Grande parte dos argumentos de Juan Luís Cebrián, diretor do jornal espanhol EL PAÍS, entrevistado da Cris Rodrigues no Somos Andando possuem um imenso valor – sobretudo por ele ainda conseguir ser tão crítico e analítico em relação às transformações radicais que a sua indústria (mídia impressa) tem sofrido em tão pouco tempo sem fazer uma defesa “parnasiana” à indústria do jornal em papel. Portanto, trata-se de um homem de negócios bastante honesto e interessado em evoluir permanentemente para não ter que fazer como a Carolina de Chico Buarque – coisa rara nesse meio. Justamente por causa dessa observação, me surpreendo negativamente ao ver professores de Jornalismo antigos ainda falando única e exclusivamente em mídias analógicas per se: afinal de contas, o contexto socioeconômico e cultural que atravessa e é irreversivelmente atravessado pelas TIC não facilita de maneira alguma a sobrevivência mercadológica do modus operandi fordista, que separa as redações em linhas de montagem e faz do departamento comercial e dos editores gatekeepers de alcance extremamente limitado em função da amplitude de pautas e de visões possíveis acerca das mesmas pautas.
No livro Uma História Social da Mídia de Asa Briggs e Peter Burke (leia, pois ele abre portas), eles falam sobre todas as (r)evoluções industriais. O paralelo que os autores estabelecem entre as (r)evoluções nos transportes e nas telecomunicações é absolutamente coerente e temporalmente quase simultânea.
Esse mesmo paralelo serve para a Economia, a Administração e o Marketing explicarem por que um determinado modelo industrial é superado por outro. Por exemplo: quem tinha uma indústria de trens e fomentava uma economia baseada nas estradas de ferro e definia o seu core business (negócio prioritário) como “indústria de trens movidos por motor a vapor” normalmente sucumbia, pois tinha como valores e objetivos a manutenção dessa indústria. Por outro lado, aqueles que entenderam que estradas para veículos com pneus e movidos por motor a combustão não seriam o seu fim e poderiam competir contra os novos players (atores) introduzindo a sua expertise (conhecimento) no ramo de TRANSPORTES EM GERAL também puderam prosperar.
Em função disso, creio que a grande possibilidade não apenas de sobrevivência como também de valorização do jornalismo impresso direciona-se para duas possibilidades já observadas no mercado:
1) Assim como tem ocorrido com as revistas, os jornais também tendem a aderir à hipersegmentação de veículos independentes financiados por patrocinadores de nicho e vendidos por um valor diferenciado para um público bastante especializado em uma ponta;
2) Na outra ponta, patrocinadores mais – digamos – “massivos” irão bancar jornais mais genéricos como os secularmente produzidos pela mídia corporativa, porém com uma tiragem menor e com o privilégio do design como forma de valorizar a informação;
3) O jornal e a revista aproximar-se-ão em termos morfológicos e de uso ao serem portados para tablets sob a forma de aplicativos com interfaces e funções diferenciadas de acordo com o interesse do editor a partir dos resultados de uma sociabilidade efetiva junto a seus antigos consumidores e, agora, interagentes, que são também produsers em ambientes digitais semelhantes encontrados em outras mídias sociais;
4) Em um grau de interface menos elaborada, mais leve e mais barata para se compartilhar, prevalecerá o formato e-book: PDFs de fácil navegação, mesmíssimas dimensões físicas e layout idêntico ao de uma possível versão impressa – provavelmente com o acréscimo de podermos assinalar, fichar e comentar os trechos que considerarmos mais importantes para as nossas necessidades.
Mais acima no texto, conforme brevíssima descrição das transformações sociotécnicas relacionadas à minha compreensão acerca da abordagem de Briggs e Burke (também aí contando com Castells), concluo que a mudança do suporte redefine a economia, a cultura e modifica dramaticamente as relações sociais a partir do modelo de transporte, de armazenagem e de compartilhamento da informação.
Todavia, o sempre contestado e pouco aceito sociólogo italiano DOMENICO DE MASI (O Ócio Criativo, O Futuro do Trabalho, Criatividade e Grupos Criativos vols. 1 e 2) dentro da maioria dos grupos de discussão dentro das Ciências Sociais Aplicadas na academia brasileira salienta que convivemos, dentro de um mesmo país, com culturas extremamente localizadas que fogem da compreensão do cidadão das megalópoles hiperconectadas. Temos então relações informais do ponto-de-vista socioeconômico e cultural que oscilam entre o feudalismo, o coronelismo, a teocracia, o absolutismo, o fordismo e a pós-modernidade (em HARVEY; poderia ser Era Pós-Industrial em CASTELLS ou Modernidade Líquida em BAUMAN).
