[G'10 F I] T.A.* 0×2 GRÊMIO

Não vou ao estádio José Pinheiro Borda para assistir a uma partida de futebol do meu Grêmio desde o ano de 2003. Nesses sete anos, pode-se dizer que a única nesga de sucesso que deixei de vivenciar na casa do Tradicional Adversário foi o gol de empate de Pedro Júnior no título de 2006, num empate por 1×1.

Hoje, nem fiquei incomodado de não ter assistido ao clássico pela TV onde quer que fosse, com a companhia que fosse. Afinal de contas, os três últimos cotejos que combinei de assistir em algum espaço público ou privado de uso coletivo entre a maior força do universo (o Grêmio Football Porto-Alegrense – nome escrito em inglês e português corretos, respectivamente) e aquele clube de vermelho que demorou penosos e quase intermináveis 26 anos para nos imitar em termos de feitos relevantes e de vivência de brilho tiveram resultados infelizes.

Por duas vezes, no simpático porém exageradamente escuro, de péssimas cadeiras e de um cardápio limitadíssimo Museu do Esporte, perdemos. A terceira tentativa, em um trailer em terreno coberto na Carlos Barbosa muito próximo ao Olímpico, repetiu a dose. Por ser alguém que preesenciou incontáveis decisões dentro de casa ao vivo tendo como grandes derrotas em decisões apenas as perdas de título da Copa do Brasil de 1995 e da Libertadores de 2007 (meu pai não quis me levar e tampouco permitiu que meu avô me levasse tanto à final do Brasileirão de 1982 como ao jogo de ida da Libertadores de 1984), obviamente, o pé frio não sou eu.

Enfim… Por tudo isso (e também por confessar que estava prevendo o pior em função da everestiana sopa para o azar que foi não termos vencido também o segundo turno do Bovinão 2010), achei até boa a ideia de ir a um aniversário infantil em Canoas, debaixo de todo o caldo que deitou durante quase todo o domingo na Grande Porto Alegre. @heliopaz e @lubelskina lá se foram, munidos de seus respectivos celulares com radinho FM.

Estávamos em uma casa de colorados. Vim a saber mais tarde que o pai do menino queria ter estendido uma bandeira do T.A. no salão. Talvez por não ter-se atido ao fato de que era o primeiro aniversário do seu filho mais novo, mencionou essa hipótese sem medir as consequências de uma possível derrota. Sabiamente, sua mulher funcionou como uma doce ombudswoman, assim como a minha o faz quando estou a passar dos limites.

O amigo Saulo ouviu, então, de sua Taline:

– ACHO MELHOR NÃO…

Claro que, além de comer e de demonstrarmos uma certa assertividade junto de várias pessoas pouquíssimo conhecidas por mim, todas colegas ou parentes de colegas de trabalho da minha Lu, foi absolutamente impossível desligar do clássico: passei todo o tempo com o rádio nos ouvidos. Felizmente, longe de passar por antipático: afinal de contas, muitos ali me perguntavam a todo instante quanto estava o jogo e, mesmo com o Tricolor na cabeça e no coração, conversei animadamente com algumas pessoas bastante simpáticas, além de uma menininha encantadora a quem nunca neguei a atenção, pois adoro crianças.

A narração do rádio muito mais me empolgou do que me assustou. Bem ao contrário do meu sentimento pessimista, derrotista e depressivo dos últimos 10 dias (interrompido por uma confiança que jamais se abalou contra o “Hawaii” nem em Palomas e menos ainda em “Honolulu”), o HOJE – que era o que realmente interessava – mostrou-se surpreendentemente sereno.

Fiquei maravilhado com o relato sobre o menino Neuton; sobre a minha indelével e quase inacreditável confiança de que Borges e o ex-gordo Roca decidiriam o jogo. Claro, não serei hipócrita de desdizer a verdade: o sentimento foi-se consolidando durante a partida, jamais antes dela. E muito feliz fiquei com a consolidação da estrela do zagueiraço Rodrigo e de #ficavictor, a nossa MURALHA – de cujo poder em decisões no estilo lá e cá cheguei até a desconfiar.

Pois bem: normalmente, aconteça o que acontecer, não costumo cultivar o hábito de ligar para ninguém após o jogo. Não que ache isso intrusivo ou pé frio: simplesmente não tinha essa cultura. Meu pai e meu irmão nunca foram assim nas vitórias. Somente meu avô o era. Foi o Vô Edegar a primeira pessoa a ligar lá pra casa quando o Grêmio recém havia sagrado-se campeão mundial interclubes em 11/12/1983 em Tóquio. E quem o atendeu fui eu, aos 10 anos, ouvindo-o cantar o nosso hino lupicianiano.

