RESOLUÇÕES DO BLOG HELIOPAZ PARA 2010

2010 está logo ali. E, como não poderia deixar de ser, este blogueiro também tem algumas resoluções e metas para o próximo exercício fiscal. Porém, não estou entre aqueles que creem ou que tudo será “melhor” ou “pior” do que os anos anteriores – muito embora eu tenha tido muito mais erros do que acertos em 2009. Afinal de contas, basta conseguir articular uma conjunção ideal de hora certa, pessoas certas e lugar certo para fazer as coisas acontecerem seja apenas para hoje, seja com reflexos para os próximos anos. Como isso pode – ou não – surgir a qualquer momento, não é o ano em si que determina esses fatores.

Depois de três anos e meio blogando regularmente e sem nutrir nenhum esforço pragmático para me tornar um “problogger“, já escrevi e li muita coisa na blogosfera. Entre erros e acertos, experimentei mudanças de agenda, mudanças de pauta, mudanças de layout, mudanças de estilo e mudanças de endereço. Todas foram escolhas difíceis, pois sempre tive perdas e ganhos bastante significativos. O objetivo agora é definir um foco e obter primeiro, uma regularidade na audiência; depois, obter um crescimento continuado. Porém, é impossível traçar metas mensuráveis, pois a web é altamente fluida.

Apesar do leque de conhecidos e de investidas presenciais cada vez mais frequentes pela sustentabilidade, pela democratização dos meios de comunicação, pela educação mediada por computador e também pela política agora não mais partidária, a minha praia nesse campo é o ciberativismo. Não exatamente relacionado a esses temas mas, sim, na questão da divulgação e da crítica de eventos que considero relevantes. Em termos acadêmicos e sociais, vou investir mais em posts sobre esses temas, pois eu sempre quis contribuir para o empoderamento da sociedade em um momento de extrema fragmentação e descrença.

Durante o mestrado, analisei na minha dissertação 10 blogs gaúchos independentes com viés de esquerda. São amigos inteligentes, sensíveis e totalmente “do bem”, com os quais me relaciono presencialmente e é um enorme prazer tê-los como parte da minha vida. Cada um  traz na sua especificidade e na sua abordagem conhecimentos bastante interessantes. Esse foi um grande ganho que tive ao apostar na minha presença online. Porém, me considero um observador externo pouco competente e um participante pouco ativo, além de acreditar que é necessário utilizar abordagens menos ortodoxas para ampliar o espaço público digital. Acho que é na proposta de novas formas de participação online e na observação presencial dos seus desdobramentos que eu posso contribuir, pois o “mais do mesmo” infelizmente não tem surtido mais efeito nas sociedades urbanas conectadas.

Obviamente, muitos interagentes já perderam o interesse parcial ou definitivo no meu blog por eu ter optado por falar mais em futebol. Porém, não há assunto mais apaixonante para mim do que o esporte bretão. Acho que acumulo bastante conhecimento e uma visão diferenciada acerca da apropriação social e midiática do esporte. Então, sinto que as análises técnicas e táticas sob o meu olhar precisam ser feitas com um viés diferente do dos comentaristas profissionais. Do contrário, serei apenas mais um a repetir a mesma ladainha.

Gosto muito, acompanho e respeito demais os blogs gremistas cujo objetivo seja atiçar a torcida e conversar mais intimamente com a gurizada. Eles possuem um papel muito importante. Contudo, prefiro mostrar como eu enxergo o nosso Grêmio a partir de uma perspectiva mais política, mais mercadológica e mais propositiva. Afinal de contas, o meu papel de torcedor, de fã, de extravasar a emoção e de evangelizar novas gerações de torcedores se faz no olho no olho, no Olímpico e contribuindo mensalmente com o clube. O algo a mais está aqui nos meus textos, na interação nos comentários do Sempre Imortal e  em contribuições profissionais voluntárias ou não sempre que for solictado.

