MÍDIA BRASIL: POR UM MODELO BBC

Este debate precisa ser expandido. Infelizmente, não tenho tempo nem dinheiro que me possibilitem viajar nem sei de alguma entidade disposta a me ouvir e que concorde em grande parte das questões que eu levanto nessa discussão. Mesmo assim, entre acertos e erros, considero-me razoavelmente apto a falar sobre a questão da democratização nos meios de comunicação no Brasil.

É uma questão muito importante, pois trata da soberania nacional e, acima de tudo, da autonomia social e econômica da maioria de nossa população em relação à sua capacidade de reconhecer o mundo a partir de um determinado conjunto de histórias contadas como se fossem a expressão da verdade de uma época sob um determinado contexto.

Assim como só vejo como possível a capacidade de se atrair novos atores sociais dispostos a exercer a sua cidadania política, econômica, social e simbólica pressionando o poder a partir de iniciativas em rede que podem retomar o espaço público como uma ágora eliminando-se uma visão partidária e sindicalizada,  considero o debate pela democratização dos mídias no Brasil a partir do viés acadêmico influenciado pela escola marxista que resultou na TEORIA CRÍTICA da Comunicação um tanto limitado. Afinal de contas, regular, regulamentar, moralizar, educar, propor ações sociais e quebras de paradigma com autonomia e liberdade é uma equação muito difícil de ser solucionada e, definitivamente, não há almoço grátis.

Um erro nessa resistência à mídia hegemônica é o de não reconhecer a importância da estética da linguagem como um fator de necessidade econômica e simbólica voltado para a produção de bens de consumo mais racionais e gratificantes a partir da experiência social resultante do contato com tudo o que é produzido, transmitido e discutido sob o olhar mediado. Considero que, invariavelmente, a limitação das conquistas em relação à democratização dos meios de comunicação deva-se muito ao fato de que reconhece-se muito pouco a fundamental importância do custo de produção e da falta de apuro estético.

O conteúdo só se torna atraente se a edição e o discurso tiverem uma linguagem adequada à linguagem do público predominante. Em termos de empoderamento de pequenas comunidades, qualquer equipamento serve. Porém, quando entra-se no broadcast, o furo é muito mais embaixo.

Embora sejam fatores nada desprezíveis em relação ao consumo de baixarias e da alienação oferecida por conteúdos frívolos que não podem ser chamados de informação (partindo-se do pressuposto bergsoniano de que informação é aquilo que produz diferença), deve-se levar em conta o fato de que, para muitas pessoas, a sua preferência por esse tipo de programação (bem como a preferência dos mídias pela sua produção) não decorre da ignorância nem da falta de escolaridade ou de politização. A preferência por uma estética funcional costuma estar de acordo com a dinâmica social de seu tempo. A maioria das pessoas não têm tempo nem saco pra assistir a um programa de TV com cenário pobre, trilha sonora mal gravada, linguagem de 10 anos atrás e assim por diante. Ser honesto e tecnicamente correto não é suficiente: é preciso ser surpeendente. E há muita surpresa mesmo naquilo que não possui conteúdo relevante. Essa é a fórmula do sucesso de quem está por cima da carne seca.

Talvez a preocupação moral e conservadora que, em certos pontos, também conquistou a minha adesão no momento em que se descobre o quanto certas mensagens podem transformar a educação de uma criança, não deva ser vista como um cavalo de batalha. Ignorá-la, jamais; porém, que ela não se torne a principal bandeira nessa modalidade de resistência política e simbólica. Digo isso porque cada vez menos pessoas assistem televisão. Conheço dezenas de pessoas que, ao começar a trabalhar e a fazer novas amizades, simplesmente perderam até o prazer de assistir aquilo que costumavam assistir.

TV aberta?! Rádio?! Jornal?! Revista?! A mídia de massa não é mais tão forte quanto já foi. É por isso que eu acho um exagero (e até perda de tempo) discutir algo que nunca irá mudar (isto é, o discurso de sempre da Grande Mídia). A RBS, a ABRIL, a FOLHA, o ESTADO e outros menos votados não exercem a menor influência na minha vida. Sinceramente, não me considero mais culto, mais inteligente e nem tampouco mais “esperto” ou “do contra” por preferir (com restrições) CAROS AMIGOS, CARTA CAPITAL ou coisa parecida. Eu acho que, mesmo sendo uma minoria, há um monte de gente que não é necessariamente de esquerda ou com alto grau de escolaridade capaz de fazer as mesmas escolhas.

