MEU JEITO DE APRECIAR O FUTEBOL

Sou um crítico sistemático da Seleção Brasileira Masculina Adulta Profissional de Futebol. Essa é a única modalidade pela qual não me comporto como um torcedor de fato. Isso não quer dizer que eu esteja correto ou que eu torça contra (embora isso tenha ocorrido em 1998). Quando o assunto são as categorias de base SUB-17 e SUB-20 ou – sobretudo – quando o torneio envolve a Seleção FEMININA, aí, sim, me emociono e me envolvo com mais passionalidade.

Desde 1982, passei a simpatizar muito com as seleções africanas. Já postei sobre Camarões e Argélia daquela época e lembro bem de Marrocos 1986, Camarões 1990, Senegal 2002 e Gana 2006 – as quatro últimas passaram de fase uma ou até duas vezes, como no caso dos Leões Indomáveis e dos Leões de Teranga.

A partir de 1992, passei a acompanhar, de dois em dois anos, a CAN (Copa Africana de Nações). A África me encanta muito por uma série de motivos – a maioria deles de cunho emocional: a alegria e a paixão daquele torcedor que é, em média, muito mais miserável do que o brasileiro é contagiante e comovente, pois ainda contém um quê de esperança misturada ao sonho que o profissionalismo exacerbado e a encheção de saco de boa parte da imprensa brasileira se ocupam de tentar desfazer.

As cores, as diferentes culturas (vestuário, culinária, etnias, crenças, idiomas) e a musicalidade (baseada em uma variedade muito maior de estilos de coro e percussão do que as nossas) criam uma atmosfera envolvente e leve, que fazem com que – mesmo no meu imaginário – eu me realize na fruição desse mundo tão especial.

Copa do Mundo, pra mim, é diversidade: a relação do atleta com o estado nacional faz com que ele atue de uma maneira muito diferente daquela a que estamos acostumados a assistir nos clubes. O futebol envolve variáveis tão imensuráveis quanto qualitativas e subjetivas que qualquer detalhe pode alterar o entrosamento, a forma física e o estado anímico de cada um.

Do ponto-de-vista de quem convoca (ou de quem contrata, no caso dos clubes), o futebol parece um quebra-cabeças de 10.000 peças que precisa ser montado em tempo recorde. Já do ponto-de-vista de quem observa o adversário e estabelece a estratégia que julga como a mais adequada para superar o próximo oponente, o futebol parece xadrez.

Quando falo no Grêmio, aí, sim, deixo-me levar por uma certa dose de passionalidade. Em um grau menor, diria que sinto um carinho especial que me leva a torcer também por clubes como Liverpool, Barcelona, Porto e Bayern.

Sinto uma simpatia especial pelos argentinos: eles possuem uma escola de garra, refinamento e muita dramaticidade que é mais parecida com o Brasil do que se possa imaginar. Aqui, só se muda do tango para o antigo samba “estilo dor-de-cotovelo” e as diferenças entre o malandro do morro e o malandro do porto.

Isso posto, eu procuro observar cada jogo sob uma perspectiva mezzo etnográfica, mezzo psicológica: como o futebol é um jogo, considero que ele apresenta um perfil agonístico de disputa, de superação e de guerra associado ao lúdico. Portanto, mais do que torcer por alguém, eu torço por um ótimo jogo.

O que entendo por um bom jogo? Independentemente da quantidade de gols, que os jogadores de ambos os lados não se machuquem e que eles disputem cada lance no melhor de suas condições. Os lados atlético e intelectual se completam, mas funcionam melhor quando existe solidariedade, perspicácia, criatividade e dedicação.

Gosto de ver muitos gols. Porém, não me agrada ver um time golear o outro: senão, parece um halterofilista espancando um menino de sete anos. O bom jogo, pra mim, é recheado de alternâncias: lá e cá, contra-ataques fulminantes, toque de bola, desarmes, mudança de posicionamento, chances parelhas para ambas as equipes. Quem errar menos e quem tiver mais força e talento, na maioria das vezes, sairá vencedor.

FUTEBOL: PROPOSTA DE CALENDÁRIO E COMPETIÇÕES

As federações em geral ferram o futebol de alto nível, os dirigentes são subservientes e oportunistas e o Clube dos 13 virou uma mera central de negócios de direitos de transmissão muito mal negociados, por sinal, pois são cedidos a um monopólio que engessa uma série de iniciativas baratas e altamente lucrativas como, por exemplo, poder vender por conta própria assinaturas da transmissão dos jogos no nosso site oficial.

