TARANTINO E A GATEKEEPER HISTRIÔNICA

Espero que vários amigos interagentes consigam compreender o vídeo acima em inglês.

Em poucas palavras, o diretor Quentin Tarantino foi entrevistado por uma espécie de representante ou porta-voz das donas de casa ultraconservadoras. Esse grupo muitas vezes age com intolerância acerca de uma série de questões políticas, econômicas e sociais devido ao simplismo da sua visão de mundo.

Pessoalmente, minha personalidade foi sendo formada por uma curiosidade muito forte, que sempre me leva a querer conhecer cada vez mais nuances sobre muitos assuntos. Isso não me torna um gênio e nem tampouco um especialista em qualquer coisa. Mesmo assim, acho que posso falar pelo menos sobre a maneira com que muitos encaram a violência.

O bate-papo já começa mal: a entrevistadora demonstra de cara que quer ser engraçada impondo um estilo bonachão e dominador. Até aí, poderíamos dizer que é o jeito dela. Em parte, sim. Porém, aos poucos, ela não vai deixando o interlocutor terminar as suas exposições quando se vê contrariada ao perceber que ele não cede nas suas convicções e que ele não entra em nenhuma saia justa.

Apesar da elevação do tom de voz e das constantes intromissões de parte a parte, ela perde as estribeiras justamente porque Tarantino não se mixa e levanta a voz junto. O pulo do gato do cineasta está justamente no fato de que ele não ofende a entrevistadora e tampouco ofende o seu público.

Vale ressaltar que nenhum dos dois é psicanalista nem sociólogo. Porém, o fato do diretor deixar claro que está falando sobre ficção e a entrevistadora pretende apelar para uma comparação descabida com o “mundo real” já diz muita coisa. A dita cuja sequer deu-se o trabalho de fazer um mínimo de apuração e de pesquisa jornalística para poder contestar com argumentos sólidos a assertiva de Tarantino, que acha que seus filmes retratam tão-somente um mundo de ficção e que a violência não passa de um pano de fundo para satirizar o cinema a partir de clichês de filmes antigos. Depois da dispensa do entrevistado, ela seguiu aproveitando o seu espaço para enxovalhar a visão dele sem a possibilidade do direito de resposta imediata.

Não sei se ela é jornalista ou não. E, sendo ou não sendo, também não há nenhuma garantia que ela tenha agido como agiu em função de ter ou não diploma. Pode ser até que ela não seja titular de nenhum programa. Portanto, não inventem de dizer que eu digo que a maioria dos jornalistas é estúpida. O sentido deste post é levar a uma reflexão:

– A classe dos jornalistas (sobretudo aquele nicho que trabalha em veículos das grandes corporações midiáticas) precisa desvincular-se da onipotência, da onipresença, da megalomania e da sensação de poder “brincar de deus” apenas em função da hiperexposição da sua palavra.

Aliás, sensacionalismo, onipotência, onipresença, megalomania e tendência a querer dar uma de juiz e de advogado ao mesmo tempo são péssimos hábitos que colaboram ainda mais para a descrença na informação jornalística. O pior é que tais hábitos viciados também podem ser demonstrados sem levantar a voz, sem arregalar os olhos e deixando o interlocutor falar.

Neste caso em particular, a falta de educação dessa mulher e a sua ignorância não são necessariamente frutos da sua enorme vontade de grudar a dentadura no osso da legitimação do micropoder que a sua exposição na mídia de massa lhe traz: tal postura indica a mim que o conflito de gerações entre aqueles que se mantém alheios ao reconhecimento das metalinguagens e quem realiza mashups e produções remediadas por intuição parece tornar essa uma diferença ainda mais significativa do que a que separa o alcance intelectual dos analfabetos e dos letrados.

Sinceramente, não sei se vou conseguir um dia atingir um nível pedagógico suficientemente satisfatório na quebra desse tipo de choque de gerações. Mas vale a tentativa… ;)

PROBLEMAS DO JORNALISMO COMO REFERÊNCIA HISTÓRICA

A minha querida amiga Cláudia Cardoso postou no Dialógico (que ela divide com as incríveis charges do Eugênio Neves) um artigo interessantíssimo chamado “O Comprometimento da Mídia Guasca com Yeda Crusius“.