Infelizmente, são poucas as pessoas com acesso a TV a cabo e internet. E, o que é mais grave, é a total falta de conhecimento de outros idiomas, a fim de fazer com que o Brasil descubra imediatamente tudo o que está sendo feito em termos de empoderamento.

A minha mãe só estudou até a 4ª série e assiste a todos os programas de fofoca e noticiários espreme-sangue da TV aberta. Ela não consegue acompanhar as legendas e não assiste nada em outras línguas porque não consegue entender.

O mundo, em todos os sentidos, é uma coisa extremamente complexa pra ela. Ela não se interessava e não tinha coragem nem saúde pra assistir a uma programação decente, até que vários dos canais a cabo voltados para questões de família, educação dos filhos, novidades da medicina, evoouções tecnológicas e sexualidade fossem duplados para potuguês. A visão de mundo dela pode até não mudar muito, mas, pelo menos, ela aprende um montão de coisas e apresenta assuntos bem mais interessantes pra gente conversar em casa.

Portanto, não podemos considerar a programação como um todo de baix qualidade ou excludente.

As origens dessas questões são muito mais profundas e complexas do que meramente discutirmos sobre quem são os donos dos poderes político, econômico e coercitivo ou por que a mídia corporativa emburrece a população em geral: por mais leis que se tente aprovar e por mais mecanismos de fiscalização, infelizmente, é tudo uma questão de desligar o botão ou de se arranjar outra coisa pra fazer. Ou, pelo contrário, seria a televisão um meio “hipnótico”?! Creio que não. O que deve-se quebrar é a barreira do condicionamento, a partir de uma campanha voltada à uma vida social mais intensa vivida presencialmente junto a seus afetos e atividades ao ar livre.

Por outro lado, há programas maravilhosos na televisão, em grande quantidade. A maioria deles a cabo.

Então, defendo um modelo igualzinho ao da BBC: 50% + 1 das ações pertencentes à emissora estatal, que oferece educativos de altíssima qualidade e interesse no horário nobre (das 19h às 21h) e possui quatro emissoras abertas com conteúdo diferente entre si, mais ou menos como os canais Discovery (só que com qualidade melhor).

A BBC produz programas de primeira porque contrata o melhr iluminador, o melhor fotógrafo, o melhor maquiador… DO MUNDO, por empreitada (como free-lancer).

Eis o grande impasse: a BBC cobra 10 libras/mês para fornecer uma set-top box  e corta o sinal de quem não paga a mensalidade. Essa set-top box, além de proporcionar todos os canais de qualidade educacional e noticiosa da BBC, também libera o acesso a uma série de outros canais.

No Brasil, há uma lei que fala sobre o direito universal à Comunicação. Com isso, a TV aberta foi baixando a qualidade técnica, subtraindo a relevância social e foi espetacularizando a sua programação, quase unificando o discurso em função da pequena quantidade de proprietários e de centenas de patrocinadores em comum.

Temos uma TV a cabo muito cara e de alcance restrito somente aos grandes e médios centros urbanos dos estados do Sul, do Sudeste e das regiões litorâneas do Nordeste. É uma programação cara, repetitiva e redundante, mas que possui, inegavelmente, uma qualidade média de discurso e de apuro técnico superior às produções abertas.

Há, ainda, a questão da TV PÚBLICA, que não é pública mas, sim, ESTATAL: qualquer governo pode optar entre torná-la chapa branca, extingui-la ou fazer dela um cabide de emprego. Caso a TV BRASIL operasse em condições ideais em TV aberta ou fechada no país, teríamos acesso a toda a sua programação em canal próprio – coisa que não ocorre.

Com o equivalente a R$10,00/mês de todas as pessoas interessadas em possuir programação de TV em suas casas, certamente teríamos acesso a um conjunto de canais de programação segmentada com programação de qualidade suficiente para dar um banho em todas as GLOBO, RECORD, RBS, BAND, SBT e emissoras estatais juntas.

