SOUTH OF THE BORDER

Creio que, acima de qualquer ideologia, o sentimento de identidade e de autonomia deveria estar sempre acima de qualquer imbroglio.

Nesse sentido, o documentário do aclamado diretor OLIVER STONE (que assina o roteiro de SOUTH OF THE BORDER com o historiador TARIQ ALI – autor de vários livros sobre o imperialismo e editor da New Left Review) contribui para a expansão dos horizontes daquela parcela da classe média urbana essencialmente consumista, simplista e egoísta – à qual me refiro como classe mérdia.

Após tanto trabalho para eu poder propor um novo conceito de blog na minha dissertação de mestrado, não foi de nenhum teórico das Ciências Humanas Aplicadas que ouvi a melhor síntese da transformação que a interação através das TICs está exercendo sobre a sociedade contemporânea. Foi do brilhante advogado Antonio Carlos de Azambuja, o Cacaio, conselheiro do Grêmio e profundo conhecedor de Direito Patrimonial:

“ANTES, EU CONHECIA PRIMEIRO O HOMEM. DEPOIS, SUAS IDÉIAS. HOJE, CONHEÇO PRIMEIRO AS IDÉIAS PARA DEPOIS CONHECER O HOMEM.”

Considero esse senhor um poço de sabedoria, assim como o meu saudoso pai João Edson Menezes Paz e meus caríssimos professores José Luiz Braga, Antônio Fausto Neto e Alberto Efendy Maldonado do PPGCC/UNISINOS.

Pois é essa mesma simplicidade objetiva que Stone aborda em sua obra – por cuja estréia nos cinemas espero ansiosamente: Stone parte do pressuposto Mooreano da comparação dos lugares comuns que a subjetividade produzida pela mídia corporativa incute na população com a expressão local de quem é mais rotulado do que diretamente ouvido, assistido e interpretado sob um outro viés.

Stone entrevistou pessoalmente os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner (e seu marido ex-presidente Nestor); da Bolívia, Evo Morales; do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva; de Cuba, Raúl Castro; do Equador, Rafael Correa; do Paraguai, Fernando Lugo; e da Venezuela, Hugo Chávez. O que todos esses líderes da América Latina possuem em comum?

- Todos desejam que o continente caminhe sob seus próprios pés e não mais sob os pés estado-unidenses.

Por n motivos, a mídia corporativa brasileira ou criminaliza, ou minimiza a importância da interação e da realidade de nossos vizinhos. Não deveria, pois a mídia dos EUA e da Europa Ocidental possui correspondentes no mundo inteiro e dedica espaços muito maiores às editorias que tratam de realidades distantes.

O perfil da oligarquia brasileira (que, por tabela, é veiculado para a assimilação supostamente passiva de quem julgam ser seus subordinados) é o de colonizado, de fugitivo e de capitão do mato. Seja no meio urbano ou rural, a mentalidade predominante entre aqueles que exercem o poder político, coercitivo e econômico regional é direcionada ao paternalismo, ao clientelismo, ao tráfico de influência e à corrupção.

O pensamento em rede dos governantes do continente (embora Lula seja disparado o mais contraditório, pois dirige a nação mais subserviente de povo mais passivo da América do Sul enquanto é a mais industrializada, a mais rica e a que mais investe em políticas sociais) é muito mais positivo do que o tipo de relação estabelecida entre aqueles que defendem o modelo neoliberal.

IDENTIDADE: RS AGORA SIGNIFICA POUCO

Minha momentânea conclusão é a seguinte: caso o RS fosse mesmo tão relevante política, social, cultural, econômica e simbolicamente fundamental para o mundo, certamente atrairia um ativismo potente, articulado e globalmente atualizado em substituição ou em complemento às mal fadadas manifestações públicas partidarizadas e desarticuladas que o modelo da modernidade pode oferecer.

Em função dessa desilusão, o meu sentido de pertença e a minha alteridade estão deslocando-se para o ciberespaço. Ser ubíqüo é muito menos limitado, limitante e limitador em termos políticos e sociais do que ser porto-alegrense, gaúcho, brasileiro ou sul-americano. O contexto atual da pós-modernidade não colabora nem um pouco para que eu permaneça dando valor ou importância a sentir-me como se ainda fosse uma parte deste lugar, entendem?