Nesse post, os comentadores* Miguel Grazziotin e Turquinho consideram a hipótese bastante plausível de que a blindagem da corrupção do atual desgovnerno bovino não se deva apenas à preservação pura e simples dos interesses econômicos e simbólicos dos patrocinadores da mídia corporativa do RS, mas também a uma espécie de contrato social de baixo nível entre corruptores e corruptos. Segundo essa premissa, não seria nada difícil supor que a RBS e todas as suas concorrentes tenham se envolvido no processo de articulação responsável pela maior dilapidação que este estado já viu.

Ora, se a blogosfera possui (ao contrário do que o prof. Celso Schröder me levou a crer em debate recente – mas isso fica para um post que estou devendo) apuração, reportagem, investigação, denúncia e opinião responsável e metodologia de documentação a partir de jornalistas, sociólogos, filósofos, geógrafos, historiadores e uma série de cidadãos críticos e responsáveis, não é impossível desconstruir essa blindagem. Se essa blindagem for rompida por um necessário aumento do espectro que essa desconstrução atualmente em curso possa vir a alcançar, logo, tornar-se-á impossível à mídia corporativa manter a sua credibilidade perante a maioria da população.

No final do post, a Cláudia escreveu algo que me levou a uma preocupação. Preocupação esta que levarei à minha cunhada Rosângela Oliveira, aos professores de cursinho da minha Lu (que vai prestar vestibular para História) e para o já quase historiador Rodrigo Cardia do Cão Uivador.

Disse a Cláudia:

“…Quem recorrer aos jornais impressos, daqui há alguns anos, não poderá avaliar a situação dramática do RS nesse período…”

Nós, leigos em História, em Biblioteconomia, em Museologia e em Arquivologia, estamos todos acostumados a reunir jornais e revistas como documentação factual devido à facilidade de acesso e à cronologia que esse suporte de informação cotidiano nos fornece há pelo menos um século e meio no Brasil.

No entanto – e aí preciso do socorro do pessoal da área de História – parece que muitos historiadores prudentemente apresentam muito cuidado para evitar tanto quanto possível a relação direta entre a confiabilidade do conteúdo jornalístico como fonte histórica e a devida transformação desse material bruto em História. consagrada. Pessoalmente, creio que isso se deva a uma série de fatores:

1) A informação mediada sempre serve aos patrocinadores da mídia corporativa – que, por sinal, são aqueles que detém o status quo. Logo, tudo o que não interessa ou é omitido, ou é manipulado, ou, ainda, não é analisado com a devida profundidade;

2) O procedimento cuidadoso leva os historiadores a terem a imprensa como uma referência menos importante – ou, então, apenas como mais uma referência dentre tantas outras amostras documentais e testemunhais. Dessa forma, me parece que, tanto quanto possível, o processo historiográfico deve buscar reunir, além das provas materiais e documentais mais corriqueiras, um conjunto de depoimentos de protagonistas, antagonistas e de herdeiros relacionadas a um determinado contexto;

3) Em um futuro não muito distante, os jornais e revistas cujo suporte material ora é o papel ou o plástico estarão em desuso por causa da dificuldade de conservação, desse material, do alto custo de armazenagem de material com volume e peso significativos e, obviamente, também em função da sustentabilidade por uma questão de sobrevivência.

Isso posto, toda a informação que circula e pode ser reproduzida digitalmente não depende mais de nenhum suporte material. Todavia, a existência e o consumo da informação digitalizada só são percebidos a partir do momento em que esse conteúdo é reproduzido em uma série de interfaces cujos suportes são todos necessariamente alimentados por uma série de formas de energia que se transformam em eletricidade. Sem energia, o que está armazenado não pode ser recuperado nem tampouco reproduzido. Em outras palavras, a informação “desenergizada” não é informação. Afinal de contas, sob essas condições, todo e qualquer conteúdo não passará de um amontoado de bits presos em suportes sintéticos impossíveis de ser recuperados.

Por exemplo: o que é um HD? O que é um pen drive? O que é um cartão de memória? O que é um DVD? A apropriação básica para a qual esses produtos foram criados perde totalmente o sentido quando o seu conteúdo não pode ser visualizado.

Então, mesmo que o problema não seja um colapso energético involuntário, podem haver cortes de energia arbitrários que funcionariam como a Inquisição da Idade Média – os apagões seriam o poder do clero e da nobreza “queimando” os “livros” da pós-modernidade.

Hoje, discute-se muito a abolição dos direitos autorais, que é uma agenda decisiva. Outra agenda diretamente relacionada a essa é a da democratização e da desconcentração da propriedade e da livre expressão dos mídias. Porém, o que eu trato neste post deverá necessariamente se tornar uma questão crucial para a permanência da memória e para o respeito a todo e qualquer tratado capaz de organizar a sociedade.

