Não vou ao estádio José Pinheiro Borda para assistir a uma partida de futebol do meu Grêmio desde o ano de 2003. Nesses sete anos, pode-se dizer que a única nesga de sucesso que deixei de vivenciar na casa do Tradicional Adversário foi o gol de empate de Pedro Júnior no título de 2006, num empate por 1×1.
Hoje, nem fiquei incomodado de não ter assistido ao clássico pela TV onde quer que fosse, com a companhia que fosse. Afinal de contas, os três últimos cotejos que combinei de assistir em algum espaço público ou privado de uso coletivo entre a maior força do universo (o Grêmio Football Porto-Alegrense – nome escrito em inglês e português corretos, respectivamente) e aquele clube de vermelho que demorou penosos e quase intermináveis 26 anos para nos imitar em termos de feitos relevantes e de vivência de brilho tiveram resultados infelizes.
Por duas vezes, no simpático porém exageradamente escuro, de péssimas cadeiras e de um cardápio limitadíssimo Museu do Esporte, perdemos. A terceira tentativa, em um trailer em terreno coberto na Carlos Barbosa muito próximo ao Olímpico, repetiu a dose. Por ser alguém que preesenciou incontáveis decisões dentro de casa ao vivo tendo como grandes derrotas em decisões apenas as perdas de título da Copa do Brasil de 1995 e da Libertadores de 2007 (meu pai não quis me levar e tampouco permitiu que meu avô me levasse tanto à final do Brasileirão de 1982 como ao jogo de ida da Libertadores de 1984), obviamente, o pé frio não sou eu.
Enfim… Por tudo isso (e também por confessar que estava prevendo o pior em função da everestiana sopa para o azar que foi não termos vencido também o segundo turno do Bovinão 2010), achei até boa a ideia de ir a um aniversário infantil em Canoas, debaixo de todo o caldo que deitou durante quase todo o domingo na Grande Porto Alegre. @heliopaz e @lubelskina lá se foram, munidos de seus respectivos celulares com radinho FM.
Estávamos em uma casa de colorados. Vim a saber mais tarde que o pai do menino queria ter estendido uma bandeira do T.A. no salão. Talvez por não ter-se atido ao fato de que era o primeiro aniversário do seu filho mais novo, mencionou essa hipótese sem medir as consequências de uma possível derrota. Sabiamente, sua mulher funcionou como uma doce ombudswoman, assim como a minha o faz quando estou a passar dos limites.
O amigo Saulo ouviu, então, de sua Taline:
– ACHO MELHOR NÃO…
Claro que, além de comer e de demonstrarmos uma certa assertividade junto de várias pessoas pouquíssimo conhecidas por mim, todas colegas ou parentes de colegas de trabalho da minha Lu, foi absolutamente impossível desligar do clássico: passei todo o tempo com o rádio nos ouvidos. Felizmente, longe de passar por antipático: afinal de contas, muitos ali me perguntavam a todo instante quanto estava o jogo e, mesmo com o Tricolor na cabeça e no coração, conversei animadamente com algumas pessoas bastante simpáticas, além de uma menininha encantadora a quem nunca neguei a atenção, pois adoro crianças.
A narração do rádio muito mais me empolgou do que me assustou. Bem ao contrário do meu sentimento pessimista, derrotista e depressivo dos últimos 10 dias (interrompido por uma confiança que jamais se abalou contra o “Hawaii” nem em Palomas e menos ainda em “Honolulu”), o HOJE – que era o que realmente interessava – mostrou-se surpreendentemente sereno.
Fiquei maravilhado com o relato sobre o menino Neuton; sobre a minha indelével e quase inacreditável confiança de que Borges e o ex-gordo Roca decidiriam o jogo. Claro, não serei hipócrita de desdizer a verdade: o sentimento foi-se consolidando durante a partida, jamais antes dela. E muito feliz fiquei com a consolidação da estrela do zagueiraço Rodrigo e de #ficavictor, a nossa MURALHA – de cujo poder em decisões no estilo lá e cá cheguei até a desconfiar.
Pois bem: normalmente, aconteça o que acontecer, não costumo cultivar o hábito de ligar para ninguém após o jogo. Não que ache isso intrusivo ou pé frio: simplesmente não tinha essa cultura. Meu pai e meu irmão nunca foram assim nas vitórias. Somente meu avô o era. Foi o Vô Edegar a primeira pessoa a ligar lá pra casa quando o Grêmio recém havia sagrado-se campeão mundial interclubes em 11/12/1983 em Tóquio. E quem o atendeu fui eu, aos 10 anos, ouvindo-o cantar o nosso hino lupicianiano.
Muito por eu achar que Gauchão é para quem precisa, há pelo menos uma década o considero um campeonato inexpressivo e altamente arriscado, pois não oferece nenhum parâmetro minimamente aceitável acerca do real desempenho do Grêmio, além de tomar quase cinco preciosos meses do calendário anual, reduzindo o espaçamento entre datas para Libertadores, Sul-Americana, Copa do Brasil e Brasileirão, além de arriscar meniscos, ligamentos, tendões e fíbulas de nossos caros gladiadores.