Acho muito triste admitir tamanho desalento. Isso nada mais é do que a prova cabal de que a estupidez não vem só da direita, só dos magnatas, só dos ignorantes ou só dos viajados e poliglotas dos pacotes de turismo.

A conjuntura não favorece um RS com desenvolvimento sustentável para pelo menos mais 30 anos. E isso independe se a corrupção vai diminuir ou não; se a educação vai melhorar paulatinamente ou se irá piorar ainda mais, assim como a saúde.

Ficando ou não aqui após o mestrado, meu lema passa a ser o verso final da canção SWING, de PEDRO LUÍS E A PAREDE, em seu primeiro álbum, ASTRONAUTA TUPY:

“SE TODOS REALIZAM ALGO, O MUNDO SEGUE O SEU CAMINHO.”

CARÍSSIMO STUART HALL, POR FAVOR, DÁ-ME UMA LUZ!!!

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DESCENTRALIZAÇÃO > INSTITUCIONALIZAÇÃO

O prof. GILSON CARONI, que leciona SOCIOLOGIA na FACHA, é colunista da AGÊNCIA CARTA MAIOR e colabora com o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, defende, em seu artigo mais recente, que Lula é de esquerda.

Embora minhas leituras sobre Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Filosofia, Psicologia e tanto minha militância presencial como minha relativa juventude sejam extremamente incipientes perto de qualquer intelectual (mesmo os de má qualidade – o que não é o caso do prof. Gilson), tenho uma percepção e uma série de referenciais que me permitem emitir minha opinião.

Perrrguntas:

1) A quem interessa defender um partido, um sistema partidário, as empresas globalizadas ou um estado como locus de pertença representativo da alteridade?

2) A quem interessa utilizar figuras semânticas em retóricas vazias sem um verdadeiro sentido de inclusão, tais como “povo”, “partido”, “sindicato”, “cooperativa”, etc.?!

Quando em algum momento da história o PT trabalhou verdadeiramente pelos movimentos sociais a não ser para incluí-los no seu modelo de cidadania e de meritocracia, que inclui somente quem for sindicalizado? Enquanto o cara não for sindicalizado, ele não tem voz. Ele é um mero prospect, ou cliente em potencial. Quando “assina o contrato”, o partido trabalha um pouco por ele a fim de ganhar adeptos para todas as suas causas. Contudo, quem verdadeiramente faz um FORUM SOCIAL MUNDIAL são as entidades globais e locais da sociedade civil organizada. Os partidos, os governos e as empresas têm um papel extremamente reduzido em termos de mobilização e de proposições para as demandas da sociedade.

Mesmo que toda resistência seja necessária, já foi-se o tempo em que fazer bravata, greve, operação-tartaruga e o escambau resolvia alguma coisa de maneira permanente e, sobretudo, garantindo os grevistas ou os sindicalistas no emprego. Hoje em dia, não é o discurso político que é vazio mas, sim, o discurso político-partidário. Não é mais a pertença a um determinado pedaço de terra ou a identificação com um punhado de gente que se criou de maneira semelhante que garante por quem ou para quem se deve lutar a fim de se ter uma vida melhor: o ativismo é pela saúde do planeta que, espera-se, influenciará melhorias substanciais na saúde, na educação, na infra-estrutura, na energia sustentável, no reaproveitamento de material, na redução radical da exploração dos recursos naturais e em uma racionalidade jamais antes vista em transportes e infra-estrutura, contribuindo para uma sociedade cujo maior valor seja a solidariedade.

Mesmo com palavras diferentes dos autores e misturando uma coisa com a outra, tudo o que eu disse no parágrafo anterior aproxima-se bastante dos últimos trabalhos do prof. BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS, da UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA, e também dos trabalhos de ALBERT-LASZLÓ BARABÁSI (LINKED), STEVEN JOHNSON (EMERGÊNCIA) e, acima de todos estes, da dupla ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT (IMPÉRIO e MULTIDÃO).

