ANÁLISE DA VIABILIDADE ECONÔMICO-FINANCEIRA DO PROJETO ARENA PARA O GRÊMIO

Este post foi gentilmente compartilhado na sua íntegra pelo analista do Banco Central do Brasil lotado em Porto Alegre Bruno Saraiva Ferreira e Silva, um grande gremista. Boa leitura a todos! :)

A análise do fluxo de caixa projetado da Arena do Grêmio é desafiador para qualquer analista, pois trabalha um campo ainda inexplorado pelos clubes brasileiros: a sofisticação de um ambiente historicamente rudimentar para o torcedor de futebol, isto é, o estádio de futebol. A questão passa pelos preços praticados e vai até a utilização desses novos ambientes em outras ocasiões que não somente aquelas relacionadas com o futebol. No caso específico da Arena do Grêmio há ainda um outro “complicador”. O clube conta hoje com um quadro social de cerca de 65 mil associados, herança dos acessos irrestritos verificados no velho Estádio Olímpico, mas que na Arena, por força da existência de um parceiro financiador e construtor, a OAS, deverá resultar numa estrutura complexa de receitas e despesas envolvendo as duas partes.

As especificidades da Arena em relação a sua capacidade de gerar receitas são muitas, mas destacam-se, principalmente, o tamanho da sua área bruta locável (28 mil metros quadrados), a possibilidade de se negociar os direitos de nome do estádio (naming rights), as 2300 vagas de estacionamento e a possibilidade de se locar o estádio para a realização de grandes shows. Estas receitas extras devem representar, na visão deste analista, cerca de 20% do total de receitas da Arena caso o Grêmio tenha um público médio mensal de cerca de 30 mil espectadores.

No lado das despesas, a amortização dos R$ 260 milhões que serão financiados junto ao BNDES em 90 parcelas mensais deverá representar a maior parte do desembolso mensal existente no fluxo de caixa do negócio Arena. As demais despesas deverão se concentrar na manutenção do estádio e no ressarcimento que a Gestora da Arena deverá fazer ao Grêmio como contrapartida às despesas que este terá pela obrigação de dar livre acesso ao estádio para os seus associados. Essa questão, inclusive, evidencia que há diferenças entre o fluxo de caixa do negócio Arena e o fluxo de caixa do Grêmio. Estes dois fluxos de caixa em conjunto, entretanto, impactam as finanças do clube de uma forma complexa e que resulta em informações assimétricas em torno do negócio. As próximas etapas desta análise visam eliminar estas assimetrias, muito embora o Grêmio e a OAS ainda não tenham liberado dados importantes sobre os preços que serão praticados na Arena.

Começarei pela principal receita projetada para a Arena: a bilheteria dos jogos. Como o objetivo principal desta análise é verificar a viabilidade do negócio Arena para o Grêmio – confundindo os dois fluxos de caixa em um só – projetarei um valor elevado para os ingressos, o que resultará em uma despesa elevada de ressarcimento pelo Grêmio junto à SPE. Para tornar o cenário ainda pior para o Grêmio em relação ao valor a ser ressarcido, considerarei que, na Arena, apenas 5% dos torcedores que frequentarem o estádio não serão locatários de cadeira (com livre acesso ao estádio) ou sócios-torcedores (que pagam 50% do valor do ingresso). Por quê isso é ruim para o clube? Porque as despesas de ressarcimento à SPE sobem na medida que o índice de associados presentes no estádio cresce. Abaixo está o percentual de cada tipo de torcedor que frequentará a Arena conforme os números atuais de sócios-torcedores e sócios-patrimoniais (futuros locatários de cadeira na Arena). Estes percentuais se baseiam nos números já informados pelo Grêmio em seus jogos no Olímpico e na intenção já declarada pelo clube de não abrir novos títulos de sócios-patrimoniais.

TIPOS DE TORCEDOR NO ESTÁDIO

Locatários de Cadeira ou  de Espaços na Geral

54,2%

Sócios-torcedores

36,3%

Torcedores comuns

5,0%

Camarotistas

4,5%

Estes torcedores devem ser distribuídos em 60540 lugares, conforme tabela abaixo:

ÁREAS DO ESTÁDIO

Anel Superior

23.470

Anel Inferior

15.266

Anel Gold

6.848

Anel Gold Grêmio

2.000

Anel Camarotes

2.728

Geral

10.228

TOTAL

60.540

Posteriormente tratarei unicamente da questão dos sócios, desde o preço das suas mensalidades até a sua distribuição dentro da Arena. Agora, trarei 6 cenários distintos de público médio para a Arena, o que logicamente resultará em receitas bastante variadas. Considerei um preço médio de R$ 61,00 para o Anel Superior (R$ 50,00 atrás do gol, R$ 60,00 no corner e R$ 70,00 no meio), de R$ 83,33 para o Anel Inferior (R$ 70,00 atrás do gol, R$ 80,00 no corner e R$ 90,00 no meio), de R$ 40,00 para a Geral (em qualquer parte dela) e de R$ 150,00 para o Anel Gold (qualquer parte dela). São valores muito acima daqueles vendidos para os torcedores no Olímpico e esse é um dos principais temores daqueles que se declaram críticos da Arena, pois ingressos altos representam reembolsos altos do Grêmio à SPE. Mais adiante nesta análise será identificada a real consequência financeira ao Grêmio pela presença de sócios nos diferentes setores da Arena. Os camarotes (capacidade de 12 pessoas cada um) seriam negociados a um preço médio de R$ 6,5 mil ao mês, o que não destoa dos preços atualmente praticados no Olímpico, ainda que com uma oferta bem mais baixa. Dado estes valores, abaixo seguem as projeções de arrecadação – por jogo e por mês (considerando 3 jogos por mês) – para diferentes médias de público na Arena:

  1. ARENA LOTADA

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (ARENA LOTADA)

Anel Superior

 R$1.431.670,00

Anel Inferior

 R$1.272.166,67

Anel Gold

 R$1.027.200,00

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$409.120,00

TOTAL

 R$4.423.990,00

Faturamento SPE Bilheteria Mensal Lotada

 R$13.271.970,00

  1. ARENA COM MÉDIA DE 40 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (40 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$945.933,27

Anel Inferior

 R$840.546,20

Anel Gold

 R$678.691,77

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$270.313,84

TOTAL

 R$3.019.318,41

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 40 mil

 R$9.057.955,24

  1. ARENA COM MÉDIA DE 30 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (30 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$709.449,95