Tudo custa dinheiro. E não se pode aumentar impostos ou realizar descontos compulsórios a torto e a direito. Ao mesmo tempo, leis que definem um percentual x do orçamento público ou privado para o investimento em qualquer setor dependem das oscilações de mercado muito mais do que a oscilação resultante do aumento ou da diminuição da audiência em si.

Por que a TV BRASIL não colou ainda?! Simples: porque sua política de distribuição e sua infra-estrutura são pífias, já que falta coragem e interesse nesse investimento pesado sem uma contrapartida.

No meio textual (impresso ou internet), o cara escreve como e sobre o que quiser. Acredita ou duvida dele quem bem entender. Porém, a propagação da voz e da imagem através de ondas eletromagnéticas é uma concessão pública, que deve obedecer a uma política social e educacional.

A DEMOCRACIA NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA TEM LIMITE

Depois de tanto tempo lendo críticas pertinentes porém, em sua maioria, infelizmente inócuas a respeito do discurso da Grande Mídia, passei a me interessar pelo ativismo em rede em pequena escala e pelo empoderamento dos excluídos através do ensino e da prática do uso simultâneo de uma série de mídias sociais, pois tanto a mídia de massa precisa da blogosfera alternativa, ativista e politizada como esse nicho precisa da mídia de massa. Do contrário, o gigantismo e a arrogância da mídia corporativa irá sempre perder espaço para o jornalismo cidadão e a blogosfera ativista será lida sempre por meia dúzia de gatos pingados.

Prefiro fazer coisas mais produtivas do que ficar criticando o que os jornais ou a TV dizem o tempo inteiro por quatro razões atravessadas entre si (isto é, todas influenciam e são influenciadas, refletem e são reflexo das outras em infinitos graus de crença, de agendamento e de práticas sociais):

1) A mídia corporativa sempre irá defender o lado de seus patrocinadores, dos políticos que podem ajudá-la a reduzir encargos trabalhistas, impostos e pagar menos pelos insumos que utiliza. Quem se opuser a eles em questões pontuais, será defenestrado, mesmo que já tenha sido muito seu amigo. E quem sempre se opôs a seus interesses explícitos e ocultos jamais deixará de ser ou ignorado, ou criminalizado. Porém, a Pequena Mídia também possui patrocinadores, valores e interesses que podem, um dia, deixar de ser valores universais e perderem o seu caráter de tentativa de eqüidade social, tornando-a um pouco direitista e fazendo com que a reação da direita seja um pouco esquerdista sem nenhum constrangimento ou contradição;

2) Mesmo os seus profissionais mais honestos e competentes são conservadores que escrevem para uma esmagadora maioria conservadora. No dia que a esquerda tiver um poder semelhante ao da direita, ela também se tornará tão excludente, criminalizadora e totalitária quanto sua ideologia mais siamesa do que oposta em vários sentidos;

3) A clara contradição de copiar, linkar e citar o grosso das posições com as quais a esquerda concorda ou discorda a partir da informação publicada pela própria mídia corporativa em relação ao pequeno número de citações sobre a mídia declaradamente de esquerda (ou, se não for de esquerda e nem nanica, que pelo menos não tenha o péssimo hábito de brigar com a notícia);

4) Logo, o PIG só é PIG e ele só possui um pensamento único quando convém, seja à esquerda, seja à direita. Sim, ele é contraditório, mentiroso e comprometido com a direita. Mas, ao mesmo tempo, ele não deixa de orientar, de situar, de informar e de realizar algumas denúncias e investigações mais cidadãs, de interesse comunitário e solidário – nem que exerça um jornalismo honesto, tecnicamente correto e socialmente relevante em não mais do que  15% a 20% de seu conteúdo.

O mundo da mídia apresenta muitos exemplos que justificam a minha posição. Talvez o mais significativo seja o da Inglaterra, que tem a grande mídia menos desonesta, mais educativa e mais controlada por um governo (ao menos juridicamente tido como) democrático em todo o planeta. Nem por isso sua população altamente escolarizada e com alto poder de compra deixou de ser conservadora ou passou a protestar nas ruas de maneira sistemática.