Muito por eu achar que Gauchão é para quem precisa, há pelo menos uma década o considero um campeonato inexpressivo e altamente arriscado, pois não oferece nenhum parâmetro minimamente aceitável acerca do real desempenho do Grêmio, além de tomar quase cinco preciosos meses do calendário anual, reduzindo o espaçamento entre datas para Libertadores, Sul-Americana, Copa do Brasil e Brasileirão, além de arriscar meniscos, ligamentos, tendões e fíbulas de nossos caros gladiadores.

Por eu considerar mais interessante e mais justo em todos os sentidos um campeonato de ida e volta por pontos corridos e sem nenhuma fase “mata-mata” nem divisão dos clubes em grupos, também considero os clássicos como jogos de três pontos tão preciosos e fundamentais quanto quaisquer outros. Embora tenha-me criado com o imaginário de que a batalha das batalhas seria contra eles e que o inimigo atávico seria sempre aquele clube que dista a menos de 2 Km da nossa atual casa, por mais expectativa, paixão, flauta, corneta e adrenalina que este clássico tenha, já passei da fase de querer matar ou morrer em função do seu resultado.

Hoje, em especial, as condições adversas me forçaram a um comedimento na comemoração. Acabei então apelando para um torpedo em série, disparado para meus queridos amigos Bernardon, Fábio, Josias e Marcos. Mas não sem antes tocar uma flauta antes mesmo do jogo terminar para o celular de trabalho de um grande irmão, o Alexandre Corrêa, assessor de imprensa deles.

Ora, como poderia me esquecer de homenagear o corneteiro-mor, aquele que faz da chatice do Kenny Braga um mero zumbido de mosquito em uma suada madrugada de verão no meio do mato?!

Isso posto, mal chegamos em casa e a preocupação era esperar pela mesa de debates sobre o jogo: entrevista com o menino Neuton, chiadeira em relação à atuação deles, menos tempo dedicado às nossas qualidades, compacto, várias leituras na internet.

Vou dormir feliz. A segunda-feira que se avizinha vai exigir a correção de 18 provas dissertativas, a ordenação dos grupos de apresentação dos trabalhos nas duas aulas finais do trimestre, a busca de referências bibliográficas consistentes e a leitura do texto que meus dois orientandos me apresentaram até agora. Isso sem contar o agendamento do primeiro encontro com o aluno da tutoria.

Aliás, compramos até os ingressos para a seção das 21:40h de Alice no País das Maravilhas, do genial diretor Tim Burton, com o meu alter ego Johnny Depp no papel do impagável Chapeleiro Maluco justamente para a próxima quinta-feira, pois pensava que Fluminense x Grêmio não seria nesta semana.

Como o jogo é pela tevê e o Grêmio tem-se dado muito mal no Maracanã ultimamente, pode ser que não decida trocar o ingresso para o sábado.

Domingo tem o probabilíssimo título bovino no Olímpico lotado. Dessa festa, jamais me ausentaria. E na semana que vem, tem a presença obrigatória para o jogo de volta contra o mesmo Flu (agora perigosamente ramalhano).

Mas, enfim… Como deixar de lado o nosso Tricolor, mesmo pela TV e mesmo em condições pra lá de adversas?!

A minha bipolaridade e o meu julgamento das pessoas em função do momento pode fazer de mim um incoerente ou um oportunista – jamais um mau caráter ou um incompetente. Mas digo que, em função deste clássico, agora, sim, passo a crer na teimosia do presidente Duda em relação a Meira e Silas.

Por que digo isso menos de dois dias após ter tuitado algumas das hashtags mais clássicas dos meus tuítes de 2010 pela última vez até a próxima ameaça rotunda de insucesso gremista? Ora… Porque, concentrando todas as minhas energias no clássico ou não, é inegável que, ao menos no subconsciente, eu sempre quero crer no mito de que “grenal arruma ou detona a casa de vez”.

Muito se tem dito sobre Duda: uns o chamam de playboy; outros, de omisso; outros, de pé frio; outros, de incompetente. Eu, mesmo, um apoiador da sua gestão e um associado que senti uma grande empatia pelo presidente em nossos três breves contatos presenciais até aqui, fiquei fora de mim quando ele endossou Meira na demissão de Paulo Deitos. Ainda questiono MUITO o aproveitamento abaixo do necessário dos meninos da base e a contratação e uso de algumas peças que nunca me transmitiram a menor firmeza em jogo. Fiquei possesso quando da omissão em relação aos desmandos da nossa polícia bandida dentro da nossa própria casa.

