A RESISTÊNCIA PELO COMUM

O mais lamentável na política partidarizada, sindicalizada e classista de TODOS OS MATIZES IDEOLÓGICOS e também em relação àqueles que costumam criticar as práticas da mídia corporativa e da publicidade sem um mínimo de domínio técnico, econômico, administrativo, jurídico e, sobretudo, SOCIAL do setor é que a polarização tem aumentado vertiginosamente como reflexo dos equívocos do uso dos poderes político, econômico, coercitivo e comunicacional por todo o país.

Seja pela ignorância, pela hipocrisia ou pelo oportunismo, muitos creem e difundem os valores da imparcialidade e da isenção como se isso realmente fosse possível. Todos tem um lado. Porém, o fato de ter um lado não significa que se deva cometer a desonestidade intelectual de considerar que os métodos, as práticas e as teorias utilizadas para analisar o quadro social a partir de um conjunto de valores no qual eu creio sejam sempre os melhores e os mais adequados. Do mesmo modo, também não é honesto crer que todas as premissas que desvelam os valores dos quais duvido estejam sempre 100% equivocados ou que todos os que os defendem sejam corruptos, ignorantes ou picaretas.

Percebo que o discurso de justiça e igualdade prioriza – em ambos os polos – aqueles que são mais parecidos. Uns tem mais o jeitão do meu time; outros, não. Com isso, a igualdade vai para o espaço, já que parte do princípio de que uns são mais ou menos iguais aos outros. Com isso, a solidariedade, a comunhão, o respeito e o valor que se dá a cada um passa a ser muito mais individualmente seletivo do que coletivamente inclusivo.

A igualdade – assim como a verdade, a isenção e a imparcialidade – só existem aos olhos de quem os vê e para aqueles que julgam merecê-las.  Nesse ponto, tanto o discurso da “esquerda” como o da “direita” estão desatualizados, descontextualizados e desencaixados.

Por que é tão difícil pensar que não existe nada nem ninguém igual e que temos muito em COMUM?! Não é a igualdade que se deve cobrar mas, sim, a superação do comum por ele mesmo como uma forma de atrair o interesse de cada vez mais pessoas interessadas em dar mais de si para manter a energia desse fluxo a pleno vapor.

O comum é feito para ser compartilhado e compartilhado. O comum reside na cooperação e na solidariedade. O comum não é único nem privado: ele é ubíquo e social. A ele agrega-se o valor da troca de conhecimento a partir do DISSENSO, pois são as diferenças debatidas em um regime de dialética pacífica que agregam valor ao que só pode evoluir a partir do momento em que não mais se repete.

A sociedade capitalista taylorista-fordista e – posteriormente – a neoliberal lidaram com conflitos de classes cuja premissa básica era a detenção dos meios e o fatiamento do bolo de maneira que poucos não fiquem com tudo e muitos não fiquem sem nada.

O comum é o conteúdo e o continente das práticas sociais que buscam fugir de um controle hegemônico. É o produto da resistência, da horizontalização e da auto-organização – que são os valores que grande parte da esquerda deveria utilizar a fim de superar o da luta pela inclusão a partir de um modelo igualmente verticalizado, burocratizado, clientelista, corrupto e sectário inversamente excludente em relação às práticas da direita.

O comum é o ativo que circula na sociedade em rede. Já o bem material ou simbólico cuja propriedade é institucionalizada e definida pelas leis oficiais ou por algum “contrato social” é aquele que gera uma série de passivos em cascata (juros, latifúndio, monopólio, oligopólio, corrupção, desestruturação do campo de ação dos poderes, miséria, fome, devastação do meio ambiente, excesso de industrialização, ignorância, doenças psicossomáticas, etc.)

As lógicas definem os processos que – por sua vez – redefinem as lógicas alteradas em função da dinâmica sociotécnica. A lógica do comum é a lógica daquilo que circula e que passa por todos: essa apropriação coletiva devolve ao fluxo novas contribuições.