Em um período mais despreocupado no qual não tinha grande preocupação com o futuro, realizei muitas experiências e blogava mais frequentemente. Obtive grande visibilidade mundial  durante a Copa de 2006 e também no acompanhamento da UEFA Champions League, da Premier League (Inglaterra), da Bundesliga (Alemanha) e nos posts que retratam um pouco sobre ídolos imortais (p. ex.: Mathias Sindelar e Rabah Madjer) e também momentâneos espalhados pelo mundo. Tanto o factual global como a abordagem histórica me fascinam, pois demandam atualização constante e paixão pela pesquisa. Hoje, com menos tempo disponível, essas pautas serão retomadas pontualmente.

Há um monte de assuntos bem diferentes e atrasados pra tratar lá: outras pautas sobre o Grêmio; a retomada do acompanhamento que faço sobre o futebol africano com a proximidade da CAN (Copa Africana de Nações); exemplos de publicidade esportiva bem utilizada no exterior; mais considerações sobre as eleições no Flamengo (que valem como exemplo e como reflexão para o Grêmio) e assim por diante.

Sou independente, pois não pertenço a nenhum grande grupo midiático. Sinceramente, os temas e a abordagem que me interessam dificilmente agradam a comentaristas de resultados que se acham estrelas e espantam os patrocinadores tradicionais. Dá trabalho, não ganho um centavo com o blog e ele toma tempo das minhas atividades acadêmicas que, muitas vezes, ficam prejudicadas. Mas estou em busca de uma maneira de viabilizar financeiramente esse trabalho. Afinal de contas, quero viajar, conhecer gente, aprender muito sobre futebol com um viés mais global pra poder contribuir com o Grêmio e poder bancar vários cursos, tais como o de Gestão Esportiva que nossos ídolos Roger e Danrlei estão cursando na atualidade; a nova turma de 2010 para o curso Kick Off (Jornalismo + Business) da Perestroika que o Minwer concluiu recentemente e outros; patrocínios para cobrir eventos no exterior, etc. Tudo isso custa muito dinheiro e, infelizmente, ainda não posso viabilizar.

Obviamente, não acredito em “receitas de bolo” e tampouco em imitar o estilo ou a temática dos blogs que admiro. Mas cabe listá-los e indicá-los com bastante entusiasmo. Enfim, fora os blogs do Grêmio, gosto muito do Clube da Bolinha (as gurias são talentosas, criativas e trazem uma visão mais assertiva do futebol), do Almanaque Esportivo (do meu amigo Alexandre Perin que, a exemplo de mim, também não é jornalista de formação e gosta de temas diferenciados) e do Preleção (análises táticas decentes) no ClicEsportes. Considero também vários blogs sobre crítica e sobre curiosidades tais como: Paulo Calçade, Mauro Cezar Pereira, PVC e Futebol no Mundo da ESPN Brasil; Juca Kfouri e Vitor Birner no UOL Esporte; Lédio Carmona, Expresso da Bola, Memória E.C. e Brasil Mundial F.C. no GloboEsporte.com. Uma nota especial vai para o Impedimento, que é 100% independente e de jovens jornalistas aqui do RS.

Enfim, há muito o que fazer. Por hora, preciso de ajuda para articular melhor todas essas questões, pois não sei exatamente a quem recorrer.

[EWC'10 CAF G] EGITO x ARGÉLIA É GUERRA

Diante de tanta tradição dentro do continente africano, o que diabos faz o Egito degringolar na hora H? Síndrome de Roth?!

Hoje, a Argélia é o grande rival. No 1º turno, em Argel, os donos da casa enfiaram 3×1 com certa facilidade:

Como não poderia ser diferente, o assunto da semana no Cairo é o jogo decisivo de hoje. Os egípcios precisam vencer por três ou mais gols de diferença para carimbarem seu passaporte para a África do Sul. Uma vitória por dois gols provoca um jogo extra em campo neutro:

Desconheço questões políticas e econômicas que porventura incitem a violência por motivos extra-campo, mas o clima lá está pesadíssimo: o ônibus dos argelinos foi alvejado por pedras em sua chegada ao Cairo e quatro jogadores ficaram feridos. A FIFA exigiu por parte das autoridades egípcias garantias de segurança por escrito para os visitantes.

