CAPES, MEC, UNIVERSIDADES: ATENÇÃO!

Depois de cinco anos de tentativas frustradas, em 2007, consegui entrar no Mestrado em Ciências da Comunicação na UNISINOS. Foram dois anos hiperproveitosos, onde aprendi muito mais do que podia imaginar e conheci pessoas incríveis.

Pude, finalmente, me qualificar como pesquisador. Porém, o título de mestre infelizmente tem valido muito pouco no Brasil.

95% dos concursos públicos para professor nas universidades federais e nas maiores particulares do país exigem doutorado. Claro que eu quero fazer doutorado e pretendo passar na seleção em um prazo bem menor do que o de cinco anos que demorei para entrar no mestrado. Todavia, não se trata de uma reserva de mercado?

Outra questão sem uma justificativa técnica, intelectual ou ética suficientemente plausível relacionada à essa reserva de mercado pode ser explicada a partir de dois exemplos:

1) Duas grandes professoras que tive, ambas com mais de 20 anos de carreira, não poderiam passar em concurso público para professor de Jornalismo, mesmo tendo grande experiência em ensino, pesquisa e extensão apoiadas por dezenas de publicações e participações em congressos até no exterior. Ambas tem mais de 10 anos de doutorado em Comunicação. Uma delas, é graduada em Farmácia, e mestra em História. A outra, é graduada em Arquitetura. Pois apesar desse currículo invejável, nenhuma das duas poderia passar em comcurso público de universidade pública no Brasil para Jornalismo ou Publicidade, pois esses concursos exigem, em 98% das vezes, graduação na respectiva habilitação da Comunicação Social para a qual destina-se o concurso.

Ora, falo de uma Ciência Humana Aplicada conforme os requisitos do próprio CAPES/MEC, certo? Pois bem: ao contrário dos seriíssimos riscos à vida que um médico não-capacitado (mutilação, morte, deformidade, incapacidade física e/ou mental) ou um engenheiro não-capacitado (desabamento, soterramento, inundação, eletrocução, incêndio) podem oferecer, o discurso de nenhuma ciência humana pode oferecer risco direto de catástrofe ou morte a seus consumidores, pois, mesmo que um filósofo, um sociólogo, um jornalista ou um publicitário possam agir de má-fé ou possam cometer um erro capital, ainda assim o livre arbítrio e a capacidade comunicativa e conversacional do ser humano lhe dão a oportunidade de escolha.

Isso posto, a pesquisa, o ensino e a elaboração de projetos de extensão universidade-comunidade-empresa em Ciências Humanas demanda como competências principais a capacidade de reflexão, o desenvolvimento da crítica e a exposição verbal e escrita. Sendo assim. é preciso ler muito e conversar bastante com pesquisadores mais experientes da área e com profissionais experimentados do assim chamado “mercado de trabalho” e dedicar um esforço extra às disciplinas de que o candidato a uma vaga de professor não é especialista.

Garantida essa dedicação, mesmo que seja um professor jovem ou que não se trate de alguém com vivência muito grande no “mercado”, ainda assim é plenamente possível, em qualquer área de Humanas (Aplicadas ou não), ser um excelente professor e um excelente pesquisador tanto em termos teóricos quanto técnicos. Afinal de contas, o professor é apenas um facilitador, cuja habilidade está em não oferecer uma informação banal demais a ponto de poder ser encontrada em uma fração de segundos no Google e em não perder o foco da disciplina, nem tampouco desobedecer aos objetivos do curso, da universidade e da CAPES.

Outros problemas que tenho encontrado referem-se a como fazer para ser visto. Passei um ano de cão durante as 48 semanas em que fiz tratamento com Interferon e Ribavirina contra o vírus HCV. Felizmente, tudo indica que estou curado da hepatite C após tê-la descoberto em 1995 e ter feito um tratamento ainda mais longo e sem nenhuma melhora entre 1998 e 2000. Mesmo assim, isso tomou um tempo precioso, justamente no final da pesquisa, onde a dissertação precisava andar para eu não perder minha bolsa. Ao mesmo tempo, ainda não tenho dinheiro para viajar para congressos fora do RS nem mesmo como ouvinte. Então, ainda não submeti nenhum artigo para publicação em periódico nem para apresentá-lo em congressos.

Durante muito tempo, tentei enviar e-mails ou preencher formulários nos sites de um montão de universidades particulares do sul do país. Por trabalhar diretamente com Mídias Sociais e estar envolvido com as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) desde o longínquo ano de 1994, fui negativamente surpreendido pelo fato de que quase nunca tive um e-mail sequer respondido.

Sendo assim, diante da falta de oferta de vagas para mestres, tenho-me visto obrigado a participar de concursos para os quais tenho pouquíssimas chances de passar por não ser especialista ou por não ter nenhuma experiência dirigida à área em questão.

Tenho 36 anos e custei muito pra chegar até aqui. Nunca tive nenhum tutor na graduação e, naquela época, também não tinha consciência nem conhecimento suficientes nem sobre a carreira acadêmica, sobre pesquisa e nem tampouco tinha certeza sobre qual era a minha vocação.

Não tenho queixa absoluta de nenhuma instituição, professor, colega, estudante, pesquisador. De forma alguma. Compreendo todas as vicissitudes encontradas pelo caminho. Também sei que o timing, isto é, a temporalidade da minha entrada no mestrado em relação ao boom inicial do estudo das TICs e de Mídias Sociais está defasado em pelo menos quatro anos. Sem soar coitadista nem pessimista, noto que, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, encontrar uma vaga é como procurar uma agulha em um palheiro.