Há quantos mandatos e há quantas décadas o Grêmio não possui uma diretoria que briga pelos interesses do clube junto a essas instituições engessantes?!

1 Campeonatos estaduais: só deveriam ser disputados por clubes da Série C brasileira para baixo: tomam tempo e dinheiro, desgastam, não se conquista nada de valor e oferecem o risco de lesionar jogadores importantes, além de matar quase três meses e meio do calendário – suficientes para uma temporada de amistosos no exterior pra faturar mais, uma pré-temporada decente com um mês de treinamento e um maior espaçamento, reduzindo as datas de meio de semana;

1.2 A bem da verdade, em nível PROFISSIONAL, sou contra todo e qualquer campeonato estadual para clubes que disputam das Séries A a E do Brasileirão. E a Série E seria como a Segunda B da Espanha: um montão de grandes grupos com ida e volta e mata-mata entre quase metade dos times de baixo da Série D contra a metade dos times de cima da Série E pra definir acesso e descenso;

2 Aumentaria a Copa do Brasil para 256 clubes, como são a Copa da França e a Copa da Inglaterra. O intercâmbio com outros estados é anos-luz mais importante do que as pseudo-rivalidades entre a fome e a vontade de comer entre cidades vizinhas. Ao mesmo tempo, acho que muitos dos clubes de futebol deveriam se transformar em clubes sociais e também buscar patrocínios para montarem times verdadeiramente fortes de futsal, vôlei e basquete. O custo é muito menor e eles realmente mobilizam a COMUNIDADE;

3 Calendário equivalente ao das principais ligas da Europa, com uma pequena imitação da Bundesliga: se, na Alemanha, existe a pausa de inverno, aqui deveria existir a pausa de verão na mesmíssima época. A grande vantagem seria a de programar a compra e a venda de jogadores, com reforços e desmanches previstos com bastante antecedência e sabendo-se que, na Europa, a janela da pré-temporada dura três meses e a janela entre os dois turnos dura apenas um mês. Se, por um lado, tendemos a perder os nossos principais jogadores no verão europeu, poderemos repatriar no inverno muitos dos que não deram certo em um momento em que os clubes do Velho Mundo investem menos. Assim como está, as maiores perdas para os nossos plantéis se dão em um terço do Brasileirão e a reposição ocorre nas nossas férias de verão. Aí, o cara vem da Europa e do Oriente Médio em plena temporada, não descansa quando o resto estiver engrenando e sofre uma fratura por stress ou uma lesão muscular grave;

4 Nunca, jamais, sob hipótese alguma a Copa do Brasil e a Libertadores poderiam ser interrompidos nem pela Copa do Mundo, nem por uma Copa América da vida;

5 Nunca, jamais, sob hipótese alguma o Brasileirão poderia ter sete rodadas e ser interrompido nem pela Copa do Mundo, nem por uma Copa América da vida;

6 Sendo franco e honesto, a Copa do Brasil não poderia dar uma vaga à Libertadores. Não é porque o Grêmio se beneficiou dessa possibiliddade várias vezes que eu tenho que concordar com isso. Isso não existe em nenhum lugar do mundo: as vagas ao torneio continental mais importante precisam ser obtidas da maneira mais difícil – via campeonato nacional, que premia a regularidade e a resistência;

7 Poucas coisas podem ser mais estúpidas no futebol mundial do que a CBF proibir que os times que disputam a Libertadores também disputem a Copa do Brasil. Chega dessa palhaçada!

8 A Sul-Americana deveria ter a mesma fórmula da Libertadores e ser disputada simultaneamente, nas mesmas datas. E deveria existir o mesmo regulamento da UEFA, que permite que um clube eliminado como 3º lugar no grupo da UEFA Champions League entre no primeiro “mata-mata” (oitavas-de-final) da Europa League. Isso garante não apenas uma sobrevida continental aos principais clubes do país como também valoriza uma competição disputada pela reba do continente;

9 Infelizmente, será necessário jogar mais vezes no meio de semana pra compensar os anos de Copa do Mundo, Copa das Confederações e Copa América nesses anos. Será então permitido inscrever uma quantidade bem maior de jogadores por competição, inclusive as continentais. Nas Olimpíadas, futebol masculino somente Sub-17. E a Copa América precisa ser de 4 em 4 anos, não mais de 2 em 2. A Europa também precisaria mudar, passando a Euro para o mesmo ano ímpar da Copa América. A África, idem: Copa Africana de Nações também de 4 em 4 anos, no meio do ano, em um ano ímpar, ao invés de 2 em 2 nos anos pares;

10 A exemplo da Alemanha, da Inglaterra, da Espanha, da França, da Itália, de Portugal, Turquia, Grécia, Bélgica e Holanda (ou seja, das ligas que prestam) a temporada deveria terminar da seguinte forma:

- Fim de semana 1: última rodada do Brasileirão;
- Fim de semana 2: final da Copa do Brasil;
- Fim de semana 3: final da Sul-Americana;
- Fim de semana 4: final da Libertadores.