Como sempre, eu tenho lado: por mais que seja apaixonado por egiptologia como um profundo admirador das ciências humanas, sou algeriano desde pequenininho. Se querem saber por que, tenho várias razões para pensar assim:

1) O Egito é a grande pedra no sapato de Camarões;

2) Quem formou sua paixão por seleções a partir da Copa de 1982, é torcedor do Porto e viu Madjer acabar com Alemanha, Bayern, Peñarol e Nigéria não pode pensar diferente;

3) O Egito deixou uma péssima imagem no pior grupo F da história das Copas: Egito, Inglaterra, Holanda e Irlanda empataram cinco de seis jogos em 1990 na Itália, quando os hooligans foram isolados na Sicília e na Sardenha.

Vamos ver no que dá. Com paz, por favor! ;)

BANANAS CARAMELADAS, RACISMO E SEXISMO

Todo fardamento fruto de uma viagem que extrapola as cores oficiais tira a identidade do clube.

Todo fardamento fruto de uma "viagem" que extrapola as cores oficiais tira a identidade do clube.

Meu querido amigo Paulo Pinheiro Gomes Jr., natural de Piratini, a primeira capital do RS e professor de Jornalismo da UNISC, tem um ditado fantástico:

GOSTO NÃO SE DISCUTE: APENAS LAMENTA-SE.

Sei que nos corredores de La Bananera, dirigentes e torcedores recitam um patético mantra sempre que desejam incluir o Grêmio no assunto: “clube pequeno”, “time segundino”, “bananas de pijama”, “Gaymio”, “Coligay“, etc. Pior: a prática sexista por parte da direção colorada é, sim, institucionalizada!

Meus conhecimentos de Psicologia e de Biologia podem não ser os mais profundos e nem os mais sofisticados. Os de Sociologia são um pouquinho melhores. Mesmo assim, acho que aprendi alguma coisa. Nunca o suficiente, mas, para efeito deste post, serve.

Quando o amigo recente Carlos Josias desvelou o conceito de “macaco” e de “macacada”, ficou claro que não há mais o predomínio do racismo nessa relação corneteira entre gremistas e fragários. Porém, há na mídia guasca algumas tentativas de criminalização gratuita e oportunista contra o Grêmio. Isso faz com que tenhamos de perder tempo tentando nos defender. No fundo, acho que é isso o que eles querem…

Sendo o apelido e a analogia frutos da ironia e da jocosidade típicas da irreverência, mesmo que eles tenham como intenção valorizar o seu clube do coração e desdenhar de nós, o Pan troglodytes é um antropóide que, além de ser física e emocionalmente muito parecido com o Homo sapiens,  caracteriza-se pela imitação – não apenas dos humanos e não só por uma questão de instinto mas, sim, porque é assim que demonstra que aprende a partir da experimentação.

Dado o extremo conservadorismo, a elitização e a origem basicamente teutônica do Grêmio, é possível, sim, admitir-se uma grande dose de racismo durante suas primeiras décadas. Acho que não se pode defender o indefensável e nem tampouco taparmos o sol com a peneira. Todavia, seja por necessidade, seja porque algumas almas progressistas começaram a atuar dentro do clube, esse sentimento foi dissipando-se paulatinamente.

Por outro lado, poder-se-ia dizer também que o fato de os coloridos (vide camiseta acima; colorado é vermelho e branco – se adicionar uma cor qualquer, fica colorido) proferirem cânticos sexistas em função do Grêmio ter tido a torcida Coligay nos últimos anos da década de 1970 e no início da década de 1980 representa o mesmo nível de intolerância, de desrespeito, de discriminação e de distinção baseados não em aquisições e em qualidades obtidas mas, sim, unicamente pela aparência física e pela escolha daquilo que cada um quer fazer consigo mesmo.

Nos meus tempos de adolescente, quando me encantava com as canções bagaceiras das torcidas organizadas de então, uma coisa me marcava nos clássicos. A torcida deles cantava em coro algo muito feio:

“GREMISTA NEGÃO SÓ PODE SER PUTÃO!”

Vejam bem: de maneira velada, o senso comum da maioria dos colorados procurava segregar e legitimar duas aberrações.

A primeira delas: a de que negro só pode ser colorado porque o Grêmio “é” racista.

