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RÁDIO GRÊMIO: PRÓS E CONTRAS

O  surgimento de uma Rádio Grêmio depende da autorização do Ministério das Comunicações e da aprovação do Congresso Nacional para obter a concessão de uma faixa do espectro das ondas de radiodifusão (que funcionam para a transmissão de programas tanto para receptores de rádio como de televisão, pois irradiam sons e imagens).

As ondas de radiodifusão estão no ar. E tanto as riquezas naturais do céu como as do subsolo pertencem à União. Após a comprovação do cumprimento de todos os requisitos técnicos e financeiros exigidos pela Lei das Telecomunicações, a partir daí o aspirante a concessionário passa a depender da agilidade (ou da falta de) da burocracia.

Ouvi falar (mas ainda não tenho a confirmação da certeza dessa informação) que o Grêmio já passou por essa etapa e hoje aguarda pela concessão.

Pessoalmente, eu quero entrevistas e narrações de jogos das categorias de base, programação que também privilegie a participação do associado e a recuperação do acervo histórico do clube. A linha editorial deve ter como tônica a emoção e é preciso defender os interesses do clube. Ela deve funcionar como um contraponto às críticas mal feitas ou às inverdades ditas contra nós.

Mas é preciso fazer uma ressalva: uma emissora do Grêmio, por mais necessária e bem-vinda que seja, também requer uma recepção criteriosa a partir do filtro subjetivo de cada um de nós. Naturalmente, essa rádio tricolor será chapa branca, pois toda a postura de assessoria de imprensa assim o é. Será criado um “campo de distorção da realidade”, no qual a crítica do clube será impossível de ser feita a partir do seu próprio veículo, que tenderá a fazer de conta que os piores momentos se parecerão com um “mar de rosas”. Ao se dar conta disso, ou a parcela mais truculenta da torcida poderá se revoltar contra o patrimônio e contra determinados funcionários e dirigentes com maior facilidade, ou se, por acaso o narrador, o comentarista e o repórter da rádio acusarem algum árbitro de agir contra o clube, haverá provas materiais de montão contra nós mesmos, pois a rádio seria a nossa palavra oficial.

Mas o problema maior será o de que a facção que estiver na Situação dificilmente abrirá o mesmo espaço para quem estiver na oposição poder falar. Da mesma forma, caso haja uma relação de empatia maior do pessoal da oposição com os jornalistas do clube, o que não irá faltar na programação será “fogo amigo”.

Portanto, ainda há tempo pra se pensar muito bem se vale mesmo a pena ter esse veículo a nossa disposição.

O homem é um ser comunicativo. Temos necessidade de ouvir, assistir, ler e de opinarmos acerca dos mais diversos assuntos. A mídia de massa é um formato discursivo que (quando utilizado com critérios transparentes, isonomia e plruralidade) possui o atributo técnico de traduzir discursos vicários dos mais variados campos sociais (jurídico, financeiro, empresarial, religioso, esportivo, acadêmico, político, militar, etc.). Ela nos mantém informados e ajuda a nos orientarmos no mundo em que vivemos.

Todavia, é impossível ser imparcial e é impossível não ser tendencioso: todo homem tem um lado, pois os valores que formam a personalidade de cada um determinam as crenças e as práticas de cada um. Seja por empatia, seja por didática, seja por volume, precisão e criatividade na hora de apresentar a informação, tendemos a acreditar sempre mais em uns e menos em outros. E, em casos extremos, nunca mais assistimos a alguns e acompanhamos apenas outros.

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O PAPEL DA CRÍTICA

Não é nada fácil definir ou categorizar conceitos e práticas sociais. Porém, a despeito de qualquer escola ou corrente científica, darei uma opinião estritamente pessoal. Afinal de contas, todos temos lado – mesmo que nossa defesa ou ataque a algo ou a alguém se dê sob diferentes graus de conhecimento de causa, de conservadorismo ou de liberalismo.