Já está mais do que na hora de discutirmos garantias legais que sustentem uma certa materialidade para a informação que – desde o começo deste século – está sendo quase totalmente digitalizada.

Portanto, a democratização da comunicação depende também da preservação do acesso tecnológico necessário aos suportes de todo o conhecimento da humanidade que não cabe mais em bibliotecas, nem nos museus e tampouco nos órgãos do Judiciário.

Com a palavra, os especialistas! ;)

QUEDA DA LEI DE IMPRENSA E DO DIPLOMA DE JORNALISMO TENDEM A MELHORAR O SETOR

Já postei algumas vezes sobre minha posição contrária ao diploma de Jornalismo como obrigatoriedade para o exercício da profissão. Os blogs O DilúvioTrezentos e a posição de dezenas de seguidores meus (e de pessoas a quem sigo) no Twitter que são ligados ao ativismo político de esquerda também usaram argumentos muito interessantes contra o diploma. Façam uma busca e vejam as posições de dezenas de blogueiros políticos independentes, de ativistas do Software Livre, de cientistas políticos nunca vinculados ao conservadorismo, ao neoliberalismo ou à indústria cultural e também de muitos jornalistas e professores universitários que já foram tanto beneficiados quanto prejudicados pela ação dos sindicatos e da mídia corporativa para verem que essa não é a posição de um mero publicitário que desconhece os ritos e a história desse setor…

Nos moldes em que foi feita a defesa do diploma e também da Lei de Imprensa, prevaleceu a miopia de jornalistas vassalos da mídia corporativa, de professores que lidam predominantemente com estudos de recepção da mídia de massa e de sindicalistas que ignoram o volume cada vez maior de profissionais autônomos, freelancers e pequenos empresários em extrema dificuldade (financeira, jurídica e de venda de seus produto. Desenvolvo essa questão logo mais adiante.

A área da Comunicação como um todo carece de algo que nem o mercado de trabalho, nem as universidades e tampouco os sindicatos podem oferecer enquanto o currículo dos cursos e a mentalidade clientelista, corporativista e o sonho de ter um crachá da Globo, da Record, da Band, do SBT, da Folha, do Estadão, da Abril ou da RBS serem dominantes no senso comum. Esse algo chama-se PREPARO DE ADMINISTRAÇÃO, ECONOMIA, EMPREENDEDORISMO E LETRAMENTO DIGITAL. Está mais do que provado que quem não entende nada de REDES SOCIAIS e da dissociação entre tempo e espaço proporcionada pelas mídias digitais é analfabeto em termos de CAPITAL SOCIALECONOMIA DO MÉRITOCREATIVE COMMONS. Se não o for, é porque defende, ao contrário mas também a favor dos interesses das corporações, o corporativismo, o clientelismo e o paternalismo.

Repito mais uma vez: os valores relacionados à dissociação entre tempo e espaço na economia e no ativismo político ocasionam na não-necessidade e na não-obrigatoriedade de estabelecermos laços geográficos nem tampouco afetivos quando participamos de comunidades distribuídas globalmente mas que são fundamentais na reivindicação e na pressão sobre governos e corporações de todos os viezes ideológicos.

Movimentos REDES SOCIAIS, CAPITAL SOCIAL, ECONOMIA DO MÉRITO e CREATIVE COMMONS são os que verdadeiramente trazem repercussão, legitimidade, credibilidade e reflexão. São os que, não importa onde nem quando sejam originados, atravessam e são atravessados por relações sociais, políticas e econômicas que buscam uma solução prática no ambiente físico mas que precisam passar pelo ambiente virtual. Mídias sociais precisam repercutir na mídia de massa e vice-versa e a ágora deve oscilar entre a praça pública e a tela da TV.