Por eu considerar mais interessante e mais justo em todos os sentidos um campeonato de ida e volta por pontos corridos e sem nenhuma fase “mata-mata” nem divisão dos clubes em grupos, também considero os clássicos como jogos de três pontos tão preciosos e fundamentais quanto quaisquer outros. Embora tenha-me criado com o imaginário de que a batalha das batalhas seria contra eles e que o inimigo atávico seria sempre aquele clube que dista a menos de 2 Km da nossa atual casa, por mais expectativa, paixão, flauta, corneta e adrenalina que este clássico tenha, já passei da fase de querer matar ou morrer em função do seu resultado.
Hoje, em especial, as condições adversas me forçaram a um comedimento na comemoração. Acabei então apelando para um torpedo em série, disparado para meus queridos amigos Bernardon, Fábio, Josias e Marcos. Mas não sem antes tocar uma flauta antes mesmo do jogo terminar para o celular de trabalho de um grande irmão, o Alexandre Corrêa, assessor de imprensa deles.
Ora, como poderia me esquecer de homenagear o corneteiro-mor, aquele que faz da chatice do Kenny Braga um mero zumbido de mosquito em uma suada madrugada de verão no meio do mato?!
Isso posto, mal chegamos em casa e a preocupação era esperar pela mesa de debates sobre o jogo: entrevista com o menino Neuton, chiadeira em relação à atuação deles, menos tempo dedicado às nossas qualidades, compacto, várias leituras na internet.
Vou dormir feliz. A segunda-feira que se avizinha vai exigir a correção de 18 provas dissertativas, a ordenação dos grupos de apresentação dos trabalhos nas duas aulas finais do trimestre, a busca de referências bibliográficas consistentes e a leitura do texto que meus dois orientandos me apresentaram até agora. Isso sem contar o agendamento do primeiro encontro com o aluno da tutoria.
Aliás, compramos até os ingressos para a seção das 21:40h de Alice no País das Maravilhas, do genial diretor Tim Burton, com o meu alter ego Johnny Depp no papel do impagável Chapeleiro Maluco justamente para a próxima quinta-feira, pois pensava que Fluminense x Grêmio não seria nesta semana.
Como o jogo é pela tevê e o Grêmio tem-se dado muito mal no Maracanã ultimamente, pode ser que não decida trocar o ingresso para o sábado.
Domingo tem o probabilíssimo título bovino no Olímpico lotado. Dessa festa, jamais me ausentaria. E na semana que vem, tem a presença obrigatória para o jogo de volta contra o mesmo Flu (agora perigosamente ramalhano).
Mas, enfim… Como deixar de lado o nosso Tricolor, mesmo pela TV e mesmo em condições pra lá de adversas?!
A minha bipolaridade e o meu julgamento das pessoas em função do momento pode fazer de mim um incoerente ou um oportunista – jamais um mau caráter ou um incompetente. Mas digo que, em função deste clássico, agora, sim, passo a crer na teimosia do presidente Duda em relação a Meira e Silas.
Por que digo isso menos de dois dias após ter tuitado algumas das hashtags mais clássicas dos meus tuítes de 2010 pela última vez até a próxima ameaça rotunda de insucesso gremista? Ora… Porque, concentrando todas as minhas energias no clássico ou não, é inegável que, ao menos no subconsciente, eu sempre quero crer no mito de que “grenal arruma ou detona a casa de vez”.
Muito se tem dito sobre Duda: uns o chamam de playboy; outros, de omisso; outros, de pé frio; outros, de incompetente. Eu, mesmo, um apoiador da sua gestão e um associado que senti uma grande empatia pelo presidente em nossos três breves contatos presenciais até aqui, fiquei fora de mim quando ele endossou Meira na demissão de Paulo Deitos. Ainda questiono MUITO o aproveitamento abaixo do necessário dos meninos da base e a contratação e uso de algumas peças que nunca me transmitiram a menor firmeza em jogo. Fiquei possesso quando da omissão em relação aos desmandos da nossa polícia bandida dentro da nossa própria casa.
No entanto, apesar da falta de títulos e de investimentos que, até o momento, ainda não nos deram o resultado que deles se espera, Duda é honesto. Duda é transparente. Duda tem um papo assertivo. Mas mais do que isso, Duda tem, sim, personalidade. E ele conseguiu não apenas vencer o Grenal do Centenário como venceu hoje, quando tudo parecia dar para trás após a derrota para o Pelotas nas quartas de final do 2º turno.
Hoje, a vitória teve um sabor especialíssimo: primeiro, porque encaminhou o título. Segundo, porque choveu cântaros. Terceiro, porque foi na casa deles. Quarto, porque os deixa tomados pelo medo de serem eliminados na Libertadores. Quarto, porque nos dá uma confiança elevada ao cubo para a sequência da Copa do Brasil…
…E quinto porque, desde o longínquo ano de 1993 (vejam só: eu tinha apenas 20 anos e era estudante universitário naquela época!), o Grêmio não vencia um clássico em decisão dentro da casa deles.
O Grêmio está mudando um pouco de perfil. Creio que para melhor e sem deixar os tradicionais rótulos da garra e da imortalidade de lado: desta vez, sem contarmos com nenhum brucutu entre os titulares e entre os reservas imediatos, temos levado poucos cartões. Nosso volume de jogo agora passou a ser, na média, maior do que o de nossos adversários. Paramos de jogar nos contra-ataques ou de depender mais de jogadores cuja única qualidade é o coração: agora, o coração tem qualidade.
E é pelas beiradas que espero que as coisas se sucedam até podermos terminar a temporada com um final feliz.

