Embora a mídia corporativa defenda as bandeiras que defende através de uma forma, de um enunciado, de uma gramática audiovisual tecnicamente produzida para contar histórias que contem apenas a versão que interessa a seus patrocinadores, não dá para jogar todas as práticas e todos os profissionais em uma vala comum.
Exemplo 1: o GNT, emissora a cabo das Organizações Globo (OGs), transmitiu a maioria dos filmes do MICHAEL MOORE (Bowling for Columbine, Fahrenheit 9/11 e Sicko) e o do AL GORE (An Unconvenient Truth), assim como o excelente SUPERSIZE ME de Morgan Spurlock.
Exemplo 2: repete-se também nos canais abertos, nas emissoras de rádio, nos
jornais e nas revistas (tanto de conteúdo segmentado por tema como nos
veículos generalistas) uma certa fração da programação total que
verdadeiramente trata de utilidade pública, conteúdo educativo sem um
viés de direita e uma leve pitada de jornalismo bem feito – a exemplo
do exemplo anterior sobre a GNT. De volta, quem trabalha nessas empresas não é
nem Hitler, nem Gandhi.
A primeira impressão seria considerar esse procedimento uma estratégia para enganar o público em geral e amansar a esquerda, levando-os a pensar que, quando as corporações de mídia veiculam esse tipo de programa mais crítico, seria um sinal de que elas seriam realmente “neutras” e, conseqüentemente, a audiência deveria crer na “neutralidade” da Grande Mídia. Assim, obteriam a defesa do público quando alguém questionasse se estão mentindo quando falam sobre política, economia, valores conservadores e criminalização dos movimentos sociais em seus telejornais.
A segunda impressão seria jogar numa vala comum os jornalistas dessas grandes empresas. Os assalariados subalternos são vistos de várias maneiras: “coitados”, “covardes”, “burros”, “chinelões ambiciosos”, “pelegos” ou, ainda, como técnicos competentes pagos para executar uma tarefa de maneira acrítica. Porém, eles são gente passível de todos os tipos de comportamento possíveis, assim como qualquer um de nós – apenas isso.
Outro ponto fundamental freqüentemente ignorado nas discussões sobre o papel do jornalista na Grande Mídia é o seguinte: os editores contratam, em sua maioria, repórteres, fotógrafos e articulistas que pensam como eles e como os donos dos veículos. Esses, em certos casos, podem até não receber os melhores salários, nem serem FDPs ou pelegos: eles simplesmente são conservadores e crêem que os valores nos quais acreditam são os valores ideais para se chegar a uma sociedade melhor. Pois a esmagadora maioria da sociedade, independentemente da região em que more, da cor da pele, de sua religião, faixa etária, escolaridade ou profissão tende a ser extremamente conservadora. Conseqüentemente, tanto os donos como os patrocinadores, os funcionários e os programas da Grande Mídia serão conservadores.
Também há uma visão extremamente equivocada de que a mídia corporativa manda no mundo ou de que ela possui o poder absoluto de decidir os rumos da política, da economia e dos valores morais de uma sociedade. Embora ela tenha um alcance gratuito e cubra quase 100% do território nacional, o receptor não é passivo e ele não precisa ter curso superior nem viver em um centro urbano para questionar, duvidar ou ignorar a mensagem transmitida pelos meios de comunicação. Claro que, quanto maior a ignorância, maior a possibilidade de acreditar sem questionar. E que, obviamente, o seu objetivo é satisfazer aos interesses de quem a banca.
Pois é quem a patrocina quem detém o verdadeiro poder simbólico, político, econômico e coercitivo. Ela é tão-somente um instrumento que é voltado para interesses puramente comerciais. A lei vigente e as práticas culturais relacionadas à percepção social média a respeito do conteúdo midiático permitem e estimulam a não-obrigação da Grande (e também da pequena mídia) de serem culturais, educativas, conscientizadoras, politizadoras, investigativas e o escambau.
Não, elas não são e nem precisam ser. Também não devem ser censuradas. E não dá pra forçar a barra restringindo o seu alcance e tentar investir uma fortuna em uma alternativa verdadeiramente educativa, conscientizadora, politizadora, investigativa, inteligente e assim por diante se não houver interesse do público no tipo de temática a ser abordada, nem tampouco se os produtores dessa mídia alternativa não souberem utilizar uma linguagem técnica recortada, fragmentada, de vocabulário simples, ritmo dinâmico e dotada de uma edição de som, de vinhetas e de legendas totalmente adaptadas à semiótica contemporânea.
A situação é extremamente complexa, dados os seguintes pontos:
1) O cumprimento de todos os requisitos para a primeira autorização e para as sucessivas renovações das concessões do espectro das ondas de rádio destinadas às emissoras de rádio e televisão deveria ser exemplarmente obedecido e punido quando necessário;
2) O ideal é absolutamente impossível de se obter em qualquer lugar do mundo. Não dá para impedir e nem tampouco fiscalizar o tempo inteiro políticos, funcionários públicos de qualquer instância e empresários que veicularam anúncios, releases ou comerciais nos últimos 10 anos; funcionários e associados que trabalham, trabalharam ou possuem negócios com esses mesmos patrocinadores, políticos e donos de veículos e até três gerações de suas respectivas famílias a obterem concessões. Nem todos esses caras são ricos, famosos, suficientemente poderosos ou conhecidos e fazem parte de uma rede social que envolve centenas de milhares de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do país. Não dá para emparelhar a capacidade econômica de investimento entre o que seria uma mídia “de direita” e uma mídia “de esquerda” porque o grosso da sociedade é conservadora;
3) Uma TV pública não pode ser uma TV estatal. Do contrário, a Voz do Brasil e as TVEs (sejam bem ou mal administradas) são mais do que suficientes. Ela não pode ter nenhum cargo político mas, sim, cargos eminentemente técnicos. O mandato de sua diretoria não pode estar vinculado ao mandato do presidente da república, do governador, do prefeito, dos senadores ou dos deputados estaduais. Deve ser mais longo (sugiro 12 anos) e regido por uma eleição da qual toda a sociedade participe;
4) Nem a internet e nem a TV digital proporcionam ou proporcionarão ao mundo maior justiça, democracia, cultura e/ou inteligência: o grande equívoco dessa discussão é que ela é centralizada ou na tecnofilia de que tudo será melhor para a maioria, ou na tecnofobia de que as TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação) são o grande mal, a grande fonte de alienação da sociedade.
Em primeiro lugar, novos grupos de comunicação municipais vinculados ou não à grande mídia regional ou nacional irão produzir localmente pautas voltadas às comunidades locais de forma que, com mais dinheiro, maior profissionalismo e com o apoio dos caciques da comunidade, não deixará de haver um agendamento conservador. Apesar da possibilidade de TVs e rádios “favela” poderem aparecer e contestar essa nova agenda hegemônica de abrangência local, a maioria das pessoas tenderá a assistir os programas técnica, enunciativa e esteticamente melhor produzidos.
Sim, diminuirá o conservadorismo e o nível de conscientização irá aumentar. Porém, não será tão significativo quanto se imagina ou se deseja.
Portanto, só vejo uma única possibilidade técnica, política e financeira para que haja uma distribuição massiva de conteúdo decente não apenas no Brasil como em qualquer país do mundo: seguir, com as devidas adaptações culturais de cada cultura, o modelo da BBC.
Falarei mais sobre esse modelo mais adiante, em outro post.
grande midia, midia corporativa, mainstream media, msm, esquerda, left, politica, politics, democracia, democracy, leis, regulations
Powered by ScribeFire.