No entanto, apesar da falta de títulos e de investimentos que, até o momento, ainda não nos deram o resultado que deles se espera, Duda é honesto. Duda é transparente. Duda tem um papo assertivo. Mas mais do que isso, Duda tem, sim, personalidade. E ele conseguiu não apenas vencer o Grenal do Centenário como venceu hoje, quando tudo parecia dar para trás após a derrota para o Pelotas nas quartas de final do 2º turno.

Hoje, a vitória teve um sabor especialíssimo: primeiro, porque encaminhou o título. Segundo, porque choveu cântaros. Terceiro, porque foi na casa deles. Quarto, porque os deixa tomados pelo medo de serem eliminados na Libertadores. Quarto, porque nos dá uma confiança elevada ao cubo para a sequência da Copa do Brasil…

…E quinto porque, desde o longínquo ano de 1993 (vejam só: eu tinha apenas 20 anos e era estudante universitário naquela época!), o Grêmio não vencia um clássico em decisão dentro da casa deles.

O Grêmio está mudando um pouco de perfil. Creio que para melhor e sem deixar os tradicionais rótulos da garra e da imortalidade de lado: desta vez, sem contarmos com nenhum brucutu entre os titulares e entre os reservas imediatos, temos levado poucos cartões. Nosso volume de jogo agora passou a ser, na média, maior do que o de nossos adversários. Paramos de jogar nos contra-ataques ou de depender mais de jogadores cuja única qualidade é o coração: agora, o coração tem qualidade.

E é pelas beiradas que espero que as coisas se sucedam até podermos terminar a temporada com um final feliz.

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“SE ENTREGÁ PROS HOME” É COISA DE GAÚCHO

O vídeo acima com o depoimento do ex-presidente Cacalo é uma forma extremamente honesta e digna de eliminar a velhacaria reinante na blogosfera e nas comunidades do Grêmio no Orkut: a responsabilidade e a necessidade são tanto o bônus quanto o ônus de quem disputa a ponta. Afinal de contas, ao contrário do Cacalo, considero a fórmula de pontos corridos em turno e returno a ideal e a mais justa, mesmo propondo uma pequena alteração nos critérios de desempate e torcendo para que a maior chaga do futebol brasileiro seja erradicada do calendário, a fim de torná-lo ainda mais emocionante. Logo, é preciso ser regular e pensar no somatório. Não se pode tentar enxergar cada jogo isoladamente.

Além dos compromissos sérios (burocracia urbana, orçamentária e familiar) do dia, passei os dois últimos dias acompanhando uma infinidade de links que contém tanto os motivos para o Grêmio achar “justo” entregar o jogo para o Flamengo com o intuito de impedir diretamente o Tradicional Adversário de ser tetracampeão brasileiro no ano do seu centenário como aqueles que evocam a importância, a seriedade e o respeito a todos os demais postulantes ao título caso o Tricolor dos Pampas opte por encerrar a sua participação nesta temporada dando o melhor que puder.

Pra entender o que eu quis dizer com o título deste post, vou situá-los pra que não achem que estou sendo belicoso, revanchista, preconceituoso ou generalista com o Rio Grande do Sul inteiro, é preciso LER BASTANTE*.

Vou pegar pesado com todos aqueles que defendem que o Grêmio entregue o jogo para o Flamengo. Guardem a minha citação e leiam com atenção ao texto abaixo:

SE O GRÊMIO TIVER O ESPÍRITO HONRADO E CORAJOSO DO SUL-RIOGRANDENSE, SERÁ DIGNO. MAS SE PENSAR COMO GAÚCHO, SERÁ VERGONHOSAMENTE VIL E INDIGNO.

O que realmente interessa neste discurso é alertar para o fato de que o comportamento de preferir secar do que torcer ou de considerar a rivalidade com o vizinho mais importante do que buscar as melhores práticas de gestão de futebol mundiais como parâmetro de evolução traz à tona as piores reações possíveis em termos socioculturais já vistas nesta terra.

Tanto a suposta “vingança” como o suposto “bom caráter” possuem várias justificativas nas próprias contradições históricas apresentadas pelos desvios de conduta do  próprio T.A.

Apesar dos atuais profissionais inteligentes e com personalidade do outro lado, o moral da instituição é uma cueca cheia de batom e patacas secas. Infelizmente, o apoio aparentemente brincalhão ou passional às pequenas hipocrisias da sociedade sempre evolui para as grandes corrupções – se não financeiras, claramente de caráter. De qualquer forma, virou um vergonhoso hábito o de procurar corrigir um erro com outro erro.