Adianto que não citarei nenhum autor e não me considero profissional da área. Contudo, basta se esmerar na investigação, nas fontes e nos contatos para se tornar um conhecedor minimamente competente. Seja no mundo acadêmico, seja no chamado “mercado” de trabalho, acredito que ler, discutir, ponderar, e investigar não são prerrogativas nem legitimizantes e tampouco deslegitimizantes de parte a parte. Da mesma forma, possuir um título de cientista, um certificado de qualidade ou prêmios homologados por instituições cujas reputações se devem a uma série de fatores aos quais não irei discutir aqui também não garantem qualidade. Concordo que, normalmente, esse conjunto de fatores de reconhecimento gera uma expectativa e valoriza uma marca que, não-raro, costumam ser atendidas. Contudo, nem toda especialização é suficientemente crível, assim como nem toda não-especialização é limitada.

A maior dificuldade da crítica reside da necessidade de um indivíduo dotado de interesses e de conhecimentos que deseja transmitir com uma determinada assiduidade necessariamente ter lado e – na maior parte das vezes em que se manifesta – sentir-se obrigado a escondê-lo.

Independentemente do fato de esse crítico ter que agradar a uma entidade de classe, a um campo profissional ou aos interesses econômicos, políticos e simbólicos de quem quer que seja, enquanto houver audiência, ele também estará agradando a si mesmo. Afinal de contas, o seu lugar estará garantido, a sua palavra estará sendo espraiada e ele terá também um retorno financeiro.

Duro é o próprio crítico crer em imparcialidade e em isenção: caso ele mesmo creia nesses valores utópicos, será ou oportunista, ou ingênuo. Afinal de contas, todos temos valores. Neste caso, os valores são emocionais, sentimentais e percebidos. Logo, são subjetivos, graduados e categorizados em função de nossas expectativas e interesses. Ora, se defendo e ataco a uma série de questões de diferentes formas e com diferentes motivações, por mais honesto, justo e bem informado que seja, é impossível que eu deixe de transmitir meus próprios valores ao comentar essas questões.

Muitas vezes, sequer conseguimos definir a nossa própria coerência. Desde que se escreva bem e se saiba sobre o que estamos falando, existe uma margem de posições e de opiniões divergentes, incoerentes e contraditórias que não chegam sequer a arranhar a credibilidade do crítico.

A crítica pode, sim, ser feita por alguém que não vivencia uma determinada prática. Porém, é fundamental que a observação da prática e o contato frequente com quem a executa e vivencia devem ser constantes. Seja jornalística, acadêmica (ou sob a tônica de qualquer outro ambiente de discussão, de debate ou de arguição existente), a crítica não perde a sua legitimidade quando não é feita por alguém diplomado ou com registro profissional.

Por mais contraditória que pareça a afirmação acima, quem garante que um crítico seja um competente executor?

O futebol está repleto de exemplos que apóiam essa hipótese: por acaso alguém como o jornalista Wianey Carlet teria condições de ser dirigente, técnico, atleta ou político envolvido com futebol?

Independentemente do juízo de valor que se faça acerca da capacidade e da credibilidade de Wianey, ele recebeu um papel que gosta de desempenhar. A marca do seu empregador (RBS) acumula um capital social que não apenas facilita a exposição da opinião de Carlet como também a legitimiza. De uma maneira bastante simplista, assim como o eslógão publicitário consagrado afirma a respeito de uma determinada categoria de produtos que “Se é Bayer é bom”, até determinado ponto, pode-se tentar uma associação lógica cuja pressuposição básica é: “Pela RBS, o Rio Grande se vê; se Wianey é da RBS, ele é o espelho do Rio Grande”; logo, como também sou do Rio Grande, também me vejo nele”.

O crítico não precisa atingir a todos nem tampouco a uma maioria para ser considerado bom. Acredito que, além da exposição midiática facilitada e legitimada pela mídia corporativa, há ainda outros elementos envolvidos nesse processo de credibilidade.

Um dos fatores menos respeitáveis é o “chute”. A maior parte da audiência espera uma palavra especializada porque possui certas carências no momento de formar a sua própria opinião: ou as pessoas estão atrás de uma opinião diferente acerca de um determinado tema do qual já tomou conhecimento a partir de outras fontes, ou estão perdidas e precisam de uma única posição um pouco mais complexa ou mais eloquente para adotarem (ou não) uma determinada ideia. Se por acaso optar por palpitar mais do que buscar informações profundas e divergentes a fim de ponderar sobre elas na emissão de um parecer, então o crítico dependerá da sorte dos dados, das cartas ou dos búzios para que possa acertar muito mais do que errar e, assim, manter e até ampliar o seu capital social.

