No já distante dia 22/03/2006, o colunista esportivo do ano no Reino Unido, Martin Samuel, escreveu sobre o G-14: o que a associação defende, qual o seu maior medo e quais os males que a sua influência exerce sobre o futebol no planeta.
O G-14 é uma associação entre os supostos 18 clubes mais ricos da Europa desde o início do século XXI. Digo supostos porque apenas alguns de seus membros de fato o são. Apesar da maioria dos clubes do G-14 serem multicampeões em seus países e na Europa, alguns de seus integrantes têm importância contextual duvidosa, por falta de tradição.
Os nomes dos bois são: Milan, Ajax, Borussia Dortmund, Barcelona, Bayern München, Internazionale, Porto, Juventus, Liverpool, Manchester United, Olympique Marseille, Paris Saint-Germain, PSV, Real Madrid, Arsenal, Bayer Leverkusen, Olympique Lyonnais e Valencia.
O interesse dos clubes acima é salvaguardar a sua vontade de organizar os campeonatos dos quais participam definindo o regulamento das competições, a política de aquisição de atletas e a liberação deles para suas respectivas seleções nacionais de modo que os campeões possam ser, de preferência sempre, um deles.
No próprio site oficial, a palavra consensual justifica que eles se uniram porque as federações (no caso, UEFA e FIFA) ainda mantêm uma política de valorização das seleções quando, para eles, os clubes detêm o protagonismo do futebol mundial, afirmando que x% dos atletas que disputaram a última Copa do Mundo pertencem a algum dos integrantes do G-14 e que seus 18 membros somam x títulos europeus e domésticos.
É inegável que, à exceção do Olympique Marseille, do PSG, do Bayer Leverkusen e do Borussia Dortmund, todos os demais volta e meia chegam ao topo do futebol europeu. É inegável que o futebol virou muito mais negócio do que romantismo. É inegável que é muito mais atraente para o público – seja no estádio ou na TV – assistir a jogos entre clubes “conhecidos” ou “grandes”. É inegável que eles têm as maiores torcidas e, conseqüentemente, muita tradição não apenas doméstica, como também na Europa e até mesmo em outros continentes. É inegável também que, por terem mais dinheiro e sociedades seculares, atraiam os holofotes da mídia do mundo inteiro e, sobretudo, os melhores jogadores sul-americanos, para atuarem lá. É inegável que, devido à sua organização, à maior segurança nos estádios e à cultura reinante de limpeza, glamour e grandiosidade, seja muito mais gostoso assistir aos campeonatos, inglês, espanhol, alemão e italiano do que ao nosso velho Brasileirão de guerra.
Todavia, as vantagens políticas e econômicas que os clubes do G-18 já possuem e ainda almejam obter caracterizam a velha relação entre colonizador e colonizado; entre o rico que quer ser cada vez mais rico e entre o pobre que deve limitar-se tão-somente a lhe servir e a respirar.
A admissão dos campeões de San Marino, Liechtenstein e Montenegro na primeira fase preliminar da UEFA Champions League não é nenhum populismo barato para agradar aos pequenos, muito menos uma afronta aos grandes: os três países-membros da UEFA simplesmente comprovaram que possuem ligas nacionais disputadas anualmente com fórmula definida. Portanto, seu direito de possuírem um representante cada na mais badalada competição interclubes do planeta é mais do que legítima.
Por outro lado, até determinado ponto, concordo que há uma perda técnica para a competição caso Platini saia vitorioso em sua reivindicação pela supressão de uma vaga para os países melhor ranqueados na UEFA, reduzindo o número máximo possível de participantes por país de quatro para três. Também concordo que, na Inglaterra, onde apenas dois clubes dispararam, mesmo que ainda haja dois outros grandes clubes na peleia (Liverpool e Arsenal, respectivamente), não valeria mais a pena para clubes como o Tottenham, o Middlesborough, o Newcastle, o Aston Villa ou o Bolton seguir investindo pesado se o prêmio desse investimento torna-se cada vez mais distante. Poderia dizer o mesmo para o Atletico Madrid, Sevilla, Villareal, do Celta e Deportivo La Coruña na Espanha, assim como para o Palermo, o Catania, o Livorno, a Lazio e a Fiorentina na Itália, ou para o Stuttgart e o Schalke 04 na Alemanha.
Contudo, será mesmo que, com o atual volume de investimentos, o futebol russo não merece dois clubes entrando direto na fase de grupos? A Ucrânia, a República Tcheca também. E quanto a Portugal e França? Não mereciam três ao invés de dois?