Isso posto, na prática, desde 2006, pelo menos informalmente, já não havia nenhuma obrigatoriedade do diploma de Jornalismo. Ao contrário do que professores desencaixados dessa realidade pensam, a procura pelos cursos de Jornalismo e a abertura de novas vagas e de algumas novas faculdades no país inteiro tem crescido desde então. Nas redações da mídia corporativa, a esmagadora maioria dos salários mais altos é destinada a formadores de opinião generalistas de posições fortes e conservadoras que estão no mercado há décadas. Entre excelentes e maus profissionais; entre opiniões inteligentes e estúpidas; entre ser éticos e aéticos, há gente conhecidíssima que sequer passou perto de uma sala de aula numa faculdade de Comunicação. Juca Kfouri é sociólogo; Ruy Carlos Ostermann é filósofo; Paulo Sant’Anna é advogado e ex-delegado; Alexandre Garcia não terminou a faculdade de Jornalismo na PUCRS; um montão de escritores hiperbem remunerados não são jornalistas e sequer formados em Letras; diversos comentaristas políticos são ou sociólogos, ou advogados, ou apenas meros “corneteiros”. O Jornalismo não se restringe e não é melhor nem pior se não for possível trabalhar em algum veículo da mídia corporativa. Com INTELIGÊNCIA, TALENTO, PRÓ-ATIVIDADE e TENACIDADE, sabendo administrar o tempo e aprendendo a competência vital de estabelecer redes sociais amplas e diversificadas, as oportunidades são múltiplas e não param de crescer. A produção de programas em geral e de documentários para vender para emissoras a cabo, rádio digital e TV digital estão aí pra provar isso. Publicitários nunca tiveram um sindicato corporativista, clientelista nem paternalista como salvaguarda. Agências de publicidade sempre foram muito mais neoliberais, raramente assinam a carteira e a rotatividade sempre foi muito maior do que nas redações da mídia corporativa. Apesar disso, em média, mesmo concorrendo contra pessoas vindas de escolas técnicas de criação publicitária e também com profissionais mais antigos sem curso superior, a média salarial para quem está na base da pirâmide é mais alta do que para os jornalistas iniciantes ou funcionários de pequenas empresas do setor. Eu sou de esquerda e socialista. Porém, acho que não é possível inverter valores de maneira significativa a ponto de eliminarmos a economia de mercado da sociedade em função do total desconhecimento de um sistema de troca alternativo. Até mesmo a essencial economia popular solidária, a reforma agrária e o fim da criminalização dos movimentos sociais só funcionam até o ponto em que a garantia da satisfação das necessidades básicas estiver garantida para todos. De maneira geral, em mais de 20 anos como ativista político, sempre vi tanto sindicalistas quanto empresários falando uma série de bobagens que JAMAIS tem o objetivo de procurar satisfazer às demandas da sociedade como um todo. Cada um, à sua maneira, procura apenas defender o corporativismo, o clientelismo e o paternalismo, Sindicalistas e empresários são, cada qual em um extremo diferente, excludentes e exclusivistas. Ao mesmo tempo, as faculdades de Comunicação costumam jogar ora contra, ora a favor de duas maneiras opostas que não possuem mais competência nem para puxarem a sardinha para o seu próprio assado. Alguém já viu algum sindicato de Jornalismo defender e trabalhar para assistir a um autônomo, a um freelancer e/ou a um pequeno empresário do setor com dificuldades financeiras, de planejamento de carreira, de captação de novos clientes e de necessidade de assessoria jurídica contra empresários maiores, contra os governos em geral e contra clientes que os lesaram?! Posso até estar redondamente enganado. Porém, se o fazem, possuem todos os meios necessários de divulgarem sua atuação aos quatro ventos. Como em QUALQUER profissão regida pela economia de mercado pertencente ao ramo das Ciências Sociais Aplicadas, à exceção do Direito, quase todas as demais áreas de Humanas não recebem nem benefícios, nem são cobradas através de leis especiais e diferenciadas pelo ônus de prejudicarem a sociedade. Nesse sentido, até mesmo o fim da Lei de Imprensa foi benéfico, pois qualquer um que vocifera e denuncia sem provas e omite ou distorce qualquer coisa sobre algo ou alguém pode ser denunciado por injúria, calúnia, difamação, perturbação da ordem pública, crime hediondo, homicídio culposo e homicídio doloso. Ora, se um jornalista canalha não tem seu diploma nem o direito de exercer a profissão cassados em função de alguma atrocidade cometida, logo, não pode ser comparado a um médico, que pode furar uma artéria e matar um paciente na cirurgia; a um engenheiro que, ao calcular errado o peso e os apoios de uma viga, pode esmagar pessoas quando essa estrutura rui

Portanto, o fim do diploma e o fim da Lei de Imprensa tendem a facilitar processos e prisões de maus profissionais que não são maus por serem jornalistas ou por não serem jornalistas de formação mas, sim, são maus caracteres. Por que o mau caratismo, a negligência, o oportunismo, o lobby e a maldade deliberada podem ser punidos pelos códigos Civil e Penal e o jornalista era munido de um anteparo?!

