HAVERIA MÍDIA CONFIÁVEL SOB ESTE MODELO ECONÔMICO?

Não defendo, de forma alguma, a mídia corporativa. Todavia, ela não é a principal vilã e nem tampouco a única vilã: é preciso ter em mente que ela faz parte de um SISTEMA em REDE, na qual as MEGACORPORAÇÕES GLOBAIS são quem dá as cartas em quase todos os lugares do mundo. O estado-nação perdeu força em todo o planeta.

A mídia corporativa é, sim, um instrumento de comunicação orquestrado pelas oligarquias. O problema dessa “Grande Mídia” é que ela sobrevive a partir de um modelo econômico puramente mercantilista: se eu pago, posso cobrar que as matérias a respeito do meu negócio sejam positivas e que se omita as virtudes do meu concorrente. Se eu quero exclusividade na transmissão de uma Copa do Mundo, não posso falar mal do Ricardo Teixeira nem do Blatter.

Ao mesmo tempo, uma mídia verdadeiramente PÚBLICA não pode, de forma alguma, ser uma mídia ESTATAL. Senão, ela será essencialmente chapa-branca. Quando um governo acabar, pode mudar a política do próximo a assumir e ou terminar com ela, ou ser administrada como um ordinário ente comercial igual às suas concorrentes.

Também não dá pra cobrar que, para se democratizar os meios de comunicação no Brasil, seja imposta uma lei que obrigue a existência de uma mídia “de esquerda” e outra “de direita” em igual proporção: primeiro, porque o consumidor de notícias vai auto-organizar esse mercado, comprando mais alguns veículos e menos outros.

Finalmente, o modelo de excelência técnica, informação predominantemente relevante e menor distorção deveria ser muito parecido com o que a BBC oferece: o estado é dono de 50% + 1 das ações e a iniciativa privada não pode concentrar ações em poucas empresas do mesmo ramo ou dos mesmos donos (se possível).

Isenção, imparcialidade, totalidade de espectros de visões diferentes com o mesmo espaço disponível e complexidade não são atributos verdadeiros da mídia, seja ela hegemônica ou não, pública ou privada.

O importante é que exista a publicização da mídia não-hegemônica a fim de que as pessoas vão atrás dela caso queiram informar-se melhor.

No caso específico do RS, a mídia corporativa criminaliza os movimentos sociais, defende o agronegócio e a privataria porque escreve predominantemente para donas-de-casa de classe média e profissionais liberais. Como se sabe, o RS é um dos estados cuja população mais abastada é mais racista, simplista, revanchista, preconceituosa e puxa-saco dos ricos.

Ora, como grande parte dos jornalistas que gostam de trabalhar na Grande Mídia também vêm dessas classes, as subjetividades produzidas por eles vão além do medo, da notoriedade ou das ordens do editor ou do patrocinador: elas já estão naturalizadas na sua própria visão de mundo.

A mídia não cria fatos, factóides e nem uma visão mais honesta ou menos honesta sobre qualquer coisa de maneira meramente impositiva para que o público acredite nela. E ela nunca esteve sozinha nesse negócio. Ela REVERBERA aquilo que a parcela da população que a consome diz e pensa de acordo com a sua realidade.

Portanto, se quisermos uma mídia melhor, precisamos investir pesadamente em sociologia, psicologia e em um reforço substancial em línguas.

Afinal de contas, enquanto vigir esse modelo mercantilista, nada irá mudar.

Por outro lado, se serve de alento, a tiragem dos jornalões e o seu número de assinantes tem caído vertiginosamente desde o final da década de 1980 no mundo inteiro. A internet gratuita tem parte nisso, apesar de que os blogs são lidos por uma minúscula minoria e que os portais de conteúdo pertencem às mesmas organizações midiáticas.

Porém, o positivo é que, na internet, um portal não possui normas fixas nem tempo suficiente para que alguém filtre todos os comentários “de esquerda” sobre as notícias desses portais.

Dessa forma, comentar ostensivamente nas notícias de política e economia dos portais surte um efeito maior do que as nossas discussões na blogosfera, pois a quantidade de comentários por notícia é, em média, pelo menos dez vezes maior do que a média dos comentários dos blogs de esquerda mais visitados.

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AS CONTRADIÇÕES ENTRE GRANDE MÍDIA x ESQUERDA

Embora a mídia corporativa defenda as bandeiras que defende através de uma forma, de um enunciado, de uma gramática audiovisual tecnicamente produzida para contar histórias que contem apenas a versão que interessa a seus patrocinadores, não dá para jogar todas as práticas e todos os profissionais em uma vala comum.

