REDES SOCIAIS: POR QUE NÃO DÁ MAIS PRA PARTIDARIZAR AS REIVINDICAÇÕES

Agora há pouco, em função do POST onde critico o fato de a ação multitudinária predominante na resistência dos movimentos sociais do campo e proponho ações de conexão com atores que podem simpatizar com o seu movimento (os favelados e os sem-teto) de maneira que a mídia corporativa e a classe média sofram um inevitável e irresistível nó epistemológico, troquei idéias com A CARAPUÇA.

A CLÁUDIA CARDOSO do DIALÓGICO, o GUGA TÜRCK do ALMA DA GERAL, o JEAN SCHARLAU, A CARAPUÇA e o RODRIGO CARDIA do CÃO UIVADOR tem opiniões que, de maneira geral, não divergem da minha quanto à defesa incondicional da intenção humanística, laboral, de saúde pública, de sustentabilidade e de desenvolvimento econômico acima da média que a pequena agricultura sem transgênicos nem agrotóxicos baseada na policultura proporciona aos municípios que assentaram antigos sem-terra.

Todavia, discordo de algumas posições dos amigos quando considero que as ocupações (sempre necessárias) seriam a única, a melhor ou a mais eficiente solução possível para a questão agrária. O Guga diz que a única solução possível é realizar as ocupações. A Cláudia diz que as ocupações costumam agilizar a desapropriação de terras para assentamento de pequenos agricultores. O Jean crê que, na contemporaneidade, as soluções de resistência que considero eficientes apenas em ambientes onde predomine o modo de produção taylorista-fordista permanecem sendo as melhores sem levar em consideração o fenômeno da MIDIATIZAÇÃO da sociedade. O Rodrigo, por sua vez, diferencia muito bem os termos ‘invasão’ e ‘ocupação’.

Aliás, de maneira geral, acho que não apenas o Rodrigo manifestaram-se com certa contrariedade por eu ter usado invasão ao invés de ocupação. Não é que eu tenha me enganado ou que eu ache que o ‘certo’ seria dizer ‘invasão’. Naquele post, eu não estava chamando única e exclusivamente o pessoal assumidamente militante e ativista de esquerda para conversar, mas também a CLASSE MÉRDIA FORREST GUMP.

Costuma-se falar em CLASSE MÉRDIA HOMER SIMPSON por causa de uma antiga declaração do âncora do JORNAL NACIONAL (nome bom de marketing: dá a impressão de ser oficial e confiável), WILLIAM BONNER. Acho que essa classe que tem um certo poder de consumo mas é conservadora, despolitizada e ignorante não é apenas fruto da concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos de poucos, nem do ‘pensamento único’ resultante dessa configuração de forças em nosso país. Ela também é, sem perceber, o resultado da cultura do medo, da alienação, do consumismo e da omissão que, salvo nas rarar ocasiões nas quais se percebe que o BRASIL chegou ao fundo do poço, predomina neste país desde 1500, mesmo quando ainda não havia mídia de massa, alfabetização em massa, políticas de saúde pública, projetos de desenvolvimento e assim por diante.

Como essa parcela considerável da sociedade deixou-se abater sem reagir pelo sucateamento da educação iniciado durante a ditadura e maquiavelicamente aperfeiçoado no período puramente neoliberal que predominou até o início do lulopetismo, ela lê mal, interpreta mal e não sabe pensar em rede: ela considera-se desconectada do mundo que está além de suas preocupações com dívidas e consumismo. Então, por mais deprimente que isso seja, é necessário explicar-lhes as coisas como a mãe do FORREST GUMP fazia para o seu meninão de QI baixo: “falar de uma forma que ele possa compreender”. Se os Forrests da vida pensam que ocupação e invasão são a mesma coisa, primeiro temos que dourar a pílula para depois apresentarmos as diferenças fundamentais.

Não sei se eu menosprezo ou se tenho um preconceito acima do normal em relação ao perfil desse substrato populacional brasileiro. Só sei que os movimentos sociais precisam alcançá-los e conquistar pelo menos 20% deles como massa crítica. É mais ou menos como se faz pra uma criança entrar em conexão e em sintonia com a fala do adulto: o adulto precisa se agachar para ficar do tamanho do pequeno ser. Do contrário, a distância dificultará consideravelmente o contato tão necessário entre as gerações.

