É por isso que se torna bastante rico discutir sobre radicalismos e concessões: todos temos um norte (a esquerda). Porém, os caminhos e os nichos do conhecimento que cada um conhece, propõe e critica são bastante diferentes.
O Tsavkko defende muito o Plínio de Arruda Sampaio e a ideologia do PSoL como um todo. Diria que, em um grau diferente e falando de um outro lugar, o Guga Türck também tenha maiores semelhanças com o Tsavkko.
O Rodrigo Cardia argumentou sob um outro viés e acabou por mudar de opinião acerca da amplitude de forças que andariam com Plínio, além da questionabilíssima capacidade de o PSoL conseguir organizar quadros técnicos e políticos em quantidade e qualidade suficientes para poder exercer um governo que cumprisse com tudo o que criticaram no lulo-petismo e os fizeram criar uma nova sigla.
Em resposta a uma discussão iniciada no Dialógico, prossigo minha fala ao Eugênio Neves e à Cláudia Cardoso sobre uma visão interessante que o Guga Türck tem acerca do embate entre PSDB (direita liberal) e PT (centro esquerda socia-democrata): a partir de um post antigo no Alma da Geral (que não consegui recuperar para dar-lhe o devido crédito e indicar o seu link aos interagentes deste meu post), concordo que o lulo-petismo segue um modelo desenvolvimentista baseado no taylorismo-fordismo, na hierarquia rígida, no vigilantismo e em um intenso controle burocrático.
Então, como esse modelo pressupõe que o aumento exponencial do PIB brasileiro dar-se-á sobretudo via exportação de commodities com a consequente devastação do meio ambiente, mesmo que o incremento considerável do orçamento projetado para os próximos anos em função do Pré-Sal, a riqueza gerada ainda é refém do latifúndio, do sistema bancário e da energia não-renovável.
Por outro lado, considero inaceitável e inadmissível sob qualquer argumento complexo, culto, bem informado e honesto defender a gestão desses recursos por um modelo privatista, ultraconservador, reacionário, sectário, excludente e muito mais corrupto do que o modelo que temos hoje e que merece tantas críticas.
De volta à fala do Guga que não consegui encontrar, esse embate significa que, se correr, o bicho pega; e, se pegar, o bicho come: de um lado, o modelo de centro-esquerda social-democrata sangra o meio ambiente e traz condições reais de crescimento individual e coletivo sob todos os aspectos. E, por outro lado, o modelo de direita neoliberal devasta o meio ambiente e quase não distribui a riqueza.
Dessa forma, morreremos todos. Sob o modelo de centro-esquerda, lentamente; e sob o modelo da direita, de uma maneira cruel e avassaladora.
Embora eu tenha concordado com esse ponto do raciocínio do Guga, não concordei com parte dos argumentos e nem das escolhas eleitorais dele. E entendo que nem mesmo as pessoas de classe média não-reacionárias e não-conservadoras que tenham votado em Marina por causa da Erenice, do Mensalão ou porque o Governo Lula não privilegia o desenvolvimento ecologicamente sustentável conheçam um mínimo a respeito do significado prático de políticas públicas.
Por tudo isso, considero os votos nulo e em branco contraproducentes, socialmente ignorantes e absurdamente omissos e covardes. O protesto puro e simples baseado em fatos isolados não aprofundados com a devida seriedade e a conexão equivocada entre esses fatos ainda é fruto do voto na pessoa e não na ideologia, no programa ou nas consequências passadas, presentes e futuras das alianças eleitorais.
Nem mesmo uma escolha consciente pelo que seria o “menos pior” resulta de uma reflexão baseada no conhecimento e na investigação, pois as pessoas não têm tempo para essas articulações. Caso tivéssemos uma mídia corporativa mais pulverizada entre donos de diferentes origens e uma política muito mais rígida sobre as concessões públicas do espectro das ondas de rádio, creio que não haveria o que convencionamos chamar de “pensamento único”. Mas, ao mesmo tempo, a péssima qualidade das escolas em geral não investe no ensino da organização das instituições públicas e privadas, em noções de Direito Civil e cidadania. Com isso, a importante noção sobre o que são políticas públicas não é aprendida e nem tampouco discutida pela maior parte da sociedade.
Enfim… Toda a discussão acima nos traz ao seguinte ponto de insatisfação compartilhada por dezenas de milhões de brasileiros: assim como eles, eu também não quero mais delegar poderes a legalistas que não querem pensar e nem fazer diferente.
E, mesmo tendo uma opinião formada acerca do meu papel na sociedade e com qual visão de mundo me identifico melhor, eu não quero mais nem que uma determinada ala do maior partido de esquerda seja sectária, pois essa postura não fomenta a governabilidade e os isola. Seguindo a mesma linha de raciocínio, tampouco quero que uma outra ala desse partido majoritário de esquerda seja excessivamente boa, dócil e contemporizadora ao ponto de admitir o balaio de gatos do PMDB e o conservadorismo absurdo de gente que muito mamou durante a ditadura como o PP governando juntos sem uma identidade concisa e sem uma prática verdadeiramente includente que resida no cerne do programa desses partidos, acomapanhada pela prática dos seus quadros.
Pois bem: conforme já escrevi antes, considero o PT como uma superação do antigo trabalhismo de Brizola associado a uma adaptação à realidade latinoamericana do velho conceito europeu de social-democracia, ao qual chamo de “trabalhismo lulo-petista“.