Por que? Para valorizar financeira, midiática e animicamente TODAS as decisões. Nenhum campeonato profissional poderia ser disputado entre essas datas. É também por isso que os estaduais têm que acabar.

Isso movimenta a economia, gera muita receita com turismo e serviços e facilita a compreensão do calendário.

11 Somente será permitido um horário de jogo no meio de semana: 20:30h. Nos fins de semana, dois horários: 15 e 17h (inverno) e 16 e 18h (verão);

12 Com todas essas medidas, o trânsito melhora, a facilidade de ir e vir via transporte coletivo aumenta, não se sai nem se volta cedo nem tarde demais. Garanto que uma liga decente e uma entidade de clubes mais colhuda do que o Clube dos 13 poderia ELA deter os direitos de transmissão dos jogos, gerando muito mais receita para todos os seus afiliados e sem depender da grade fixa da programação de um monopólio.

E também é balela a história de perder patrocínio: alguns patrocinadores se retirariam e novos surgiriam.

[CB'10 SF I] GRÊMIO 4×3 SANTOS

O MAIOR ESPETÁCULO TRICOLOR DOS ÚLTIMOS 40 ANOS

Outro dia, contabilizei que, apesar de ter vindo a apenas um punhadito de jogos em 1979, outro em 1980 e de não ter ido à semifinal de 1981 contra a Ponte Preta (maior público da história do Grêmio, impossível de ser igualado ou superado), à final do Brasileirão contra o Flamengo em 1982 e à final da Libertadores de 1984 contra o Independiente e, finalmente, de ter passado seis meses em 2000 e um mês e meio em 2001 fora de Porto Alegre, se pusermos uma média de – digamos – apenas 32 jogos em casa por ano, salvo de uma a quatro faltas por ano (sendo os anos de um ou dois jogos ausente os mais comuns na última década), Devo ter mais ou menos 600 jogos ao vivo em casa.

Não posso dizer que o de ontem foi o de um Grêmio perfeito. Também não posso dizer que foi o mais pegado em termos anímicos (brigas, expulsões) e nem tampouco o mais polêmico (arbitragem quase nota 10; diretorias, técnicos e atletas com respeito mútuo e constante). Mas, disparado, foi o jogo mais agradável da minha vida em termos de alternâncias de placar favoráveis a nós e de um futebol verdadeiramente técnico, tático, bonito e de qualidade, no qual os erros foram muito mais pontuais e imperdoáveis de parte a parte do que em função de alguma suspeita incompetência, falta de combatividade ou de liderança.

Para os gremistas que têm e ainda terão filhos e netos, que passem adiante a história dessa partida. Desde já, sintam-se gratificados, maravilhados e – mais do que tudo – OBRIGADOS a relatar, mesmo que de maneira épica e romanceada, o que viram ontem à noite no nosso Monumental.

Por respeito ao ambiente como um todo montado em função desta tão sonhada semifinal de Copa do Brasil, ninguém merece aplausos individuais, nem a culpabilidade personalizada. Nem de Grêmio, nem de Santos. As virtudes e o conjunto da obra foram muito superiores às falhas. Para os jovens que não tiveram o prazer de ver Renato ao vivo e para os não tão velhos que não puderam ver Pelé, ontem tivemos um clássico entre o Mosqueteiro portaluppiano e o Peixe pelezino que, de tempos em tempos, incorporam nos jogadores atuais para nos brindar com o melhor o futebol que o Brasil pode oferecer.