No plano político, caso a esquerda (a inteligente e coerente – infelizmente, uma pequena minoria) tivesse dinheiro e poder, acabaria criando uma mídia hegemônica às avessas que, por sua vez, tornar-se-ia autoritária e mentirosa às avessas. Além disso, as ações políticas e sociais públicas ou privadas verdadeiramente voltadas para aqueles que mais precisam são muito pequenas e ainda deixam muita gente de fora (até mesmo a política de cotas nas universidades, o Bolsa Família, o investimento pesado em pesquisa acadêmica, o piso nacional para professores de escolas da rede pública, o aumento salarial para boa parte do funcionalismo federal, o investimento em infra-estrutura e a independência do FMI e dos EUA até determinado ponto).

Os próprios políticos são extremamente movidos por interesses diversos, que os impedem de votar 100% a favor do programa ou da ideologia a qual pertencem. Portanto, o ativismo em rede voltado para a solução presencial a partir de um chamamento e de um esclarecimento não-presencial e pulverizado na rede tende a ser mais eficiente como mecanismo de resistência, desde que não almeje o poder e exerça uma pressão sistemática e descentralizada sobre todas as formas de opressão e exclusão (econômica, simbólica ou coercitiva).

Por mais regulado que seja um mercado de mídia por qualquer governo, em qualquer lugar e a qualquer época, a dominação de qualquer viés político-ideológico via mídia de massa como instrumento de propagação de valores depende menos da ignorância de quem não tem estudo e é pobre, da cantilena reacionária ou do exercício da falácia de que “a gente noticia aquilo que o nosso consumidor quer”: afinal de contas, repito mais uma vez que a esmagadora maioria da população é ou torna-se conservadora com o passar do tempo.

Isso leva a outro ponto: não dá pra forçar a barra exigindo uma lei que restrinja os investimentos em mídia de quem é hoje hegemônico e que proíba ou regule qualquer viés discursivo: primeiro, porque eles podem cobrar o mesmo do lado oposto (jurisprudência); segundo, porque, mesmo que se casse as concessões irregulares, a rede social dos ricos é infinitamente mais inteligente, ampla e complexa do que a dos pobres ou da esquerda, pois eles sabem se relacionar melhor entre si e defendem com maior unidade seus interesses.

Isso explica facilmente os tentáculos de Rupert Murdoch em mais de 100 países: aonde puder, ele fará uso de lobby político, econômico e simbólico. Porém, em muitos lugares, ele não precisa entrar na política, não precisa de uma bancada parlamentar parceira e nem tampouco burlar leis de concessões. O que o impede de comprar zilhões de veículos caso não seja comprovada nenhuma atividade ilegal? Afinal de contas, ele não precisa ter ações nem patrimônio em seu nome nem no de qualquer parente ou funcionário seu. Tudo  isso se arranja sem burlar a lei.

Por fim, a Lei da Potência, Curva de Paretto ou Cauda Longa é um processo que não foi até hoje convincentemente contestado nem pela Matemática, nem pela Biologia e nem pelas Ciências Sociais: a humanidade sempre possui infinitas formas de escolher uma referência e a ela dar credibilidade. Sua preferência por um e não por outro é algo muito mais profundo e subjetivo do que a crença do senso comum de esquerda de que qualquer valor individual tem como origem os embates e as crenças político-partidárias, midiáticas ou econômicas. Sim, elas fazem parte. Contudo, não explicam as preferências e as repulsas por si próprias.

Mais um exemplo: digamos que fosse possível igualar o alcance (ou a tiragem) de TVs, rádios, jornais, revistas; igualar os valores de todos os padrões de anúncios publicitários nessas mídias; obrigar todos os veículos a terem vários concorrentes do mesmo setor anunciando ao mesmo tempo; fiscalizar a ocorrência de matérias pagas; garantir a distribuição de mídia impressa nos mesmos pontos de venda, na mesma quantidade de exemplares e com a edição seguinte de tudo que uma banca vender chegando ao mesmo tempo e possuindo igual espaço na vitrine…

…Mesmo assim, mesmo que houvesse eqüidade e diversidade de opiniões, cada uma com uma definição ideológica clara, o consumidor rapidamente se encarregaria de optar por algumas referências, pois não tem tempo nem vontade de comparar posições diferentes. Ele vai acabar indo atrás daquela opinião com a qual concorda mais.