Anel Inferior

 R$630.409,65

Anel Gold

 R$509.018,83

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$202.735,38

TOTAL

 R$2.335.447,14

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 30 mil

 R$7.006.341,43

  1. ARENA COM MÉDIA DE 20 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (20 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$472.966,63

Anel Inferior

 R$420.273,10

Anel Gold

 R$339.345,89

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$135.156,92

TOTAL

 R$1.651.575,87

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 20 mil

 R$4.954.727,62

  1. ARENA COM MÉDIA DE 15 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (15 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$354.724,98

Anel Inferior

 R$315.204,82

Anel Gold

 R$254.509,42

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$101.367,69

TOTAL

 R$1.309.640,24

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 15 mil

 R$3.928.920,71

  1. ARENA COM MÉDIA DE 8 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (8 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$189.186,65

Anel Inferior

 R$168.109,24

Anel Gold

 R$135.738,35

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$54.062,77

TOTAL

 R$830.930,35

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 8 mil

 R$2.492.791,05

Nos 6 cenários acima a única receita que se manteria estável é aquela oriunda de camarotes, pois estes terão demanda inelástica em relação aos jogos de futebol. Funcionarão como suítes e escritórios particulares inclusive para dias sem futebol no Estádio. Todas as demais áreas variam igualmente entre os cenários conforme diminui a média de público. É, certamente, uma análise simples, mas que tende a refletir razoavelmente uma média de arrecadação no longo-prazo. O mesmo ocorre com o Anel Gold, embora o Vice-Presidente Eduardo Antonini tenha informado que este setor deve ter 70% das cadeiras negociadas diretamente pela SPE à pessoas-jurídicas. Optou-se, contudo, não considerar este cenário apresentado pelo nosso Vice-Presidente justamente para se considerar um cenário que resulte em mais desembolsos do Grêmio à SPE, ou seja, um cenário mais pessimista.

As outras fontes de receita da Arena virão da locação de 28 mil metros quadrados de área locável bruta no interior do estádio, da locação de 2300 vagas de estacionamento, da negociação de naming rights e da locação do estádio para outros eventos, sejam eles shows ou até jogos da seleção brasileira.

A primeira receita analisada é aquela oriunda dos 28 mil metros quadrados área locável bruta. Para se ter um norte do valor comercial destes espaços, optou-se por se fazer um paralelo com o preço de shopping centers em grandes centros urbanos brasileiros. A constatação é de que estes espaços são o mais próximo possível daquilo que teremos na Arena, muito embora seja necessário corrigir o preço da locação pelo número de dias em que não ocorrerão eventos dentro do estádio, já que shoppings centers atualmente possuem movimento 7 dias por semana. Os melhores shoppings brasileiros possuem um preço de locação do metro quadrado de cerca de R$ 375,00 por mês. É o caso do Shopping Iguatemi localizado na avenida Faria Lima de São Paulo. Esse, entretanto, certamente não é o paralelo correto para ser utilizado na comparação com a Arena Gremista. Shopping Centers normais tem um preço médio de metro quadrado ao redor de R$ 250,00. É isto que informa a consultoria imobiliária Cushman & Wakefield. Tendo em vista que a Arena Gremista terá cerca de 3 match days por mês e mais uma mínima utilização em dias sem jogos, optou-se por utilizar uma relação de 15% em relação ao preço de shopping centers normais, ou seja, cerca de R$ 30,00 por mês o preço do metro quadrado locável. Desta forma, a Superficiária arrecadaria cerca de R$ 840 mil ao mês com a locação de toda a sua área bruta disponível.

A receita com locação para shows e outros eventos na Arena é de difícil mensuração, pois estamos tratando de um mercado em expansão na capital gaúcha e que contará, além da Arena Gremista, também com o Beira-Rio reformulado para a realização deste tipo de eventos na cidade de Porto Alegre. Em contato com um  funcionário de uma empresa de eventos de Porto Alegre, foi perguntado qual era o custo de um estádio como o Beira-Rio para a locação para a realização de um grande espetáculo. Foi informado que o preço girava em torno de R$ 100 mil. A análise, portanto, além de considerar esse preço no fluxo de caixa projetado da Arena, considerou que o novo estádio tricolor será sede de cerca de 3 grandes shows a cada 2 anos, o que resultaria em receitas anuais ao redor de R$ 150 mil.

A receita com naming rights também gera bastante dúvidas quanto ao seu real potencial de impactar as finanças da Superficiária. A razão é a total ausência de histórico para balizar uma projeção confiável. A solução foi comparar o preço anual do patrocínio principal da camisa do clube com este novo produto relacionado não a uma camisa de futebol, mas a um estádio de futebol. O Grêmio atualmente recebe cerca de R$ 15 milhões anuais do seu patrocinador master. Partindo desse valor, foi projetado ser bastante factível negociar o patrocínio de um grande estádio de futebol por cerca de R$ 12 milhões ao ano.

A receita advinda das 2300 vagas de estacionamento, considerando que no Estádio Olímpico o custo de cada uma das cerca de 400 vagas gira em torno de R$ 150,00, deve ficar ao redor de R$ 345 mil por mês. Este analista não encontrou motivos para a majoração de preços, principalmente pelo grande aumento da oferta de vagas. Além das 2300 vagas existentes na Arena Gremista, haverá ainda mais 3 mil vagas disponíveis em um edifício garagem a ser explorado unicamente pela OAS Empreendimentos.

Na esfera das despesas a Superficiária da Arena Gremista incorrerá basicamente em 3 grandes desencaixes além da tributação: amortização do financiamento junto ao BNDES, manutenção do Estádio e o ressarcimento de R$ 8 milhões ao Grêmio. É importante deixar claro que a amortização do financiamento tem como prazo 90 meses e que, com a sua liquidação, a Superficiária passará a ressarcir o Grêmio em R$ 16 milhões anuais. Nessa análise, contudo, será  considerada apenas a viabilidade do negócio durante o período de amortização do financiamento junto ao BNDES.

O financiamento que a Superficiária retirou junto ao BNDES muito possivelmente teve o valor de R$ 260 milhões, o máximo permitido conforme termo do aditivo de contrato firmado entre Grêmio e OAS. O prazo informado foi de 90 meses. A linha utilizada não foi informada. Não se sabe se foram concedidos recursos do Pró-Copa à Arena, sabidamente mais baratos. Logo, foi considerada s taxa de 6,5% ao ano, comumente utilizada pelo BNDES em suas operações de longo-prazo. Carregando os dados acima em uma HP12C o valor mensal a ser amortizado pelo Superficiária ficou em R$ 3,655 milhões.