O chute sistemático não é crítica: afinal de contas, está-se ponderando ou emitindo um parecer acerca de algo baseado em que?

O jornalismo como um todo padece de dois males. O primeiro, já foi citado no início deste texto: é a dependência comercial de quem financia a estrutura que garante o espaço e a remuneração do crítico. Contra quem põe o pão na mesa, raramente se investiga. Raramente se denuncia. Raramente se compara. Raramente se critica. Normalmente, ou se elogia, ou dá-se um jeito para incluir o eslógão, o nome, o produto ou o que alguém relacionado à empresa ou ao produto do anunciante em alguma nota.

Puxa-saquismo e assessoria de imprensa não são crítica e (para ser ainda mais profundo, polêmico, radical e crítico) pra mim não são sequer jornalismo: essas duas categorias assemelham-se por possuíram um discurso baseado na informação incompleta besuntada com vaselina líquida para um consumo supostamente prazeroso e – mais supostamente ainda – sem grandes preocupações futuras. A técnica de redação é jornalística. Porém, se jornalismo for considerado acima de tudo como apuração completa de versões divergentes com o mesmo espaço para ambas, investigação corajosa e minuciosa e denúncia baseada estritamente em fatos cronológicos devidamente documentados, publicidade, relações públicas e assessoria de imprensa não são jornalismo.

Ainda, a crítica não pode ser misturada nem mesmo de maneira sutil à notícia. O grande mal da inescapável sociedade midiatizada é a má leitura, que acarreta na pior interpretação possível. O que o texto diz e o que o texto faz deveria ser, mas não é a mesma coisa: o efeito causado é completamente diferente em função da assimetria social gerada não apenas pelos valores subjetivos como também pela péssima escolaridade.

Muitas pesquisas acadêmicas na área da crítica das práticas jornalísticas concluem que a esmagadora maioria dos especialistas convidados a opinar é solicitada com muita frequência e sem a posição contraditória de um outro colega para que a audiência possa confrontá-la. Quando o contraditório se faz presente, o editor infelizmente costuma desqualificar a posição cujos valores não condizem com os valores do dono do veículo e de seus patrocinadores. A omissão, a supervalorização e a minimização acerca de A ou de B necessariamente compõem um juízo de valor pré-determinado mais pela maneira de dizer e pelo que se deixa de dizer do que propriamente pela percepção do conjunto desse conteúdo.

Independentemente da visão de mundo de cada crítico (que, por sua vez, é determinada pela visão de mundo da sua audiência mas, sobretudo, pela de seus patrocinadores e de quem o mantém no ar), seja ou não por má-fé; seja ou não por ignorância, a maioria faz proselitismo. E quem cumpre melhor o papel de “isento”, de “equilibrado”, de “plural” e de “imparcial” é quem prevalece.

Toda informação, para poder ser compreendida por uma grande quantidade de pessoas não-especializadas em uma determinada área do conhecimento ou distantes de um determinado fato, precisa ser despida dos jargões técnicos a partir de uma competente tradução técnica para uma linguagem comum. O BOM jornalismo é a técnica que determina essa linguagem comum, cuja grande virtude é ser capaz de trazer para o cotidiano leigo da maioria uma série de discursos que, anteriormente, permaneciam guardados a sete chaves pelos cânones dos rituais, das cerimônias e dos vocabulários ultraespecializados.

O campo dos mídias é o único que possui a capacidade de absorver a discursividade dos demais campos sociais (médico, militar, político, esportivo, cultural, científico, etc.), de aprender com eles e também de deixar um pouco de si em cada um desses outros campos. Todavia, o jornalismo, por mais especializado e tecnicamente correto que seja, jamais terá condições de absorver tudo. Jamais será capaz de traduzir tudo.

O jornalismo corporativo caracteriza-se por contar UMA ÚNICA VERSÃO de cada história. E, por mais que os jornalistas persigam a imparcialidade, a isenção e a verdade, nenhum desses três predicados realmente existe.