A segunda: a de que homossexuais “só podem” ser gremistas porque as manifestações de gêneros não-hetero supostamente não ocorriam de maneira explícita.

Se partirmos para uma análise mais fria dessas premissas, em pleno final do século XX e início do século XXI, tais sentimentos hoje felizmente ilegais e socialmente condenáveis são praticados escancaradamente muito mais pelos colorados do que pelos gremistas.

Portanto, se alguém quiser criminalizar ou tão-somente categorizar a palavra “macacada” proferida por um gremista como racismo ou como tentativa de considerar os colorados como uma “espécie inferior”, creio que a maldade, a ignorância e a estupidez estão nos olhos e na voz de quem interpreta essa questão de maneira mesquinha e oportunista. Eu, particularmente, não vejo assim. Todavia, não se pode negar que, dependendo de QUEM e COMO se refira a essa questão, pode, sim, representar manifestações isoladas e sinceras de racismo por parte de alguns gremistas.

Da mesma forma, é impossível não haver nenhum LGBT em família alguma. Afinal de contas, estima-se em pelo menos 10% a quantidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no planeta. Quando se fala em “veadagem” nos lados do Beira-Rio, parece que a insistência nesse tópico diz respeito a uma projeção a partir da negação: “Aqui também tem, mas ninguém pode ficar sabendo. Então, vamos insistir em falar sobre os que tem no lado de lá. Assim, ninguém vai discutir os que temos no nosso lado.” Veja aqui como todos tem o telhado de vidro (rolem a página até “Não é só o Grêmio, o Colorado e outros times também têm suas torcidas-gay! Mas, e daí?”) – aliás, isso não é e nem deveria ser visto como um “problema”…

Em termos explícitos e práticos, a intolerância institucional por debaixo dos panos dentro do Grêmio encerrou-se há algo entre nove e seis décadas atrás. Já por parte dos colorados, houve uma lamentável compensação que ainda persiste e que iniciou-se justamente quando eles não precisavam de NENHUM subterfúgio de autoafirmação, isto é, a partir da década de 1970, quando eles tinham um estádio novo e grande e quando conquistaram três títulos nacionais de maneira acachapante.

Enquanto isso, vejo mais negros nas sociais do Olímpico do que meus amigos veem nas sociais do Beira-Rio. Enquanto isso, o Grêmio já pôs talvez a maior proporção de mulheres por homem dentro do seu estádio em um jogo oficial de futebol no último Dia das Mães. Meu amigo Guga Türck deve estar certo quando diz que isso deve ser inédito em nível MUNDIAL (fato esse que foi lamentavelmente ignorado pelo nosso marketing).

Enfim… Termino este post sinceramente triste pelo fato de que o outrora clube de “elite”, de “gente metida”, de “alemães racistas”, “que passa de pai para filho há 106 anos”, está hoje infelizmente empobrecido financeiramente em função de péssimas gestões recentes.

Termino este post francamente inconformado em função do senso comum adversário negar que também possui uma origem germânica e que tornou-se tão hipócrita e arrogante a ponto de não admitir suas próprias contradições. Afinal de contas, a formação sociocultural de AMBOS os clubes é extremamente parecida.

GRÊMIO: APOIO INCONDICIONAL DEIXA O FUTEBOL ACOMODADO

O post de hoje é muito sério. Escrevo em um tom grave, porém, de maneira alguma, alarmista ou inquisidor. Acredito que chegou a hora de pensar um pouco na forma de torcer, de acompanhar e de se importar com o Grêmio. Acima de qualquer ideologia, religião, atração física ou desgosto profundo e inexorável em função de uma sucessão de ocorrências totalmente contrárias aos nossos valores, me parece que a instância mais incondicional de amor e de devoção ora corrente no Brasil seja o futebol.

Se não fosse pelo futebol, nenhum interagente interessado pelo tema que lê este blog saberia que eu existo. Tal constatação é o suficiente para que, concordando ou não com as minhas posições, tenhamos uma preferência em comum.

Muito me incomoda as tentativas ou ingênuas ou hipócritas de se buscar um consenso. Não existe nem uma maneira correta ou ideal de torcer, nem de jogar futebol ou de dirigir um clube. Porém, as pessoas são todas diferentes. Até mesmo nos pontos em que concordam, cada uma apresenta diversas contradições  referentes à forma com que irão agir.