Hoje, ao contrário de muitas ocasiões nas quais prevalece em mim o pessimismo crítico fruto da forte influência que sofro dos pensadores franceses, enxergo o copo meio cheio ao invés de meio vazio. O que vi ontem me dá uma esperança real de que, independentemente de que venhamos a vencer o Santos novamente na Vila ou que, tragica e inesperadamente, soframos um sonoro 7×0, vejo muita esperança no restante de 2010  – muito em função da visão preponderante de que o Santos é quem errou e não o Grêmio é que teve qualidade e frieza para reagir a tempo. Até parece…

O jogo de ontem serviu para mostrar não aos gremistas corneteiros e incrédulos que não merecem pisar no fétido estrume do cavalo da Brigada parado no Largo Patrono Fernando Kroeff; nem aos desesperados e patéticos secadores estabelecidos na várzea do Lago Guaíba e tampouco para dar satisfação a uma mídia que só demonstra qualificação nas vozes e nos teclados de muito poucos profissionais dispostos a fazer jornalismo e não fofoca imparcial.

Ainda, tudo o que fizemos ontem não se destina simplesmente a mostrarmos a nossa cara ao centro do país que concentra 40% da economia e da população do país e a esse público e a esses patrocinadores superdimensiona os feitos de seus clubes: o que o Grêmio fez contra o Santos na inolvidável noite de 12/05/2009 no Estádio Olímpico Monumental foi a demonstração mais clara de que não existe garra sem técnica. Não existe arte sem doação. E que aqueles que dão carinho, boa alimentação, preparo físico, elevam a auto-estima e alentam aos nossos jogadores formam um conjunto indissociável de energia pulsante.

A ilha de Lost é aqui: o campo eletromagnético que emana do gremismo suga a rigidez dos metais de quem se atreve a nos desafiar. Quem cai aqui dificilmente consegue sair: a prova maior desse fato foi o aplauso que o jogador Robinho, ídolo-mor do Santos atual e – injustamente – apenas o único jogador de ambos os melhores times brasileiros do primeiro semestre de 2010 convocado para a Copa do Mundo da África do Sul prestou como reverência à nossa Geral. Quando parece que os invasores estão começando a dominar o terreno, nós – os Outros – primeiro os subjugamos para, depois, atrairmos os visitantes já ambientados para o nosso lado.

Se alguém ainda não entendeu o que é viver o Grêmio, que o breve relato deste texto ajude a incitar amor, paixão, doação, entrega, loucura, euforia e inteligência a todos aqueles que precisam – e muito – dessas sensações para sentirem-se cada vez mais vivos.

Pra quem ainda teme pelo jogo de volta, tenho um motivo muito particular pra acreditar que o Grêmio irá passar por mais este desafio. Mas esse eu guardo pra mim!

ABEDI PELÉ AYEW, O ÍDOLO DE GANA

O futebol escreve certo por linhas tortas. Nos gramados, o inesperado costuma acontecer mesmo quando o que os olhos dos outros veem, o pé que bate na bola não sente.

Como um atacante com uma média de apenas 0,2 gols/jogo nos clubes e 0,33 gols/partida na sua seleção nacional conseguiu ser eleito como o maior jogador ganês de todos os tempos? E como conseguiu ser escolhido como o melhor jogador africano em três temporadas consecutivas (1991, 1992 e 1993) sem ter disputado nenhuma Copa do Mundo e sem ter sido campeão nacional ou europeu por nenhum dos maiores centros europeus (Espanha, Itália, Inglaterra, Portugal ou Alemanha)?

Um pouco pela precocidade, um pouco pelos deuses dos estádios terem abençoado-o por estar na hora certa, no lugar certo e com a companhia certa, Abedi “Pelé” Ayew estreou nos Estrelas Negras aos 18 anos, em 1982. Vejam como o então menino era pé quente: em uma Trípoli abarrotada de fanáticos torcedores da Líbia, os donos da casa perderam para Gana nos pênaltis. Percebam o mérito dessa conquista ao ouvirem aquele caldeirão enorme borbulhando:

O Pelé ganês foi vicecampeão europeu em 1990/1991 contra o Estrela Vermelha da então Iugoslávia (hoje Sérvia), na derrota do Olympique de Marseille nos pênaltis por 4×5, após empate em 0×0. Porém, duas temporadas depois, mais precisamente no dia 26/05/1993, teve melhor sorte ao erguer o caneco contra o poderoso Milan ao vencer os italianos por 1×0.

Além do sucesso europeu, nessa mesma época, o Olympique sagrou-se tetracampeão francês, de 1989-1990 a 1992-1993. Vale ressaltar que a primeira temporada de Abedi Pelé no L’OM não foi nada boa: em 1987-1988, ele disputou apenas nove partidas sem estufar os cordéis das redes adversárias.