Quanto a isso, estou mais do que disposto a mudar de Estado e tenho uma mulher maravilhosa que, mesmo agora tendo uma possibilidade real de, pela primeira vez em uma longa carreira, ganhar um salário digno e poder crescer dentro de uma empresa grande e honesta.

Percebo que a vida de quem decide ser bolsista de iniciação científica ainda bem novinho durante a graduação ou de quem conseguiu a sorte grande de já ter sido admitido em uma boa universidade do interior mesmo sem pós (coisa raríssima hoje em dia) e tem algum professor que lhe leva muito em conta desde cedo é infinitamente mais fácil inclusive para queimar etapas que facilitem sua presença em congressos a partir da obtenção de financiamentos de instituições de fomento e às vezes até da própria instituição a qual estão vinculados e a publicação de seus artigos.

Há cerca de um mês atrás, descobri um concurso no Piauí. O salário era baixo e a carga horária, idem. Porém, a exigência era baixíssima: tão-somente especialização. Eu tenho mestrado. Seria uma barbadinha passar nesse concurso, sobretudo porque raríssimas pessoas estão dispostas, seja por preconceito, seja por comodidade, a ir viver em um estado tão desconhecido da maioria dos brasileiros. Todavia, antes de encaminhar a documentação e de comprar as caríssimas passagens aéreas para pagar em prestações beeem pedaladas e atoladas de juros, liguei para lá e a secretária da unidade informou-me que só seriam aceitos candidatos com graduação em Jornalismo e eu sou publicitário…

Um outro problema sério é que, no Brasil, tudo é muitíssimas vezes mais difícil do que no exterior. Nos EUA e na Comunidade Européia, embora existam mestrados, os mestrados de lá são equivalentes a nossos cursos de pós-graduação lato sensu, isto é, voltados ao “mercado”, sem nenhuma habilitação para a pesquisa científica.

Lá, o mestrado não é exigido em nível acadêmico: o que importa é o doutorado. E, ao contrário do Brasil, onde temos que fazer dois anos de mestrado e mais quatro anos de doutorado perfazendo uma looonga estrada de SEIS ANOS, lá o doutorado dura apenas três. Via de regra, a maior parte dos brasileiros que saem daqui ainda “verdes” e chegam lá tendo que aprender um novo idioma e um novo modelo de orientação acadêmica agregando aí novos valores socioculturais costuma matar a pau, dando um banho em um monte de privilegiados que sempre viveram aquela realidade social e acadêmica.

Pior é que eu já dei aula na UFRGS durante dois semestres como professor substituto de duas sumidades e me dei muito bem e também dei aula na UNIFRA em Santa Maria/RS, em uma disciplina optativa durante mais um semestre e não pude, durante todos esses anos, disputar uma vaga nem mesmo nas universidades particulares do interior.

Hoje, parcialmente habilitado, não posso mais me dar ao luxo de ficar sem receber, sem conhecer pessoas, sem aprender na prática. Sem estar lecionando, não posso entrar no doutorado.

Ao mesmo tempo, não possuo mais interesse nem portfólio para voltar ao mercado de trabalho nas agências de publicidade e nas produtoras web. O preço que paguei por ser bolsista e não poder ser remunerado em um trabalho regular e o ônus de ter uma idade relativamente avançada infelizmente, até o momento, tem superado o bônus de eu ser um cara mas experiente em diversos outros aspectos que agregam muito valor à minha nova atividade.

Antigamente, eu pecava por querer escolher demais e também por não ter dado continuidade a uma carreira que realmente não desejava seguir. Hoje, eu tenho certeza absoluta de que posso ser excelente naquilo que me deu tanto trabalho para conseguir. Porém, as barreiras de entrada são muito maiores do que eu imaginava.

Antigamente, eu desistia após a primeira dificuldade. Hoje, sou persistente. Hoje, amadureci bastante. Hoje, posso dizer que, assim como fazia na UFRGS em 2002 ainda muito “verde” por um salário baixíssimo, chegando cedo e sendo um dos últimos a sair do prédio tarde da noite, fizesse frio ou calor, inclusive não deixando de dar aula nos últimos dias de vida do meu pai, chegava sempre de bom humor. Estava sempre disposto a dar conselhos, a mostrar novidades, a aprender, a debater, a ser honesto e admitir o que desconheço perante os alunos, oferecendo-lhes o contato de quem fosse mais competente do que eu para solucionar suas dúvidas que estavam fora do meu alcance.

Sinceramente, isso é coisa rara! Tive trocentos professores e colegas que já estão colocados em alguma universidade que não tem esse astral todo. Tem gente muito menos versátil do que eu colocada há tempos, inclusive com menos qualificação do que eu.

Não quero tirar o lugar de ninguém nem virar nenhuma instituição de cabeça pra baixo. Só quero poder mostrar aquilo que eu tenho aprendido há tanto tempo…

Garanto que posso ser muito útil também para ONGs dispostas a ajudar a empoderar comunidades. Meu papel é facilitar o estabelecimento de laços de confiança e de afeto entre comunidades heterogêneas e muitas vezes distantes que possuam demandas parecidas. O veículo seriam as Mídias Digitais (Orkut, MSN, blogs, Twitter, etc.) como um contraponto ao discurso, à agenda e à pauta da mídia corporativa de massa. Porém, sem evangelização nem partidarismo, a partir dos valores solidariedade, busca da igualdade, elevação da autoestima e da alteridade e da não-compactuação com o consumismo.

Esse hiato, essa busca, esse sonho não-realizado e o desconhecimento de pessoas e de caminhos menos duros para pelo menos dar início a essa caminhada tem sido muito mais dolorosos e demorados do que poderia imaginar…