A manutenção da Arena é um ponto interessante de ser analisado e de difícil mensuração, pois, embora o novo Estádio seja muito maior em área que o Estádio Olímpico, grande parte das suas instalações (28 mil metros quadrados) serão locados para terceiros e esses incorrerão em custos condominiais para a manutenção das áreas em comum. Isso deve resultar em menores desembolsos para a Superficária no que se refere à manutenção. Outro aspecto positivo é que a Arena deve ter uma gestão mais eficiente em virtude da profissionalização da sua gestão. A projeção é a de que serão necessários cerca de R$ 1 milhão por mês para cobrir estas despesas.

A última despesa que a Superficiária deve ter são R$ 666,6 mil fixos que ela terá que desembolsar ao Grêmio em contrapartida aos custos que este último deve ter para permitir o livre ingresso dos seus sócios à Arena. Adiante será debatido o montante desse custo para o Grêmio. É importante deixar claro que este valor fixo de R$ 666,6 mil não está relacionado com o real desembolso que o clube deve ter para permitir o livre acesso à Arena para os associados.

Em vista dos dados discutidos, abaixo é mostrada a projeção de resultado para a Superficiária em cima de 6 cenários diferentes para o público presente na Arena:

Demonstração de Resultado Superficiária

 

Arena Lotada

40 Mil

30 Mil

RECEITAS

 15.469.470

 11.255.455

 9.203.841

Bilheteria

 13.271.970

 9.057.955

 7.006.341

Naming Rights

 1.000.000

 1.000.000

 1.000.000

Locação Área Comercial

 840.000

 840.000

 840.000

Locação Shows

 12.500

 12.500

 12.500

Estacionamento

 345.000

 345.000

 345.000

DESPESAS

 (5.321.837)

 (5.321.837)

 (5.321.837)

Amortizaçao Financiamento

 (3.655.170)

 (3.655.170)

 (3.655.170)

Manutenção Estádio

 (1.000.000)

 (1.000.000)

 (1.000.000)

Ressarcimento Gremio

 (666.667)

 (666.667)

 (666.667)

RESULTADO ANTES DO IR

 10.147.633

 5.933.618

 3.882.005

Imposto 34%

 (3.450.195)

 (2.017.430)

 (1.319.882)

LUCRO LÍQUIDO

 6.697.438

 3.916.188

 2.562.123

 

20 Mil

15 Mil

8 Mil

RECEITAS

 7.152.228

 6.126.421

 4.690.291

Bilheteria

 4.954.728

 3.928.921

 2.492.791

Naming Rights

 1.000.000

 1.000.000

 1.000.000

Locação Área Comercial

 840.000

 840.000

 840.000

Locação Shows

 12.500

 12.500

 12.500

Estacionamento

 345.000

 345.000

 345.000

DESPESAS

 (5.321.837)

 (5.321.837)

 (5.321.837)

Amortizaçao Financiamento

 (3.655.170)

 (3.655.170)

 (3.655.170)

Manutenção Estádio

 (1.000.000)

 (1.000.000)

 (1.000.000)

Ressarcimento Gremio

 (666.667)

 (666.667)

 (666.667)

RESULTADO ANTES DO IR

 1.830.391

 804.584

 (631.546)

Imposto 34%

 (622.333)

 (273.559)

 -

LUCRO LÍQUIDO

 1.208.058

 531.025

 (631.546)

O único cenário negativo para a Superficiária é aquele que apontou uma média de público de 8 mil pessoas por jogo. As receitas com bilheteria não seriam suficientes para cobrir os desencaixes fixos do estádio. Todos os demais cenários são positivos para a Superficiária. Um cenário bastante factível – aquele que apresenta média de público de 30 mil pessoas por jogo – resulta em um lucro líquido de cerca de R$ 2,5 milhões por mês.

            Após a análise do negócio Arena sob a ótica da Superficiária, fica a pergunta: de quê forma o resultado da Superficiária impacta as finanças do Grêmio em relação aos jogos em que o clube é mandante? Afinal, o clube terá participação de 65% no resultado (lucro líquido) desta Superficiária, desde que esta não apresente prejuízo (cláusula prevista no aditivo de contrato firmando em agosto de 2011). A resposta é muito dependente da receita que o clube terá com o seu quadro social, pois ela é a principal fonte de receita do clube quando se analisa unicamente os jogos em que ele é mandante. Outras receitas como patrocinador da camisa, publicidade móvel, comercialização de jogadores, etc, não devem ser consideradas, porque não estão inclusas no negócio Arena. O objetivo é comparar quanto o clube ganha ou perde com a troca do Estádio Olímpico pela Arena.

            O preço das mensalidades é o grande ponto de discussão, bem como o número de associados. Quanto maior for o valor destas duas variáveis, maior será a receita do clube. Entretanto, pela lógica micro-econômica, a correlação destas duas variáveis é negativa. A busca de um ponto ótimo é mandatória por parte do Conselho de Administração do clube. Muito debate em torno do assunto em redes sociais e informações imprecisas já foram lançadas por nossos dirigentes e mídia esportiva. Este analista que vos escreve, portanto, optou por um cenário em que o quadro social não muda de tamanho e que o Conselho de Administração decide por uma majoração razoável das mensalidades. Entende-se que a atratividade do novo Estádio permitirá este aumento, logo não deve haver ingresso de novos associados no clube. Os preços escolhidos, inclusive, tem sido divulgados recentemente por conselheiros próximos ao Eduardo Antonini. Nos próximos parágrafos, além da divulgação dos preços das mensalidades (opinião), serão mostrados os critérios utilizados por este analista para definir a procura por cada uma das modalidades que provavelmente existirá na Arena.