Eu conto a história que eu quiser com a prioridade que eu quiser da forma que eu quiser. E não preciso ser mau caráter, superficial nem mentiroso para ser superficial e mentiroso. As limitações de tempo e espaço inerentes aos meios de comunicação de massa forjados na Era Moderna (rádio, televisão, jornal e revista – talvez o cinema também possa entrar nessa lista) e as limitações da forma de financiamento da rotina industrial desses meios (como falar mal de quem me dá emprego e comida?) definem por si só a completa impossibilidade de existência da verdade e da imparcialidade.

Portanto, ninguém está totalmente errado nem totalmente certo. O problema maior é a falta de capacidade de conectar os pontos, de incluir como dogma a historicidade e de não saber nem esconder o seu lado quando precisa, nem de advogar sem fazer proselitismo.

A multiplicação de opiniões a partir da ubiquidade dos comentários e dos posts em blogs apenas torna clara a polarização social existente em diferentes graus. Não é preciso entrar no campo político para perceber isso: a música, a ciência, o esporte, os direitos humanos, a educação e uma série de outros campos sociais também está repleta de proselitismo.

Dessa forma, acabamos escolhendo a quem seguir e – por outro lado – também nos esforçamos para estabelecermos relacionamento e estreitarmos laços com aqueles que queremos que nos sigam muito mais em função de nossos próprios valores e interesses momentâneos determinados pelo conhecimento e pela cultura que acumulamos até o momento do que necessariamente pela marca, pelo veículo ou pelo nome.

Até agora, estou plenamente convencido de que tanto o modelo econômico como o modelo de democracia que possuímos está longe de proporcionar opinião e equilíbrio à maioria com pluralidade. Dessa forma, enquanto a tendência for a de polarizar, duvido muito que, caso quem pensa a mídia de massa sob uma perspectiva de esquerda fosse econômica, política e simbolicamente hegemônico, deixasse de ser proselitista ou parcial.

Com isso, não defendo de forma alguma quem defende a exclusão e a concentração de renda a seu favor sob quaisquer meios. Porém, como o modelo é falho, aqueles em quem acredito certamente fariam o mesmo. Provavelmente, com menor intensidade e contundência. Mas que fariam, fariam.

Encerro esta longa missiva com a seguinte pergunta:

– SE NÃO HÁ CRÍTICA NEM OPINIÃO INFALÍVEL E SE AQUELES EM QUE CREMOS SERIAM CAPAZES DE FAZER EXATAMENTE AQUILO QUE CRITICAM ÀS AVESSAS, ACREDITAR EM QUEM, POR QUE E SOB QUAIS CONDIÇÕES?

COMO ESCREVER UM BLOG E FAZER BOM JORNALISMO AO MESMO TEMPO

No último sábado do evento, assisti (online) à mesa de debates sobre blogs e política da Campus Party 2010. Me impressionei bastante com a argumentação do jornalista Adriano Silva, publisher da versão nacional do blog profissional de tecnologia mais conhecido do mundo, o Gizmodo Brasil. Silva também tem um blog no Portal Exame e faz eventuais porém interessantes intervenções via Twitter.

Sempre vi os blogs como a maior possibilidade que o cidadão não-profissional e não-sindicalizado possui de tornar a sua opinião conhecida pelo público. Além disso, o olhar de quem descreve, elogia e denuncia está cada vez mais próximo do cotidiano do que as práticas usuais da mídia corporativa de massa. Defendo que a convergência entre várias mídias sociais (blogs, Twitter, YouTube, Flickr, podcasts, Slideshare, Scribd, etc.) – quando realizada com um verdadeiro cunho político, social e comunitário – constitui-se em um conjunto de técnicas suficientemente capaz de desconstruir o falso envolvimento e o distanciamento comumente verificados nas reportagens e no conjunto de opiniões emitidas por um sistema de comunicação que, via de regra, propõe uma única visão de mundo para todos.

