POR QUE SOU CONTRA O GAUCHÃO

Não estou escrevendo nada sobre a CARAVANA DA MISÉRIA porque, infelizmente, não se trata de um campeonato cujo objetivo DEVERIA SER o de fomentar o profissionalismo REAL e SUSTENTADO nos clubes do interior. Diante desse quadro e do montante necessário para se investir em futebol profissional colhendo frutos em um prazo nunca maior do que cinco anos, tampouco existe um estímulo para que tanto os municípios como a iniciativa privada invistam nesses clubes.

Quem disputa as séries A, B e C do BRASILEIRÃO de pontos corridos, todos contra todos em ida e volta, jamais deveria ser obrigado a disputar esse torneio amistoso, desorganizado, onde o que prevalece é o jabá institucionalizado por relações empresariais das mais chinelonas que eu já vi. Nesse sentido, até mesmo para benefício dos clubes pequenos que ainda não atingiram esse patamar, sugiro a formação de uma LIGA, onde os próprios clubes seriam responsáveis pela organização do certame e pela constituição de um corpo de administradores, médicos, advogados, psicólogos, assistentes sociais, engenheiros, arquitetos e desenvolvedores de software que serviria como exemplo para que a FIFA reconhecesse que o modelo hierárquico CBF – federações estaduais – clubes de ponta – clubes pequenos está repleto de vícios dentro do BRASIL e que é necessária uma mudança radical desse quadro.

Hoje, observo que a COPA PAQUETÁ é um torneio que atrai mais público, que envolve mais as comunidades e que é, sem sombra de dúvida, mais organizado do que o GAUCHÃO. Quando o amadorismo supera o profissionalismo não apenas  no espírito lúdico, comunitário e integrador, estamos diante de uma séria crise de organização patrocinada por aqueles que possuem dinheiro, patrocinadores, tradição e o respaldo de seus filiados, por mais prejudicados que eles sejam durante a disputa desses certames.

Sempre que eu falo no exemplo top, não quero com isso dizer que o futebol brasileiro não presta: o que não presta aqui é a mentalidade reinante entre a maioria dos dirigentes e daqueles que patrocinam ou poderiam vir a patrocinar o esporte. Contudo, há uma abissal perda técnica relacionada à ida precoce de jogadores que também não são mais preparados para executarem jogadas mais técnicas aliando-as à objetividade. Pensa-se tão-somente na segunda.

Por isso, a emoção não está mais em respeitarmos e admirarmos clubes que jogam bonito e são estruturados quando o nosso próprio time vai mal. Então, sabemos que os gols em profusão surgem mais por ruindade da defesa do que pela qualidade do ataque, bem como a falta de gols reside mais na ruindade do ataque do que na qualidade da defesa. Torcer pelo futebol brasileiro profissional virou mais uma questão de hábito, de afeto e de alteridade do que de orgulho.

Mal comparando, o futebol inglês é sensacional porque há dezenas de ligas divididas em cerca de oito divisões. Aqui, temos séries A, B, C e D do BRASILEIRÃO, COPA DO BRASIL e CAMPEONATOS ESTADUAIS que, fora em SÃO PAULO, costumam apresentar apenas uma ou duas divisões.

Na INGLATERRA, se um grupo de amigos barrigudos regados a churrasco, cerveja, mulheres cricri, filhos barulhentos, falta de dinheiro e um emprego frustrante quiserem montar uma liga de times de bairro ou de ruas com um gramado comum (p. ex.: PRAÇA ARARIGBOIA em PORTO ALEGRE) ou com pequenos estádios particulares (p. ex.: FORÇA E LUZ, também em PORTO ALEGRE), esses caras serão federados, fichados na FEDERAÇÃO INGLESA como jogadores. O torneio deles faz parte de uma liga, na qual a federação só irá intervir caso haja desorganização ou falcatrua gritante e comprovada. Aí, os melhores dessas ligas vão subindo de posto aos pouquinhos.

Hoje, se pegarmos como exemplo apenas a SÉRIE A do GAUCHÃO, mesmo que tiremos fora GRÊMIO, FRAGÁRIOS, JUVENTUDE e CAXIAS e mesmo que, eventualmente, surja como força efêmera um ESPORTIVO, FRAGARINHO-SM, VERANÓPOLIS ou 15 DE CAMPO BOM, peguem a infraestrutura dos demais participantes. Tirando o COLOSSO DA LAGOA do YPIRANGA DE ERECHIM e, mais ou menos, o PASSO DA AREIA, me digam quem é que tem uma estrutura patrimonial, técnica e financeira minimamente digna para serem considerados superiores ao que possui o hoje gramado de aluguel sem time nem clube em âmbito reconhecido do FORÇA E LUZ?!

O que explica o quase desaparecimento do AIMORÉ DE SÃO LEOPOLDO; a neccessidade do NOVO HAMBURGO ter tido que se desfazer do SANTA ROSA e jogar em um gramado que quase não possui arquibancadas; a precariedade absoluta dos estádios ESTRELA D’ALVA (BAGÉ), DOS PLÁTANOS (SANTA CRUZ), ALTO DA GLÓRIA (VACARIA) e tantos outros? Por que cidades ricas do interior não investem nesses clubes?