Por isso, não é “feio” nem “errado” criticar. Não é incoerente nem contraditório expor os problemas daquilo em que se acredita ou as virtudes daquilo em que não se acredita. Fazendo bom uso do nosso privilegiadíssimo e ímpar cérebro, a crítica pode construir – e muito.  Ao contrário do que muitos pensam, a intriga, a inveja, a polêmica, a manobra diversionista buscando retomar o poder e a ignorância não fazem parte da contrariedade sadia e podem estar camufladas até mesmo na mais  cordial das “unanimidades”.

De maneira simplista, muitos dizem que é fácil falar de fora. Ou, de maneira arrogante e ignorante, outros, em um arroubo de autoafirmação, tentam destituir a crítica afirmando “quem és tu pra dizer isso se eu sou conselheiro há 40 anos e tu és um reles associado?”

Isso posto, cada um dos 50 e poucos mil associados e dos mais de seis milhões de gremistas podem E DEVEM discutir a sua relação com o clube. Afinal de contas, o amor é turbulento e dramático; é confiante e desconfiado; é fogoso e distante ao mesmo tempo. Porém, quando apenas um dos lados de qualquer uma dessas dicotomias prevalece sobre o outro, é sinal de que algo vai mal. Então, chegou a hora de eu por os meus pratos sobre a mesa. E seria extremamente salutar se todos os gremistas fizessem o mesmo.

O fato de eu racionalizar demais e de me intrometer em questões referentes ao clube as quais, na prática, não posso sequer ser chamado de coadjuvante não significa que eu pretenda esvaziar o tão necessário espírito de irmandade, de colaboração, de paixão e de sacrifício inerentes à qualidade de torcedores do Grêmio. Afinal de contas, o apoio, a crença, a tenacidade, a curiosidade e a esperança tornam as pessoas mais alegres e, consequentemente, mais produtivas e mais criativas em todos os aspectos de suas vidas. Se não fosse por isso, o Grêmio não passaria de um dentre tantos simpáticos grupos de amigos que jogam bola e fazem churrasco no areião do carismático Parque Ararigboia entre os bairros Petrópolis e Jardim Botânico em Porto Alegre.

Antigamente, muitos reclamavam do excesso de cornetagem e da falta de vibração da maioria dos poucos associados que contribuíam com o clube. Hoje, muitos desses pioneiros já morreram. No Grêmio do século 21, a torcida rejuveneceu. A atual geração, criada de uma maneira mais liberal e menos engajada, é mais lúdica, mais tribalista e menos ligada a dogmas. Por isso, agarra-se a algo que norteia as suas crenças. Em função de uma série de necessidades, desejos, carências e objetivos, determina um valor intangível a um elemento abstrato de coesão massiva. Porém, esse elemento abstrato precisa ter um escape palpável e visível para não poder ser confundido com uma religião qualquer, apesar de uma relação metafórica muito forte existente entre os atos de orar e torcer.

O conceito da “imortalidade” inexiste na natureza animal e vegetal e também na ciência tal qual a conhecemos. Ele é parte da necessidade que muitos (nem todos, que fique bem claro) tem de correr atrás de um argumento complexo que explique o inexplicável ou que justifique o injustificável. Ele está em nosso hino e é muito gostoso de se utilizar quando ocorre alguma conquista ou alguma reviravolta de proporções acima da média a nosso favor. É provocador, é irônico, é cômico e pode até intimidar.

A imortalidade faz parte da loucura da qual tantos geraldinos afirmam viver. Contudo, além dessa comovente e emocionante característica social comum a grande parte dos adolescentes e dos jovens adultos deste início de século 21, a crença na imortalidade tricolor também possui um lado sombrio, que mascara, que tergiversa, que funciona como uma manobra diversionista para desviar a atenção dos verdadeiros problemas enfrentados pelo clube.