Se formos enxergar o lado lúdico e menos grave da questão, podemos dizer que a) este episódio entra pro anedotário popular e b) que existe justiça e coerência em cada um defender única e exclusivamente o seu lado porque a sua “vida” é mais importante do que a vida do outro.

No atual episódio, não estou dizendo que se deva ajudar T.A., Flamengo, São Paulo ou Palmeiras. Mas também não gosto da idéia de prejudicar dois por tabela quando a intenção é ferrar um.

A leviandade e a mesquinharia refletem a falência moral completa de ambas as torcidas. De maneira geral, parte significativa de ambas prefere sentir orgasmos com o aparelho reprodutor do vizinho ou negar a torcida pelo T.A. (da parte deles, no caso; ou nossa, eventualmente) quando isso pode levar o seu próprio clube a algo verdadeiramente importante. O maniqueísmo, o conservadorismo reacionário e a crença em dois contos da carochinha (o ‘tradicionalismo’ e a ‘Revolução Farroupilha’) se refletem diretamente nesse pensamento de arreios com esparadrapos nos olhos.

Não sou moralista e, como qualquer indivíduo, possuo o anjo e o demônio se digladiando sobre meus ombros. Da mesma forma, somos multifacetados. Por isso, não há como cobrar retidão, equilíbrio, convicção ou coerência absoluta de qualquer indivíduo. Mas acho importante procurar tentar enxergar o contexto sob um espectro mais amplo com o distanciamento que a análise merece.

O futebol é a faceta popular mais escancarada para provar que o pensamento médio do gaúcho é o do endosso à máfia do Detran, ao desgoverno Yeda e à crença na RBS. O pensamento médio do gaúcho é majoritariamente igual à conduta de seus representantes tão legítimos quanto dignos. A crença neste modelo de poder econômico, coercitivo, político e midiático é a sua imagem e semelhança. Quem paga vale pra malandro é malandro também.

Caiu-se de 3º para 17º estado em termos econômicos não direta ou exatamente por causa do fim do milagre brasileiro, da maxidesvalorização do cruzeiro ou coisa parecida mas, sim, porque prevalece o espírito de porco, o masoquismo, o coitadismo e a mais profunda canalhice neste estado. Isso vai muito além da política partidária: é um atraso de mentalidade que vem – ao contrário do que se pensa – de cima para baixo.

Enfim, acostumou-se a defender o indefensável e a justificar o injustificável.\

Logo, o Grêmio pode muito bem se virar sozinho, assim como o T.A. pode se enterrar sozinho. Afinal de contas, Victor, Rever, Mário Fernandes, Maylson e Douglas Costa tem nomes fortíssimos e um futuro brilhante pela frente.

Secar, definitivamente, não deveria ser a coisa mais importante da vida de gremistas e colorados. E o RS está mal porque essa mania de secar o país quando temos um Governo Federal que finalmente é respeitado internacionalmente comprova o quanto o gaúcho médio está se tornando culturalmente baixo.

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NOTAS:

*Poucos conhecem o verdadeiro significado de gaúcho. Como a esmagadora maioria da população do RS não é composta por tropeiros e – dentre estes – raríssimos são homens livres, autônomos ou ladrões de gado, não refiro-me à maioria da população do Rio Grande do Sul e nem tampouco à maioria dos torcedores do Grêmio e do Tradicional Adversário.

Além disso, há um desconhecimento absurdo acerca da história social e política do RS. Nesse ponto, o mote do resultado de uma revolução agropastoril promovida por latifundiários decadentes não foi o de libertar a província nem tampouco de fazer com que ela evoluísse para todos mas, sim, apenas para preservar o controle nas mãos de quem fazia grilagem, matava e expulsava índios, negros e pobres e tomava posse de terras que não seriam suas.

Por isso, eu prefiro ser chamado de sul-riograndense e chamar o lado honesto da nossa sociedade de sul-riograndense. Gaúcho é o gentílico que eu utilizo para toda sorte de picaretagem.

Enfim… Pra poder pensar assim, as fontes são muitas e é preciso ler muito para poder tomar pé da história e da sociologia da região. Poucos terão interesse ou paciência e muitos seguirão acreditando no mito do gaúcho. Recomendo a série de posts “Por que o Rio Grande do Sul é assim?” do sociólogo Cristóvão Feil para mais informações:

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/i-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/ii-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/iii-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/iv-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/v-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/vi-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/vii-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/09/viii-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/10/ix-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

http://diariogauche.blogspot.com/2008/10/x-por-que-o-rio-grande-do-sul-assim.html

Quanto ao título deste post, é o título de uma letra do músico Leopoldo Rassier. Percebam como o seu conteúdo defende o latifúndio e mistura alhos com bugalhos para, na enganação da “bravura”, exaltar o espírito do capataz subserviente que deve aceitar a grilagem e a “otoridade” dos “senhores de terras”.

A ECONOMIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO III

Nos dois últimos posts, tratei: a) do contexto político, esportivo e econômico que atrai os organismos internacionais para o Brasil, bem como do esperado novo papel internacional do nosso país – ainda sem entrar em questões sociais e midiáticas; b) das iniciativas de expansão da rede social dos clubes de futebol com objetivos comerciais mais vultosos e menos dependentes do oligopólio da mídia corporativa nacional – sobretudo em relação aos direitos de televisionamento; e c) dos principais patrocinadores das principais entidades do futebol mundial e sobre a política de distribuição do faturamento por parte da CBF em relação às seleções e aos clubes.

Ressalto que toda a exposição de dados que constam nos dois posts anteriores carecem de uma análise mais intensa acerca das imbricações sociais e econômicas que perpassam a relação direta entre anunciante, mídia, clubes e federações. A expansão das redes e os acordos mais complexos envolvendo outros tipos de troca (até mesmo junto ao Poder Público e a outros grupos de interesse privado em negócios particulares dos executivos do futebol em diversos outros setores) merece uma análise muito mais complexa que demanda tempo. Mas isso será feito.

Em função de tudo o que já foi dito, a crescente credibilidade do Brasileirão resulta de um calendário claro e de uma fórmula de disputa simples, que facilita sobremaneira a sua comercialização. Na temporada de 2009, ocorreu um fator inverso de atração de patrocínio, público e de visibilidade do Brasileirão no exterior: ao invés do simples êxodo de nossos jogadores mais jovens para o exterior e do corriqueiro retorno de jogadores veteranos que pouco ou nunca tenham passado pela Seleção e de jogadores que haviam “desaparecido” em campeonatos obscuros dos pontos-de-vista técnico e midiático (muitos deles tendo passado por lesões graves e cirurgias delicadas em uma ou mais articulações), houve o caríssimo retorno de duas celebridades de indiscutível capacidade técnica, cujo carisma e reputação internacionais superam quaisquer fases de queda de rendimento: Adriano para o Flamengo e Ronaldo para o Corinthians. Não raro, os clubes das duas maiores torcidas do país, das duas maiores cidades brasileiras e ambos como os únicos clubes nacionais que possuem o mesmo fornecedor de material esportivo da Seleção Brasileira. Ronaldo foi peça-chave nos títulos Paulista e da Copa do Brasil (que rendeu ao Corinthians uma vaga à próxima edição da Copa Santander Libertadores em 2010, ano do centenário do clube) no primeiro semestre, assim como Adriano tem sido o principal goleador e o grande pivô da inesperada ascensão do rubro-negro carioca rumo ao G4 – e, quem sabe, até mesmo ao título.

Apesar da importância dos resultados de campo de cada clube a fim de que o mesmo mantenha-se em alto nível nas disputas, outro fator de atração de torcedores para o consumo material, simbólico, presencial e midiático dos produtos relacionados ao futebol é a solidariedade diante da miséria: assim como o Palmeiras e o Botafogo em 2004, o Grêmio em 2005, e o Corinthians em 2007, o Vasco de 2009 tem tido um apoio formidável, tendo lançado um plano de sócios nos moldes dos bem-sucedidos planos do Grêmio e do Internacional, que faz dos dois clubes gaúchos dois entes cada vez menos dependentes das verbas da televisão ao julgarem ser possível obter uma exposição e rendimentos mais vantajosos do que aqueles ora proporcionados pela Globo.

Com isso, os clubes estão-se tornando mais criativos e passam a investir cada vez mais em marketing e comunicação: vários clubes do país já possuem rádios e TVs vinculadas ao próprio site oficial enquanto também procuram conhecer melhor o seu associado através do uso de redes sociais na internet, como  é o caso do EXÉRCITO GREMISTA que – aos poucos – tem feito um uso crescente e estratégico das mídias sociais (blogs, comunidades no Orkut, canais de vídeo no You Tube e de fotos no Flickr) a partir de um conjunto de ações coordenadas entre os departamentos de Marketing e Comunicação e de TI (informática) do clube.