A discussão se estendeu num post do Guga através de comentários tão legais quanto os que eu recebi.

Obviamente, não tenho o contato pessoal com o pessoal do MST que o Guga tem. Realmente, a realidade do MST é como o Guga disse: eles não se sentem pertencentes, integrados e nem mesmo interessados no modus operandi da sociedade de consumo. Primeiro, porque eles não são notícia positiva; segundo, porque eles ainda estão correndo atrás de um mínimo de bens para poder sobreviver com dignidade; terceiro, porque eles tem uma política clara e engajada de defender a sustentabilidade e a saúde; e quarto, porque eles não são público-alvo de nenhum tipo de bem de consumo defendido pela publicidade. Eles assistem pouca televisão, ouvem pouco rádio, leem pouco jornal e, em seu meio, ainda é raro ter acesso à internet. Isso tudo é muito claro.

Contudo, o fato de saber que, NORMALMENTE, os movimentos sociais não costumam ter um espaço minimamente aceitável de veiculação massiva de suas demandas e a APARENTE inviabilidade deles serem apresentados por esse PIG sob uma agenda positiva não poderia funcionar como um incentivo à dissociação deles em relação ao principal consumidor e cliente da mídia hegemônica.

Um movimento civil que não sustenta e não é sustentado por ONGs, partidos e empresas é, por si só, um oásis no meio do Saara. As ocupações são 100% legais, pois eles vão direto nas terras improdutivas. Todo novo assentamento é uma vitória inimaginável para quem não passa pelo que eles passam. Todavia, há uma confusão muito grande entre dissociar-se e isolar-se de quem costuma nos fazer mal ao invés de mantermos uma convivência que possibilite aumentar o nosso contato com outros grupos que têm forte ligação com a mídia que pode funcionar como CONECTORA entre os movimentos sociais e nós sociais relevantes no meio urbano mesmo que essa mídia hegemônica tente evitar apresentar um ao outro.

Vou dar um exemplo bobo do pensar em rede que ilustra bem essa questão. Digamos que eu tenha uma turma de futebol sete e esteja desempregado. Quase sempre, os caras que jogam nos dois times são os mesmos. De vez em quando, uns dois ou três não podem jogar. Pra completar os times, é preciso convidar alguns “amigos dos amigos”. Como a gente não mistura os times, o que era uma brincadeira virou rivalidade. Aí, quando um dos times ganha duas ou três partidas seguidas e começa a rolar aquela corneta, as ‘chegadas’ começam a ficar mais fortes. Aí, rola um revide. Pronto: o pau comeu.

Eu nunca falto ao jogo. O cara com quem eu briguei, também não. No meio dessa turma, ninguém trabalha ou tem algum conhecido na minha área. Só que, um dia, o ‘pau no cu’ traz um parceiro que, mesmo que seja amigo íntimo do primeiro, por mais que o PNC tenha falado mal de mim pra ele, de alguma forma, eu vou com a cara dele e vice-versa. Aí, depois do jogo, mesmo que o PNC esteja entre nós na mesma mesa, não dá pra eu deixar de sentar ali pra conversar com o boleiro convidado por causa do meu desafeto, assim como não precisamos andar armados um diante do outro. Basta que um ignore o outro. Da mesma forma, é preciso aceitar que o meu problema é só com o PNC e vice-versa. Não necessariamente ele é um mau caráter e tampouco eu. Por isso, a relação do PNC com os meus amigos e a minha relação com os mais chegados dele não pode ser interrompida nem por mim, nem por  ele.

Pois esse parceiro que o PNC trouxe é chefe de uma equipe de representantes de uma fábrica de chocadeiras de carrapatos – a única coisa com que eu havia trabalhado antes de ser demitido. Pois graças ao PNC, fiz um novo amigo e, de quebra, recebi uma nova oportunidade de trabalho.