Conseqüentemente, a escolha do cidadão e do consumidor a partir da sua liberdade de expressão e de ter o direito a consumir o produto que bem entender irá desequilibrar novamente o mercado midiático, que terá toda a razão em cobrar a perda de anunciantes em função dessa eqüidade artificial e forçada, pois até os pequenos estarão ao lado dos grandes em uma questão de subsistência.

Obviamente, em termos de democracia, a inclusão cidadã de novos internautas, as rádios e TVs digitais, a não-criminalização de rádios comunitárias, a execução e obediência das leis de concessão de emissoras e restrições à baixaria na programação proporcionarão um maior empoderamento social a partir da própria experiência do sujeito no manejo de uma mídia pequena. No entanto, o que impediria que uma corporação de mídia conservadora, muito rica e com patrocinadores poderosos mesmo agindo à luz da legalidade de comprar veículos, distribuir infra-estrutura e empoderar à sua maneira pequenas comunidades fornecendo cursos e montando rádios, TVs e jornais comunitários?

Diante de tudo o que foi exposto neste longo artigo, de maneira chutada, diria que se, hoje, sob esta lei da selva e nestas condições econômicas e culturais, o senso crítico e os valores mais progressistas apreendidos pelos raros consumidores da Pequena Mídia não passariam de 5% a 10% da população, mesmo diante do quadro ideal que eu pintei nos parágrafos anteriores, duvido muito que mais do que 30% da população deixaria de seguir um modus operandi conservador.

Finalmente, comprova-se cada vez mais aqui no Brasil a complementaridade da blogosfera ativista independente com a divulgação de suas demandas através da mídia de massa, em uma relação na qual essa mídia de massa passa a perder credibilidade caso deixe de divulgar a notícia a respeito dos micropoderes dispersos em rede, capazes de comer seus pés de barro. A exemplo do que já se verifica nos EUA há mais de meia década, Atualmente, aqui no Brasil, já podemos comprovar que, na maioria das vezes, os blogs só adquirem maior visibilidade quando citados pela mídia de massa e que eles têm o poder de mobilizar e de fazer política de baixo para cima intercambiando a troca de informações e a sociabilidade tanto no ambiente online (tecnologias da informação e da comunicação – blogs, e-mail, mensageiros instantâneos, etc.) como no offline (encontros presenciais).

Pesquisadores experientes e iniciantes (que é o meu caso) têm realizado pesquisas  acadêmicas que apontam nessa direção, através da análise quantitativa e/ou discursiva da audiência de blogs e do conteúdo de seus links, posts e comentários, cruzadas com entrevistas qualitativas. É  a adaptação da etnografia (método consagrado no início do século XX pela antropologia) para aquilo que chamamos de netnografia ou etnografia digital, onde o pesquisador realiza um trabalho militante de envolvimento pessoal com o público observado, que só funciona quando os depoimentos presenciais e o material coletado na ida ao campo (no meu caso, um coletivo de blogs bastante significativo no cenário gaúcho de resistência ao neoliberalismo e ao autoritarismo) são tensionados por teorias das áreas da Comunicação, das Ciências Sociais e da Filosofia, cada vez mais atravessadas por alguns princípios da Biologia e da Matemática que não podem ser ignorados.

Por enquanto, isso é o que eu concluo de tudo o que eu já vi sobre midiatização, economia política da comunicação e das discussões sobre a democratização dos meios de comunicação.

PROPOSTA DE VALORIZAÇÃO DA POLÍTICA PARTIDÁRIA

A exemplo da discussão no DIÁRIO GAUCHE, também acho que tinha que acabar com essa palhaçada de 2º turno, a fim de garantir que as forças que estão do mesmo lado já atuem oficial, legal e inapelavelmente coligadas desde o início da campanha.

Não considero mais o 2º turno como uma forma de repensar ou então de separar o joio do trigo: são tempo, dinheiro e paciência perdidos.

Ao mesmo tempo, a Cláudia tem toda a razão: eleições completas (presidente, governador, prefeito, senador, deputado federal, deputado estadual, vereador E, a exemplo dos EUA e de vários outros países ‘civilizados’, eleição de um representante do Estado para a Suprema Corte).