Retomando a importância da expansão da rede de contatos com vista ao incremento do consumo; da menor dependência ao oligopólio da mídia corporativa nacional; da obtenção de novos patrocínios, de financiamentos públicos, de mudanças favoráveis na infraestrutura viária e em alterações favoráveis à valorização de seu patrimônio imobiliário em suas respectivas cidades, os clubes movem-se ora em conjunto (Clube dos 13), ora individualmente. No caso do Grêmio, o ex-presidente (1987-1990 e 2005-2008) e deputado estadual Paulo Odone (PPS; aliado do Governo Yeda Crusius – do PSDB – no RS e do prefeito José Fogaça – do PMDB, com breve passagem pelo PPS – em Porto Alegre) é secretário estadual extraordinário da Copa 2014 em Porto Alegre; o conselheiro do clube e ex-membro do Conselho de Administração (2007-2008) Eduardo Antonini é o vice. Já a secretaria extraordinária municipal da Copa 2014 em Porto Alegre é exercida pelo vice-prefeito e conselheiro do Grêmio José Fortunatti, do PDT (ex-PT). Os ministérios dos Esportes, das Cidades e a Casa Civil (pasta da candidata a presidente em 2010 Dilma Rousseff – ex-PDT, hoje PT).

Recentemente, o diretor de Marketing do Grêmio, conselheiro Cesar Pacheco, deu CTGs (Cartões de Torcedor Gremista) ao presidente da CBF Ricardo Teixeira e ao presidente de honra da FIFA João Havelange.

Não por acaso, o estádio José Pinheiro Borda (mais conhecido por Gigante da Beira-Rio) do Sport Club Internacional – subsede de jogos da Copa 2014 em Porto Alegre – enfrenta um processo judicial que o impede de negociar seu valioso terreno do antigo estádio dos Eucaliptos a fim de obter fundos para as obras exigidas pela FIFA a fim de poder sediar competições internacionais de alto padrão. O deputado estadual Beto Albuquerque (PSB), conselheiro do clube e assessor do presidente colorado Vittorio Piffero (um ator significativo no setor da construção civil gaúcha) está pleiteando um empréstimo a juros baixos com um prazo de carência e quantidade bastante generosa de prestações junto ao BNDES cujo interesse inicial beneficiaria apenas aos únicos três estádios particulares do país (além do Beira-Rio, beneficiar-se-iam também o Cícero Pompeu de Toledo – o Morumbi – do São Paulo Futebol Clube e a Arena da Baixada, do Clube Atlético Paranaense).

Nessa mesma toada, o Grêmio depende da aprovação de um empréstimo para a construtora OAS (vinculada à família Magalhães da Bahia) e da aprovação definitiva do aumento no índice construtivo da área ocupada pelo Estádio Olímpico Monumental desde 1954, a fim de poder entregar esse terreno hipervalorizado como interessa à OAS, para construir a tão falada Arena do Grêmio no bairro Humaitá.

Todos esses acordos políticos e comerciais alteram a identidade e o fluxo urbano (comércio, indústria, escolas, hospitais, praças, transporte coletivo, transporte privado e meio ambiente). Diversas entidades de bairro questionam esses projetos que, por jurisprudência, poderão permitir a liberação da construção de prédios residenciais com 10, 15 ou até mesmo mais de 2 andares em bairros onde o atual Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental (PDDUA) de Porto Alegre atualmente não o permite.

A mídia de massa tem minimizado o impacto de todas essas transformaçõs iminentes em Porto Alegre sem que haja a possibilidade de pensar-se em um desenvolvimento econômico e social alternativo. Essa suspeita recai sobre o Grupo RBS em função de dois fatores: primeiro, porque ele possui uma construtora de imóveis para a classe A chamada MAIOJAMA ; segundo, porque a maior lucratividade do seu caderno de classificados parece vir exatamente dos anúncios de imóveis novos e usados feitos por imobiliárias e construtoras.

MÁRIO SÉRGIO NUM PÉ SÓ (ATÉ DEZEMBRO)

O Tradicional Adversário deve exigir um profissional diferente daquele que trabalhou no Grêmio em 2005. Senão...

O Tradicional Adversário deve exigir um profissional diferente daquele que trabalhou no Grêmio em 2005. Senão...

INTRODUÇÃO

Não perderei o teu tempo comparando alhos com bugalhos. Normalmente, não gosto de falar sobre a situação do Tradicional Adversário. Mas, dada a emergência de um procedimento inusitado para o atual estágio do Brasileirão 2009,  a discussão é válida. Vamos conhecer um pouco mais sobre MÁRIO SÉRGIO PONTES DE PAIVA.

Tinha apenas seis anos de idade quando o T.A. foi campeão brasileiro pela 3ª vez em 1979. Muitos dizem que ele foi a laranja do Campari on the rocks fragário naquela ocasião, ao ter sido repatriado após uma temporada junto aos leprosos do Rosario Central (ARG). Os amigos do Impedimento talvez devem conhecer melhor tanto o auricelureo quanto um histórico mais acurado do então boleigo de língua pguesa

Mas vamos falar do que EU lembro – do Máguio Ség-gio campeão do mundo em 1983 no Grêmio: um profissional veterano, maduro e de uma visão de jogo fabulosa. No nosso caso, ele realmente foi um diferencial necessário em relação ao time que conquistara a nossa PRIMEIRA (temos mais de uma) Libertadores: para o Tricolor dos Pampas, representou o pêssego do Bikini Martini.