O enorme atraso com que partidos de esquerda e sindicatos apenas começam a aderir lentamente ao pensamento em rede tornou o seu discurso quase inócuo em relação àqueles a quem pretendem atingir para transformar e pouco resolve a condição dos seus próprios filiados. Acho que a chave para o insucesso político-partidário é essa: o desejo de socializar a propriedade ao invés de entrar no fluxo de produção e compartilhamento de conhecimento.

DESCENTRALIZAÇÃO > INSTITUCIONALIZAÇÃO

O prof. GILSON CARONI, que leciona SOCIOLOGIA na FACHA, é colunista da AGÊNCIA CARTA MAIOR e colabora com o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, defende, em seu artigo mais recente, que Lula é de esquerda.

Embora minhas leituras sobre Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Filosofia, Psicologia e tanto minha militância presencial como minha relativa juventude sejam extremamente incipientes perto de qualquer intelectual (mesmo os de má qualidade – o que não é o caso do prof. Gilson), tenho uma percepção e uma série de referenciais que me permitem emitir minha opinião.

Perrrguntas:

1) A quem interessa defender um partido, um sistema partidário, as empresas globalizadas ou um estado como locus de pertença representativo da alteridade?

2) A quem interessa utilizar figuras semânticas em retóricas vazias sem um verdadeiro sentido de inclusão, tais como “povo”, “partido”, “sindicato”, “cooperativa”, etc.?!

Quando em algum momento da história o PT trabalhou verdadeiramente pelos movimentos sociais a não ser para incluí-los no seu modelo de cidadania e de meritocracia, que inclui somente quem for sindicalizado? Enquanto o cara não for sindicalizado, ele não tem voz. Ele é um mero prospect, ou cliente em potencial. Quando “assina o contrato”, o partido trabalha um pouco por ele a fim de ganhar adeptos para todas as suas causas. Contudo, quem verdadeiramente faz um FORUM SOCIAL MUNDIAL são as entidades globais e locais da sociedade civil organizada. Os partidos, os governos e as empresas têm um papel extremamente reduzido em termos de mobilização e de proposições para as demandas da sociedade.

Mesmo que toda resistência seja necessária, já foi-se o tempo em que fazer bravata, greve, operação-tartaruga e o escambau resolvia alguma coisa de maneira permanente e, sobretudo, garantindo os grevistas ou os sindicalistas no emprego. Hoje em dia, não é o discurso político que é vazio mas, sim, o discurso político-partidário. Não é mais a pertença a um determinado pedaço de terra ou a identificação com um punhado de gente que se criou de maneira semelhante que garante por quem ou para quem se deve lutar a fim de se ter uma vida melhor: o ativismo é pela saúde do planeta que, espera-se, influenciará melhorias substanciais na saúde, na educação, na infra-estrutura, na energia sustentável, no reaproveitamento de material, na redução radical da exploração dos recursos naturais e em uma racionalidade jamais antes vista em transportes e infra-estrutura, contribuindo para uma sociedade cujo maior valor seja a solidariedade.

Mesmo com palavras diferentes dos autores e misturando uma coisa com a outra, tudo o que eu disse no parágrafo anterior aproxima-se bastante dos últimos trabalhos do prof. BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS, da UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA, e também dos trabalhos de ALBERT-LASZLÓ BARABÁSI (LINKED), STEVEN JOHNSON (EMERGÊNCIA) e, acima de todos estes, da dupla ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT (IMPÉRIO e MULTIDÃO).