Exemplo 1: o GNT, emissora a cabo das Organizações Globo (OGs), transmitiu a maioria dos filmes do MICHAEL MOORE (Bowling for Columbine, Fahrenheit 9/11 e Sicko) e o do AL GORE (An Unconvenient Truth), assim como o excelente SUPERSIZE ME de Morgan Spurlock.

Exemplo 2: repete-se também nos canais abertos, nas emissoras de rádio, nos
jornais e nas revistas (tanto de conteúdo segmentado por tema como nos
veículos generalistas) uma certa fração da programação total que
verdadeiramente trata de utilidade pública, conteúdo educativo sem um
viés de direita e uma leve pitada de jornalismo bem feito – a exemplo
do exemplo anterior sobre a GNT. De volta, quem trabalha nessas empresas não é
nem Hitler, nem Gandhi.

A primeira impressão seria considerar esse procedimento uma estratégia para enganar o público em geral e amansar a esquerda, levando-os a pensar que, quando as corporações de mídia veiculam esse tipo de programa mais crítico, seria um sinal de que elas seriam realmente “neutras” e, conseqüentemente, a audiência deveria crer na “neutralidade” da Grande Mídia. Assim, obteriam a defesa do público quando alguém questionasse se estão mentindo quando falam sobre política, economia, valores conservadores e criminalização dos movimentos sociais em seus telejornais.

A segunda impressão seria jogar numa vala comum os jornalistas dessas grandes empresas. Os assalariados subalternos são vistos de várias maneiras: “coitados”, “covardes”, “burros”, “chinelões ambiciosos”, “pelegos” ou, ainda, como técnicos competentes pagos para executar uma tarefa de maneira acrítica. Porém, eles são gente passível de todos os tipos de comportamento possíveis, assim como qualquer um de nós – apenas isso.

Outro ponto fundamental freqüentemente ignorado nas discussões sobre o papel do jornalista na Grande Mídia é o seguinte: os editores contratam, em sua maioria, repórteres, fotógrafos e articulistas que pensam como eles e como os donos dos veículos. Esses, em certos casos, podem até não receber os melhores salários, nem serem FDPs ou pelegos: eles simplesmente são conservadores e crêem que os valores nos quais acreditam são os valores ideais para se chegar a uma sociedade melhor. Pois a esmagadora maioria da sociedade, independentemente da região em que more, da cor da pele, de sua religião, faixa etária, escolaridade ou profissão tende a ser extremamente conservadora. Conseqüentemente, tanto os donos como os patrocinadores, os funcionários e os programas da Grande Mídia serão conservadores.

Também há uma visão extremamente equivocada de que a mídia corporativa manda no mundo ou de que ela possui o poder absoluto de decidir os rumos da política, da economia e dos valores morais de uma sociedade. Embora ela tenha um alcance gratuito e cubra quase 100% do território nacional, o receptor não é passivo e ele não precisa ter curso superior nem viver em um centro urbano para questionar, duvidar ou ignorar a mensagem transmitida pelos meios de comunicação. Claro que, quanto maior a ignorância, maior a possibilidade de acreditar sem questionar. E que, obviamente, o seu objetivo é satisfazer aos interesses de quem a banca.

Pois é quem a patrocina quem detém o verdadeiro poder simbólico, político, econômico e coercitivo. Ela é tão-somente um instrumento que é voltado para interesses puramente comerciais. A lei vigente e as práticas culturais relacionadas à percepção social média a respeito do conteúdo midiático permitem e estimulam a não-obrigação da Grande (e também da pequena mídia) de serem culturais, educativas, conscientizadoras, politizadoras, investigativas e o escambau.

Não, elas não são e nem precisam ser. Também não devem ser censuradas. E não dá pra forçar a barra restringindo o seu alcance e tentar investir uma fortuna em uma alternativa verdadeiramente educativa, conscientizadora, politizadora, investigativa, inteligente e assim por diante se não houver interesse do público no tipo de temática a ser abordada, nem tampouco se os produtores dessa mídia alternativa não souberem utilizar uma linguagem técnica recortada, fragmentada, de vocabulário simples, ritmo dinâmico e dotada de uma edição de som, de vinhetas e de legendas totalmente adaptadas à semiótica contemporânea.