A procura dos sócios-patrimoniais aos diferentes setores do novo Estádio gremista é algo difícil de ser mensurado, pois estamos tratando de uma situação nova e jamais vivida pelo clube. Por conta disso, optou-se por utilizar o critério do preço da mensalidade x disponibilidade de assentos para estipularmos a demanda. Logo, quanto mais nobre é o setor, menor será a sua procura. Entretanto, se a área for pequena (em termos relativos), o percentual de ocupação dessa área por sócios-locatários poderá ser maior. Logicamente, há muita subjetividade nessa questão. Mesmo que saibamos que cada um tem o seu, o bom senso foi a ferramenta utilizada para determinar o tamanho das áreas disponíveis e o quão procuradas elas seriam. É importante frisar que a divisão dos setores do Estádio e os seus respectivos preços mensais para sócios-locatários obedeceu informações dadas informalmente pelo Vice-Presidente Eduardo Antonini em entrevistas às rádios de Porto Alegre. Não é nada oficial divulgado pelo clube. Antonini mais de uma vez divulgou que o setor mais barato para sócios-locatários seria a Geral (anel inferior atrás do gol) e que o mais caro, depois do anel Gold (área VIP), seria a área central do anel inferior. Todos estes setores seriam divididos entre áreas localizadas atrás do gol, nos corners e no meio das arquibancadas. Quanto mais central, mais caro. Abaixo é mostrada como ficou a matriz de preços versus disponibilidade de assentos versus procura sócios-locatários.:

  1. GERAL

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

G E R A L

Geral  R$90,00

 10.228

70%

 7.160

 R$644.364,00

Total Geral  

 10.228

 

 7.160

 R$644.364,00

  1. ANEL INFERIOR

 

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

A N E L   I N F E R I O R

Inferior Corner  R$160,00

 5.089

50%

 2.544

 R$407.093,33

Inferior Atrás do Gol  R$140,00

 2.544

60%

 1.527

 R$213.724,00

Inferior Meio  R$180,00

 7.633

45%

 3.435

 R$618.273,00

Total Inferior  

 15.266

 

 7.506

 R$1.239.090,33

 

 

  1. ANEL GOLD

 

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

A N E L   G O L D

Gold SPE  R$300,00

 6.848

15%

 1.027

 R$308.160,00

Gold Grêmio  R$300,00

 2.000

15%

Total Gold  

 8.848

 

 1.027

 R$308.160,00

 

 

  1. ANEL SUPERIOR

 

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

 
 

A N E L   S U P E R I O R

Superior Corner  R$120,00

 11.735

75%

 8.801

 R$1.056.150,00

 
Superior Atrás do Gol  R$100,00

 4.694

80%

 3.755

 R$375.520,00

 
Superior Central  R$140,00

 7.041

65%

 4.577

 R$640.731,00

 
Total Superior  

 23.470

 

 17.133

 R$2.072.401,00

 

 

 

            Os números acima mostram que o Grêmio terá cerca de 24 mil sócios-locatários de espaços nos setores mais baratos da Arena: a Geral e o Anel Superior. O fato condiz com a distribuição verificada atualmente no Estádio Olímpico. Os demais sócios locatários, cerca de 8,5 mil, estão nos setores mais caros, assim como ocorre atualmente no setor oeste do anel superior do Estádio Olímpico. A diferença é que, na opinião deste analista, a Arena terá cerca de 3 mil associados a mais nestes setores considerados mais nobres, pois esta conquistará clientes que o velho Olímpico não tinha condições de atender. Destaca-se o fato de que no Anel Gold apenas 15% dos 6.848 assentos disponíveis para locação foram negociados para sócios. O número é baixo em virtude do Antonini já ter antecipado que cerca de 70% daquele setor deve ser negociado para pessoas jurídicas, além de que 2 mil cadeiras serão próprias do Grêmio para concessão à membros do Conselho Deliberativo, do Conselho de Administração, proprietários de cadeiras perpétuas do Olímpico e convidados do clube.

            O valor das mensalidades, como se pode perceber, sofreu uma majoração de cerca de 40% para os associados que hoje são sócios-proprietários no Olímpico e que passarão a ser locatários de cadeira (ou de espaços, no caso da Geral) na Arena. A localização destes no estádio mudará do primeiro para o quarto anel. Para os atuais sócios-locatários do Estádio Olímpico (localizados no anel superior, setor oeste) a majoração ocorreria apenas se o Anel Gold fosse a sua escolha.

            O número de sócios-torcedores permaneceria mais ou menos o mesmo daquele verificado atualmente com o Estádio Olímpico, isto é, 32 mil associados. Eles pagariam metade do valor da mensalidade mais barata da Arena, isto é, da Geral.

Sócios Torcedores  R$45,00

                32.000

 R$1.440.000,00

            Muito embora o quadro social deva se manter estagnado em número de associados em virtude da majoração das mensalidades, ele passará a ser mais rentável para o clube. Foi considerado que os sócios patrimoniais, em sua grande maioria, pretenderá manter o seu direito de acesso irrestrito à Arena, aceitando o aumento da mensalidade em troca do melhor conforto oferecido no novo Estádio. Aqueles que não desejarem ainda terão mais de 10 mil lugares na Geral oferecendo praticamente o mesmo custo atual. A receita mensal do Quadro Social do Grêmio, portanto, passaria a ser esta:

TOTAL

            64.826

 R$5.704.015,33

A receita de R$ 666,6 mil reais por mês que o Grêmio terá oriunda da Superficiária será, obviamente, a contrapartida da  despesa de mesma natureza da Superficiária conforme descrito e analisado anteriormente. Portanto, esse ponto não precisa ser novamente debatido.

O mesmo pode ser dito em relação às despesas de ressarcimento que o Grêmio deverá incorrer junto à Superficiária. Elas representam o pagamento que o Grêmio deverá fazer junto à Gestora da Arena para bancar o seu sócio dentro do novo Estádio. A lógica é a de que quanto maior for o número de associados presentes na Arena, maior será o desembolso do Grêmio para bancar este associado no novo Estádio.  Em vista da projeção do número de associados em cada setor da Arena e do preço cobrado pela Superficiária para cada um destes setores, foram construídas tabelas projetando o valor total a ser ressarcido pelo Grêmio considerando cada um dos 6 cenários já citados. São eles:

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE POR JOGO (ARENA LOTADA)

Sócios Locatários de Cadeira

 R$2.111.065,04

Sócios Torcedores no Anel Superior

 R$169.860,84

Sócios Torcedores no Anel Inferior

 R$284.170,63

Sócios Torcedores no Anel Gold

 R$383.672,37

Sócios Torcedores na Geral

 R$53.933,49

TOTAL

 R$3.002.702,38

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (ARENA LOTADA)

R$9.008.107,13

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (40 MIL PESSOAS)

R$5.545.922,84

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSALL (30 MIL PESSOAS)

R$4.057.963,29

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (20 MIL PESSOAS)

R$2.570.003,74

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (15 MIL PESSOAS)

R$1.826.023,96

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (8 MIL PESSOAS)

R$784.452,28

Os valores que não aqueles referentes à Arena lotada representam uma função desta, portanto não foi divulgado o valor específico de ressarcimento para cada modalidade de sócio conforme a sua localização dentro da Arena.