O PNC é um hub ou conector altamente ligado a uma grande quantidade de nós. Eu, que sou meio retraído e ando sem grana pra ir a botecos, jantas, festas, etc. com meus contatos, tenho poucas conexões. E a minha ausência nos encontros com os amigos verdadeiros aos poucos vai enfraquecendo os nossos laços. De alguma forma, preciso voltar a tornar esses laços fortes ao mesmo tempo em que administro os novos laços recém estabelecidos.

Com a auto-estima recuperada, passo a jogar melhor. O PNC vai pensar duas vezes antes de torrar o meu saco, pois seu amigo também é meu amigo e, por alguma razão, a amizade entre os dois é tão cara ao PNC que ele não vai mais bulir comigo de maneira ostensiva. Senão, o laço entre eles vai enfraquecer e tornar o meu laço com o novato mais forte.

Pensar e agir em rede articulando táticas de guerrilha a partir das ENORMES brechas que essa mesma mídia corporativa sempre apresentou deveria ser objetivo da maioria da esquerda.

Ao contrário do pensamento social verticalizado, centralizador, burocrático, pouco criativo e segregador que prevalece nos ambientes onde ainda se utiliza o modo de produção capitalista moderno (taylorismo-fordismo, baseado na uniformidade e na linha de produção), os movimentos sociais não estão à margem da sociedade nem da mídia corporativa e, menos ainda, do consumidor, do produtor ou do financiador dessa mídia hegemônica.

Os grupos humanos são multifacetados e, hoje em dia, não se pode mais pensar na separação ou na padronização do que seriam o povo, a classe operária, a burguesia ou a oligarquia. Só que a experiência mostra que a esquerda ortodoxa quase sempre perde porque evita ter que cruzar o caminho do grande conector para juntar-se a outro grupo de esquerda que segue um caminho paralelo. Já a direita quase sempre ganha porque sempre percebeu a importância dos laços fracos, dos laços fortes e dos conectores: se ela tiver que pedir penico para um grande conector de esquerda, ela pede sem constrangimento, pois é a maneira mais rápida dela juntar forças com a outra parte da direita que corre em paralelo.

Esse antagonismo é representado em ambientes modernos por dois móveis que iniciam suas respectivas trajetórias a partir do mesmo ponto zero e seguem a direção horizontal. Porém, um deles segue o sentido da esquerda e o outro segue o sentido da direita. Isso na cabeça da esquerda ortodoxa…

A direita, por sua vez, sacou muito antes direita que a representação físico-matemática da pós-modernidade através de um gráfico consiste em uma circunferência. os dois móveis partem do mesmo ponto em direção circular. Porém, um dos móveis desloca-se sempre para a esquerda (sentido anti-horário) e o outro desloca-se sempre para a direita (sentido horário). Dessa forma, ao invés de se afastarem ad infinitum como na representação linear, suas trajetórias ao redor da circunferência sempre irão proporcionar pontos de cruzamento que nem sempre serão opostos, isto é, nem sempre a distância entre os dois móveis será exatamente inversa (180º), já que a velocidade de cada um deles é sempre variável ao invés de ser constante ou de ir acelerando sem parar.

Vamos agora para uma representação biológica com traços marxistas: em um formigueiro, a vida em comunidade e o cumprimento integral das atividades que cabem a cada um de seus diferentes grupos de membros (rainha, sentinelas, operárias, enfermeiras e larvas) é a condição moderna de sobrevivência da colônia. Tudo parece sempre igual: a primeira gera larvas; as segundas protegem o castelo; as terceiras constroem e reformam e as quartas alimentam as quintas que, com o passar do tempo e de acordo com a necessidade da colônia, serão uma nova rainha, novas sentinelas, operárias e enfermeiras. Ao dono dos meios de produção, a manutenção dessa estrutura funcional é muito cômoda. Inicialmente, os funcionários não percebem a força que tem ao submeterem-se à ordem vertical, imutável, purista desse modelo.

A pós-modernidade, por sua vez, pode funcionar como uma colônia de formigas antropomórficas a la VIDA DE INSETO: um indivíduo, FLIK, destaca-se na sociedade não por ser o mais rico, o mais forte, o mais inteligente e nem mesmo um grande líder mas, sim, por ser o mais conectado. Criativo e visionário, cometeu um erro grave ao permitir que o poder hegemônico (HOPPER, o chefe dos gafanhotos – conectado a seus subordinados e às formigas) pusesse a colônia em risco. Ele foi isolado pelo hub do formigueiro, que é a RAINHA. Seus laços enfraqueceram com a maioria dos membros da colônia, menos com a princesa DOT, que o manteve conectado tanto à sua mãe quanto à sua irmã, a princesa ATTA.