A Europa tem 53 países em uma área pouco maior do que a do Brasil (se excluírmos a parte asiática de Rùssia e Turquia). São milhares de clubes apoiados por mais de 600 milhões de habitantes. Em todas as cidades com mais de um milhão de habitantes, a população é cosmopolita, multi-étnica e multi-religiosa. Há anos que, em quase todos os clubes, predominam mais jogadores estrangeiros do que do próprio país.
Diante de todas as informações acima, em termos sociais e visando o equilíbrio do esporte, o que a hegemonia do G-14 significa?
Como a entidade defende única e exclusivamente seus próprios interesses, se pudessem, seus membros baniriam as seleções nacionais do planeta. Segundo eles, o investimento do clube em um atleta estrangeiro (principalmente de outro continente) representa um enorme risco a cada convocação, pois eles podem voltar lesionados, desfalcando-os durante meses. Então, por pressão do G-14, a FIFA, há alguns anos atrás, determinou que os clubes não são obrigados a ceder seus atletas estrangeiros para amistosos nem para campeonatos amadores. Além disso, virou quase obrigação as federações nacionais pagarem os altíssimos salários de seus jogadores que atuam no estrangeiro enquanto estiverem servindo às suas respectivas nações.
Os campeonatos nacionais de clubes na Europa tinham, em sua maioria, até o início da década de 1990, 16 clubes. Hoje, a maioria tem 20, alguns têm 18 e os que têm 16, 14 ou 12 só o têm porque são pequenos demais.
Isso provocou a queda do nível técnico em todos os campeonatos, pois representa o acréscimo de dois ou quatro clubes que, na prática, não teriam condições financeiras, técnicas e nem de ifnra-estrutura para estarem na 1ª e na 2ª divisão da maioria dos países: todos os clubes jogam de quatro a oito rodadas a mais do que antigamente, obrigando-os a disputarem rodadas de meio de semana que não existiam há 10 ou 20 anos atrás, acarretando em mais lesões, em um maior desgaste de seus atletas, em gastos maiores com viagens e estadias e em um maior cansaço, que acaba nivelando os melhores clubes com os medíocres da pior maneira possível.
Depois da abertura de mercado da União Européia, todos os jogadores nascidos em qualquer país-membro da UE é considerado quase como um cidadão nato do país cujo clube os contratou. Dessa forma, os clubes de nações ricas foram melhorando muito através da variedade obtida com a contratação de atletas muito diferentes do padrão étnico, físico e técnico predominante entre os seus jogadores nacionais.
Todavia, as seleções dos campeonatos nacionais mais ricos e mais badalados do planeta, Inglaterra e Espanha, respectivamente, não conseguem passar das quartas-de-final de uma Copa do Mundo há muito tempo: a Inglaterra, desde 1990, quando foi quarta colocada; a Espanha, desde 1958.
Quantas Recopas, Copas da UEFA, UEFA Champions League, Supercopas da UEFA, Finais Intercontinentais e Mundiais de Clubes foram vencidas pelos clubes da Espanha e da Inglaterra desde então? Mais de 10, com toda a certeza. A França, que tem obtido um destaque internacional muito maior do que Inglaterra e Espanha, é um país de campeonato fraco e de vocação exportadora há muito tempo. Isso fez com que ela tenha passado 12 anos sem disputar um mundial, entre 1986 e 1998. Apenas Itália e Alemanha ainda conseguem ter campeonatos onde a mescla de estrangeiros com nativos mantém seleções de ponta, apesar de seus campeonatos nacionais não serem plasticamente interessantes.
Platini gosta de campeonatos de seleções. Platini respeita as seleções da América do Sul e da África, pois foi um craque que tinha um futebol muito plástico, bem latino: hoje, a Europa possui muitos países a mais do que em 1990. A Tchecoslováquia se dividiu em duas, a Iugoslávia em seis e a União Soviética em quinze, sendo treze locadas no Velho Continente. Na atualidade, a UEFA ganhou 18 membros.
Há, portanto, 53 interesses nacionais diferentes. de vez em quando, verifica-se algumas pautas em comum a partir de países que compartilham idioma e traços étnicos, religiosos e culturais comuns, com reflexo direto sobre o futebol. Mas as reivindicações de fórmulas de disputa, de políticas de contratação de estrangeiros e de demandas financeiras mais veementes partem dos clubes.