O resultado final para o Grêmio na conjunção dos dois fluxos de caixa, da Superficiária e do próprio clube, foi considerado positivo por este analista, pois em nenhum dos 6 cenários de público médio projetados o Grêmio verificaria saldo de caixa negativo. Entretanto, ocorreria um fato curioso: quanto maior o público médio na Arena, menor será o resultado positivo do clube devido ao incremento nas despesas de ressarcimento à Superficiária. Vamos aos números:

Fluxo de Caixa Final Projetado para o Grêmio

 

Arena Lotada

40 Mil

30 Mil

Receita Quadro Social

 5.704.015

 5.704.015

 5.704.015

Receita SPE > Gremio

 666.667

 666.667

 666.667

Despesa de Ressarcimento SPE por Lotação

 (9.008.107)

 (5.545.923)

 (4.057.963)

Resultado Sem Participação SPE (Grêmio)

 (2.637.425)

 824.759

 2.312.719

Receita Participação SPE

 4.353.335

 2.545.522

 1.665.380

Resultado Líquido (Grêmio + SPE)

 1.715.910

 3.370.281

 3.978.099

 

20 Mil

15 Mil

8 Mil

Receita Quadro Social

 5.704.015

 5.704.015

 5.704.015

Receita SPE > Gremio

 666.667

 666.667

 666.667

Despesa de Ressarcimento SPE por Lotação

 (2.570.004)

 (1.826.024)

 (784.452)

Resultado Sem Participação SPE (Grêmio)

 3.800.678

 4.544.658

 5.586.230

Receita Participação SPE

 785.238

 345.167

 -

Resultado Líquido (Grêmio + SPE)

 4.585.916

 4.889.825

 5.586.230

Considerando um cenário básico onde o Grêmio mantenha um público médio de 30 mil espectadores por jogo, o resultado do Grêmio com o negócio Arena giraria em torno de R$ 4 milhões por mês, um valor muito longe dos números alarmistas encontrados “no mercado”.

            O resultado final dessa análise jamais pode ser considerado conclusivo. Este analista, além de não dispor de todas as informações necessárias para a construção de uma análise mais completa, trabalhou quase sempre com hipóteses. Entretanto, considera-se que os dados que serão divulgados futuramente sobre preços e mensalidades não devem destoar muito daquilo que foi trabalhado, o que torna possível ao leitor ter um norte de como o novo Estádio tricolor poderá impactar as finanças do clube nos próximos anos. A análise recém finalizada visa somente enriquecer o debate em torno do Projeto Arena. Em nenhum momento este analista buscou defender uma posição política ao realizar esse estudo, até mesmo por ser um associado sem vínculo algum a qualquer grupo político dentro do clube. O seu partido é o Grêmio e, por amar o clube, querer o seu melhor e para dirimir dúvidas pessoais quando à viabilidade econômico-financeira do Projeto Arena, tentou unicamente se certificar se este será saudável ou não para o clube. Por isso, o mesmo está aberto a críticas. Elas servirão para trazer um melhor entendimento sobre o tema e para enriquecer o debate em torno daquele que pode ser o turning point do clube nas próximas décadas.

Bruno Saraiva Ferreira e Silva
Sócio desde 1998
Administrador de Empresas
Mail: mundiko@msn.com

SÃO AS ARENAS, ESTÚPIDO!

Leia isto com atenção. Após uma análise fria dos dados, será que a sua conclusão será muito diferente da minha?
Os estádios são precários.
Os horários são péssimos.
Os ingressos são caros.
Os times são ruins.
Além do resultado de campo e de algumas vantagens nos valores de serviços de parceiros, o que poderia fazer o torcedor se associar?
Melhores estádios obviamente cobram preços bem mais altos a fim de manter a estrutura funcionando e de proporcionar lucro.
Porém, a velocidade do crescimento da economia não é tão grande assim e a diversidade de opções de lazer é grande.
Se há 12400 famílias de classe AB na Grande POA (universo de 3.400.000 habitantes), o pessoal que pode pagar 20 contos de estacionamento, ingresso de cadeira lateral (80) e um nº1 do MacDonald’s (porque não vai mais ter a Towner da “tia” nem o “entrevero” do boteco) não enche um estádio de 50000 lugares. Melhor dizendo, não enche a metade e, por melhor tratado que seja, sem time, não há público. Além disso, dependendo do adversário e do clima, nem vão.
O desafio de um marketing verdadeiramente profissional é MONSTRUOSO dada a realidade da baixíssima média de ocupação dos estádios brasileiros.
Isso que falamos apenas em Série A, grandes capitais, grandes clubes…
A realidade do êxodo cada vez mais precoce de talentos; o retorno de medalhões já operados em alguma articulação e a total falta de identidade dos atletas de outros estados para com a maioria dos clubes para os quais atuam aliada à sua curta permanência em cada cidade afastam o público.
Mesmo nos raros casos em que os dirigentes são gestores e técnicos competentes em suas respectivas áreas e estão no lugar certo, na hora certa e com a companhia ideal, ainda assim é preciso rodar a baiana para ter que remontar o plantel a cada meia temporada.
O Brasil possui pouquíssimos técnicos com formação e cultura tática. A maioria deles é motivadora e esse discurso possui um prazo de validade muito curto.
O desafio é sério e a necessidade de encará-lo está cada vez mais próxima…

O GRÊMIO E SUA GOVERNANÇA AMADORESCA

Essa de “exército de ferro, exército espartano com a alma castelhana” inventada pelo Pedro Ernesto Denardin é uma construção midiática sensacionalista que forjou uma maneira de pensar o clube como se bastasse ter jogadores baratos e brigadores pra se montar um time. Os resultados comprovam que, infelizmente, o futebol contemporâneo não permite mais competir em pé de igualdade com clubes ricos.

Hoje, o Grêmio é um clube rico em história. Contudo, o que muitos consideram como um valor atávico, intrínseco e naturalizado do nosso tricolor não passa de uma mera construção baseada em coincidências.

