não, declaradamente ou não de esquerda ou de direita) vive da seguinte equação:

Economia + política + ideologia + técnica = agenda + pauta + estilo (criados e definidos por alguém que possui determinadas crenças para um público que compartilha dessas crenças).

Todos, sem exceção, revelam parcialmente, omitem, distorcem e precisam vender a (des)informação que influencia e é influenciada tanto por esse público que crê no veículo em questão como pelos patrocinadores e acionistas que mantêm esse negócio.

Se o mundo econômico fosse predominantemente socialista, comunista, anarquista, monarquista ou sei lá o que, haveria a mesma preocupação que temos como orientados pelas idéias de esquerda clamando por maior democratização dos meios de comunicação e pela validade do diploma de jornalismo mesmo se o agendamento e os mantenedores do sistema midiático fossem de um campo diametralmente oposto.

Neutralidade não existe. A verdade em geral também não, pois a minha verdade não é igual à de mais ninguém, assim como eu vou ter razão total, parcial ou negativa de acordo com quem me lê.

Eu creio que a direita só tem razão em 20% de suas demandas e que a esquerda tem razão em 60%. Tem gente que dá 100% para um lado e 0% para o outro (e vice-versa). Mas essa é uma escolha, um problema, uma virtude ou um defeito meus e daqueles que partilham de grande parte do mesmo pensamento.

Gênios não existem, pois toda unanimidade é burra. E estúpidos ao extremo também não existem, pois a contradição está dentro de cada um de nós.

Enquanto não me apresentarem para outras, seguirei crendo que há apenas duas únicas verdades “verdadeiras”. A primeira é: eu acredito naquilo em que acredito porque é nesses valores em que quero acreditar e não acredito naquilo em que não acredito porque não é nesses valores que quero acreditar.

Ser de esquerda não é ser comunista ou arnarquista e tampouco ser contra o capitalismo: mas é ser contra o neoliberalismo, contra o estado mínimo, contra o consumismo, contra o egoísmo e contra a falta de politização. Também não é necessário, para ser de esquerda e ter o direito à ter sua voz ouvida, sua opinião respeitada e fazer parte de deliberações políticas, econômicas, sociais e afetivas voltadas ao interesse altruísta e coletivo ser partidarizado ou sindicalizado.

Pensar como eu penso não é jogar na lata do lixo pensadores como MARX, GRAMSCI, FOUCAULT, PAULO FREIRE e tantos outros.

Quem disser que não existe política, ideologia, economia, preconceito e disputa de poder em todas as instâncias da vida (até mesmo nos afetos e no altruísmo) tende a acreditar em “bons” e “maus”. Pior: tende a crer que é sempre uma pessoa “boa” e que todo “mal” é justificável porque visa a “bondade” pessoal ou coletiva. Todavia, grande parte dos objetos empíricos dissecados por esses pesquisadores estão relacionados a um determinado contexto social, econômico e cultural que é muito diferente daquele no qual nos encontramos. Dessa forma, considero que a pesquisa das ciências humanas com um viés esquerdista será tão competente quanto a sua capacidade manter-se sob a mesma ideologia criticando e fundamentando teoricamente as contradições e os modelos anteriores com o mesmo conhecimento de causa com que propõe novos modelos relacionados a cada contexto.

Pra terminar, uma provocação: será que muitas pessoas sabem ou querem mesmo saber que precisa ser salvas? Se elas sabem, como é que sabem? E, sabendo que sabem, será que elas querem MESMO ser salvas?

Eu ainda creio que sim. Mas é preciso entender quem não pensa assim. E eu não posso impor nada a quem não estiver sendo receptivo. Dessa forma, me parece que a quantidade de pessoas supostamente manipulada pela mídia de massa neoliberal e oligárquica capaz de abrir os olhos caso tenha acesso a outro tipo de informação seria mínima.

Afinal de contas, quem é que disse que o meu jeito de educar e conscientizar é o jeito pelo qual as pessoas desejam ser educadas ou conscientizadas?!

É por isso que tendemos a nos aproximar de quem possui maiores afinidades conosco. E é por isso que tendemos a acreditar em algumas coisas e a não acreditar em outras: algumas delas nos mobilizarão. Outras, não.