Embora seja muito difícil de percebermos por estarmos diretamente envolvidos nessa prática, é preciso admitir que a polarização partidária e ideológica também é praticada pela blogosfera independente de esquerda. Apesar de uma série de avanços que temos verificado nos últimos anos, esse comportamento restringe a credibilidade de temas e fatos que deveriam estar na boca de todos. Logo, temos, sim, como aumentarmos o nosso alcance, expandindo o nosso público interagente para redes de contato que superem o nosso nicho ideológico.

A crítica à edição e à apuração baseados na distorção, na omissão, na supervalorização, na minimização, na escolha do que e como deve ou não ser dito (e, sobretudo, nas bandeiras levantadas a favor dos interesses econômicos dos financiadores da mídia corporativa) principalmente em relação a tudo o que envolve política, economia, lei e moral deve ser sempre denunciada e monitorada. De maneira geral, esse serviço é realizado com sucesso.

Contudo, creio que a maioria dos blogs independentes erra feio ao fazer dessa pauta a sua principal (muitas vezes até mesmo a sua única) razão de existir. Falta apresentar o bom, o belo, o que funciona. Contar mais histórias com personagens não-políticas, mas que melhoraram de vida a partir de ações políticas de esquerda.

Dentre os maiores erros da blogosfera política dita independente (porém, na verdade, altamente vinculada a ideários partidários e sindicais), percebo que ainda há a crença predominante de que o mundo é regido pela relação entre capital material e trabalho material e pela consequente “luta” de “classes”.

Com isso, não quero dizer que Marx estava errado ou que já foi superado: porém, o tipo de luta e de classe que se tinha como homogêneas na modernidade hoje se travam a partir da resistência da multidão e da emergência da sociedade de nichos. Por isso, cada blogueiro atinge um público diferente, mesmo que tenha uma visão de mundo parecida.

É importante salientar que não vejo mais sentido algum em defender o modelo da democracia representativa, o voto obrigatório e nem mesmo em ter que necessariamente “torcer” por um lado ou por outro. Vejo-me preso a essa arapuca justamente pelo fato de que o único modelo democrático legalmente praticado e imbricado na rotina da maioria é o que ora se apresenta. Precisamos discutir seriamente a democracia emergente, que contempla os atravessamentos sociais, políticos e econômicos compartilhados nos ambientes digital e presencial. Para essa lógica, a lei ainda está muito atrasada. Essa pauta é fundamental, mas deve ser tratada em outros posts.

Enfim… Todos têm um lado e devem expressá-lo claramente. Afinal de contas, transparência e coerência são valores altamente desejáveis para a credibilidade da política nas mídias digitais. Porém, não adianta nada possuir um vasto repertório intelectual e/ou uma vasta experiência de campo e de militância quando os modelos nos quais muitos ainda crêem apresentam-se como estáticos. Enquanto isso, as hibridizações socioculturais que ocorrem informalmente e sem nenhum controle hierárquico não podem ser vistas como fruto de má intenção, confusão ou incoerência.

Infelizmente, a população brasileira é predominantemente covarde e omissa. Os ricos, porque locupletaram-se desde o “descobrimento”; a classe média, porque tem a ilicitude de grande parte dos ricos como exemplo de sucesso, enquanto enxerga os pobres como a materialização do terror de perder o pouco que têm; já os pobres, de sua parte, foram induzidos à covardia e à omissão devido ao bombardeiro midiático que despolitiza e mercantiliza as suas vidas a partir de mensagens que sempre visaram o sumo rebaixamento da sua autoestima.

Todas essas pessoas batem boca. Devido à despolitização, elas têm uma visão absurdamente simplista e incrivelmente genérica sobre tudo e sobre todos. Futilidades e reacionarismos à parte, todo brasileiro é político, médico, técnico de futebol, engenheiro, advogado, funcionário público ou empresário. A única forma de eles compreenderem algo de maneira mais complexa é produzir conteúdo posicionado. E ideologicamente posicionado não implica em um posicionamento voltado para um confronto entre classes: deve-se primar pela informação, pela opinião balizada e pelo detalhamento da ideologia do blogueiro. Contudo, ele deve concentrar esforços para evitar a evangelização partidária.