Esse anacronismo torna necessário compreender que o papel do comunicador é o de tornar o discurso compreensível para cada tipo de público. Logo, torna-se imperioso deixar de lado tanto o discurso luddita (o de que a tecnologia por si causa desemprego, êxodo e obriga a desenvolver habilidades diferentes de uma hora para a outra a fim de não ser excluído) como o tecnófilo (para o qual todo o tipo de aparato tecnológico sempre soluciona por si todas as questões socioeconômicas e culturais rumo a uma evolução constante e pacífica). Com isso, entendo que nenhuma mídia morre mas, sim, vai sendo adaptada ao contexto.
Por que? Porque quem define como, quando, aonde, por que, sob quais condições, com quais liberdades e limites práticos, teóricos e legais um determinado produto é utilizado somos nós, seres humanos. Uma determinada tecnologia só adquire um papel verdadeiramente transformador quando é apropriada de forma a tornar a vida mais fácil a partir de características que proporcionam às comunidades uma conveniência maior, isto é, quando se torna claro que o seu uso irá fazer com que a maioria dos indivíduos supere dificuldades de transporte, de comunicação, de energia, de alimentação, de comércio, lazer, estudo, trabalho, cultura e entretenimento.
Isso posto, o jornal impresso ainda será uma mídia protagonista em uma quantidade incontável de nichos – sendo que, em determinadas culturas, permanecerá durante algum tempo como o principal suporte de informação textual sob os gêneros notícia e opinião.
…Numa época em que o conhecimento é a principal mercadoria do mundo, o design pode projetar, além do produto, sua estratégia. Projetar significado, forma e percurso de produtos, serviços, comunicação e experiência é o que ensinamos.
É sob o aporte teórico acima que justifico este post: o designer polonês JACEK UTKO demonstra que o meio jornal pode sobreviver com bastante valor se a ele for dado o peso de um projeto no qual as regras básicas da Gestalt se sobressaiam à eterna vontade arcaica da má arquitetura da informação secular presente na maioria dos jornais do mundo capitalista de ocupar cada espaço com blocos e mais blocos de texto e com fotos delimitadas e sufocadas. O design de revistas ensina que a valorização do espaço em branco e as preocupações com a similaridade e com a pregnância dos elementos visuais contidos na área útil das páginas (isto é, dentro da “mancha” – gíria para a área do papel que será contida pelo tamanho da máquina impressora) faz parte da comunicação.
A comunicação está cada vez mais longe de restringir-se apenas à mensagem contida no texto associada ou não a imagens e ilustrações: uma comunicação efetiva também é defini-se pela determinação racional E emocional que traz consigo uma bagagem cultural capaz de alterar a relação do interagente com o conteúdo a partir da forma do seu continente.
Indo um passo mais além, design é continente E conteúdo: a fonte, as cores, as formas… A diagramação do texto também é desenho. A diagramação também é mensagem: e uma sociedade retangular, cercada, blocada, fechada, individualista e pouco atraente dificilmente terá condições de ser mais plural se não souber representar visualmente que assim é que deseja interagir: de uma forma fluida, aberta, democrática, inclusiva e multicultural.
Infelizmente, o modo fordista (tanto por parte de quem detém o capital como de quem está subordinado a esses em condição de inferioridade social) e o moral judaico-cristão ainda não entendem o design como constituinte, como conteúdo e continente: a estética e a usabilidade da informação a tornam mais funcional e amplamente mais digerível e, consequentemente, mais fácil de compartilhar. Não é apenas tornar a informação textual e ilustrativa mais bonita mas, sim, mais funcional. E, acima de tudo, o design é informação, não é moldura nem fundo para a informação. O design traz personalidade. O design organiza, o design transforma a maneira de enxergar a mesma coisa.
O design do início do século XX e do período Entre-Guerras é um design eminentemente formal e sóbrio, voltado à durabilidade e à economia de bens escassos. O design pós-moderno voltado ao consumismo é o design da obsolescência programada. E o design que a indústria da mídia analógica precisa é um design que represente a necessidade de o homem contemporâneo transcender os limites de um suporte que não apresenta um modelo de interação mais abrangente do que o um-todos – típico da mídia de massa.
Estética e função caminham juntos: estética não é “frescura” e a função não deve ser sisuda nem pragmática. O design é, sim, ideológico. Porém, a ideologia não deve ser meramente partidária nem financeira mas, sim, um reflexo da sociabilidade cotidiana.
O jornal é moldado por uma indústria fordista. E a informática moldada por organizadores matemáticos de conteúdo e de funções. Faltam comunicadores no design e designers na Comunicação para preenchermos essa lacuna.