BARCELONA 2011: NADA PODE SER MAIOR

Nunca antes na história deste esporte houve um time que jogasse com tamanha fluidez, segurança, paciência, técnica e precisão.

Técnico Josep Guardiola, jogadores Victor Valdés, Dani Alves, Carles Puyol, Gerard Piqué, Éric Abidal, Xavi Hernández, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, David Villa, Pedro Rodríguez, ele – LIONEL MESSI – e mais: Gabriel Milito, Adriano, Maxwell, Javier Mascherano, Seydou Keita, Ibrahim Afellay, Jeffren e Bojan Krkic: todos nomes inesquecíveis e com um bom tempo de bom futebol pela frente.

 

MEU JEITO DE APRECIAR O FUTEBOL

Sou um crítico sistemático da Seleção Brasileira Masculina Adulta Profissional de Futebol. Essa é a única modalidade pela qual não me comporto como um torcedor de fato. Isso não quer dizer que eu esteja correto ou que eu torça contra (embora isso tenha ocorrido em 1998). Quando o assunto são as categorias de base SUB-17 e SUB-20 ou – sobretudo – quando o torneio envolve a Seleção FEMININA, aí, sim, me emociono e me envolvo com mais passionalidade.

Desde 1982, passei a simpatizar muito com as seleções africanas. Já postei sobre Camarões e Argélia daquela época e lembro bem de Marrocos 1986, Camarões 1990, Senegal 2002 e Gana 2006 – as quatro últimas passaram de fase uma ou até duas vezes, como no caso dos Leões Indomáveis e dos Leões de Teranga.

A partir de 1992, passei a acompanhar, de dois em dois anos, a CAN (Copa Africana de Nações). A África me encanta muito por uma série de motivos – a maioria deles de cunho emocional: a alegria e a paixão daquele torcedor que é, em média, muito mais miserável do que o brasileiro é contagiante e comovente, pois ainda contém um quê de esperança misturada ao sonho que o profissionalismo exacerbado e a encheção de saco de boa parte da imprensa brasileira se ocupam de tentar desfazer.

As cores, as diferentes culturas (vestuário, culinária, etnias, crenças, idiomas) e a musicalidade (baseada em uma variedade muito maior de estilos de coro e percussão do que as nossas) criam uma atmosfera envolvente e leve, que fazem com que – mesmo no meu imaginário – eu me realize na fruição desse mundo tão especial.

Copa do Mundo, pra mim, é diversidade: a relação do atleta com o estado nacional faz com que ele atue de uma maneira muito diferente daquela a que estamos acostumados a assistir nos clubes. O futebol envolve variáveis tão imensuráveis quanto qualitativas e subjetivas que qualquer detalhe pode alterar o entrosamento, a forma física e o estado anímico de cada um.

Do ponto-de-vista de quem convoca (ou de quem contrata, no caso dos clubes), o futebol parece um quebra-cabeças de 10.000 peças que precisa ser montado em tempo recorde. Já do ponto-de-vista de quem observa o adversário e estabelece a estratégia que julga como a mais adequada para superar o próximo oponente, o futebol parece xadrez.

Quando falo no Grêmio, aí, sim, deixo-me levar por uma certa dose de passionalidade. Em um grau menor, diria que sinto um carinho especial que me leva a torcer também por clubes como Liverpool, Barcelona, Porto e Bayern.

Sinto uma simpatia especial pelos argentinos: eles possuem uma escola de garra, refinamento e muita dramaticidade que é mais parecida com o Brasil do que se possa imaginar. Aqui, só se muda do tango para o antigo samba “estilo dor-de-cotovelo” e as diferenças entre o malandro do morro e o malandro do porto.

Isso posto, eu procuro observar cada jogo sob uma perspectiva mezzo etnográfica, mezzo psicológica: como o futebol é um jogo, considero que ele apresenta um perfil agonístico de disputa, de superação e de guerra associado ao lúdico. Portanto, mais do que torcer por alguém, eu torço por um ótimo jogo.

O que entendo por um bom jogo? Independentemente da quantidade de gols, que os jogadores de ambos os lados não se machuquem e que eles disputem cada lance no melhor de suas condições. Os lados atlético e intelectual se completam, mas funcionam melhor quando existe solidariedade, perspicácia, criatividade e dedicação.

Gosto de ver muitos gols. Porém, não me agrada ver um time golear o outro: senão, parece um halterofilista espancando um menino de sete anos. O bom jogo, pra mim, é recheado de alternâncias: lá e cá, contra-ataques fulminantes, toque de bola, desarmes, mudança de posicionamento, chances parelhas para ambas as equipes. Quem errar menos e quem tiver mais força e talento, na maioria das vezes, sairá vencedor.