Adriano Silva não diz que somente jornalistas com diploma devam blogar. Contudo, salienta que a credibilidade de qualquer blog (que, por sua vez, resulta em maior credibilidade, audiência e, quem sabe, até mesmo a possibilidade de blogar profissionalmente) depende acima de tudo do BOM JORNALISMO. Como o publisher do Gizmodo Brasil havia dito na Campus Party, solicitei a ele as diretrizes de bom jornalismo nas quais crê. Como poderão ver logo abaixo, elas servem de reflexão para a blogosfera em geral:

Credulidade

Temos comprado muito fácil um monte de informações em relação às quais o bom jornalismo demanda distância. “O sujeito fez determinada dieta e nunca mais adoeceu”. Não se pode jamais dizer isso na voz da revista, como afirmação do repórter. É impossível sabê-lo. O correto: “O sujeito afirma ter feito determinada dieta e, segundo diz, não voltou a adoecer.” As pessoas mentem muito. É saudável praticar o ceticismo ao ouvi-las. Cruzar informações, apurar. E, depois, deixar claro ao leitor qual é a voz que está dizendo aquilo. Poucas coisas podem ou devem ser enunciadas – o que significa serem endossadas – pela revista.

Ingenuidade

O embevecimento com determinada tese é um risco grande para o jornalista. Ainda mais em revistas como Vida Simples e Religiões, que embutem uma certa simpatia em relação aos assuntos de que tratam. (Quero dizer: não são tão céticas quanto a Super, Mundo Estranho e História são e têm que ser, por exemplo).

Tenho dito que a posição da Super é não ter posição. Não interessa ao leitor a posição do repórter – mas a posição dos especialistas ouvidos pelo repórter. É isso que difererencia reportagem de opinião.

E, salvo as áreas de opinião de nossos títulos, o que fazemos é reportagem. Aí é fundamental que o leitor termine de ler a matéria sem adivinhar a crença pessoal de quem a escreveu. Porque ela simplesmente não importa, não interessa. 

Se ficou claro para o repórter que a tese A é melhor do que a B, mostremo-las como são ao leitor que ficará claro para ele também.

A pior coisa que podemos fazer em jornalismo é o panfleto, o proselitismo. É não ouvir o outro lado. Ao perigoso romantismo do velho jornalismo, de tutelar os leitores e conduzi-los à “verdade” eleita na Redação, contraponhamos boa dose de ceticismo em relação a tudo, inclusive às nossas próprias crenças e aos nosso próprios paradigmas. É preciso desconfiar deles também.

 De boas intenções o inferno jornalístico está cheio.

Legibilidade

Não há nada mais agradável para o leitor do que texto preto, em letras de corpo 10/12, sobre fundo branco. Isto posto, sempre que nos afastarmos daí, por razões estilísticas, temos que ter em mente que, aonde quer que decidamos ir, temos que levar a legibilidade conosco como uma preocupação prioritária. Ainda temos publicado páginas em que a decisão de design zomba do texto, ignora a necessidade de leitura, é cruel com o olho do leitor.

Uma das funções básicas do design de revista é facilitar a leitura. Antes uma página bonita e altamente legível do que uma página estupenda e sem legibilidade.

Ignorância vs. novidade

É fundamental não confundir uma coisa com a outra tanto na hora de definir as pautas quanto na hora de apurá-las, de dar um enfoque a elas. “Dez coisas que você não sabe sobre Che Guevara”, um stretch que eu propus, uma licença poética que eu sugeri ao Celso, soou estelionatário em relação às dez coisas que a matéria efetivamente trazia.

Segundo o próprio Adriano Silva: “Outro material fundamental para reflexão e prática. Escrito por Paulo Nogueira em parceria com seu mentor, José Roberto Guzzo, o melhor jornalista da sua geração, de novo, a meu ver. Guzzo fez a Veja ser o que é. Assumiu a direção da revista em meados dos anos 70 com pouco mais de 100 000 exemplares de circulação e a deixou em 1990 com mais de 1 milhão de exemplares vendidos a cada edição. Hoje Guzzo é colunista de Exame.”

Pequeno Manual Prático do Jornalista”, por José Roberto Guzzo e Paulo Nogueira.

1. Seja Simples

Palavras curtas são melhores que palavras longas.  Frases curtas são melhores que frases longas.  Verbos simples são melhores que verbos pomposos.