A primeira delas conta que o técnico precisa ser gaúcho pro time conquistar campeonatos de nível nacional e internacional. Nunca pararam pra pensar que eestão embutidos dois problemas graves nessa máxima? a) Tal pensamento desestabiliza a confiança e o apoio a um profissional de fora. Resultado: ele acaba ficando menos tempo aqui porque não recebe suporte suficiente para compreender a cultura da instituição e tampouco um plantel minimamente confiável; e b) Sempre que se contrata um treinador gaúcho de competência duvidosa, ele também acaba tendo uma sobrevida que perdoa demais uma série além do tolerável de resultados esquálidos obtidos sob a sua coordenação.

Outra mera coincidência é a de que, para se ganhar uma Libertadores, é necessário ter um “xerife” de origem castelhana: o mais “macho”, o mais forte, aquele que distribui mais pontapés, o mais malandro. De León era bandido?! Arce era mal encarado?!

A terceira grande bobagem tida como virtude: costuma-se dizer que basta termos um centromédio “espanador” e “macho”. Tirando Lucas Leiva e o atual ocupante da posição Adilson, me digam, depois de Dinho (que batia, sim, mas passava que era uma beleza) um outro centromédio que soubesse jogar bola e eu dou um Sonho de Valsa de presente. Nessa posição, é CRUCIAL saber retomar a bola e tocá-la para o armador ou, então, lançá-la para o ataque sem rompantes de Prof. Pardal. Onde se começa a impor o ritmo de jogo e onde se começa a proteger a zaga não se pode contar apenas com a virilidade. Finalmente, mais do que no miolo de zaga ou na armação, a pior posição para se ter um titular expulso ou lesionado é a de centromédio.

Pois bem: tais mitos foram repetidos à exaustão por muitas gestões sem nenhuma comprovação estatística ou científica de sucesso CONTINUADO. A curto prazo, essas escolhas obtiveram resultado. Contudo, trata-se de um modelo que desgasta-se rapidamente. Portanto, a qualidade técnica e a atitude são os fatores que realmente importam na montagem de um plantel vitorioso.

Meu medo no início da temporada está se concretizando: na base da garra sob a  tentativa de montar um time de qualidade juntando um bando de jogadores ruins e sem atitude, a botafoguização do Grêmio é iminente. Com Ruy, Túlio e outros “símbolos” de uma torcida há muito carente, o alvinegro carioca desperdiçou muitas chances de obter uma vaga à Libertadores ou de decidir uma Copa do Brasil nos últimos quatro anos em função da base emocionalmente instável que ora trabalha no Olímpico.

Como já falei no post anterior sobre a questão Maxi López, um olheiro experiente e poliglota com uma rede social ampla (técnicos, dirigentes, jogadores e jornalistas) é um cargo importantíssimo que não pode mais ser negligenciado justamente por poupar muito mais tempo e dinheiro do que se possa imaginar.

Logo, não vou me enganar e nem ao gremista que me dá o privilégio de ler meus textos: o plantel é fraco demais. Ponto. Como diria Mino Carta, é sabido até pelo mundo mineral que o clube está estendendo a latinha na calçada e que, salvo momentos esparsos de contratações baratas e certeiras, essa medida tem que ser vista como um paliativo e não como uma política permanente. Ela é o possível apenas neste triste período pós-ISL tdo qual talvez ainda levemos mais uma década  inteira até podermos nos equiparar a um São Paulo, Cruzeiro ou Inter em termos de frequencia e continuidade no pódio.

O Grêmio não vai à Libertadores em 2010. O Grêmio não vai passar pelo Cruzeiro. E não é porque eu não quero, nem porque eu sou vidente: é porque depende da sorte e não de sua competência. Mas eu não deixo de ir aos jogos. Por que? Porque, ao invés da “imortalidade” e do “alento custe lo que custe”, eu adoro correr o risco de ter dito uma grande besteira, de estar redondamente enganado, de ver o time, o técnico e a direção me fazerem morder a língua.

Enfim: pensamentos mágicos não são de agora. E não são coisa do presidente Duda, assim como segui-los não representou nenhum sucesso absoluto da gestão Odone. Em 1983, tínhamos pratas da casa (dentre os quais o maior gênio da história do futebol mundial) e craques experientes. Em 1985, tínhamos pratas da casa excepcionais, dois jovens talentos desperdiçados por Vasco e Flamengo (o que é cada vez mais comum naquela “zona” que se chama futebol carioca) e um técnico que dispensa maiores apresentações.

De lá pra cá, se tem gastado muito por jogadores bons a razoáveis que não deram certo no exterior, que ficam somente uma temporada por aqui. Isso nos obriga a remontarmos o plantel para a temporada seguinte. Porém, a falta de um especialista faz com que as negociações sejam lentas e evitam que o Grêmio consiga encontrar todas as opções disponíveis em função do seu escasso orçamento.

Enfim… Nos vemos obrigados a conviver com uma entressafra de idéias e de pessoas dentro de um contexto de penúria financeira. O Grêmio da primeira década do século 21 repete o Inter da década de 1990 e o Inter atual repete o Grêmio da primeira metade da década de 1980 e da segunda metade da década de 1990 porque, lá, houve uma verdadeira renovação. Quem havia ouvido falar de Vittorio Piffero, Fernando Carvalho ou de uma gestão de marketing composta por um vice-presidente e por mais seis ou sete diretores especializados há 10 anos atrás como protagonistas do clube vizinho?

O Grêmio, infelizmente, ainda vive ou de dinastias, ou de agregados dessa dinastias. A pretensa “democracia representativa” é tão farsesca e hipócrita dentro do clube que todo associado interessado em ser conselheiro é praticamente obrigado a rezar a cartilha desses clãs sob pena de não obter apoio para nada.

O Grêmio é um grande PMDB. Quando digo isso, não é necessariamente porque as pessoas sejam predominantemente incompetentes, porque apelem para conchavos e para o “jeitinho” ou porque sejam parentes de velhos conselheiros. Apesar desse fator ser clientelista, paternalista e oportunista, o que mais pesa nessa questão é a falta de objetivos, de plataformas, de metas e de conhecimento técnico qualificado. Quando falo em conhecimento qualificado, não me refiro a advogados, engenheiros, médicos, administradores, comunicadores e economistas mas, sim, de uma visão holística do clube. O que quero dizer com isso? Que uma doença financeira não pode ser curada com uma medida profilática voltada exclusivamente ao simplismo do binômio receita/despesa e do corte de gastos desimportantes mas, sim, a partir da conscientização e do culturamento de funcionários pagos, de dirigentes abnegados e de dirigentes profissionalizados acerca do que é e do que significa o Grêmio. Isso existe, mas precisa ser intensificado e naturalizado.