NIKE COPA 2010: WRITE THE FUTURE

Disparado, o melhor filme publicitário sobre a Copa do Mundo 2010 envolvendo jogadores que farão parte da mais tradicional competição entre seleções do planeta.

Além do poderosíssimo elenco futebolístico, há uma série de exemplos de remidiação: Cristiano Ronaldo em versão Os Simpsons; Wayne Rooney num duelo de tênis de mesa com Roger Federer; o visual do mesmo Rooney empobrecido a la Porcos e Diamantes de Guy Ritchie.

Há ainda um tom onírico que emula o sonho de qualquer craque, passando do ostracismo e da miséria à opulência e a uma idolatria teísta.

E, como se isso tudo não bastasse, a quantidade de “likes” da página da Nike no Facebook relacionada ao filme e também a um concurso cultural que levará dois torcedores ingleses para acompanhar a preparação do English Team na África do Sul geraram um buzz tremendo, reforçado pelo maior de todos, que foram os – até agora – mais de 6 milhões de page views do comercial no You Tube.

ANTHONY YEBOAH: GANÊS BRILHOU NA ALEMANHA E NA INGLATERRA

Peço mil perdões pelo atraso no post, mas estou procurando emprego como professor universitário, estudando para um concurso público e mantendo contato com ativistas de Porto Alegre para importantes eventos a seguir. Naturalmente, todos esses assuntos são prioridade absoluta no momento.
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MOTIVAÇÃO E COLETA DE INFORMAÇÕES

Se Abedi Pelé foi “O” cara na França, no mesmo período brilhou na Alemanha e na Inglaterra um conterrâneo seu que primava não exatamente pela mesma habilidade como meia-atacante mas, sim, por ter-se caracterizado como um centroavante de gols bonitos e decisivos. Falo de Anthony Yeboah.

Comecei a acompanhar tanto a carismática, equilibrada e vigorosa CAN como também a Bundesliga graças às saudosas transmissões da TV Cultura (cujo narrador me foge à memória), com comentários de José Trajano, Flávio PradoGerd Wenzel (Bundesliga only) e reportagens de Helvídio Mattos (CAN only). Trajano, Wenzel e Mattos hoje estão na ESPN Brasil, meu canal de esportes predileto.

Naquele comecinho dos anos 1990′s, o time que despontava na terra das deliciosas bratwursts era o Eintracht Frankfurt. Embora não tenha sido campeão nenhuma vez, manteve-se entre os quatro primeiros da 1.Bundesliga durante cerca de quatro temporadas. Nem mesmo no site do Leeds United, um grande clube inglês que, infelizmente, quase faliu e hoje amarga a terceira divisão, encontrei algo.

Após uma busca exaustiva no Google em vários idiomas, como Yeboah foi um craque do último período imediatamente anterior ao início da internet comercial, infelizmente não encontrei artigos, notícias e entrevistas nem em quantidade nem em qualidade suficientemente significativas. Não há quase nada a ser aproveitado nem mesmo nos sites dos clubes por onde passou e tampouco no da própria Federação Ganesa de Futebol. No caso de Abedi Pelé, a França e a UEFA possuem um acervo bem maior pelo fato de Pelé ter sido campeão francês, campeão da Liga dos Campeões da Europa e, de quebra, ter atuado por um clube de massa. Quanto a Yeboah, a Wikipedia e o You Tube foram suficientes.
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Assim como eu, Yeboah é um geminiano: nasceu no dia 06/06/1966. Fará, em 2010, 44 anos. Ele é de Kumasi, terra do poderoso Asanté Kotoko, um dos grandes clubes de Gana. Já falei um pouco sobre rivalidade e tradição neste post.

Tony Yeboah disputou três edições da CAN na década de 1990. O atacante disputou 59 partidas e marcou 29 gols entre 1985 e 1997, segundo a Wikipedia. Ele é o segundo maior goleador da história das Estrelas Negras, ficando atrás apenas de… Abedi Pelé. ;)

Naquela época, a esmagadora maioria dos jogadores africanos ainda era contratada primeiro por pequenos clubes do Velho Mundo. De 1988 a 1990, Yeboah precisou mostrar serviço no modestíssimo Saarbrücken. Naquele período, ele foi o segundo jogador negro a disputar a Bundesliga, sendo precedido – e também contemporâneo – de um outro patrício e seu xará que, por sua vez, não vingou (Anthony Baffoe). Portanto, os jogadores africanos que anteriormente haviam jogado na Alemanha haviam lá trabalhado no período pré-Bundesliga. Portanto, antes da temporada 1963-1964 – como foi o caso de Charles Kumi Giamfi.