Nesse período de hegemonia francesa do L’OM, Abedi Pelé não fez parte do plantel que conquistou o primeiro título, pois passara duas temporadas no Lille. Lá ele parece ter amadurecido e ter tido maior liberdade para dar seus dribles curtos em velocidade – sua marca registrada desde sempre. Inclusive algumas de suas jogadas mais incríveis, daquelas dignas de abertura de programas esportivos, foram realizadas neste clube e não no grande L’OM. Aliás, uma de suas atuações mais sublimes foi exatamente contra o L’OM, em um clássico no qual desconcertou a marcação na entrada da área até a bola chegar livre para o avante. No 2º tempo, não sastisfeito, o craque meteu uma bucha de falta, a la Platini:

A segunda decisão de CAN com Abedi Pelé em campo foi a de 1992, na qual o já consagrado atleta foi não apenas o líder do seu time como também o goleador da competição. Infelizmente, ele havia sido suspenso e não pode participar da dramática decisão contra a Costa do Marfim, em uma extenuante decisão por pênaltis que terminou em 11×10 para os marfinenses. Ele fez falta, sem sombra de dúvida.

Pelé foi o jogador com o maior número de partidas (78) pelos Estrelas Negras e foi também seu máximo goleador em todos os tempos, com 33 gols. Vamos ver o que será que os agora maduros e consagrados remanescentes da Copa de 2006 reforçados por algumas das revelações do time campeão mundial Sub-20 contra o pentacampeão Brasil como seu filho Dedé Ayew (do mesmo L’OM que consagrou seu pai) irão aprontar em Angola daqui a nove dias…

Pelo visto, após o empréstimo para o pequeno Arles-Avignon da Ligue 2, o menino voltará para Marseille com tudo! ;)

OS ANOS DE OURO DO FUTEBOL DE GANA


History of Football – Football Culture Ghana

A história é a ciência humana que mais reverencio. A partir dela, costumo constatar que nada surge por acaso.

No início do documentário acima, a narração do vídeo pressupõe que Gana é o país mais bem-sucedido do continente no futebol e que a sua história começou com o já extinto clube Excelsior, em 1903 (Por acaso o ano indica alguma coisa aos gremistas? E o atual fornecedor esportivo, hein?!). Os britânicos fundaram a Football Association of Gold Coast em 1922. Pra quem não sabe, até a sua independência em 1957, Gana era então chamada de Costa do Ouro pelos colonizadores ingleses. Hoje, Gana é o segundo maior produtor de cacau do planeta. O maior produtor é a Nigéria.

O clube ainda existente mais antigo de toda a Àfrica Ocidental é o Hearts of Oak (Corações de Carvalho – a árvore), de 1910, campeão africano de 2000. O Hearts foi o primeiro campeão nacional profissional, em 1956. Porém, um perigoso rival do norte também passou a merecer todas as atenções: é o Asanté Tokoto, de Kumasi, campeão africano de 1970. Não-raro, ambos são os representantes mais assíduos de Gana na CAF Champions League. Embora haja outros clubes nas mesmas cidades, em princípio, o futebol ganês desenvolveu-se  a partir de torneios locais mais especificamente em Acra e em Kumasi. Daí o enorme contraste usualmente verificado na tábua de classificação do campeonato nacional entre os times de Acra e Kumasi em relação aos demais.

O futebol africano floresceu da mesma forma que ocorreu no Brasil (não por acaso o segundo maior contingente negro do mundo, não por acaso uma terra de péssima distribuição de renda): pelos campos de chão batido, sem chuteiras nem arquibancadas, a juventude se unia e todos assistiam maravilhados aos jogos dos times adultos.

Em meio aos festejos da independência em 1957, a lenda do futebol inglês, sir Stanley Mattews, participou de um jogo com os Hearts em Acra e foi então coroado como o “Rei do futebol em Gana”. Era interessante ver que – na maioria dos jogos –mesmo em estádios de chão batido (a maioria deles sem arquibancadas), o público parecia respeitar bastante o jogo e não tinha cara de quem invadia o campo antes do apito final.