Mas não estamos falando de todos os clubes de uma mesma divisão de um mesmo país, nem dos clubes da mesma região ou da mesma cidade: quem mais chora é quem mais mama. E os chorões são exatamente os 18 membros do G-14.
A riqueza material, a segurança e as oportunidades de amadurecimento mental e intelectual são fatores determinantes da atração que a Europa exerce sobre os jogadores do Brasil, da Argentina, do Uruguai, da Colômbia, do Chile, do Paraguai, do México, de Camarões, da Costa do Marfim, do Egito, de Gana e de Marrocos. Todo mundo deve ter o direito de ir e vir e, infelizmente, nossos clubes, o Estado, a iniciativa privada, as federações regionais e nacionais não têm como escapar da miséria, da insegurança e da falta de infra-estrutura, das quais o futebol é apenas uma dentre centenas de facetas sociais.
Platini tem muito o que fazer. Terá propostas rejeitadas na raiz por seus próprios pares, membros do comitê executivo da UEFA. Ao mesmo tempo, terá um aliado importantíssimo, que irá ajudá-lo a preparar terreno para ser presidente da FIFA: o atual mandatário-mor do futebol mundial, Sepp Blatter.
Sim: a tentativa de diminuir o poder de quem tem muito e de distribuir a riqueza visando o crescimento dos pequenos e, por conseguinte, um maior equilíbrio de forças tornando o esporte verdadeiramente global e, acima de qualquer coisa, muito mais atraente do que tem sido, são as maiores obsessões do novo presidente da UEFA.
Quem sabe a partir da segunda metade do mandato de quatro anos de Michel Platini no comando do futebol europeu não possamos voltar a observar um campeonato brasileiro mais forte, caso consiga aprovar uma limitação na contratação de estrangeiros? Quem sabe não possamos voltar a assistir a seleção brasileira jogando novamente dentro do nosso país? Quem sabe não possamos ter, na Olimpíada de Pequim, uma seleçã forte, reforçada por Anderson do Porto, Diego do Werder Bremen e por Denílson do Arsenal? Anderson, mesmo que não estivesse lesionado, não seria liberado pelo clube português, assim como os londrinos negaram-se a ceder Denílson para esta fraca seleção sub-20 que sagrou-se campeã sul-americana ontem à noite em solo paraguaio.
Isso que o Brasil é considerado um país “rico” pelo menos em termos da qualidade do patrimônio e do material humano através da mão-de-obra qualificadíssima que fornece aos europeus do meio para a frente…
Imaginem, então, a situação de um país africano: envoltos em uma miséria que faz do sertão brasileiro um oásis e em guerras sangrentas por um prato de comida, vários países africanos são obrigados a ver suas amadas seleções jogarem a maior parte de seus amistosos na Europa. Vejam bem: a única diversão possível para povos horrivelmente sofridos é o futebol que, para tristeza geral, está cada vez mais distante.
Pegando como exemplo a Costa do Marfim, dos excelentes Didier Drogba (Chelsea), Kolo Touré e Arouna Koné (PSV): de onde a FIF (Fèdèration Ivoiriènne du Football) tiraria dinheiro para pagar os salários de centenas de milhares de euros que esses craques recebem em seus clubes na Europa enquanto estivessem atuando pela sua seleção, hein?!
Da mesma forma, muitos jogadores jovens, recém saídos das fraldas, sequer ouviram a torcida de seus clubes do coração gritarem seus nomes e já estão na Europa. Muitos deles são contratados pelos integrantes do G-14. Cada integrande do G-14 costuma ter não 25 a 30, mas 40, 45 e até 50 jogadores profissionais sob contrato. Sem espaço para jogarem nesses grandes clubes, alguns são emprestados sem possibilidade de negociação em definitivo, mas a grande maioria permanece no limbo, ora atuando pelo time B, ora apenas participando de coletivos entre os reservas contra o sub-21 e o sub-19.
Sem ritmo de jogo, dezenas de jovens valores deixam de ser observados e lembrados para as seleções de seus países. Independentemente de terem 16, 17, 18, 19 ou 20 anos, vários deles teriam condições técnicas e emocionais de segurarem o rojão da seleção principal. Só que quem não é visto, não é lembrado. Então, perdem em ritmo de jogo, decaem tecnicamente e suas seleções igualmente perdem qualidade.
Se terá competência, não sei. Se será bem assessorado, não sei. Se já possui experiência e poder político suficiente, tampouco sei. Mas o novo presidente da UEFA e futuro presidente da FIFA tem o meu apoio incondicional até o momento.
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