A situação é extremamente complexa, dados os seguintes pontos:

1) O cumprimento de todos os requisitos para a primeira autorização e para as sucessivas renovações das concessões do espectro das ondas de rádio destinadas às emissoras de rádio e televisão deveria ser exemplarmente obedecido e punido quando necessário;

2) O ideal é absolutamente impossível de se obter em qualquer lugar do mundo. Não dá para impedir e nem tampouco fiscalizar o tempo inteiro políticos, funcionários públicos de qualquer instância e empresários que veicularam anúncios, releases ou comerciais nos últimos 10 anos; funcionários e associados que trabalham, trabalharam ou possuem negócios com esses mesmos patrocinadores, políticos e donos de veículos e até três gerações de suas respectivas famílias a obterem concessões. Nem todos esses caras são ricos, famosos, suficientemente poderosos ou conhecidos e fazem parte de uma rede social que envolve centenas de milhares de pessoas espalhadas pelos quatro cantos do país. Não dá para emparelhar a capacidade econômica de investimento entre o que seria uma mídia “de direita” e uma mídia “de esquerda” porque o grosso da sociedade é conservadora;

3) Uma TV pública não pode ser uma TV estatal. Do contrário, a Voz do Brasil e as TVEs (sejam bem ou mal administradas) são mais do que suficientes. Ela não pode ter nenhum cargo político mas, sim, cargos eminentemente técnicos. O mandato de sua diretoria não pode estar vinculado ao mandato do presidente da república, do governador, do prefeito, dos senadores ou dos deputados estaduais. Deve ser mais longo (sugiro 12 anos) e regido por uma eleição da qual toda a sociedade participe;

4) Nem a internet e nem a TV digital proporcionam ou proporcionarão ao mundo maior justiça, democracia, cultura e/ou inteligência: o grande equívoco dessa discussão é que ela é centralizada ou na tecnofilia de que tudo será melhor para a maioria, ou na tecnofobia de que as TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação) são o grande mal, a grande fonte de alienação da sociedade.

Em primeiro lugar, novos grupos de comunicação municipais vinculados ou não à grande mídia regional ou nacional irão produzir localmente pautas voltadas às comunidades locais de forma que, com mais dinheiro, maior profissionalismo e com o apoio dos caciques da comunidade, não deixará de haver um agendamento conservador. Apesar da possibilidade de TVs e rádios “favela” poderem aparecer e contestar essa nova agenda hegemônica de abrangência local, a maioria das pessoas tenderá a assistir os programas técnica, enunciativa e esteticamente melhor produzidos.

Sim, diminuirá o conservadorismo e o nível de conscientização irá aumentar. Porém, não será tão significativo quanto se imagina ou se deseja.

Portanto, só vejo uma única possibilidade técnica, política e financeira para que haja uma distribuição massiva de conteúdo decente não apenas no Brasil como em qualquer país do mundo: seguir, com as devidas adaptações culturais de cada cultura, o modelo da BBC.

Falarei mais sobre esse modelo mais adiante, em outro post.

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A MÍDIA CORPORATIVA DENTRO DE UM SISTEMA CONSERVADOR

A mídia corporativa, Grande Mídia ou MSM (Mainstream Media) é um problema. Porém, não é exatamente um problema para todos. Mesmo com os Trump, Murdoch, Berlusconi e Marinho da vida atuando em muitos países, há um incontável contingente de seguidores dos valores irradiados por esses protagonistas. O problema maior é a forma como a mídia corporativa estabeleceu-se no Brasil. As corporações de mídia daqui estabeleceram-se através de oligopólios familiares associados a grupos midiáticos estado-unidenses, banqueiros, megacorporações globais, latifundiários e políticos corruptos. Essa casta jamais irá regular o setor do qual tomam conta em prol da sociedade.

Tal modo de produção baseado nesse modelo econômico é extremamente nocivo e espraia-se através de milhares de tentáculos pelo mundo inteiro. No entanto, é preciso perceber que, apesar disso, não é exatamente a mídia corporativa (recursos financeiros + meios técnicos + mentalidade de seus donos + competência técnica, perspicácias e artimanhas dos editores) o principal problema da democracia. Dentre tantos problemas poíticos, econômicos e sociais, embora este seja um problema que, de certa maneira, interfere nos demais, ao mesmo tempo, essa mídia não representa o pior dos problemas que nos afligem.

Contraditório? Não: é apenas uma constatação. O problema maior é o baixo grau de solidariedade, de compaixão, de capacidade de desenvolvimento sustentável, de auto-estima, de confiança e de empreendedorismo consciente e responsável. Embora os valores dos donos do capital sejam reverberados pela mídia corporativa, caso houvesse interesse em promover o esporte, a cultura e o respeito, já teriam sido adotados valores capazes de originar um verdadeiro projeto de nação.