Mais adiante, ele próprio virou o maior de todos os conectores: primeiro, DOT convenceu-o a não desistir, a não fugir, a fazer por si o que ele havia dito à sua pequenina amiga e fã para fazer.

MÍDIA + IDEOLOGIA: TENDÊNCIA + HIPOCRISIA

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Normalmente, textos desconstrutivos são chatos e, em muitos casos, incompreensíveis ou polêmicos. Isso ocorre porque, de maneira geral, todo estranhamento e toda a tentativa de enxergar a questão “de fora” permitem que se encontre várias contradições embutidas dentro das instituições e grupos nos  quais todos sem exceção participam na sociedade. Tal processo é doloroso porque todos têm crenças e posicionamentos e desejam ardorosamente conquistar novos adeptos às suas causas. Todo mundo (inclusive eu e quem pensa como eu) é incoerente, preconceituoso, ardiloso e mesquinho quanto quem pensa die maneira diametralmente oposta. E, eventualmente, podemos até estar do mesmo lado em determinadas questões.

Eu acredito que QUALQUER mídia (grande ou pequena, de massa ou não, declaradamente ou não de esquerda ou de direita) vive da seguinte equação:

Economia + política + ideologia + técnica = agenda + pauta + estilo (criados e definidos por alguém que possui determinadas crenças para um público que compartilha dessas crenças).

Todos, sem exceção, revelam parcialmente, omitem, distorcem e precisam vender a (des)informação que influencia e é influenciada tanto por esse público que crê no veículo em questão como pelos patrocinadores e acionistas que mantêm esse negócio.

Se o mundo econômico fosse predominantemente socialista, comunista, anarquista, monarquista ou sei lá o que, haveria a mesma preocupação que temos como orientados pelas idéias de esquerda clamando por maior democratização dos meios de comunicação e pela validade do diploma de jornalismo mesmo se o agendamento e os mantenedores do sistema midiático fossem de um campo diametralmente oposto.

Neutralidade não existe. A verdade em geral também não, pois a minha verdade não é igual à de mais ninguém, assim como eu vou ter razão total, parcial ou negativa de acordo com quem me lê.

Eu creio que a direita só tem razão em 20% de suas demandas e que a esquerda tem razão em 60%. Tem gente que dá 100% para um lado e 0% para o outro (e vice-versa). Mas essa é uma escolha, um problema, uma virtude ou um defeito meus e daqueles que partilham de grande parte do mesmo pensamento.

Gênios não existem, pois toda unanimidade é burra. E estúpidos ao extremo também não existem, pois a contradição está dentro de cada um de nós.

Enquanto não me apresentarem para outras, seguirei crendo que há apenas duas únicas verdades “verdadeiras”. A primeira é: eu acredito naquilo em que acredito porque é nesses valores em que quero acreditar e não acredito naquilo em que não acredito porque não é nesses valores que quero acreditar.

Ser de esquerda não é ser comunista ou arnarquista e tampouco ser contra o capitalismo: mas é ser contra o neoliberalismo, contra o estado mínimo, contra o consumismo, contra o egoísmo e contra a falta de politização. Também não é necessário, para ser de esquerda e ter o direito à ter sua voz ouvida, sua opinião respeitada e fazer parte de deliberações políticas, econômicas, sociais e afetivas voltadas ao interesse altruísta e coletivo ser partidarizado ou sindicalizado.

Pensar como eu penso não é jogar na lata do lixo pensadores como MARX, GRAMSCI, FOUCAULT, PAULO FREIRE e tantos outros.