Yeboah foi o goleador da Bundesliga em duas temporadas consecutivas: 1992-1993 e 1993-1994. Aquele grande time do técnico Jupp Heynckes tinha também o nigeriano Jay-Jay Okocha e o suíço Maurizio Gaudino fechando um trio ofensivo bastante poderoso no Eintracht.

Foram quatro temporadas e meia de (infelizmente) poucos registros internéticos na Alemanha. Em Frankfurt, Yeboah disputou 154 partidas e marcou 88 gols. Porém, suas duas temporadas e meia em Elland Road foram igualmente marcantes e muito mais midiatizadas – apesar de ter jogado pouco em função de várias lesões, que permitiram que atuasse apenas 65 vezes para guardar 32 cocos nas redes adversárias.

Na temporada 1995/1996, Yeboah marcou dois golaços inesquecíveis. Ele obteve o raríssimo feito de ter feito o gol mais bonito do mês na Inglaterra em dois meses consecutivos. O primeiro deles, contra o Wimbledon, também foi um dos indicados para o gol da década de 1990. Percebam a bicanca do zagueiro, o domínio, a limpada em dois oponentes e a bucha indefensável de fora da área. O gol foi tão explosivo que até o narrador soltou a franga. Depois, o time inteiro amontoou o craque na comemoração:

Como se a pintura acima não bastasse, Tony Yeboah nos brindou com mais uma de suas mágicas. Já que nem tudo é perfeito, foi sobre o meu querido Liverpool:

Muitos dizem que o futebol africano é primitivo e que falta-lhes disciplina, profissionalismo e organização. Em parte, os defensores dessa hipótese não estão totalmente equivocados. Contudo, ninguém mais pode dizer que a ocorrência de histórias bonitas e de episódios inesquecíveis protagonizados por jogadores da Mãe Negra África são meramente eventuais… ;)

OS ANOS DE OURO DO FUTEBOL DE GANA


History of Football – Football Culture Ghana

A história é a ciência humana que mais reverencio. A partir dela, costumo constatar que nada surge por acaso.

No início do documentário acima, a narração do vídeo pressupõe que Gana é o país mais bem-sucedido do continente no futebol e que a sua história começou com o já extinto clube Excelsior, em 1903 (Por acaso o ano indica alguma coisa aos gremistas? E o atual fornecedor esportivo, hein?!). Os britânicos fundaram a Football Association of Gold Coast em 1922. Pra quem não sabe, até a sua independência em 1957, Gana era então chamada de Costa do Ouro pelos colonizadores ingleses. Hoje, Gana é o segundo maior produtor de cacau do planeta. O maior produtor é a Nigéria.

O clube ainda existente mais antigo de toda a Àfrica Ocidental é o Hearts of Oak (Corações de Carvalho – a árvore), de 1910, campeão africano de 2000. O Hearts foi o primeiro campeão nacional profissional, em 1956. Porém, um perigoso rival do norte também passou a merecer todas as atenções: é o Asanté Tokoto, de Kumasi, campeão africano de 1970. Não-raro, ambos são os representantes mais assíduos de Gana na CAF Champions League. Embora haja outros clubes nas mesmas cidades, em princípio, o futebol ganês desenvolveu-se  a partir de torneios locais mais especificamente em Acra e em Kumasi. Daí o enorme contraste usualmente verificado na tábua de classificação do campeonato nacional entre os times de Acra e Kumasi em relação aos demais.

O futebol africano floresceu da mesma forma que ocorreu no Brasil (não por acaso o segundo maior contingente negro do mundo, não por acaso uma terra de péssima distribuição de renda): pelos campos de chão batido, sem chuteiras nem arquibancadas, a juventude se unia e todos assistiam maravilhados aos jogos dos times adultos.

Em meio aos festejos da independência em 1957, a lenda do futebol inglês, sir Stanley Mattews, participou de um jogo com os Hearts em Acra e foi então coroado como o “Rei do futebol em Gana”. Era interessante ver que – na maioria dos jogos –mesmo em estádios de chão batido (a maioria deles sem arquibancadas), o público parecia respeitar bastante o jogo e não tinha cara de quem invadia o campo antes do apito final.