A mídia corporativa não manda nada: ninguém lê, ouve ou assiste o seu conteúdo com uma arma apontada para a cabeça. Mesmo na falta de qualidade conteudística, ninguém é obrigado a manter seus olhos e ouvidos antenados para a mensagem dela: há várias outras formas de lazer, cultura e informação disponíveis – mesmo sem dinheiro, há muito o que ver pela cidade e muita gente para conversar. Quem acredita ou deixa de acreditar em alguém ou em alguma coisa, ou acredita que acredita e sente-se bem com esse condicionamento, ou acredita que não acredita e vai buscar outra coisa pra fazer.

Como não existe unanimidade nem consenso (apenas uma tentativa discursiva de), seus donos e editores conseguem apenas um determinado grau de convencimento junto a determinados nichos dentro do universo que julgam compor sua audiência. Assim, o fazer técnico da mídia corporativa busca satisfazer os interesses dos políticos, do latifúndio, dos bancos e das megacorporações globais através de demandas que, caso atingidas, por tabela também irão beneficiar o negócio dos donos da mídia e tornarão mais famosos os seus funcionários mais pelegos.

Obviamente, como o negócio deles é grana a qualquer custo, se eles não tivessem uma ampla base de consumidores conservadores, mesmo que jamais pendesse à esquerda, seu discurso seria menos extremista, a fim de evitar perder pontos na audiência. Conseqüentemente, os abusos da mídia corporativa só ocorrem porque a sociedade em geral não é necessariamente influenciada mas, sim, porque ela alimenta o conservadorismo e os valores neoliberais de volta para a mesma mídia corporativa. Esta, por sua vez, aperfeiçoa e modifica o seu discurso em função do retorno (feedback) desse receptor, seja ele conservador ou não, procurando agradar mais ao perfil dos conservadores.

O procedimento técnico e a ideologia escolhidos para defender os interesses dessas oligarquias (manipulação, mentira, omissão, espetacularização, etc.), por sua vez, também é utilizado pela mídia dita pequena, seja esta militante de esquerda ou não. Afinal de contas, todos têm um lado e isso não pode ser escondido. A única verdade é que a maioria dos indivíduos deseja convencer o outro de que estão certos. Todos adorariam que houvesse um pensamento único voltado para a preservação dos seus próprios valores e do status quo. Em uma análise sincera e sem hipocrisia, o mundo seria muito mais tranqüilo, seguro e a vida seria muito mais fácil se não houvesse necessidade de discutirmos, certo?

As únicas regras
estabelecidas pela mídia são as regras que ela impõe aos integrantes de outros campos sociais para discursarem sob a formatação de suas técnicas e enunciados quando precisam aparecer através dela. Isso posto, a mídia como um todo (até mesmo a pequena, alternativa ou não-corporativa) serve como um megafone para espraiar toda e qualquer
ideologia, pois a política, a economia e a comunicação estão presentes em tudo e em todos. Ela serve de tradutora do discurso dos vários campos sociais através de uma gramática (falas, gestos, entonação, vocabulário)
didaticamente genérica, a fim de que os mais diversos segmentos da
sociedade laica conheçam aquilo que cada campo deseja revelar de si ou
como os seus mediadores acham que enxergam esses campos sociais.

Dessa forma, a denúncia e a investigação sobre tudo e sobre todos não faz parte desse modelo econômico. A pluralidade, a neutralidade e a objetividade não passam de simples mitos, já que o jornalismo não exprime “A” verdade mas, sim, uma dentre tantas verdades possíveis contada e editada por alguém que, como sujeito, interfere na sociedade e é afetado por ela, de tal sorte que essa vivência define a forma que sua história irá tomar e para quem ela será contada.

Então, os veículos que EU escolho para me dar a sensação de estar bem informado ou os veículos que EU escolho para criticar através de suas contradições que fazem com que eu me sinta mal informado também dependem da minha vivência, das minhas influências e do meu poder individual e exclusivo de intervir em meu próprio ambiente.

O fato de eu acreditar que acredito ou de acreditar que não acredito em algo ou em alguém pode mudar. Porém, esta mudança, na maior parte das vezes, far-se-á de maneira lenta e gradual. Mudando ou não, nada garante que eu esteja certo depois de mudar, ou que eu estivesse certo enquanto pensava da maneira anterior. Ao mesmo tempo, os valores são tantos que há diferentes pesos entre certezas e incertezas. Portanto, mesmo um analfabeto faminto perdido no meio do mato com uma TV onde só pega o canal 12 não é necessariamente influenciável por todos os enunciados da mídia.