Quanto mais a direção do clube aposta na imortalidade, menos ela investe no futebol, que é o objetivo-fim do Grêmio. Quanto mais o clube e seus fornecedores faturam na venda de produtos licenciados, mais comercial e menos humana vai ficando essa relação. O torcedor, associado ou não, vai acumulando belíssimas histórias da sua relação com o clube. Eu, mesmo, poderia escrever uma enciclopédia de 10 volumes só com o que eu já vivenciei dentro e fora do Olímpico junto a amigos e parentes em função do nosso tricolor.

Porém, a cada dia que passa, até mesmo o próprio associado é encarado como apenas um consumidor. Quando o clube vira um produto, o seu cliente pode simplesmente deixar de considerar a sua compra algo corriqueiro como ir à padaria diariamente e passar a questionar, a exigir especificações, a desconfiar do vendedor, a denunciar a má qualidade do produto e a não recomendá-lo para mais ninguém.

Como já cansei de dizer, tenho 36 anos, meu avô nasceu em 1903, meu pai foi associado durante mais de 30 anos, tenho irmão e sobrinhos gremistas e convenci minha esposa, colorada de família, a amar e a sofrer com o Grêmio e comigo. Hoje, ela nem simpatiza mais com o tradicional adversário.

Por não crer em imortalidade e por ser um cientista social, embora tenha esperança em ser enganado pelo imponderável ocasionado pela impossibilidade de se prever fatos e reações totalmente subjetivas, ao contrário do chapabranquismo de vários blogs que pregavam o “alento”, a “loucura” ou uma virada “épica” tida como “certa”, prefiro ser realista e sincero desejoso da surpresa do que ser enganosamente otimista ou pessimista. Há uma semana atrás, eu disse que o mais provável seria nem Grêmio e nem Inter conseguirem os seus respectivos objetivos. Contudo, eu esperava que não perdessem e que não jogassem mal. Enfim: me sinto desconfortável se tiver que dizer que o gato morreu ou que ele saltou corajosamente para um galho a 4m de distância do telhado. Tem gente que prefere dizer que o gato está na relva e que aquilo que está no telhado é um ectoplasma, mas eu não sou assim.

Isso não é por água no chope de ninguém. E não pensem que eu não fiquei chateado. Ontem, cheguei ao Olímpico vacinado, o que é diferente. Eu apenas estava ciente das seriíssimas limitações do Grêmio. Isso não é motivo pra ninguém achar que eu sou mais ou menos gremista do que quem procurava se iludir.

Há muito o que reclamar no Grêmio. Muita coisa precisa melhorar. O “alento” em excesso torna os jogadores, a comissão técnica e a direção tranquilos, achando que seu trabalho é da maior importância e da melhor qualidade existentes no mercado. Enquanto isso, o torcedor menos crítico vai limpando as suas necessidades com folha de mamoneiro pagando o triplo do valor de um rolo de papel ultramacio, perfumado e picotado.

25% da gestão Duda Kroeff já se passou. O saldo dentro de campo é de uma incompetência que, na última década, só foi superada pelo último ano da gestão Guerreiro e pela gestão Obino. Enquanto isso, há outros mais modestos, de torcida menor, de tradição bem menos contundente e com cofres bem mais raspados do que os nossos fazendo mais com menos.

Cavalos paraguaios ou não, tanto o Atlético-MG de CELSO ROTH (um técnico usualmente defenestrado pela imprensa golpista e pela ala mais passional da torcida) e o Vitória de Paulo César Carpegiani (tido como ultrapassado) estão anos-luz à nossa frente.

SOBRE ARBITRAGEM EM GERAL

Digam o que disserem, isto é, concordem ou discordem à vontade. Acho perda de tempo discutir arbitragem. Hoje, ela é, em média, bem mais incompetente do que na década de 1980. No Brasil, credito o fato à piora expressiva na escolaridade e à desagregação da família nuclear. De qualquer forma, a arbitragem atual é menos velhaca do que antigamente. Porém, quando suspeita-se de alguma artimanha, essa só permanece no campo da hipótese porque sua prática é muito sofisticada.

De maneira geral, não existe complô ou antipatia permanente contra o Grêmio ou contra quem quer que seja. O que existe é uma profusão de narradores, repórteres, comentaristas e patrocinadores-torcedores do outro lado. Isso é compreensível em função da distribuição populacional, midiática e industrial do país, concentrada no Sudeste.