Quem disser que não existe política, ideologia, economia, preconceito e disputa de poder em todas as instâncias da vida (até mesmo nos afetos e no altruísmo) tende a acreditar em “bons” e “maus”. Pior: tende a crer que é sempre uma pessoa “boa” e que todo “mal” é justificável porque visa a “bondade” pessoal ou coletiva. Todavia, grande parte dos objetos empíricos dissecados por esses pesquisadores estão relacionados a um determinado contexto social, econômico e cultural que é muito diferente daquele no qual nos encontramos. Dessa forma, considero que a pesquisa das ciências humanas com um viés esquerdista será tão competente quanto a sua capacidade manter-se sob a mesma ideologia criticando e fundamentando teoricamente as contradições e os modelos anteriores com o mesmo conhecimento de causa com que propõe novos modelos relacionados a cada contexto.

Pra terminar, uma provocação: será que muitas pessoas sabem ou querem mesmo saber que precisa ser salvas? Se elas sabem, como é que sabem? E, sabendo que sabem, será que elas querem MESMO ser salvas?

Eu ainda creio que sim. Mas é preciso entender quem não pensa assim. E eu não posso impor nada a quem não estiver sendo receptivo. Dessa forma, me parece que a quantidade de pessoas supostamente manipulada pela mídia de massa neoliberal e oligárquica capaz de abrir os olhos caso tenha acesso a outro tipo de informação seria mínima.

Afinal de contas, quem é que disse que o meu jeito de educar e conscientizar é o jeito pelo qual as pessoas desejam ser educadas ou conscientizadas?!

É por isso que tendemos a nos aproximar de quem possui maiores afinidades conosco. E é por isso que tendemos a acreditar em algumas coisas e a não acreditar em outras: algumas delas nos mobilizarão. Outras, não.

Muito me alivia saber que não sou perfeito, nem coerente, nem santo, nem mocinho: isso faz com que eu me sinta menos hipócrita e ainda mais disposto em crer naquilo em que creio e em fazer aquilo que eu faço.

Se cada um refletisse dessa forma com concentração e seriedade à sua própria maneira, certamente teríamos um mundo melhor.

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CLASSE MÉDIA e CLASSE MÉRDIA: RETROSPECTIVA

Inspirado no post do ALTAMIRO BORGES sobre SÃO PAULO reproduzido pelo AZENHA, convido-te a ler meus posts antigos a respeito do assunto:

http://heliopaz.wordpress.com/2006/10/16/esquerda-x-direita-no-rs/

http://heliopaz.wordpress.com/2007/02/15/critica-do-pensamento-da-classe-media/

http://heliopaz.wordpress.com/2007/07/19/critica-do-pensamento-da-classe-media-ii/

http://heliopaz.wordpress.com/2007/08/01/211/

http://heliopaz.wordpress.com/2008/03/07/stupid-white-men-gauderios/

http://heliopaz.wordpress.com/2008/03/09/classe-media-gaucha-peleguismo-e-montaria-do-poder/

BREVE DISCUSSÃO SOBRE INTERAÇÃO DA BLOGOSFERA COM O PIG

O PIG muitas vezes entrevista os dois lados, dando maior espaço para o lado que o patrocina, que o cobra e que, em outra dimensão, dele também depende.

Contudo, normalmente o que eles fazem quando chamam um “especialista” pra falar é endossar o status quo, já que os especialistas chamados na maioria das vezes ou são conservadores, ou se pronunciam cheios de dedos porque, de seu lado, também dependem dos patrocinadores do PIG.

Infelizmente, um blog não foi, não é e sequer terá como ser considerado mídia de massa porque é fruto de uma interação um-um ou um-uns e não um-todos ou todos-todos (compreenda  melhor esses conceitos aqui), como o rádio, a TV, o jornal ou a revista. Se existe um alento em relação a essa realidade aparentemente trágica é o fato de que os portais de conteúdo do PIG também não podem ser considerados como mídia de massa. Por exemplo: se o ClicRBS quiser continuar mantendo os comentários abertos para cada notícia que postar, certamente encontraremos alguns (às vezes mais da metade) comentários bem legais de pessoas de esquerda, dando “nos dedos” deles.

Ora, como todos os grandes portais de conteúdo disponibilizam comentários, o primeiro que fechar esse canal de diálogo com o seu consumidor cairá em desgraça junto aos seus próprios pares.