Ao mesmo tempo, a terceirização de diversos setores para não onerar o pagamento de impostos é uma das maiores mentiras do neoliberalismo econômico: na maioria das empresas públicas ou privadas com no mínimo 30 anos de atuação no mercado, tem-se a média de aumento de gastos na ordem de quase 300% com o custeio de serviços externos em detrimento da montagem de equipes funcionais especializadas dentor do próprio clube. Não, a intenção não é a de criar um cabide de empregos nem de desconfiar da competência dos contratados externos: isso, sim, é economia E investimento, já que o terceirizado, mesmo que seja gremista, não terá a obrigação nem o sentimento de ser e de fazer parte da instituição: quando sua tarefa terminar, é tchau e bênção.

Enquanto isso não mudar, as oscilações e os riscos tenderão a ser maiores do que as estabilidades e os ganhos.

GRÊMIO, CONTEXTO, TÉCNICO, PLANTEL, FINANÇAS, 2009

Talvez eu seja um dos raros gremistas que nunca nutriu nenhum sentimento negativo em relação ao técnico Celso Roth, embora admita que suas convicções teimosas e o seu tempo no mercado tornam qualquer campanha imprevisível, já que é comum ele acertar quando menos se espera que ele acerte ou, pelo contrário, que Roth erre quando a maioria acha que ele iria acertar.

O Paulo Vinicius Coelho (é sem acento, mesmo), o PVC da ESPN Brasil e colunista da Folha, pra mim, é o melhor comentarista do país porque ele trabalha sempre baseado em estatísticas. O cara é uma enciclopédia ambulante da história e das escalações de todos os times lendários do país, não apenas os do eixo Rio-São Paulo. Ele deve ter uma biblioteca monstruosa e uma quantidade de contatos gigantesca, além de uma memória privilegiadíssima.

Ano passado, ele falou duas coisas que me marcaram bastante:

1) Roth nunca fez uma campanha pior do que 58% em nenhum campeonato que tenha participado. Isso garante vaga na Sul-Americana e, dependendo da temporada, pode também garantir um 4º ou 5º lugar e vaga na Libertadores. Quando seus times não chegaram a essas posições, foi porque ele chegou no meio da temporada pra apagar algum incêndio, isto é, pra salvar do rebaixamento;

2) O São Paulo tendia a dar poucas chances para o Goiás na última rodada porque jogava pelo empate e jogaria pela 11ª vez com o mesmo trio de zagueiros (Rodrigo, Miranda e o outro não lembro) que não havia perdido nenhuma partida. E, até aquele momento, o São Paulo não dava mostras de nervosismo, pois seu número de cartões e de expulsões estava abaixo da média.

Parece bobagem, já que o futebol é apaixonante justamente por ser um dos raros esportes em que o favorito nem sempre ganha (os outros considero os esportes a motor, que dependem de máquina e clima). Contudo, esse detalhe, que parece uma preocupação “americanizada”, é superimportante, pois determina uma TENDÊNCIA MUITO FORTE, com uma margem de acerto muito alta (acima de 80%).

Então, eu parei totalmente de ouvir rádio, só dou uma passada de olhos no Correio do Povo e não assisto mais a programas de debates entre comentaristas gaúcho. Sinceramente, eles são muito amiguinhos de alguns dirigentes (Fernando Carvalho, que os recepcionava com churrascos em seu escritório) e jogadores e “inimiguinhos” de outros (Celso Roth, por não submeter-se com sangue de barata às suas inquisições inócuas) pra serem levados a sério. Podem até ser senhores de respeito e profissionais tecnicamente corretos. Porém, a postura, o vocabulário, o tipo de análise e, finalmente, o fato de defenderem e valorizarem o Gauchão, que não leva nem os times do interior a lugar algum, me afastam desse tipo de discussão.

Se era pra trocarmos de técnico, isso teria que ter sido feito no verão, logo após o término do Brasileirão. Mas era justo que se tentasse manter Roth, apesar do time ter entregado o título, em função de sua posição inédita e da melhor campanha do GRÊMIO em um Brasileirão de pontos corridos. Dada a supremacia econômica do São Paulo, do Palmeiras, do Cruzeiro e do Internacional; ao trabalho profissional realizado pela parceria do Fluminense com a Unimed; à estabilidade nas contas do Santos e, finalmente, ao fato de que o Flamengo (mesmo em crise) possui um plantel parelho com o do GRÊMIO, considero que fizemos milagre em função da nossa penúria financeira, que nos impede de contratarmos jogadores experientes, porém não-bichados; com boa qualidade técnica E atitude. Por isso, nosso capitão é uma pessoa boa, porém instável emocionalmente e ele transmite um certo medo ao restante do grupo.

Insisto mais uma vez: aquele time campeão da Série B não teria mantido o GRÊMIO na Série A. O nível de exigência é muito diferente. Prova disse é que o pessoal da ESPN Brasil (principalmente os chefes de reportagem e principais comentaristas, PVC e Mauro Cezar Pereira – é com Z, mesmo) não duvidam, porém acham difícil que o Corinthians seja capaz de classificar-se à Libertadores 2010. Se nada mudar na janela de verão (europeu), com muita garra e uma dupla iluminada (Ronaldo e Dentinho), eles deverão garantir uma vaga na Sula. Pra Libertadores, o furo fica bem mais embaixo.

Não tenho o hábito de cuspir no prato em que comi. Eu relembro a história, reverencio ídolos, reconheço o trabalho competente que deu saudade e valorizo muito a contribuição de quem já passou pelo nosso GRÊMIO. De qualquer forma, apesar da regularidade e de uma certa surpresa com o 3º lugar em 2006 recém voltando da Série B, o GRÊMIO tinha, sim, um plantel um pouco mais qualificado do que os de 2007 (vice-campeão da Libertadores) e, mais ainda, do que em 2008. Hugo e Diego Souza entrariam com um pé nas costas nesse time, além de Pereira ser um jogador regular que não poderia ter sido excluído do clube. Lucas, Carlos Eduardo… Comparem: Roth só tem de melhor do que Mano à sua disposição os dois laterais.

E, de maneira geral, a maioria de nossos jogadores não tem COJONES pra chamar a responsabilidade pra si. Quando o fazem, o fazem com medo de errar. A única frase do prof. dr. Luxerlei Vanderburgo que considero interessante é: “O MEDO DE PERDER TIRA A VONTADE DE GANHAR”.