Um parêntese: a social-democracia real e ideológica nunca teve absolutamente nada a ver com o nome, com o discurso e nem mesmo com o programa do PSDB que, no frigir dos ovos, é oligárquico e reacionário na mesma medida do DEM e do PP e tão populista quanto o PTB.
Tudo isso indica que chegou o momento de discutirmos seriamente a dócil aceitação do sistema de democracia representativa em vigor no Brasil e na maior parte do mundo ocidental ao invés de procurarmos por um modelo de democracia que traga maior responsabilidade ao cidadão, que o obrigue a envolver-se mais com todas as questões que definem a sua vida e passe a delegar menos poderes e a agir mais.
Nesse ponto, a iniciativa do PARTIDO PIRATA e a proposta de DEMOCRACIA EMERGENTE do prof. Júlio Valentim são um excelente ponto de partida.
Todavia, enquanto ainda não houver massa crítica nem vontade política suficientemente maduras, sistemáticas e continuadas no caminho dessa proposta, precisamos obedecer às leis vigentes no país. E isso implica na discussão sob moldes ainda arcaicos e pouco produtivos que privilegiam a questão dos partidos e das candidaturas individuais assim como elas são constituídas na atualidade.
E se eu ainda preciso me submeter a esse modelo de clivagem constituinte da minha representatividade, embora o ideal seja evitar argumentos meramente classistas ou individualistas, a polarização e o iminente risco da perda de tantas conquistas não me oferece uma solução melhor do que a de falar sobre como as políticas públicas do Governo Lula facilitaram uma vida melhor para mim e, sobretudo, para aqueles que precisam do meu trabalho.
Se não fosse pelo Ministério da Justiça/Pronasci/Territórios de Paz, eu não teria a chance de ajudar a melhorar a condição de algumas dezenas de jovens do bairro Guajuviras em Canoas/RS.
Se não fosse pelo ProUni/Reuni/Fies, eu muito provavelmente não teria o orgulho, o privilégio e a deliciosa responsabilidade de poder trabalhar na melhor universidade particular do sul do país, a Unisinos, no curso de Comunicação Digital.
Se não fosse pelo Ministério da Educação/Capes, eu não teria me tornado mestre e teria que me contentar em trabalhar única e exclusivamente como uma reles engrenagem dentro da máquina de moer carne taylorista-fordista das agências de publicidade e das agências digitais. Muito provavelmente, teria que me submeter a continuar como funcionário do PiG, como já fui em duas oportunidades.
Mas tudo isso – apesar de vários “nunca antes na história deste país” extremamente notáveis – ainda é muito pouco, pois trata-se de realizações que ocorrem em um ritmo demasiadamente lento, dependente de uma burocracia repeta de vigilância e de um controle absurdamente excessivo. Nesse mesmo ambiente que compõe aquilo que espero ver em um futuro próximo como um círculo virtuoso, verifico uma série de procedimentos bastante equivocados, que poderiam tornar todas essas conquistas ainda melhores sem muito estresse nem grande complexidade.
Com outras palavras, repito com mais ênfase algo que já escrevi há vários parágrafos acima: não vejo a menor capacidade e nem mesmo boa fé de um governo comandado por outra ideologia predominante melhorar ou sequer manter esses pontos ainda nascentes na nossa história política e administrativa.
De qualquer forma, jamais poderia achar nunca que qualquer política pública já esteja suficientemente boa ou concluída. Afinal de contasm só se sobe para o próximo degrau se houver vontade de subir. E, sem essa vontade, a tendência é a de descer, pois o corpo não consegue ficar parado.
Se não houver a crítica profunda, nenhum aparelhamento será positivo para a sociedade. Do contrário, irá prevalecer a escolha de companheiros por amizade, por tempo de partido e por causa da exigência dos parceiros de aliança. Aí, as conquistas começam a degringolar porque as pessoas erradas serão postas nos lugares errados e no momento errado, fazendo com que o político ocupe o lugar do técnico e vice-versa.
No fundo, é isso o que esculhamba o Poder Público, os Três Poderes e o funcionalismo público em geral, além de não estabelecer uma relação republicana entre o Estado e o meio empresarial.
As forças que compõem o nosso caldo social são muito complexas. E aquelas que se relacionam melhor certamente obtém maior quantidade de vitórias para a sua classe. O difícil é pensar em um país igualitário quando a maioria (sejamos francos: inclusive dentro da esquerda e do PT) só sabe falar sobre o seu nicho específico e defendê-lo com um nível muito baixo de conhecimento sobre as demais instâncias que interferem na sua realidade.
Então, ao puxar a sardinha para o seu assado, infelizmente, cada um acaba tornando a sardinha inacessível para o assado do vizinho.
Pra terminar este longo texto, apesar das imensas críticas à concessão de benesses nunca antes vistas aos latifundiários, aos banqueiros e à inadmissível troca de favores com outros partidos fisiológicos a fim de garantir a governabilidade, no 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas , o Luiz Carlos Azenha repetiu algo que o Luís Nassif já havia expressado anteriormente em seu blog: não há como o Brasil crescer em paz e convencer os conservadores a serem menos reacionários e a aceitarem que o bônus do seu enriquecimento exacerbado traz consigo o ônus de terem que dividir a sua fatia do bolo sem… Conversar com eles.
Por que? Porque o país é uno e indissolúvel. Uns precisam dos outros sempre. E, ao invés de estarmos separados por castas, estamos todos umbilicalmente conectados em rede.