A Grande Imprensa ataca, mente e omite. Mas a audiência NÃO É PASSIVA: ela interpreta a notícia e a coluna de acordo com o referencial cultural (escolaridade, rua, bairro, cidade, clube, profissão, trabalho, praça, trânsito, idiomas, viagens, etc.) e com a sua alteridade (aonde estou, a que/a quem/com quem/com o que me sinto íntimo, à vontade e me dá vontade de ajudar e de aceitar ser ajudado; de defender e de cobrar que seja defendido). A esquerda precisa conhecer autores latino-americanos que escrevem sobre sociedade midiatizada, propaganda, consumo como JESÚS MARTÍN-BARBERO, OROZCO, NESTOR GARCÍA-CANCLINI, ARMAND MATTELART, MUNIZ SODRÉ e também fazer um paralelo entre as histórias sociais do conhecimento e da mídia, através do trabalho dos ingleses ASA BRIGGS e PETER BURKE.

Se todos fossem uns coitadinhos ignorantes, explorados em todos os sentidos, subservientes e obedientes em todas as situações de suas vidas, aí, sim, a Grande Mídia, seus patrocinadores e seus representantes em todos os níveis de governo seriam “os” grandes intelectuais orgânicos. Seu papel é importante para a manutenção do status quo e merece todo o nosso cuidado e as nossas denúncias. Porém, há várias instâncias que devem ser observadas fora da mídia, dos partidos, dos sindicatos e das empresas que envolvem ações globais descentralizadas que, através da internet e dos celulares, ao invés de entregarem o ouro ao bandido, voltam a oferecer força e seriedade às manifestações presenciais. Portanto, o discurso político existe com força, sim, e não é nada vazio.

Concordo com o artigo: Lula não deixou de ser de esquerda e nem tampouco se vendeu ao sistema: todavia, tudo em que sempre acreditou está repleto de referências setentistas do “milagre brasileiro”, onde engenharia pesada era sinônimo de desenvolvimento e foda-se a natureza, pois o homem é um animal “superior”.

Não importa quem, aonde nem quantos foram os petistas históricos que abandonaram o partido prevendo esse desastre nem quais foram os oportunistas de outras siglas não necessariamente de esquerda que juntaram-se ao PT (e, pior, foram aceitas). O que importa é que, se a falta de escolaridade do presidente o prejudicou em alguma coisa, o prejudicou no fato de que seus antigos “cumpanhêros” com curso superior, viajados, poliglotas e melhor articulados com empresários são hoje consultores da mesma estirpe dos que superpovoavam os gabinetes de Collor e FHC.

Um pseudo-partido de pseudo-esquerda no governo sempre fará menos pior do que um partido de centro-esquerda diante de uma população predominantemente miserável.

Repito: voto no PT, mas porque é o único partido que possui um conteúdo programático que indica menos desonestidade, maior inclusão e maior respeito às minorias. Nas eleições, caso saia de camiseta, bandana, estrela, bótons e adesivos espalhados pelo corpo, será por puro desespero, pelo mais profundo medo de ver o pior dos piores manter-se ditando as regras e privilegiando quem menos precisa de privilégios em toda a sociedade. Como nunca me filiei a partido algum, posso afirmar minha frustração e minha descofiança sem eliminar a sua importância nem o seu valor que, em determinados nichos da sociedade, ainda oferece um alento. Porém, não serve mais como tábua de salvação para um país.

Caso isso se perca, ou mudam na lei a forma de representatividade democrática, ou passarei a votar nulo, pois a militância mais importante não é a do partido, da igreja, do sindicato, do clube, da profissão: é a da cidadania. Mas não da cidadania meramente local para resolver pro
blemas egoístas ou, às vezes, até mesmo pequenos: a verdadeira militância, o verdadeiro ativismo é o da CIDADANIA GLOBAL.

Bato sempre nessa tecla. Enquanto isso não for introjetado em toda a esquerda, enquanto os esquerdistas não crerem mais na desinstitucionalização do que em entidades de classe oportunistas que funcionaram durante décadas mais como intelectuais orgânicos para sustentar os privilégios de uma minoria do que como fonte permanente e honesta de militância, ativismo e luta contra um poder antagônico e excludente, todo e qualquer embate tende a ser vergonhosa e ingenuamente perdido.

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