A Grande Imprensa ataca, mente e omite. Mas a audiência NÃO É PASSIVA: ela interpreta a notícia e a coluna de acordo com o referencial cultural (escolaridade, rua, bairro, cidade, clube, profissão, trabalho, praça, trânsito, idiomas, viagens, etc.) e com a sua alteridade (aonde estou, a que/a quem/com quem/com o que me sinto íntimo, à vontade e me dá vontade de ajudar e de aceitar ser ajudado; de defender e de cobrar que seja defendido). A esquerda precisa conhecer autores latino-americanos que escrevem sobre sociedade midiatizada, propaganda, consumo como JESÚS MARTÍN-BARBERO, OROZCO, NESTOR GARCÍA-CANCLINI, ARMAND MATTELART, MUNIZ SODRÉ e também fazer um paralelo entre as histórias sociais do conhecimento e da mídia, através do trabalho dos ingleses ASA BRIGGS e PETER BURKE.

Se todos fossem uns coitadinhos ignorantes, explorados em todos os sentidos, subservientes e obedientes em todas as situações de suas vidas, aí, sim, a Grande Mídia, seus patrocinadores e seus representantes em todos os níveis de governo seriam “os” grandes intelectuais orgânicos. Seu papel é importante para a manutenção do status quo e merece todo o nosso cuidado e as nossas denúncias. Porém, há várias instâncias que devem ser observadas fora da mídia, dos partidos, dos sindicatos e das empresas que envolvem ações globais descentralizadas que, através da internet e dos celulares, ao invés de entregarem o ouro ao bandido, voltam a oferecer força e seriedade às manifestações presenciais. Portanto, o discurso político existe com força, sim, e não é nada vazio.

Concordo com o artigo: Lula não deixou de ser de esquerda e nem tampouco se vendeu ao sistema: todavia, tudo em que sempre acreditou está repleto de referências setentistas do “milagre brasileiro”, onde engenharia pesada era sinônimo de desenvolvimento e foda-se a natureza, pois o homem é um animal “superior”.

Não importa quem, aonde nem quantos foram os petistas históricos que abandonaram o partido prevendo esse desastre nem quais foram os oportunistas de outras siglas não necessariamente de esquerda que juntaram-se ao PT (e, pior, foram aceitas). O que importa é que, se a falta de escolaridade do presidente o prejudicou em alguma coisa, o prejudicou no fato de que seus antigos “cumpanhêros” com curso superior, viajados, poliglotas e melhor articulados com empresários são hoje consultores da mesma estirpe dos que superpovoavam os gabinetes de Collor e FHC.

Um pseudo-partido de pseudo-esquerda no governo sempre fará menos pior do que um partido de centro-esquerda diante de uma população predominantemente miserável.

Repito: voto no PT, mas porque é o único partido que possui um conteúdo programático que indica menos desonestidade, maior inclusão e maior respeito às minorias. Nas eleições, caso saia de camiseta, bandana, estrela, bótons e adesivos espalhados pelo corpo, será por puro desespero, pelo mais profundo medo de ver o pior dos piores manter-se ditando as regras e privilegiando quem menos precisa de privilégios em toda a sociedade. Como nunca me filiei a partido algum, posso afirmar minha frustração e minha descofiança sem eliminar a sua importância nem o seu valor que, em determinados nichos da sociedade, ainda oferece um alento. Porém, não serve mais como tábua de salvação para um país.

Caso isso se perca, ou mudam na lei a forma de representatividade democrática, ou passarei a votar nulo, pois a militância mais importante não é a do partido, da igreja, do sindicato, do clube, da profissão: é a da cidadania. Mas não da cidadania meramente local para resolver pro
blemas egoístas ou, às vezes, até mesmo pequenos: a verdadeira militância, o verdadeiro ativismo é o da CIDADANIA GLOBAL.

Bato sempre nessa tecla. Enquanto isso não for introjetado em toda a esquerda, enquanto os esquerdistas não crerem mais na desinstitucionalização do que em entidades de classe oportunistas que funcionaram durante décadas mais como intelectuais orgânicos para sustentar os privilégios de uma minoria do que como fonte permanente e honesta de militância, ativismo e luta contra um poder antagônico e excludente, todo e qualquer embate tende a ser vergonhosa e ingenuamente perdido.

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