Voto facultativo, voto distrital (cada vereador, deputado estadual e deputado federal é o único representante de uma determinada região geográfica, não podendo ser votado fora dessa região), fim do voto nulo, fim do voto em branco, fim do voto na legenda, obrigatoriedade de votar exclusivamente em candidatos da MESMA coligação e um máximo de 5 e mínimo de 3 candidatos nas majoritárias: tem partido demais que não representa absolutamente nada na sociedade.

Financiamento público da campanha (seria proibida a doação por parte de pessoas jurídicas), e-mail profissional de funcionários públicos, sindicalistas e filiados com cargos em partidos de TODOS os escalões ABERTOS À COMUNIDADE, todos os telefones de órgãos públicos com ligações GRAVADAS e disponíveis na internet, telefones fixo e celular únicos (isto é, tem que estar registrados no nome e no endereço do político, do funcionário público ou do sindicalista e cada um não pode possuir mais de um celular em seu nome nem mais de um telefone fixo para a família inteira em sua respectiva residência.

Finalmente, tempos iguais para todos os candidatos independentemente do número de partidos ou da representação proporcional de sua respectiva coligação na câmara.

AS CONTRADIÇÕES ENTRE GRANDE MÍDIA x ESQUERDA

Embora a mídia corporativa defenda as bandeiras que defende através de uma forma, de um enunciado, de uma gramática audiovisual tecnicamente produzida para contar histórias que contem apenas a versão que interessa a seus patrocinadores, não dá para jogar todas as práticas e todos os profissionais em uma vala comum.

Exemplo 1: o GNT, emissora a cabo das Organizações Globo (OGs), transmitiu a maioria dos filmes do MICHAEL MOORE (Bowling for Columbine, Fahrenheit 9/11 e Sicko) e o do AL GORE (An Unconvenient Truth), assim como o excelente SUPERSIZE ME de Morgan Spurlock.

Exemplo 2: repete-se também nos canais abertos, nas emissoras de rádio, nos
jornais e nas revistas (tanto de conteúdo segmentado por tema como nos
veículos generalistas) uma certa fração da programação total que
verdadeiramente trata de utilidade pública, conteúdo educativo sem um
viés de direita e uma leve pitada de jornalismo bem feito – a exemplo
do exemplo anterior sobre a GNT. De volta, quem trabalha nessas empresas não é
nem Hitler, nem Gandhi.

A primeira impressão seria considerar esse procedimento uma estratégia para enganar o público em geral e amansar a esquerda, levando-os a pensar que, quando as corporações de mídia veiculam esse tipo de programa mais crítico, seria um sinal de que elas seriam realmente “neutras” e, conseqüentemente, a audiência deveria crer na “neutralidade” da Grande Mídia. Assim, obteriam a defesa do público quando alguém questionasse se estão mentindo quando falam sobre política, economia, valores conservadores e criminalização dos movimentos sociais em seus telejornais.

A segunda impressão seria jogar numa vala comum os jornalistas dessas grandes empresas. Os assalariados subalternos são vistos de várias maneiras: “coitados”, “covardes”, “burros”, “chinelões ambiciosos”, “pelegos” ou, ainda, como técnicos competentes pagos para executar uma tarefa de maneira acrítica. Porém, eles são gente passível de todos os tipos de comportamento possíveis, assim como qualquer um de nós – apenas isso.

Outro ponto fundamental freqüentemente ignorado nas discussões sobre o papel do jornalista na Grande Mídia é o seguinte: os editores contratam, em sua maioria, repórteres, fotógrafos e articulistas que pensam como eles e como os donos dos veículos. Esses, em certos casos, podem até não receber os melhores salários, nem serem FDPs ou pelegos: eles simplesmente são conservadores e crêem que os valores nos quais acreditam são os valores ideais para se chegar a uma sociedade melhor. Pois a esmagadora maioria da sociedade, independentemente da região em que more, da cor da pele, de sua religião, faixa etária, escolaridade ou profissão tende a ser extremamente conservadora. Conseqüentemente, tanto os donos como os patrocinadores, os funcionários e os programas da Grande Mídia serão conservadores.