Tenho gostado do GRÊMIO em 2009. Me parece promissor. Obviamente, sigo indo aos jogos.Também não deixo de acompanhar a política através dos blogs amigos listados na coluna da direita.

Todavia, em termos laboratoriais, considero essa opção muito pobre. Creio que deveríamos seguir o calendário europeu, a SELEÇÃO deveria atuar dentro do país sempre que possível e a pré-temporada deveria ser mais corajosa, mais audaciosa, mais arrojada: nossos grandes clubes, de maneira geral, se borram de medo de terem que enfrentar um clássico com a musculatura rígida, desentrosados e com alguns quilos a mais.

Na ARGENTINA, país vizinho, rival e de clubes ainda mais decadantes e piores tecnicamente do que a maioria dos nossos, os grandes se encaram na praia, no lendário ESTADIO MUNDIALISTA em MAR DEL PLATA, para os TORNEOS DE VERANO: BOCA, RIVER, RACING, INDEPENDIENTE e SAN LORENZO estão todos lá.

Seria o mesmo que GRÊMIO, FRAGÁRIOS, SPFC, CRUZEIRO e PALMEIRAS (dos grandes, os únicos cinco realmente organizados do país) se encararem em MACEIÓ, VITÓRIA, NATAL, JOÃO PESSOA em duas semanas de tiro curto.

Da mesma forma, nossos pequenos só irão crescer caso o parâmetro de comparação deles seja elevado a um patamar mais alto. Por exemplo: as campanhas dos nossos clubes na SÉRIE C do BRASILEIRÃO são, via de regra, vexatórias. Por que? Porque a FGF os obriga a disputarem Copa Borges de Medeiros, Copa General Neto e assim por diante dando-lhes vagas à COPA DO BRASIL e porque não existe comprometimento nem ajuda para que a estrutura do primeiro semestre seja mantida ou aperfeiçoada no segundo. Daí, quando surge pela frente um ‘grande’ de SC, CE, RN ou um ‘médio’ de SP, GO ou BA, nosso interior leva sumantas de dar dó.

Assim como está, prefiro dar uma caminhada ou pegar um T2A pra assistir a uns dois jogos no final da tarde de domingo ali na ARARIGBÓIA.

NO INTERIOR: – FUTEBOL, + ESPORTE AMADOR

Para que não reste nenhum mal-entendido em relação ao post anterior: não sou contra a existência de clubes pequenos nem contra a existência dos campeonatos estaduais. Contudo, estes certames menores deveriam ser disputados única e exclusivamente pelos clubes que fazem parte apenas das séries C e D do BRASILEIRÃO – e também como forma de classificação à Série D.

O que torna difícil o crescimento e a racionalidade nos clubes pequenos é o paternalismo das federações estaduais e o caciquismo, isto é, apenas o mesmo cacique local e sua turma é que comandam a gestão desses clubes, sem nenhum preparo profissional (administração, direito, economia, marketing, psicologia, educação física, comunicação social e visão empreendedora).

À exceção de rivalidades de bairro e de classes sociais no início do século XX e da necessidade puramente pessoal de pequenos grupos de se fazerem representados no mundo do futebol profissional, não existe nenhum motivo técnico ou racional que justifique a existência de SEIS clubes profissionais em Pelotas e em Rio Grande, CINCO entre Passo Fundo, Ijuí, Erechim e Três Passos, mais OITO na Grande POA (à exceção da Dupla), TRÊS entre Bagé e Alegrete, SETE entre Santa Maria, Cachoeira do Sul e Santa Cruz do Sul, mais alguns na Fronteira Oeste e diversos outros na Serra (além de Esportivo, Caxias e Juventude).

Afinal de contas, de carro ou de ônibus, o tempo de viagem e o trânsito entre essas cidades para assistir a um jogo de futebol seria quase sempre mais curto e mais rápido do que entre bairros dentro de Porto Alegre, por exemplo. E seria um programa barato.

De aproximadamente 40 clubes ditos profissionais de futebol, o RS poderia ter 10, todos com mais torcida, reduzindo a torcida do Grêmio e do tradicional adversário, reforçando os laços de várias comunidades e aumentando enormemente as chances de o RS ter representantes em todas as divisões nacionais e na Copa do Brasil quase sempre.

Tanto a paixão pelos grandes e centenários clubes dos grandes centros como a pequena capacidade econômica de lugares menores impedem que haja futebol competitivo e bem planejado.

Já falei e vou repetir: um belo time de futsal, vôlei, basquete ou handebol, escolas, patrocinadores e clubes sociais aglutinando e oferecendo estrutura para esportes individuais (tiro esportivo, tiro com arco, atletismo e natação) custam centenas de vezes menos, criam novos pólos de referência para atividades específicas e, finalmente, mobilizam uma comunidade inteira para torcer e consumir com mais força do que no futebol em uma série de casos.

Quem sabe não estaria aí também a grande oportunidade de popularizar e desenvolver o futebol feminino no Brasil?

Pra terminar: não seria um belíssimo motivo de incrementar o turismo no interior a partir da atração de entusiastas de esportes com pouca representatividade e com baixa qualidade técnica provenientes da capital e de outros estados e países?