Mário Sérgio teve a mesma (in)felicidade de Muricy Ramalho: assim como o atual melhor técnico do futebol brasileiro, o “Vesgo” também recebeu muito menos chances na Seleção do que seu futebol o habilitava a ter recebido. O trinômio “tempo certo, lugar certo e parcerias certas” não foi muito generoso com o habilidoso baiano, pois ele ainda era muito guri no auge de Ademir da Guia, Pelé e Rivelino; surgiu na pouco expressiva Bahia; e, já adulto, não pode disputar vaga com Zico e Sócrates, os ídolos da megalópole e dos dois clubes de maior torcida do país.

No T.A. e no Grêmio, obteve a chance de entrar para a história.  Apesar dos maiores títulos e do maior reconhecimento popular de sua carreira terem se dado justamente em sua passagem pelo RS, enganam-se aqueles que acreditam que teria tido menos notoriedade caso não tivesse passado pelos dois maiores clubes brasileiros situados abaixo do Trópico de Capricórnio: sua técnica refinada rendeu-lhe QUATRO Bolas de Prata (1973, 1974, 1980 e 1981).

Na década de 1990, foi o melhor comentarista futebolístico da TV brasileira na Band. Sempre que o narrador Silvio Luiz anunciava a sua participação, dizia: “Mário Sérgio Pontes de Paiva: aquele que conhece porque já esteve lá”.

Como técnico, não obteve nenhum título expressivo. Por mesclar atividades distintas sem um foco, também não teve continuidade na atividade de timoneiro de equipes. No Grêmio da Série B, foi um diretor de futebol muito bem remunerado durante seis meses. Seu maior erro foi ter posto seu filho – um agente de jogadores – a distribuir nulidades a rodo no Olímpico.

Chegar cheio de disposição com um discurso forte é normal – nem que para isso precise atochar um pouco dizendo que “SEMPRE” que trabalhou aqui no sul foi vitorioso. Seja para um “mandato-tampão” ou não, Fernando Carvalho preferiu apelar para a mística de que “há 30 anos, Mário Sérgio foi campeão brasileiro pelos fragários”.

Não desejo o mal para ninguém. Mas, por favor, não peçam que eu deseje “sorte” para MS no T.A. Afinal de contas, não possuo essa grandeza…

BANANAS CARAMELADAS, RACISMO E SEXISMO

Todo fardamento fruto de uma viagem que extrapola as cores oficiais tira a identidade do clube.

Todo fardamento fruto de uma "viagem" que extrapola as cores oficiais tira a identidade do clube.

Meu querido amigo Paulo Pinheiro Gomes Jr., natural de Piratini, a primeira capital do RS e professor de Jornalismo da UNISC, tem um ditado fantástico:

GOSTO NÃO SE DISCUTE: APENAS LAMENTA-SE.

Sei que nos corredores de La Bananera, dirigentes e torcedores recitam um patético mantra sempre que desejam incluir o Grêmio no assunto: “clube pequeno”, “time segundino”, “bananas de pijama”, “Gaymio”, “Coligay“, etc. Pior: a prática sexista por parte da direção colorada é, sim, institucionalizada!

Meus conhecimentos de Psicologia e de Biologia podem não ser os mais profundos e nem os mais sofisticados. Os de Sociologia são um pouquinho melhores. Mesmo assim, acho que aprendi alguma coisa. Nunca o suficiente, mas, para efeito deste post, serve.

Quando o amigo recente Carlos Josias desvelou o conceito de “macaco” e de “macacada”, ficou claro que não há mais o predomínio do racismo nessa relação corneteira entre gremistas e fragários. Porém, há na mídia guasca algumas tentativas de criminalização gratuita e oportunista contra o Grêmio. Isso faz com que tenhamos de perder tempo tentando nos defender. No fundo, acho que é isso o que eles querem…

Sendo o apelido e a analogia frutos da ironia e da jocosidade típicas da irreverência, mesmo que eles tenham como intenção valorizar o seu clube do coração e desdenhar de nós, o Pan troglodytes é um antropóide que, além de ser física e emocionalmente muito parecido com o Homo sapiens,  caracteriza-se pela imitação – não apenas dos humanos e não só por uma questão de instinto mas, sim, porque é assim que demonstra que aprende a partir da experimentação.