Também há uma visão extremamente equivocada de que a mídia corporativa manda no mundo ou de que ela possui o poder absoluto de decidir os rumos da política, da economia e dos valores morais de uma sociedade. Embora ela tenha um alcance gratuito e cubra quase 100% do território nacional, o receptor não é passivo e ele não precisa ter curso superior nem viver em um centro urbano para questionar, duvidar ou ignorar a mensagem transmitida pelos meios de comunicação. Claro que, quanto maior a ignorância, maior a possibilidade de acreditar sem questionar. E que, obviamente, o seu objetivo é satisfazer aos interesses de quem a banca.

Pois é quem a patrocina quem detém o verdadeiro poder simbólico, político, econômico e coercitivo. Ela é tão-somente um instrumento que é voltado para interesses puramente comerciais. A lei vigente e as práticas culturais relacionadas à percepção social média a respeito do conteúdo midiático permitem e estimulam a não-obrigação da Grande (e também da pequena mídia) de serem culturais, educativas, conscientizadoras, politizadoras, investigativas e o escambau.

Não, elas não são e nem precisam ser. Também não devem ser censuradas. E não dá pra forçar a barra restringindo o seu alcance e tentar investir uma fortuna em uma alternativa verdadeiramente educativa, conscientizadora, politizadora, investigativa, inteligente e assim por diante se não houver interesse do público no tipo de temática a ser abordada, nem tampouco se os produtores dessa mídia alternativa não souberem utilizar uma linguagem técnica recortada, fragmentada, de vocabulário simples, ritmo dinâmico e dotada de uma edição de som, de vinhetas e de legendas totalmente adaptadas à semiótica contemporânea.

A situação é extremamente complexa, dados os seguintes pontos:

1) O cumprimento de todos os requisitos para a primeira autorização e para as sucessivas renovações das concessões do espectro das ondas de rádio destinadas às emissoras de rádio e televisão deveria ser exemplarmente obedecido e punido quando necessário;

2) O ideal é absolutamente impossível de se obter em qualquer lugar do mundo. Não dá para impedir e nem tampouco fiscalizar o tempo inteiro políticos, funcionários públicos de qualquer instância e empresários que veicularam anúncios, releases ou comerciais nos últimos 10 anos; funcionários e associados que trabalham, trabalharam ou possuem negócios com esses mesmos patrocinadores, políticos e donos de veículos e até três gerações de suas respectivas famílias a obterem concessões. Nem todos esses caras são ricos, famosos, suficientemente poderosos ou conhecidos e fazem parte de uma rede social que envolve centenas de milhares de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do país. Não dá para emparelhar a capacidade econômica de investimento entre o que seria uma mídia “de direita” e uma mídia “de esquerda” porque o grosso da sociedade é conservadora;

3) Uma TV pública não pode ser uma TV estatal. Do contrário, a Voz do Brasil e as TVEs (sejam bem ou mal administradas) são mais do que suficientes. Ela não pode ter nenhum cargo político mas, sim, cargos eminentemente técnicos. O mandato de sua diretoria não pode estar vinculado ao mandato do presidente da república, do governador, do prefeito, dos senadores ou dos deputados estaduais. Deve ser mais longo (sugiro 12 anos) e regido por uma eleição da qual toda a sociedade participe;

4) Nem a internet e nem a TV digital proporcionam ou proporcionarão ao mundo maior justiça, democracia, cultura e/ou inteligência: o grande equívoco dessa discussão é que ela é centralizada ou na tecnofilia de que tudo será melhor para a maioria, ou na tecnofobia de que as TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação) são o grande mal, a grande fonte de alienação da sociedade.

Em primeiro lugar, novos grupos de comunicação municipais vinculados ou não à grande mídia regional ou nacional irão produzir localmente pautas voltadas às comunidades locais de forma que, com mais dinheiro, maior profissionalismo e com o apoio dos caciques da comunidade, não deixará de haver um agendamento conservador. Apesar da possibilidade de TVs e rádios “favela” poderem aparecer e contestar essa nova agenda hegemônica de abrangência local, a maioria das pessoas tenderá a assistir os programas técnica, enunciativa e esteticamente melhor produzidos.