Paulo diz” ou “Paulo afirma” é melhor que “Paulo explica” ou “Paulo ensina”.

2. Seja Desconfiado

As pessoas mentem. Cheque informações relevantes ou se proteja com uma técnica adequada de redação.

Paulo diz que caminha uma hora por dia” é melhor que “Paulo caminha uma hora por dia”.

3. Seja Econômico

Evite palavras desnecessárias.

A situação é grave” é melhor que “A situação é muito grave”.

Estou preocupado” é melhor que “Estou bastante preocupado”.

“Muito” e “bastante” são, quase sempre, dispensáveis.


4. Seja Original

Responda rápido: existe início de matéria mais desinspirado que “responda
 rápido”?

Fuja dos clichês e dos lugares comuns.

Brasileiro” é melhor que “brazuca”.

A busca da originalidade vale tanto para o texto como a matéria em si. Qualquer matéria sobre uma nova tendência é melhor que uma matéria sobre a morosidade da justiça.

5. Seja Plagiador

Leia sistematicamente, pedagogicamente as publicações internacionais que sejam referência para o tipo de revista em que você trabalha. Isso encurta o caminho. Preste atenção em tudo: das chamadas de capa às legendas.

6. Seja Versátil

O jornalista ideal é o que é capaz de apurar, escrever e editar. Ele vale por três. E pode ganhar por três.

7. Seja Engraçado

Senso de humor é fundamental, qualquer que seja a natureza da revista.

Instruir e divertir: este é o nome do jogo.

8. Seja Humano

Pessoas estão por trás de tudo sobre que escrevemos, de ciência e TI a hotéis e times de futebol.

A presença de gente nas matérias só as melhora.

9. Seja Claro

Só termine de apurar quando você entender de verdade o que apurou.

Só comece a escrever quando tiver certeza de entender o que estará escrevendo.

10. Seja Consciente

Você precisa saber exatamente o que quer escrever.

11. Seja Lógico

“Comece pelo começo; vá direto até o fim; aí pare.” (Lewis Carroll, em “Alice”)

Concordo 100% com a última assertiva que Do Adriano no final do gentil e-mail que me enviou:

“A BLOGOSFERA PRECISA URGENTEMENTE DE MAIS JORNALISMO. NÃO NECESSARIAMENTE DE MAIS JORNALISTAS. E DE BOM JORNALISMO. COMO O QUE ESTÁ ESCRITO E DECANTADO ACIMA.”

GATEKEEPER, UM MORIBUNDO

O jornalismo corporativo as we know it precisa morrer.

Todavia, nos locais em que o letramento da população é tardio, onde predomina uma baixa conectibilidade às mídias digitais e cuja audiência ainda tem em alta a reputação de oligopólios da mídia corporativa, infelizmente, o jornalismo impresso ainda irá durar bastante tempo.

Já em lugares onde a mídia de massa é bem mais descentralizada e onde o letramento e a conectibilidade se dão em nível avançado, a hora dele já está chegando:

Final Edition from Matthew Roberts on Vimeo.

PÚBLICO x PRIVADO + PROCESSOS: LIÇÃO PARA BLOGUEIROS

Presta muita atenção ao depoimento acima. O ator Pedro Cardoso é um cidadão de primeiríssima qualidade, altamente consciente e nada afetado. O fato de ser carioca da zona sul, de vir de família abonada, de ser ator televisivo exclusivo da Rede Globo e de ser primo do ex-presidente FHC não podem, de maneira nenhuma, desautorizar a sua posição. Até porque ele aparece rarissimamente no programa paparazzo da sua empregadora, o Video Show.

A chamada classe artística deveria mirar-se nesse espelho e aprender a diferenciar o que é notícia de interesse público e o que é prestar-se ao papel de um mero objeto vendável. A bem da verdade, há o predomínio de artistas, jornalistas e políticos que comportam-se como “celebridades”: infelizmente, sujeitam-se a aparecer de qualquer jeito só para ganhar dinheiro. Sua crença na máxima “quem não é visto, não é lembrado” os faz esquecer de que, do mesmo cume do vulcão de onde se mira o horizonte, pode-se morrer com um simples escorregão. E, para chegar a esse triste fim, não é preciso sequer tocar a lava…

A função social dessas criaturas dinheiristas, egocêntricas e – não-raro – de questionável qualidade profissional e cultural remete apenas ao entretenimento: pouco aprendem e pouco ensinam. Nesse sentido, impera a mediocridade responsável pela longa demora do país em poder finalmente alcançar um nível mais alto em sua evolução civilizatória.