JORNALISMO: SINDICATOS, FACULDADES, DIPLOMA

EM PLENA ERA DA MOBILIDADE E DA INTEGRAÇÃO ENTRE MÍDIAS SOCIAIS E MÍDIA DE MASSA, POR QUE DIABOS SEGUEM DEFENDENDO INSTITUIÇÕES CLIENTELISTAS, PATERNALISTAS E OPORTUNISTAS TANTO À ESQUERDA QUANTO À DIREITA?! POLÍTICA E ECONOMIA NA MÍDIA CORPORATIVA É VASSALAGEM. SINDICALISMO BASEADO NA DICOTOMIA BURGUESIA x PROLETARIADO É LENTO E IGNORANTE P/DAR CONTA DAS NECESSIDADES DA CLASSE AUTÔNOMA.

EM PLENA ERA DA MOBILIDADE E DA INTEGRAÇÃO ENTRE MÍDIAS SOCIAIS E MÍDIA DE MASSA, POR QUE DIABOS SEGUEM DEFENDENDO INSTITUIÇÕES CLIENTELISTAS, PATERNALISTAS E OPORTUNISTAS TANTO À ESQUERDA QUANTO À DIREITA?! POLÍTICA E ECONOMIA NA MÍDIA CORPORATIVA É VASSALAGEM. SINDICALISMO BASEADO NA DICOTOMIA BURGUESIA x PROLETARIADO É LENTO E IGNORANTE P/DAR CONTA DAS NECESSIDADES DA CLASSE AUTÔNOMA.