Muito me alivia saber que não sou perfeito, nem coerente, nem santo, nem mocinho: isso faz com que eu me sinta menos hipócrita e ainda mais disposto em crer naquilo em que creio e em fazer aquilo que eu faço.

Se cada um refletisse dessa forma com concentração e seriedade à sua própria maneira, certamente teríamos um mundo melhor.

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A MORTE DA POLÍTICA PARTIDÁRIA NO BRASIL II

DANIEL DANTAS, IMPERADOR DO BRASIL. Segundo a quantidade de notícias e críticas verídicas ou não que saem sobre tais atores sociais na mídia corporativa, abaixo de DANTAS, em ordem de hierarquia, viriam as seguintes personalidades:

- GILMAR MENDES, presidente do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL;

- NELSON JOBIM, ministro da DEFESA;

- JOSÉ SERRA, o presidente eleito pelo PIG;

- RICARDO TERRA TEIXEIRA (presidente da CBF e membro executivo da FIFA) e CARLOS ARTHUR NUZMAN (presidente do COB e membro do COI).

Todavia, a hierarquia acima é formada por meros testas de ferro de DANTAS e de uma série de outros interessados: por debaixo dela, há imensuráveis valores e artimanhas cuja comprovação é, infelizmente, impossível de ser feita em função da intrincada raiz fasciculada de entes que bancam a alteração de leis única e exclusivamente a favor do lucro fácil e do desenvolvimento não-sustentável que seus respectivos negócios proporcionam.

O BRASIL NUNCA TERÁ JEITO SE A ESQUERDA PERMANECER CRENDO NA POLÍTICA PARTIDÁRIA E NO JUDICIÁRIO.

O BRASIL NUNCA TERÁ JEITO SE A DIREITA PERMANECER ACHANDO QUE OS MEGAEMPRESÁRIOS É QUE SÃO OS EXEMPLOS DE SUCESSO, DE TRABALHO E DE DESENVOLVIMENTO A SEREM SEGUIDOS.

O BRASIL NUNCA TERÁ JEITO SE AS PESSOAS MAIS SOLIDÁRIAS, ESCLARECIDAS E BATALHADORAS DE TODOS OS MATIZES IDEOLÓGICOS SEGUIREM CRENDO EM TOMAR O PODER AO INVÉS DE FISCALIZÁ-LO E DE COBRÁ-LO DE MANEIRA HORIZONTAL.

clipped from paulohenriqueamorim.com.br

. O câncer de Daniel Dantas saiu da cápsula e se espalhou pelo PiG.
. Contaminou o Governo Fernando Henrique.
. Contaminou o Governo Lula.
. Contaminou a Polícia Federal.
. Desmoralizou a ABIN.
. Contaminou o Congresso.
. Contaminou a Justiça.
. Desmoralizou o Supremo Tribunal Federal.
. Como disse Mino Carta: ele é o dono do Brasil.
. Até quando ?

. Já se sente o cheiro.

blog it

BREVE DISCUSSÃO SOBRE INTERAÇÃO DA BLOGOSFERA COM O PIG

O PIG muitas vezes entrevista os dois lados, dando maior espaço para o lado que o patrocina, que o cobra e que, em outra dimensão, dele também depende.

Contudo, normalmente o que eles fazem quando chamam um “especialista” pra falar é endossar o status quo, já que os especialistas chamados na maioria das vezes ou são conservadores, ou se pronunciam cheios de dedos porque, de seu lado, também dependem dos patrocinadores do PIG.

Infelizmente, um blog não foi, não é e sequer terá como ser considerado mídia de massa porque é fruto de uma interação um-um ou um-uns e não um-todos ou todos-todos (compreenda  melhor esses conceitos aqui), como o rádio, a TV, o jornal ou a revista. Se existe um alento em relação a essa realidade aparentemente trágica é o fato de que os portais de conteúdo do PIG também não podem ser considerados como mídia de massa. Por exemplo: se o ClicRBS quiser continuar mantendo os comentários abertos para cada notícia que postar, certamente encontraremos alguns (às vezes mais da metade) comentários bem legais de pessoas de esquerda, dando “nos dedos” deles.

Ora, como todos os grandes portais de conteúdo disponibilizam comentários, o primeiro que fechar esse canal de diálogo com o seu consumidor cairá em desgraça junto aos seus próprios pares.