Incontáveis exemplos me levam além nessa discussão. Dois deles, em particular:

– MARADONA E A IMPRENSA: longe de mim concordar, aceitar ou incitar a agressão ou a violência. PORÉM, é necessário compreender minimamente o porquê de um Diego Maradona ter ameaçado “periodistas” com um rifle defronte a sua mansão em Buenos Aires num momento delicadíssimo do seu primeiro casamento durante o auge da sua drogadição;

A MORTE DA PRINCESA DIANA: ela e seu namorado Dodi Al-Fayed morreram em um acidente automobilístico em 1997 durante tentativa de fuga não de bandidos, da polícia ou da justiça mas – pasmem – dos infames e onipresentes paparazzi.

Isso posto, vamos ao terceiro e mais importante exemplo dessa conflituosa relação: intrometer-se nos atos de pessoas públicas dentro de seus ambientes privados é fofoca, é ignorância (pelo menos ignorância jurídica), é estupidez (mesmo que não tenha sido movida pela maldade ou pelo oportunismo, o é pelo excesso de parcialidade) e é crime (independentemente da discussão entre o legal e o justo, não se pode corrigir um erro com um outro erro). Mesmo quando essas pessoas são suspeitas ou até mesmo formalmente acusadas de crimes graves e amplamente conhecidos, tal intromissão na vida privada não se justifica.

Nesse ponto, que me perdoem meus amigos blogueiros que estão sofrendo processo em nome dos netos da economista e (momentaneamente) política Yeda Crusius: hoje, o que menos importa é especular se ela quer levar algum, se a sua ação foi orquestrada (quer seja pelo seu advogado, pela classe que a sustenta no poder, pelo seu partido ou, ainda, pela intervenção de sua filha – a mãe das crianças). Importa menos ainda se ela processou inclusive o intelectual orgânico do poder econômico que transforma boa parte da classe média gaúcha em classe mérdia bovina a fim de supostamente devolver ao PIG guasca parte da sua credibilidade perdida…

…Na frieza dos códigos de lei sacramentados e atualmente válidos que determinam direitos e deveres relacionados à essa linha tênue que separa o interesse público do privado, seja para quem torce a favor, seja para quem torce contra ela e as forças que a sustentam no poder, é preciso admitir, respeitar, aceitar e acatar o fato de que –pelo menos neste caso (mesmo que, no frigir dos ovos, possa ser tão-somente neste caso) – ela tem toda a razão social e técnica a seu lado.

Sei que é indignante e quase impossível resistir ao impulso de querer fazer justiça com o próprio teclado. Todavia, há um gigantesco desconhecimento jurídico por parte de jornalistas profissionais (funcionários do PIG ou não) e de opinionistas em geral – principalmente os hoje dispostos na blogosfera, como muitos de nós.

A resistência contra um poder hegemônico (econômico, político e coercitivo) conservador, reacionário, oportunista e ignorante é fundamental. Porém, é preciso municiar-se de todas as armas disponíveis para, ao invés de ser um Flik, não passar de um pobre Don Quijote de La Mancha. O risco de errar, de pagar mico, de ser obrigado a gastar um dinheiro que não se tem e de virar a vida de cabeça para baixo em termos profissionais, afetivos e financeiros é muito grande quando não há interesse em buscar assessoria técnica adequada.

Deixo aqui a contribuição de um professor fantástico que me ensina bastante. O conheci graças às amizades que fiz pelo Twitter. Pra quem não conhece, o prof. de Direito da UFMG dr. TÚLIO VIANNA possui um blog no qual discute uma série de questões sobre direitos humanos, cidadania, política, software livre e as imbricações dessas questões com as práticas jornalísticas.

Sigam-no e leiam atentamente o artigo que escreveu junto com Cintia Semiramis sobre calúnia, difamação e injúria.

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