Antes que muitos pensem que pretendo oferecer uma proposta de engessamento da camiseta nº1 do Grêmio ou que eu seja um caga-regras, reitero que o objetivo é tão-somente o de evitar que terceiros tenham o controle sobre o bem material mais valioso da marca Grêmio.
Não tenho absolutamente nada contra a existência de detalhes nas golas e nas mangas, assim como nos punhos e diferentes retalhos de tecido e suas respectivas costuras nas emendas das mangas com o corpo e também nas laterais que unem os panos da frente e de trás do corpo. Embora tais detalhes sejam fruto da criatividade e de uma padronização da linha de montagem de cada fornecedor, ainda assim o clube deve poder determinar LIMITES facilmente identificáveis, a fim de garantir e aumentar o valor de sua marca.
Este post se aprofunda ainda mais nas listras e introduz considerações sobre golas e sobre o nosso tom de azul que serão abordadas na sequência desta série.
KAPPA 2000 (detalhe frente)

A Kappa foi muito feliz em pelo menos dois pontos:
1) Manteve o tom “azul-tesão” pesquisado e escolhido pelo eterno presidente Hélio Dourado nos idos de 1976. Foi com essa cor que o Grêmio venceu pela primeira vez o Brasileirão (1981), a Libertadores (1983), a Copa Intercontinental (1983 – que é, sim, um título mundial) e a Copa do Brasil (1989) com três fornecedores diferentes ao longo de uma década inteira;
2) O distintivo é maior do que o das temporadas de 2005 a 2009 da Puma e possui um molde perfeitamente compatível com as fontes e com as proporções do grafismo da nossa marca;
3) A emenda das mangas, quando não segue o padrão clássico do corte reto, precisa ter uma costura ou uma tira branca, a fim de evitar que as cores azul e preta se toquem nessa emenda. Tomo essa composição como exemplo para uma tentativa que pretendo realizar em breve no desenho dos mock-ups: a de propor que mesmo entre os panos da frente e o das costas, que sempre haja uma costura branca entre os panos menores que a fornecedora do momento decidir colocar no seu molde. Mais uma vez, quando o corte é reto, isto é, quando o pano da frente emenda direto no pano de trás, meia listra azul emenda em meia listra azul de um lado e meia listra preta emenda em meia listra preta do outro;
4) A largura das listras, embora um pouco maior do que a da Penalty e bem maior do que as de Olympikus e Adidas, obedece a uma proporção bastante harmoniosa;
5) Pessoalmente, prefiro uma listra branca bem no meio do peito. Neste caso, essa listra é preta. Além da manga em diagonal, mesmo que a emenda entre os panos da frente e de trás seja a clássica, por termos um número ímpar de listras, sempre que a listra do meio do peito e do meio das costas for azul ou preta, nos deparamos com um número ímpar de listras largas e um número par de listras brancas. Neste caso, a emenda dos panos da frente e das costas será feita necessariamente a partir da mesma cor em ambos os lados.
Esse é um detalhe controverso que requer discussão: deve-se ou não padronizar a listra branca no meio (bem mais harmoniosa no conjunto) com o ônus da assimetria lateral (um lado azul e o outro preto)?
Inversamente, uma listra larga no meio tira a leveza da listra branca e a sua discreta importância como um marco divisório. Essa listra larga no meio, se preta, garante que as laterais serão pretas; se azul, garante que as laterais serão azuis.
Embora não goste de gola pólo e considere as listras muito largas, considero esta camiseta muito bonita.
Quanto à gola, não considero relevante nem incentivar, nem abolir nenhum modelo – seja ela careca, em V ou polo. Acho que a padronização das golas refere-se muito mais ao que se pode ou não fazer com as cores do clube.
Neste modelo em especial, a gola é polo. Pessoalmente, não gosto, pois ela soa como demasiadamente conservadora, além de não ser nem prática, nem higiênica e tampouco sustentável no verão. Por que penso assim? Porque a gola polo consome mais tecido e perde o charme rapidamente, pois facilita o acúmulo de suor e gera “cascão” no contato com o pescoço, além da perda de tempo para dobrá-la e do consumo desnecessário de energia para passá-la a ferro. Mas esse tema será melhor discutido em um post específico.

Sempre que um modelo não se baseia no padrão clássico, é necessário torná-lo o mais harmonioso possível. Por um lado, o Grêmio é abençoado por possuir três cores agradabilíssimas e quase básicas de se trabalhar. No entanto, o balanço entre a largura, a posição e a proporção das listras requer cuidados especiais, a fim de evitar que prevaleça ou o branco, ou o preto. Caso não seja possível manter um equilíbrio perfeito em função de um corte arrojado, que se privilegie o azul.

Confiram acima: uma manga com empunhadura tricolor é algo raro. Ficou bonita e, embora em uma proporção menor do que a das listras, manteve a listra azul da mesma largura da preta separadas por uma branca mais fina. Além disso, a manga com corte diagonal conta com um feliz friso branco que evita que os azuis e pretos da manga e do corpo se toquem. Caso não houvesse essa listra branca, o acabamento seria muito grosseiro, pois é importante evitar que se jogue tecido fora apenas para fazer com que a mesma cor do pano da manga tenha contato com a sua correspondente no pano do corpo.
Os cortes da Penalty, da Olympikus e da Adidas eram mais clássicos e todos – sem exceção –obedeceram à diretriz informal porém harmoniosa da listra branca mais fina dividindo o peito ao meio. Sempre que o corte da manga for reto e sempre que não houver nenhum pano intermediário entre os panos da frente e das costas, o encontro das listras azul e preta nas emendas não se torna grosseiro.
Abaixo, o modelo 2010 da Puma, na vista lateral que destaca a paradoxal emenda dos panos da frente e das costas:

Independentemente de o tom de azul não ser o mais luminoso – isto é, aquele que caracteriza e destaca mais o Grêmio como Grêmio (azuis mais claros, bonitos ou não, lembram clubes pequenos como Paysandu e Londrina; como a racista Lazio ou, ainda, o emergente Manchester City) – temos aqui uma tripinha de pano azul entre a última listra preta do pano da frente (um terceiro pano meramente estético) e um quarto pano preto “perfurado”, bem na lateral, logo abaixo da axila.
Se, aqui, o excesso de preto já torna o modelo pesado, sabemos que não pode haver panos nem listras largas brancas na camiseta tricolor nº1. Se a lateral fosse toda azul, dos males o menor. Porém, a noção de bicolor seria mais forte do que de tricolor – o que descaracterizaria o Grêmio de qualquer maneira.
O problema da Puma com o Grêmio não é de acabamento, de qualidade e nem tampouco falta de criatividade: é de harmonização e de respeito. Porém, quando o clube não se impõe perante um fornecedor porque não sabe o que quer e não possui nenhum manual de identidade visual, nenhum profissional interno ou externo tem por onde se guiar.
Obrigado ao Diego Bretanha do blog Camisas do Grêmio, que corrigiu minha informação inicialmente equivocada: eu havia dito que a camiseta da Kappa era de 1998 quando, na verdade, é de 2000.