Claro que eles podem deletar, censurar e serem malcriados com um comentário que contraria a sua agenda de interesses. No entanto, com centenas de novas notícias por dia em dezenas de editorias e a preocupação em decupar e editar o trabalho semi-escravo de um punhado de jornalistas, o que conta a nosso favor quanto ao gigantismo deles é a impossibilidade deles darem conta de censurar milhares de interagentes.

Percebam: o espaço de comentários é o único espaço dentro de um site ou blog que, mesmo quando protegido por senha ou quando reconhece a localização do comentador por IP, oferece a total impossibilidade de previsão de quantidade, qualidade ou viés das interações. E, como falei acima, salvo em raras e desonrosas exceções, mesmo que eles desenvolvessem um robô que deletasse automaticamente comentários que contivessem determinadas palavras-chave, isso seria impraticável e descaradamente desonesto, tendo em vista que eles não podem ignorar que comentários favoráveis à sua agenda também podem conter as mesmas palavras de um comentário oposto.

Trocando em miúdos: mídias intrusivas (este é um termo aparentemente meu, que não sei se seria correto, mas acho que fica mais fácil de entender dessa forma), isto é, aquelas que “agradecem o carinho de entrar sem pedir na sua sala, no seu quarto, na sua cozinha, na rua, no metrô ou no seu carro”, são massivas. As mídias para as quais o receptor precisa correr atrás a fim de buscar informação não são massivas.

Entendo quando se fala que as idéias neoliberais ou de direita já possuem espaços demais enquanto as idéias socializantes ou de esquerda são menos visibilizadas a partir de qualquer tipo de mídia. Porém, se informação é aquilo que produz diferença, informação, notícia, opinião e crítica são gêneros totalmente diferentes que não necessariamente produzem diferença. Se formos dicotomizar essa afirmação, poderíamos dizer que, tanto à esquerda como à direita (ignorando-se as infinitas nuances dos valores estritamente pessoais e o contexto de cada indivíduo), pode-se OU NÃO produzir informação (e,
conseqüentemente, diferença).

Trocando em miúdos, a grande diferença técnica, teórica e empírica entre a web (portais, sites, blogs) e a mídia de massa (rádio, TV, jornal, revista, publicidade, RP e assessoria de imprensa sobre suportes urbanos) é que os funcionam como um telefone sem fio e a mídia de massa funciona como um megafone.

Então, como produzir diferença? A diferença reside em fazer o que o senso comum não espera que seja feito e que o que for feito siga um modelo discursivo inesperado. Isso é o que chama a atenção para que os que não comungam das mesmas idéias do blogueiro emerjam como uma importante parcela da audiência, que supera em importância até mesmo a do mundinho dos próprios pares do blogueiro. É o pulo que se dá a fim de superar a fase de conversar com as paredes ou de não produzir debate nem o contraditório.

Enfim, eu tenho uma posição formada sobre determinadas pautas que acredito serem imutáveis, seja a favor ou contra. Há, ainda, um outro conjunto de temas sobre o qual posso mudar de opinião parcialmente ou até mesmo totalmente. E isso acontece com toda e qualquer pessoa, sem que se possa afirmar que o sujeito é “do bem”, “vaselina”, “maria vai com as outras” ou que ele queira “reinventar a roda”. Não é assim que se confia ou desconfia, nem que se mede coerência.

O PIG não possui ferramentas – digamos – mais humanas e mais comunitárias para surpreender a sociedade. Hipoteticamente, a gente não vai conseguir alcançar um espaço maior se não conseguirmos arrancar o megafone da mão dele durante 15 segundos em uma hora.

Portanto, ele não vai se confundir, entrar em contradição e tampouco reverberar aquilo que nos interessa se a nossa prática for semelhante à dele.

Nesse ponto, considero importante ouvir os dois lados. Não importa que o outro lado já possua espaço midiático excessivo: como eles serão mediados por nós, poderemos fazer as questões que o PIG não faz em função do comprometimento dele e da nossa independência. O esperado por eles é que nós não saiamos do alcance de nossos pares e permaneçamos conversando dentro da mesma roda de amigos.

É tudo uma questão de saber realmente o que se quer comunicar, quando e para quem. Pois a partir dessa questão é que se define o alcance da diferença que se deseja produzir.

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