O cerne da discussão não deve
ser técnico mas, sim, de uso: não importa se a mídia é grande ou
pequena, se é militante ou não, se é declaradamente de esquerda ou de
direita e nem tampouco se é plurigenérica ou se transmite um único
gênero específico: o que não pode é haver o abuso de práticas que
prejudiquem a vida, que julguem, que rotulem ou que defendam um lado
sem apresentar ou – pior – demonizar o outro.

O poder da mídia corporativa é
menor na pós-modernidade – pelo menos nas grandes metrópoles do planeta
altamente conectadas. Mesmo no Brasil nota-se essa perda de poder. Caso
contrário, o “nordestino preto analfabeto desempregado feio e burro”
teria dado ouvidos às milhares de emissoras de rádio e TV, revistas e
jornais que circulam neste imenso país.

Por conseguinte, quem decide o que é notícia, quem deve ser promovido, quem deve ser defenestrado, a quem defender, a quem atacar, quando, como, aonde, por que e a quem investigar e denunciar possui a mesma formação conservadora dos patrocinadores, de seus chefes e de boa parte da sua audiência. Essa questão explica parcialmente o fato de que o gaúcho médio não
é “tapado” do jeito que é pura e simplesmente por causa da atividade
midiática: ele é “tapado” porque, antes de existir a mídia, já haviam a
retórica, o discurso, a boataria e a coerção.

O quarto poder atribuído às corporações de mídia não existe como tal. Nem o discurso e nem as personas dos editores e dos donos das corporações de mídia possuem controle sobre a audiência e sobre o seu próprio modo de fazer. O verdadeiro primeiro poder (e não segundo, terceiro ou quarto) está muito acima do executivo, do legislativo e do judiciário. Trata-se do poder simbólico circulante na rede, onde os bancos, o latifúndio, as indústrias de armamentos, tabaco, bebidas alcoólicas, medicamentos, a indústria farmacêutica, parte do crime organizado (contrabando e tráfico de drogas, animais silvestres, plantas e pedras preciosas), políticos corruptos com as costas quentes e políticos donos de concessões das afiliadas das nove famílias articulam-se em rede. Todos se conhecem. Todos fazem negócios entre si. Todos pedem coisas uns aos outros e se esforçam ao máximo para atender e ser atendidos, custe o que custar. E todos possuem patrimônio, investimentos, perdas e ganhos em diferentes segmentos econômicos.

A questão é: como desconstruir esse sistema de redes sociais altamente profissional, competente, ágil e adaptável? Em toda a história da civilização ocidental, sempre houve uma casta nababesca e excludente que só pôde ser derrubada pela parte mais ambiciosa e mais esclarecida da casta colocada imediatamente abaixo da primeira. Ambas as castas precisam deum grande volume de pessoas, a fim de defender um lado ou outro. A massa é constituída por uma série de inocentes úteis, que não passam de meras buchas de canhão. Quem luta pelo poder político e simbólico fica na retaguarda, pois não vai correr o risco de morrer. Feita a troca de bastão, no período histórico seguinte, a mesma massa permanecerá sendo excluída. A única diferença é que a aristocracia anterior agora é decadente e serve muito bem à burguesia emergente como referência de dominação. Isso sempre ocorreu, com ou sem mídia de massa, com ou sem internet, com ou sem naves espaciais, com ou sem cavalos.

Com base na teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu, na caracterização dos mídias (grande, pequena, ruim, boa) como um campo social (Adriano Duarte Rodrigues) e na midiatização da sociedade (Eliseo Verón), chega-se à conclusão de que o campo dos mídias é o único campo social que atravessa e é atravessado pelos outros campos. Essa intromissão dos mídias nos demais campos sociais (jurídico, esportivo, médico, político, científico, religioso, militar, etc.) não necessariamente coincide com uma posição de maior poder (seja ele econômico ou simbólico).

O papel da mídia não é nem deseducar, nem educar. A mídia é tão-somente um instrumento técnico. O tipo de uso que se faz dela depende da intenção das pessoas que a patrocinam. E a crença sobre como deve-se “ensinar” a audiência a viver depende sobremaneira da ideologia e dos valores dos produtores de cada programa.

É preciso mudar a maneira de pensar e de viver como um todo. Afinal de contas, se há desinformação, omissão, manipulação descarada, tentativa de consenso através de um pensamento político e econômico único, é porque existe tanto um grupo de financiadores, de produtores e de legisladores como sobretudo uma enorme parcela de público cidadão e consumidor como protagonistas desse processo. A mídia corporativa alimenta sua audiência…

…Mas também é fartamente alimentada por ela.