Dado o extremo conservadorismo, a elitização e a origem basicamente teutônica do Grêmio, é possível, sim, admitir-se uma grande dose de racismo durante suas primeiras décadas. Acho que não se pode defender o indefensável e nem tampouco taparmos o sol com a peneira. Todavia, seja por necessidade, seja porque algumas almas progressistas começaram a atuar dentro do clube, esse sentimento foi dissipando-se paulatinamente.

Por outro lado, poder-se-ia dizer também que o fato de os coloridos (vide camiseta acima; colorado é vermelho e branco – se adicionar uma cor qualquer, fica colorido) proferirem cânticos sexistas em função do Grêmio ter tido a torcida Coligay nos últimos anos da década de 1970 e no início da década de 1980 representa o mesmo nível de intolerância, de desrespeito, de discriminação e de distinção baseados não em aquisições e em qualidades obtidas mas, sim, unicamente pela aparência física e pela escolha daquilo que cada um quer fazer consigo mesmo.

Nos meus tempos de adolescente, quando me encantava com as canções bagaceiras das torcidas organizadas de então, uma coisa me marcava nos clássicos. A torcida deles cantava em coro algo muito feio:

“GREMISTA NEGÃO SÓ PODE SER PUTÃO!”

Vejam bem: de maneira velada, o senso comum da maioria dos colorados procurava segregar e legitimar duas aberrações.

A primeira delas: a de que negro só pode ser colorado porque o Grêmio “é” racista.

A segunda: a de que homossexuais “só podem” ser gremistas porque as manifestações de gêneros não-hetero supostamente não ocorriam de maneira explícita.

Se partirmos para uma análise mais fria dessas premissas, em pleno final do século XX e início do século XXI, tais sentimentos hoje felizmente ilegais e socialmente condenáveis são praticados escancaradamente muito mais pelos colorados do que pelos gremistas.

Portanto, se alguém quiser criminalizar ou tão-somente categorizar a palavra “macacada” proferida por um gremista como racismo ou como tentativa de considerar os colorados como uma “espécie inferior”, creio que a maldade, a ignorância e a estupidez estão nos olhos e na voz de quem interpreta essa questão de maneira mesquinha e oportunista. Eu, particularmente, não vejo assim. Todavia, não se pode negar que, dependendo de QUEM e COMO se refira a essa questão, pode, sim, representar manifestações isoladas e sinceras de racismo por parte de alguns gremistas.

Da mesma forma, é impossível não haver nenhum LGBT em família alguma. Afinal de contas, estima-se em pelo menos 10% a quantidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no planeta. Quando se fala em “veadagem” nos lados do Beira-Rio, parece que a insistência nesse tópico diz respeito a uma projeção a partir da negação: “Aqui também tem, mas ninguém pode ficar sabendo. Então, vamos insistir em falar sobre os que tem no lado de lá. Assim, ninguém vai discutir os que temos no nosso lado.” Veja aqui como todos tem o telhado de vidro (rolem a página até “Não é só o Grêmio, o Colorado e outros times também têm suas torcidas-gay! Mas, e daí?”) – aliás, isso não é e nem deveria ser visto como um “problema”…

Em termos explícitos e práticos, a intolerância institucional por debaixo dos panos dentro do Grêmio encerrou-se há algo entre nove e seis décadas atrás. Já por parte dos colorados, houve uma lamentável compensação que ainda persiste e que iniciou-se justamente quando eles não precisavam de NENHUM subterfúgio de autoafirmação, isto é, a partir da década de 1970, quando eles tinham um estádio novo e grande e quando conquistaram três títulos nacionais de maneira acachapante.

Enquanto isso, vejo mais negros nas sociais do Olímpico do que meus amigos veem nas sociais do Beira-Rio. Enquanto isso, o Grêmio já pôs talvez a maior proporção de mulheres por homem dentro do seu estádio em um jogo oficial de futebol no último Dia das Mães. Meu amigo Guga Türck deve estar certo quando diz que isso deve ser inédito em nível MUNDIAL (fato esse que foi lamentavelmente ignorado pelo nosso marketing).

Enfim… Termino este post sinceramente triste pelo fato de que o outrora clube de “elite”, de “gente metida”, de “alemães racistas”, “que passa de pai para filho há 106 anos”, está hoje infelizmente empobrecido financeiramente em função de péssimas gestões recentes.

Termino este post francamente inconformado em função do senso comum adversário negar que também possui uma origem germânica e que tornou-se tão hipócrita e arrogante a ponto de não admitir suas próprias contradições. Afinal de contas, a formação sociocultural de AMBOS os clubes é extremamente parecida.

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