Por fim, como já falei em um recente post em vídeo, apesar das proporções serem quase incomparáveis (um técnico e 60% de um plantel tricampeões brasileiros, muito dinheiro e muito poder político), a campanha do São Paulo no Paulistão é praticamente igual à do GRÊMIO e nunca ninguém falou em mandar técnico e jogadores embora. Não se enganem: o SPFC põe muito dinheiro fora com contratações caras que não dão certo. Além disso, o Muricy já cansou de ser muito mais estúpido com a imprensa do que o Roth e já cometeu erros crassos em jogos.

Isso posto, por mais que eu queira, não vou cobrar da direção nem do plantel ou do técnico algo que, quase com certeza, infelizmente eles não tem condições de proporcionar à torcida do GRÊMIO em 2009: uma vaga à Libertadores 2010.

Contudo, mesmo que se mude de técnico após uma eliminação na Libertadores 2009 (a não ser que cheguemos pelo menos à final), irei torcer até o fim, elogiando o que tiver que elogiar e criticando o que tiver de criticar.

Ainda assim, em função de alguns jogos na altitude e da dificuldade de ganhar fora de casa, o percentual médio de Roth (58%) é mais do que suficiente para ser campeão da Libertadores – e bem.

Com tudo isso, não quero defender demais a quem não precisa de advogado de defesa, nem atacar com exagero e má vontade a quem não cometeu erros suficientemente graves para merecer ser tratado dessa maneira. Ao mesmo tempo, o fato de eu insistir na falta de atitude deste plantel (o que provavelmente irá levar o GRÊMIO a uma ‘cucana botafoguização’) e na penúria financeira (na qual ninguém mais fala) tem como objetivo evitar que a torcida se iluda. O trabalho é o POSSÍVEL, de acordo com nossos bolsos quase raspados. A farra da ISL quase acabou com o clube, que ainda demorará cerca de uma década de trabalho quase perfeito fora de campo para se estabelecer no mesmo patamar do SPFC, do Cruzeiro e dos fragários.

Por hora, o melhor que temos a fazer é apoiar, alentar, torcer, valorizar, respeitar. Mas, acima de tudo, criticarmos com uma certa compreensão desse contexto desfavorável. No fundo, o que eu quero não é me conformar mas, sim, SER SURPREENDIDO NOVAMENTE.

GM PERTO DA FALÊNCIA

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A notícia divulgada pelo RS URGENTE do jornalista e filósofo MARCO AURÉLIO WEISSHEIMER, também um dos editores da AGÊNCIA CARTA MAIOR, oferece uma série de indícios que ajudam até mesmo a um leigo como eu a tentar desvendar o porquê dessa notícia que, de surpreendente, não tem nada.

A GENERAL MOTORS é uma empresa centenária que manja quase tudo de marketing, logística, economia de escala e investimento no mercado financeiro. Portanto, não possui o perfil daquelas que entrariam em processo de falência da noite para o dia. Afinal de contas, nos dias atuais, ainda não se sabe de nenhum crack da bolsa de NY nem de alguma monumental falcatrua realizada pela empresa e por suas “sistemistas” – a não ser o que houve na ENRON, mas acho que uma coisa não pode ser associada a outra. Portanto, não é nada normal verificar “cagadas” sucessivas em tal nível de excelência.

São vários os fatores publicamente conhecidos por não-especialistas que provocam tal situação:

1) A melhor relação custo-benefício do carro coreano e japonês, que invadem os EUA desde a década de 1980;

2) A sempre melhor qualidade técnica, performance de motor e obsessiva preocupação com design e ergonomia da indústria automobilística européia (a maioria dos meus conhecidos que sacam tudo de mecânica e de dirigibilidade e vivem nos EUA são quase unânimes ao afirmarem que ‘gringo não sabe fazer carro’);

3) A absurda alta no preço do petróleo na última década e o desinteresse da indústria energética em substituir uma matriz altamente poluente de valor agregado ínfimo por uma série de tecnologias cuja pesquisa e desenvolvimento já as colocam em ponto de industrialização massiva.
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Já repararam que, salvo raras e honrosas exceções, quando uma empresa global decide investir em um país mal-administrado, corrupto, de baixa escolaridade, baixa média salarial, grande contingente de excluídos e assim por diante vem a sua publicidade e o séquito de puxa-sacos e lobistas que garantiram a ela o incentivo fiscal e o argumento do desenvolvimento de um município ou região única e exclusivamente pelo ICMS (mesmo que este só passe a ser recolhido 30 anos após a instalação da planta)?

Já repararam que, no mesmo modelo de negócio, ninguém discute o que é desenvolvimento quando, na verdade, há carência de mão-de-obra especializada e deve-se contratar a maioria dos profissionais de curso superior e técnico de outros estados?

Já repararam que eles mentem quando afirmam que trarão ciência e tecnologia para uma região que não possui tamanho nível de desenvolvimento quando, na verdade, o que trazem é única e exclusivamente um caríssimo sistema de produção de commodities, pois são incapazes de inovar porque seu único objetivo é desovar e faturar?
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Gravataí e seu deputado e ex-prefeito Bordignon caíram no conto. Ou será que eu, que prefiro desenvolvimento sustentável e investimento constante SEM ARREGO para quem não precisa de dinheiro do estado que estou “errado”, já que eles se contentam com o ditado “é melhor do que nada”?!

Mas que nada é esse se a pequena agricultura gera muito mais ICMS e empregos do que uma indústria de automóveis?! Qualquer jornal ou revista especializado em economia dos EUA, do Reino Unido, da França ou do Japão sabe disso.
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Tomara que eu esteja redondamente enganado. Porém, dentro de um prazo de cinco a dez anos, é bastante provável que a região de Gravataí, caso não haja investimento verdadeiro em ciência, tecnologia, educação, saúde e cultura bem acima da média e já compatível com os poucos porém verdadeiros benefícios diretos gerados pela GM no município (um amigo meu está abrindo uma franquia de uma rede de pizzarias de primeira linha lá porque há uma boa classe média dentre seus 300 mil habitantes que se deslocam todos os finais de semana para comer a porcaria das pizzas rodízio da Assis Brasil), fique como pobres criancinhas que criaram-se brincando com fazendinhas de mocotó e, um dia, um grupo de “tios” solidários foi lá de surpresa em um Natal, ofereceu brincadeiras, palhaçadas e deu brinquedinhos de plástico para todos.

Num belo dia, as crianças maiores arrancaram o brinquedinho das menores e foram embora para a cidade grande.