Posto o retrato acima, a ruindade da arbitragem, no varejo, define que TODOS os times tenham o direito de ser oportunistas tanto ao denunciar erros verdadeiramente cometidos contra si e ao omitirem os erros a seu favor na mesma medida. Isso é estatístico em qualquer liga do planeta.

O despreparo da arbitragem aliado à falta de personalidade de muitos desses amadores resulta ora no localismo, ora na compensação de erros para ambos os lados envolvidos no cotejo. Quando há suspeitas de favorecimento, normalmente elas ocorrem em partidas capitais, não durante o começo ou o rebolo dos torneios. Nesse caso, o procedimento sistematizado muito provavelmente em mandar um árbitro matar os ataques do time que alguém não quer que ganhe com faltas inexistentes e acelerar o jogo do time que pretende-se ser favorecido. Devido aos interesses comerciais multibilionários das confederações e das ligas de ponta (principalmente aos da parcela da mídia corporativa que procura monopolizar a compra dos direitos de transmissão e de seus patrocinadores nos mercados de maior audiência), a FIFA, as confederações nacionais e os próprios dirigentes de clubes acham que o erro de arbitragem faz parte do jogo. Não, não faz: o que faz parte do jogo são os erros técnicos e táticos pessoais e coletivos.

Analisando friamente, ão foi isso o que definiu nem o Brasileirão 2008, em fvor do São Paulo, nem a ida do Cruzeiro à final da Libertadores em 2010. Por outro lado, lembrando assim, por alto, creio que a arbitragem tenha definido, sim, as finais dos Brasileirões de 1982, 1995 e 2005; as semifinais de 1984, 1988 e 1990; a final da Copa do Brasil de 1992, o Brasileirão de 2005 e uma série de campeonatos estaduais ao longo do tempo. Em nível internacional, o Brasil foi favorecido contra a Espanha nas Copas de 1962 e 1986; a Coréia do Sul contra a Espanha em 2002 e a Itália contra a Austrália em 2006. Todavia, como comprovar intencionalidade pessoal e pecuniária do árbitro e como chegar até quem supostamente o mandou fazer o “trabalho sujo”?

A cultura popular brasileira recente tem por hábito imputar a culpa até prova em contrário. Isso explica as inócuas atitudes de raiva ou até mesmo de violência física e de vandalismo como forma de desabafar ou de tentar mudar o contexto.

De qualquer maneira, apesar do preconceito sobre a figura do trio de arbitragem no futebol masculino, os próprios árbitros não se ajudam ao dar papo para os jogadores; ao provocar ou ao intimidar os atletas e ao evitar deixar o jogo correr. No Brasil, eles possuem o respaldo paternalista, coorporativista e institucional tanto das federações quanto de suas respectivas comissões.

Por que tudo isso acontece? Porque é necessário mudar a política e o modelo econômico do futebol como um todo urgentemente. Só assim é que poderão ocorrer as necessárias alterações nas atribuições da arbitragem. Só assim haverá um padrão técnico de compra, distribuição e manutenção de câmeras e de miniestações digitais de edição por parte das ricas federações em TODOS OS ESTÁDIOS DO MUNDO.

De mais a mais, fico envergonhado de observar que, contra o Governo Yeda, contra o Governo Lula, contra o Judiciário brasileiro e contra o TSE, o contingente de cidadãos indignados, pró-ativos e envolvidos nessa discussão seja muito menor do que o de pessoas preocupadas com a arbitragem no futebol.

Assim como em relação às contradições da democracia representativa na sociedade, a arbitragem de futebol precisa de um novo modelo prático e ético na busca de mais justiça. Perde-se muito tempo reclamando do modelo que está posto quando todos sabem que ele não dá mais conta da dinâmica atual do esporte.

Por isso, salvo se houver algum evento ostensivo e sistemático nitidamente determinado por erros escabrosos de arbitragem, dificilmente irei compactuar com a opinião daqueles que acham que o Grêmio é sempre injustiçado e que o “mal” conspira a favor dos clubes paulistanos e portenhos.