Pessoalmente, creio que o papel dos sindicatos de quase qualquer classe profissional não consegue – e nem pode mais – cumprir o papel dicotômico, maniqueísta e preconceituoso que o contexto socioeconomico de antigamente assim dele exigia. A despeito da qualidade inegável de muitos profissionais cultuados através dos tempos, o mercado de trabalho na Comunicação, independentemente de haver maior ou menor número de profissionais com 3º grau, sempre foi repleto de despreparo e paternalismo. Forjado e semre mergulhando nessa mesma onda, a função sindical como um todo caducou no Brasil.
Com isso, não quero dizer que os sindicatos não sejam necessários nem que eles não possam modificar a si mesmos. No entanto, eles apenas repetem o modelo que os forjou há muitas décadas atrás sem a necessária adaptação à realidade contemporânea. E isso não se refere apenas à área da Comunicação: o desencaixe (v. Giddens) em função da incompreensão perante a política atual em função da dissociação entre o tempo e o espaço que determinam e são determinadas por novas relações de trabalho decorre do desinteresse das novas gerações pelo sindicalismo. Afinal de contas, não faz mais sentido desejar ou aceitar evangelizar e ser evangelizado por doutrinas que não conseguem mais dar conta de tantas modificações.
Ao contrário do atraso brasileiro nessa área, os EUA já estão reinventando o papel e a forma de atuar dos sindicatos de todas as categorias como reflexo da liderança de Obama, forjada a partir do voluntariado e do sindicalismo de Chicago, uma das cidades com maior população negra e pobre daquele país. O sindicalismo gringo reergue-se sob uma postura menos peleguista em relação ao patronato e passa a contemplar também os autônomos, os freelancers e as pequenas empresas. O discurso perante a postura da mídia corporativa não é mais o de vitimização do funcionário nem tampouco de vilanização pura e simples do empresário.
No nosso caso, o Brasil ainda é um país neoliberal e oligárquico – independentemente da parcela de ações positivas do Governo Lula no combate dessas mazelas. Aqui, o sindicalismo restringe-se tão-somente a considerar os funcionários como vítimas indefesas e os donos da mídia corporativa como o demônio sob a forma humana. Essa postura meramente confrontante e conflituosa de resultados geralmente inócuos decorre do purismo marxista e socialista, que também afasta o interesse de novas lideranças profissionais de atuarem sob o predomínio dessa linha de pensamento. O exemplo que vem do norte mostra que, com assertividade e com o uso da internet como veículo de armazenagem e de troca de informações, os pés de barro do gigante ficam mais expostos.
Informação e intercâmbio é o que não falta. Então, por que os sindicatos brasileiros de jornalistas não integram à sua agenda os diversos níveis econômicos de empresas de mídia?! Quando falo em empresas, falo em funcionários e patrões…
Embora não seja jornalista e não domine o conhecimento das ações da FENAJ, do Sindicato dos Jornalistas do RS e demais entidades do setor, os sindicalistas tradicionais sempre pareceram NÃO executar o que uma classe inteira deles possa esperar. Qual o papel educativo, administrativo, jurídico e representativo que os sindicatos realizam a não ser para o restrito grupo de funcionários da mídia corporativa? Se estiver errado, me perdoem. Todavia, se penso assim por ignorância, são eles que precisam vir à sociedade para não deixar com que alguém como eu tenha essa imagem acerca da instituição. Afinal de contas, mesmo alijados dos veículos de massa, os sindicalistas da Comunicação certamente possuem os meios necessários de divulgar dados suficientemente contundentes a fim de contestar a minha maneira de vê-los.
No Brasil, a meu ver, freelancers, autônomos e pequenas empresas de Comunicação Social (mais especificamente, neste caso, de Jornalismo) são vistos pelos sindicatos da área como uma subclasse ou como privilegiados que não necessitam de seus serviços como os funcionários dos grupos da mídia de massa precisam.
Eis aí a grande contradição do modelo, responsável pelo visível desinteresse de novas lideranças da área em relação a uma futura participação sindical: os sindicatos de jornalistas tem como origem o socialismo. O socialismo puro é uma ideologia de esquerda. Porém, tudo aquilo que a esquerda prega (solidariedade, pró-atividade, transparência, diversidade, igualdade, etc.) está sendo sumariamente ignorado pelos próprios sindicatos de jornalistas. Por que? Porque o mercado em constante expansão formado por freelancers, autônomos e pequenas empresas do setor não compõe mais um pequeno nicho. Esses profissionais não estão enquadrados na única divisão classista com a qual os sindicatos tradicionais sabem se relacionar (categoria que, para quem trabalha em nível superior, inexiste – o “proletariado”). Porém, quem trabalha por conta ou trabalha em empresas de pequeno porte não pode ser considerado privilegiado nem em termos políticos, nem em termos econômicos.
O modelo sindical praticamente exclui do debate um significativo grupo que, queiram ou não, pertence à mesmíssima categoria profissional. Dessa forma, verifica-se uma grave falta de acesso igualitário aos benefícios que um sindicalismo sério deveria oferecer. Portanto, estamos diante de uma segregação dentro da própria categoria. Sob o mesmo modus operandi, o pensamento de defesa dos interesses da classe não segue essa cartilha ortodoxa e parada no tempo. E a defesa intransigente dessa maneira caduca de fazer sindicalismo repete o mesmo peleguismo sempre tão condenável, só que do lado oposto da moeda. Sem perceber, os sindicalistas acabam endossando o lado dos donos da mídia corporativa e de seus mecenas. E isso não vem de hoje.