O presidente de Gana, o Dr. Kwame Nkrumah (1909-1972), percebeu dois detalhes: 1) pipocavam independências políticas de várias ex-colônias inglesas e francesas por todo o vasto continente africano entre o final da década de 1950 e o início da década de 1960; 2) havia uma enorme diversidade cultural, distâncias geográficas bastante consideráveis e muitas barreiras linguísticas; 3) considerava positivo tentar unir a África em uma grandiosa nação. Para isso, apostou que o futebol seria o grande catalisador para a fundação dos Estados Unidos da África. Portanto, o presidente ganês pretendeu – sem sucesso – realizar uma atualização do chamado Panafricanismo. Com esse intuito, criou o seu próprio time com interesse político, o The Real Republicans, no início da década de 1960. Nkrumah formou seu time a partir da base sólida do vitorioso plantel dos Hearts. Em 1958, houve inclusive uma reunião entre vários líderes do continente  para tratar do assunto – não por acaso com sede em Gana…

Em se tratando de um dos raros países africanos que, entre meados da década de 1950 e meados da década de 1960 pouco sofreu com ditaduras e guerras civis mesmo dentro de uma pequena área superpopulosa com várias etnias e seus diferentes dialetos transitando livremente, o ambiente pareceu bastante favorável para a aparição de um futebol de qualidade – ainda que pecasse pela falta de organização administrativa, financeira e  tática, além de uma desscoberta muito tardia de seus principais valores pelos principais polos futebolísticos europeus.

Enfim… Como diz o vídeo, o futebol era uma forma de autoexpressão diante do poder colonial e das idiossincrasias do tribalismo.

[Taí um bom tema pra investigar: será que as condições políticas e sociais de Gana também não foram semelhantes na Costa do Marfim, na Nigéria e em Camarões? Afinal de contas, as semelhanças são bastante grandes, apesar desses vizinhos não terem tido nenhum presidente com ambições tão grandes quanto as de Nkrumah]

Notem, por volta dos 06″20′ do vídeo que mostra um trecho de um jogo daquela época, que havia uma enorme estrela negra nas costas das camisas dos jogadores da seleção de Gana, caracterizando aí o carinhoso apelido The Black Stars.

[o apelido The Black Stars remete ao navio mercante estadunidense Black Star, que, de 1919 a 1922, influenciado pelo movimento pacifista anti-segregacionista, fez o caminho de volta da América para a África, levando de volta à terra-mãe muitos negros. Por linhas tortas, isso livrou alguns negros do terrível racismo da época, onde imperava o terrorismo racista da Ku Klux Klan, que predominava nos estados do sul dos EUA. O então todo-poderoso do FBI, Edgar Hoover, pôs espiões infiltrados nas viagens do Black Star e encerrou a linha em 1922]

Por incrível que pareça, o momento mais marcante da história do futebol ganês em todos os tempos não consta no documentário: o heróico empate contra o todo-poderoso Real Madrid (de Alfredo Di Stefano, Gento, Puskas, etc.) pentacampeão espanhol e europeu em 1960 por 3×3.

Em 1961, na tentativa de nacionalizar o futebol ganês como exemplo para o panafricanismo, Nkrumah trouxe como técnico um ex-jogador ganês do Hearts vindo do Fortuna Düsseldorf. Seu nome era Charles Kumi Gyamfi. Aliás, em 2006, comemorou-se o cinquentenário do intercâmbio futebolístico entre Gana e Alemanha, no qual usualmente o país africano mandava jogadores e recebia treinadores. O caso de Gyamfi foi sui generis, pois representou a inversão dessa lógica.

[No próximo post, falarei sobre outro fruto desse intercâmbio – o craque Anthony Yeboah, que marcou época na segunda metade da década de 1980 e no início da década de 1990 no Eintracht Frankfurt.]

Os Black Stars eram os embaixadores de Gana: espalhavam a palavra do Panafricanismo que tanto Nkrumah desejava tornar realidade. Em 1963 o pequeno país era então um dos mais prósperos de toda a África: não apenas sediou como ergueu a CAN pela primeira vez. Em 1965, o bicampeonato veio movido pela premiação de uma casa nova para cada atleta, feita pelo presidente Nkrumah.

No mesmo ano, o ex-craque local Osei Kofi relata (por volta de 7′ do vídeo) que os Estrelas negras foram convidados para um amistoso de independência do Quênia e deram uma sonora sumanta no adversário (13×0). Foi a visita mais indigesta que o futebol ganês já realizou. Kofi foi escolhido como o jogador africano do ano e recebeu um televisor e várias honrarias de estado como prêmio.

Porém, o futebol ganês passou por um enorme ostracismo a partir do gole de estado que derrubou Nkrumah em 1966, durante uma viagem à China.

[China -> comunista -> "Estados Unidos da África" -> independência + união = v. Zeitgeist Addendum, especialmente a questão dos "assassinos econômicos]