Sim, diminuirá o conservadorismo e o nível de conscientização irá aumentar. Porém, não será tão significativo quanto se imagina ou se deseja.

Portanto, só vejo uma única possibilidade técnica, política e financeira para que haja uma distribuição massiva de conteúdo decente não apenas no Brasil como em qualquer país do mundo: seguir, com as devidas adaptações culturais de cada cultura, o modelo da BBC.

Falarei mais sobre esse modelo mais adiante, em outro post.

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A VOLTA AO ESPAÇO PÚBLICO PRESENCIAL PASSA PELA INTERNET

Vivemos em uma sociedade individualista, na qual predominam duas características:

- O fluxo (de veículos, de informações, de dinheiro) não pode ser interrompido. Ele deve, sim, ser acelerado (não que eu concorde com isso, mas é o pensamento e o procedimento da contemporaneidade);

- A midiatização (a esmagadora maioria das discussões se faz através daquil que só se conhece porque foi veiculado na mídia corporativa).

A violência urbana, o capitalismo acelerado e a perda da historicidade são tanto fatores determinantes do não-envolvimento político e social da maior parte da sociedade como determinados por esse não-envolvimento.

O Brasil possui uma situação sui generis em toda a América Latina (diria que é uma situação rara inclusive em nível mundial): aqui, a concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos de apenas seis ou sete grupos de proprietários representa um modelo de concentração econômica, industrial e de linha editorial que dificilmente encontra correspondentes similares ou até mais monopolistas do que aqui.

De certa forma, o Brasil não deixa de ser uma aberração: é o maior país em extensão territorial do continente, é o único que não fala as línguas hegemônicas no Ocidente (inglês, francês ou espanhol) e é também o país sul-americano que mais concentra macacas de auditório dos EUA.

Então, a grande maioria das pessoas aqui age e pensa de acordo com a referência hegemonicamente torta que lhes fornece informação.

Como tentar mudar esse quadro? Com DÉCADAS de trabalho de formiguinha, utilizando as novas tecnologias da informação e da comunicação de maneira descentralizada.

O maior erro da esquerda é querer tomar o poder e ainda crer que quase tudo se resume a manipulação, persuasão, racismo, sexismo e à dicotomia entre burguesia x proletariado.

Claro, tudo isso faz parte e influencia a sociedade, sim. Porém, há muitos fatores intermediários que variam de região para região, pois, querendo ou não, o Brasil é um país ENORME e MULTICULTURAL.

O grande calcanhar de Aquiles da mídia corporativa é a sua constante insistência na homogeneização da cultura e do consumo. E o grande calcanhar de Aquiles da esquerda é querer racionalizar sempre diante de uma grande massa de pessoas que não foi treinada para associar história, indivíduos e redes sociais.

Dessa forma, tudo o que os blogueiros-militantes mais experientes de dentro dos partidos e dos sindicatos dizem sobre a campanha de Maria do Rosário, dadas as condições de luta que o ambiente atual propicia, apesar de não ser a “melhor” nem a “ideal” para quem gosta de pensar e de ver os outros pensarem e se envolverem, representa uma maneira diferente de tentar encher de significado o esvaziamento político do espaço público e a confusão entre o que é público e o que é privado.

Isso posto, por que as pessoas iriam preferir ir às ruas e assinar qualquer documento em uma época de total desconfiança no semelhante e no temor do desaparecimento da privacidade por causa da falta de competência e de maturidade no uso da internet?!

A luta deve continuar. Mas deve-se aprender a levar em conta uma série de variáveis altamente voláteis e dinâmicas existentes na sociedade atual. Portanto, a melhor maneira de descentralizar a luta e de obter massa crítica suficiente para uma transformação social verdadeiramente relevante é pulverizar a internet com convites para eventos presenciais, vídeos, textos e áudio.

Esse conteúdo dinâmico e ubíqüo tende a fazer com que, aos poucos (de maneira bem lenta), o espaço público volte a ser ocupado.

No fundo, o “trabalho” de destruição da educação e da saúde no Brasil é o maior responsável pelo atual estado das coisas. Isso explica a falta de capacidade de interpretação de textos e da falta de disponibilidade generalizada para o diálogo e para conhecer e aceitar o novo.