Outro grupo interessado na manutenção do diploma de jornalista é o grupo de quem leva a formação de novos profissionais e, acima de tudo, de cidadãos mais conscientes acerca do contexto sociocultural em que vivem: o medo de todo professor, de todo estudante e de todo reitor (sobretudo das universidades particulares que vivem do valor das mensalidades) é o de que, com a abolição da obrigatoriedade do diploma para jornalista, os cursos de Jornalismo percam a razão de existir. Contudo, ao contrário do que muitos pensam, não são nem a questão do diploma e tampouco a relativa juventude da existência da profissão e da sua consequente indústria os principais fatores de dificuldade da consolidação da Comunicação como um campo social no significado bourdieuano da palavra: por tratar-se de uma disciplina técnica e teórica enquadrada tanto científica como mercadologicamente sob uma faceta multidisciplinar, os ritos, a natureza vicária e a especialização supostamente inimitável por integrantes de outros campos sociais (p. ex.: jurídico, militar, religioso, médico, político, esportivo, financeiro, etc.) já é, na prática, descentralizada e pulverizada. Apesar desses problemas, felizmente, a procura pela aprendizagem e pelo domínio de uma técnica capaz de traduzir os discursos vicários de cada um dos demais campos sociais de uma maneira que toda a sociedade seja capaz de decodificar mensagens tão específicas tem sido cada vez maior ao longo do tempo. Afinal de contas, sem conhecimento e sem empenho, não existe competitividade nem autopreservação em um meio selvagem. No momento em que essa visão se tornou um lugar comum, os riscos de demolição das bases responsáveis pela credibilidade percebida dos mídias de qualquer porte não interessam aos empresários sérios, enquanto reforçam a autonomia de quem trabalha por conta própria.
No caso das universidades e dos professores em particular, a defesa que a maioria faz do diploma refere-se à necessidade sempre presente e justa de haver uma representatividade que proteja os interesses da base da pirâmide que sustenta esse campo social. Além da técnica, os professores técnico-científicos preocupam-se com a ética e com a reflexão acerca dos fazeres em função do contexto sociocultural que os molda e é moldado por esses mesmos fazeres. Já os professores essencialmente técnicos preocupam-se tão-somente em preparar novos profissionais para alimentar a mesmíssima indústria hegemônica. Todo curso de qualidade apresenta essa saudável mistura e não apenas o prevalecimento de um tipo ou de outro.
Para as corporações midiáticas, para os estúdios cinematográficos, para as gravadoras, para as agências de publicidade, para as produtoras web e para as assessorias de imprensa, seria maravilhoso que houvesse apenas meros cursos técnicos profissionalizantes, a fim de que seus novos contratados não sejam nada além de âncoras, repórteres, cinegrafistas, iluminadores, editores, sonoplastas, figurinistas, maquiadores, motoristas, eletricistas, engenheiros, diretores, arte-finalistas, produtores e porta-vozes altamente especializados. Esse modelo é interessante para formar uma enorme reserva de mercado e para incentivar uma competição acirrada pelas vagas dentro dessas marcas que dominam a superestrutura, desunindo os profissionais que preferem viver 100% integrados a esse modelo de mercado.
Portanto, salvo raríssimas e honrosas exceções, os donos, os financiadores e os clientes da indústria midiática sempre preferiram e sempre irão preferir especialistas restritos ao papel de meras engrenagens de um sistema taylorista-fordista de linha de produção. Porém, a perda de credibilidade dos veículos das grandes corporações em função da desvalorização de profissionais experientes que são desprezados como lapidadores de jovens promessas tem resultado na perda de qualidade técnica e de talento no jornalismo. Trabalhar para paquidermes burocratizados repletos de eminências pardas diante da internet e da TV digital definitivamente não é uma boa alternativa.
Nesse aspecto, muitas faculdades de Jornalismo, muitos chefes antigos dentro das corporações e, acima de tudo, a decrepitude metodológica dos sindicatos estão deixando muito a desejar. Portanto, vejo universidades e sindicatos obrigados a aprender rapidamente e com a máxima competência a proporcionar a assistência, a assessoria, a consultoria gratuita ou muito barata, as palestras, os seminários, os congressos, os debates e as missões de visita a órgãos no Brasil e no exterior que sirvam como referência mundial dentro dessa roda viva: é para conhecer advogados de gabarito, para conhecer o SEBRAE, para contar com profissionais de economia e de marketing que deveriam servir as universidades e os sindicatos. Mais do que aenas ajudar os jornalistas a se defender, seu papel deve necessariamente ser o de possibilitar a seus alunos e filiados o conhecimento do empreendedorismo e da administração de um negócio.
Isso posto, jornalista responsável, minucioso, competente, criativo, tecnicamente correto, livre e inovador não precisa nem de uma lei especial para receber privilégios, nem de uma lei que o obrigue a responder por falhas ou por má fé relacionadas à má prática social e econômica de sua atividade. Isso é o mínimo que se espera de QUALQUER profissional. Para isso, com alguns ajustes, ao invés da Lei de Imprensa da década de 1960, basta dar uma garibada no Código Civil.
No mais, com ou sem a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista, tanto o público fará a sua seleção natural como o profissional precisará aprender a escolher a opção de vida e de trabalho que o fará sentir-se mais à vontade para preservar a sua autonomia e a sua independência. Se, por outro lado, ele preferir seguir o Lado Negro da Força, todo indivíduo, sem exceção, tem escolha. Afinal de contas, ninguém é obrigado a nada.