Claro que eles podem deletar, censurar e serem malcriados com um comentário que contraria a sua agenda de interesses. No entanto, com centenas de novas notícias por dia em dezenas de editorias e a preocupação em decupar e editar o trabalho semi-escravo de um punhado de jornalistas, o que conta a nosso favor quanto ao gigantismo deles é a impossibilidade deles darem conta de censurar milhares de interagentes.

Percebam: o espaço de comentários é o único espaço dentro de um site ou blog que, mesmo quando protegido por senha ou quando reconhece a localização do comentador por IP, oferece a total impossibilidade de previsão de quantidade, qualidade ou viés das interações. E, como falei acima, salvo em raras e desonrosas exceções, mesmo que eles desenvolvessem um robô que deletasse automaticamente comentários que contivessem determinadas palavras-chave, isso seria impraticável e descaradamente desonesto, tendo em vista que eles não podem ignorar que comentários favoráveis à sua agenda também podem conter as mesmas palavras de um comentário oposto.

Trocando em miúdos: mídias intrusivas (este é um termo aparentemente meu, que não sei se seria correto, mas acho que fica mais fácil de entender dessa forma), isto é, aquelas que “agradecem o carinho de entrar sem pedir na sua sala, no seu quarto, na sua cozinha, na rua, no metrô ou no seu carro”, são massivas. As mídias para as quais o receptor precisa correr atrás a fim de buscar informação não são massivas.

Entendo quando se fala que as idéias neoliberais ou de direita já possuem espaços demais enquanto as idéias socializantes ou de esquerda são menos visibilizadas a partir de qualquer tipo de mídia. Porém, se informação é aquilo que produz diferença, informação, notícia, opinião e crítica são gêneros totalmente diferentes que não necessariamente produzem diferença. Se formos dicotomizar essa afirmação, poderíamos dizer que, tanto à esquerda como à direita (ignorando-se as infinitas nuances dos valores estritamente pessoais e o contexto de cada indivíduo), pode-se OU NÃO produzir informação (e,
conseqüentemente, diferença).

Trocando em miúdos, a grande diferença técnica, teórica e empírica entre a web (portais, sites, blogs) e a mídia de massa (rádio, TV, jornal, revista, publicidade, RP e assessoria de imprensa sobre suportes urbanos) é que os funcionam como um telefone sem fio e a mídia de massa funciona como um megafone.

Então, como produzir diferença? A diferença reside em fazer o que o senso comum não espera que seja feito e que o que for feito siga um modelo discursivo inesperado. Isso é o que chama a atenção para que os que não comungam das mesmas idéias do blogueiro emerjam como uma importante parcela da audiência, que supera em importância até mesmo a do mundinho dos próprios pares do blogueiro. É o pulo que se dá a fim de superar a fase de conversar com as paredes ou de não produzir debate nem o contraditório.

Enfim, eu tenho uma posição formada sobre determinadas pautas que acredito serem imutáveis, seja a favor ou contra. Há, ainda, um outro conjunto de temas sobre o qual posso mudar de opinião parcialmente ou até mesmo totalmente. E isso acontece com toda e qualquer pessoa, sem que se possa afirmar que o sujeito é “do bem”, “vaselina”, “maria vai com as outras” ou que ele queira “reinventar a roda”. Não é assim que se confia ou desconfia, nem que se mede coerência.

O PIG não possui ferramentas – digamos – mais humanas e mais comunitárias para surpreender a sociedade. Hipoteticamente, a gente não vai conseguir alcançar um espaço maior se não conseguirmos arrancar o megafone da mão dele durante 15 segundos em uma hora.

Portanto, ele não vai se confundir, entrar em contradição e tampouco reverberar aquilo que nos interessa se a nossa prática for semelhante à dele.

Nesse ponto, considero importante ouvir os dois lados. Não importa que o outro lado já possua espaço midiático excessivo: como eles serão mediados por nós, poderemos fazer as questões que o PIG não faz em função do comprometimento dele e da nossa independência. O esperado por eles é que nós não saiamos do alcance de nossos pares e permaneçamos conversando dentro da mesma roda de amigos.

É tudo uma questão de saber realmente o que se quer comunicar, quando e para quem. Pois a partir dessa questão é que se define o alcance da diferença que se deseja produzir.

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