O presidente de Gana, o Dr. Kwame Nkrumah (1909-1972), percebeu dois detalhes: 1) pipocavam independências políticas de várias ex-colônias inglesas e francesas por todo o vasto continente africano entre o final da década de 1950 e o início da década de 1960; 2) havia uma enorme diversidade cultural, distâncias geográficas bastante consideráveis e muitas barreiras linguísticas; 3) considerava positivo tentar unir a África em uma grandiosa nação. Para isso, apostou que o futebol seria o grande catalisador para a fundação dos Estados Unidos da África. Portanto, o presidente ganês pretendeu – sem sucesso – realizar uma atualização do chamado Panafricanismo. Com esse intuito, criou o seu próprio time com interesse político, o The Real Republicans, no início da década de 1960. Nkrumah formou seu time a partir da base sólida do vitorioso plantel dos Hearts. Em 1958, houve inclusive uma reunião entre vários líderes do continente  para tratar do assunto – não por acaso com sede em Gana…

Em se tratando de um dos raros países africanos que, entre meados da década de 1950 e meados da década de 1960 pouco sofreu com ditaduras e guerras civis mesmo dentro de uma pequena área superpopulosa com várias etnias e seus diferentes dialetos transitando livremente, o ambiente pareceu bastante favorável para a aparição de um futebol de qualidade – ainda que pecasse pela falta de organização administrativa, financeira e  tática, além de uma desscoberta muito tardia de seus principais valores pelos principais polos futebolísticos europeus.

Enfim… Como diz o vídeo, o futebol era uma forma de autoexpressão diante do poder colonial e das idiossincrasias do tribalismo.

[Taí um bom tema pra investigar: será que as condições políticas e sociais de Gana também não foram semelhantes na Costa do Marfim, na Nigéria e em Camarões? Afinal de contas, as semelhanças são bastante grandes, apesar desses vizinhos não terem tido nenhum presidente com ambições tão grandes quanto as de Nkrumah]

Notem, por volta dos 06″20′ do vídeo que mostra um trecho de um jogo daquela época, que havia uma enorme estrela negra nas costas das camisas dos jogadores da seleção de Gana, caracterizando aí o carinhoso apelido The Black Stars.

[o apelido The Black Stars remete ao navio mercante estadunidense Black Star, que, de 1919 a 1922, influenciado pelo movimento pacifista anti-segregacionista, fez o caminho de volta da América para a África, levando de volta à terra-mãe muitos negros. Por linhas tortas, isso livrou alguns negros do terrível racismo da época, onde imperava o terrorismo racista da Ku Klux Klan, que predominava nos estados do sul dos EUA. O então todo-poderoso do FBI, Edgar Hoover, pôs espiões infiltrados nas viagens do Black Star e encerrou a linha em 1922]

Por incrível que pareça, o momento mais marcante da história do futebol ganês em todos os tempos não consta no documentário: o heróico empate contra o todo-poderoso Real Madrid (de Alfredo Di Stefano, Gento, Puskas, etc.) pentacampeão espanhol e europeu em 1960 por 3×3.

Em 1961, na tentativa de nacionalizar o futebol ganês como exemplo para o panafricanismo, Nkrumah trouxe como técnico um ex-jogador ganês do Hearts vindo do Fortuna Düsseldorf. Seu nome era Charles Kumi Gyamfi. Aliás, em 2006, comemorou-se o cinquentenário do intercâmbio futebolístico entre Gana e Alemanha, no qual usualmente o país africano mandava jogadores e recebia treinadores. O caso de Gyamfi foi sui generis, pois representou a inversão dessa lógica.

[No próximo post, falarei sobre outro fruto desse intercâmbio – o craque Anthony Yeboah, que marcou época na segunda metade da década de 1980 e no início da década de 1990 no Eintracht Frankfurt.]

Os Black Stars eram os embaixadores de Gana: espalhavam a palavra do Panafricanismo que tanto Nkrumah desejava tornar realidade. Em 1963 o pequeno país era então um dos mais prósperos de toda a África: não apenas sediou como ergueu a CAN pela primeira vez. Em 1965, o bicampeonato veio movido pela premiação de uma casa nova para cada atleta, feita pelo presidente Nkrumah.

No mesmo ano, o ex-craque local Osei Kofi relata (por volta de 7′ do vídeo) que os Estrelas negras foram convidados para um amistoso de independência do Quênia e deram uma sonora sumanta no adversário (13×0). Foi a visita mais indigesta que o futebol ganês já realizou. Kofi foi escolhido como o jogador africano do ano e recebeu um televisor e várias honrarias de estado como prêmio.

Porém, o futebol ganês passou por um enorme ostracismo a partir do gole de estado que derrubou Nkrumah em 1966, durante uma viagem à China.

[China -> comunista -> "Estados Unidos da África" -> independência + união = v. Zeitgeist Addendum, especialmente a questão dos "assassinos econômicos]