POLÍTICA, BLOGS, RS

A blogosfera apresenta uma série de características que proporcionam vantagens e desvantagens na ação política descentralizada e em rede facilmente perceptíveis por movimentos como o Fórum de Entidades POA. Primeiro, as vantagens:

1) Dá voz para pessoas que não fazem parte das fontes nem da agenda usual da mídia corporativa;

2) Os links recomendados por cada blogueiro formam uma cadeia, uma rede, um coletivo de blogs que tende a ser visitado pela maioria dos demais blogueiros que compartilham as mesmas afinidades temáticas que, no nosso caso, dirigem-se principalmente à alteridade, à memória e à vida futura a partir de um lugar físico (Porto Alegre);

3) Tudo o que um blogueiro escreve e todos os comentários que recebe e devolve a seus interlocutores permanece documentado para consulta, referência de fontes e discussões em outras esferas.

Agora, as desvantagens:

1) Não há nenhuma garantia de que os leitores do CÃO UIVADOR se tornarão visitantes frequentes do POA RESISTE ou do blog da AGAPAN, nem que em suas participações esporádicas envolvam-se seriamente no debate. Nesse caso, o blog funciona como uma vitrine de uma ppequena loja de bairro: se o produto que estiver na vitrine for interessante e seu valor for convidativo, o consumidor entra na loja, conversa com o proprietário e com outros clientes. Se gostar, leva e recomenda. Se não gostar, ou ignora, ou fala mal;

2) Infelizmente, as formas atualmente mais utilizadas de comunicação mediada por computador ainda não podem ser consideradas como mídia de massa nem na técnica, nem na infraestrutura. A gente opera seguindo a lógica da Teoria da Cauda Longa proposta por Chris Anderson (o livro chama-se A CAUDA LONGA, é barato e fácil de ler). Como funciona? Há uma quantidade muito reduzida de sites de notícia e de blogs independentes cuja audiência seja bastante difundida e comentada pela web.

Esses sites e blogs recebem milhares – senão dezenas de milhares – de visitas DIÁRIAS a mais do que todos os nossos blogs somados. Acreditando neles ou não, de uma forma ou de outra, também viram as principais referências que endossamos e passamos adiante (nem que seja para criticar ou denunciar notícias contadas pela metade). Por outro lado (e é aí que nós entramos com nossos blogs), embora cada um de nós tenha algumas poucas centenas (os mais felizardos, um ou alguns milhares) de visitas diárias, mesmo que nosso alcance seja imensuravelmente menor do que o de uma mensagem única difundida por rádio, TV, jornal, revista ou suportes para publicidade (papel, placas, veículos no mar, no ar e na terra e assim por diante), nossa grande virtude é funcionarmos como quem faz comunicação de boca a boca. Não no sentido da persuasão rasteira, da informação mal contada e descompromissada, da fofoca ou do ditado ‘quem conta um conto aumenta um ponto’ mas, sim, na difusão em baixa escala porém voltada a formadores de opinião.

É mais importante que nosso trabalho chegue às lideranças dos movimentos sociais, de profissionais liberais de classe média, a políticos locais, a líderes estudantis, religiosos e a técnicos do Tribunal de Contas, do Ministério Público, do Procon e do Banco Central do que o desejo que perdurará sendo financeira e tecnicamente impossível ainda durante muitos anos de termos um espaço parelho de disputa simbólica junto às corporações de mídia. Esses líderes pontuais e setoriais farão o mesmo que nós fazemos, funcionando como facilitadores do processo de ampliação do nosso alcance.

Os interesses da banca da mídia corporativa de massa serão sempre os mesmos enquanto ela for conservadora e preferir ganhar em cima das mazelas ao invés de ganhar em cima do desenvolvimento sustentável. Apesar de não considerar inúteis ou irrelevantes nem os trabalhos acadêmicos e nem a percepção do leigo em relação à agenda dessa Grande Mídia, discutir à exaustão essas práticas surte um efeito minúsculo na sociedade mesmo a partir de blogs com grande audiência nacional lidos por formadores de opinião em algumas áreas do conhecimento.

Isso nos afasta não necessariamente de importantes pontos de acesso inseridos em sua programação que seriam possíveis caso houvesse um contexto diferenciado mas, sobretudo, dos bons formadores de opinião que creem que o que predomina na mídia de massa é mesmo a mais pura DESinformação (há muito o que falar sobre isso – é uma brecha importantíssima no fazer da mídia corporativa que, com uma pequena mudança de postura de parte da esquerda blogueira no país inteiro, poderá ser muito melhor explorado).

O empoderamento das classes populares através das escolas públicas, da internet sem fio nos locais públicos e das baratas LAN houses felizmente está ocorrendo no Brasil. Pra quem não sabe, o BRASIL possui o maior programa de inclusão digital do MUNDO, dito pelo especialista JEREMIAH SPENCER (mais referências sobre o trabalho dele no Brasil AQUI) que esteve aqui em 2008. No entanto, a esmagadora maioria das pessoas ainda prefere seguir o lado ruim da cauda longa, isto é, seguir o grande, seguir o hegemônico, tê-lo sempre como referência ao invés de procurar zilhões de possibilidades diferentes.