ANÁLISE DA VIABILIDADE ECONÔMICO-FINANCEIRA DO PROJETO ARENA PARA O GRÊMIO

Este post foi gentilmente compartilhado na sua íntegra pelo analista do Banco Central do Brasil lotado em Porto Alegre Bruno Saraiva Ferreira e Silva, um grande gremista. Boa leitura a todos! :)

A análise do fluxo de caixa projetado da Arena do Grêmio é desafiador para qualquer analista, pois trabalha um campo ainda inexplorado pelos clubes brasileiros: a sofisticação de um ambiente historicamente rudimentar para o torcedor de futebol, isto é, o estádio de futebol. A questão passa pelos preços praticados e vai até a utilização desses novos ambientes em outras ocasiões que não somente aquelas relacionadas com o futebol. No caso específico da Arena do Grêmio há ainda um outro “complicador”. O clube conta hoje com um quadro social de cerca de 65 mil associados, herança dos acessos irrestritos verificados no velho Estádio Olímpico, mas que na Arena, por força da existência de um parceiro financiador e construtor, a OAS, deverá resultar numa estrutura complexa de receitas e despesas envolvendo as duas partes.

As especificidades da Arena em relação a sua capacidade de gerar receitas são muitas, mas destacam-se, principalmente, o tamanho da sua área bruta locável (28 mil metros quadrados), a possibilidade de se negociar os direitos de nome do estádio (naming rights), as 2300 vagas de estacionamento e a possibilidade de se locar o estádio para a realização de grandes shows. Estas receitas extras devem representar, na visão deste analista, cerca de 20% do total de receitas da Arena caso o Grêmio tenha um público médio mensal de cerca de 30 mil espectadores.

No lado das despesas, a amortização dos R$ 260 milhões que serão financiados junto ao BNDES em 90 parcelas mensais deverá representar a maior parte do desembolso mensal existente no fluxo de caixa do negócio Arena. As demais despesas deverão se concentrar na manutenção do estádio e no ressarcimento que a Gestora da Arena deverá fazer ao Grêmio como contrapartida às despesas que este terá pela obrigação de dar livre acesso ao estádio para os seus associados. Essa questão, inclusive, evidencia que há diferenças entre o fluxo de caixa do negócio Arena e o fluxo de caixa do Grêmio. Estes dois fluxos de caixa em conjunto, entretanto, impactam as finanças do clube de uma forma complexa e que resulta em informações assimétricas em torno do negócio. As próximas etapas desta análise visam eliminar estas assimetrias, muito embora o Grêmio e a OAS ainda não tenham liberado dados importantes sobre os preços que serão praticados na Arena.

Começarei pela principal receita projetada para a Arena: a bilheteria dos jogos. Como o objetivo principal desta análise é verificar a viabilidade do negócio Arena para o Grêmio – confundindo os dois fluxos de caixa em um só – projetarei um valor elevado para os ingressos, o que resultará em uma despesa elevada de ressarcimento pelo Grêmio junto à SPE. Para tornar o cenário ainda pior para o Grêmio em relação ao valor a ser ressarcido, considerarei que, na Arena, apenas 5% dos torcedores que frequentarem o estádio não serão locatários de cadeira (com livre acesso ao estádio) ou sócios-torcedores (que pagam 50% do valor do ingresso). Por quê isso é ruim para o clube? Porque as despesas de ressarcimento à SPE sobem na medida que o índice de associados presentes no estádio cresce. Abaixo está o percentual de cada tipo de torcedor que frequentará a Arena conforme os números atuais de sócios-torcedores e sócios-patrimoniais (futuros locatários de cadeira na Arena). Estes percentuais se baseiam nos números já informados pelo Grêmio em seus jogos no Olímpico e na intenção já declarada pelo clube de não abrir novos títulos de sócios-patrimoniais.

TIPOS DE TORCEDOR NO ESTÁDIO

Locatários de Cadeira ou  de Espaços na Geral

54,2%

Sócios-torcedores

36,3%

Torcedores comuns

5,0%

Camarotistas

4,5%

Estes torcedores devem ser distribuídos em 60540 lugares, conforme tabela abaixo:

ÁREAS DO ESTÁDIO

Anel Superior

23.470

Anel Inferior

15.266

Anel Gold

6.848

Anel Gold Grêmio

2.000

Anel Camarotes

2.728

Geral

10.228

TOTAL

60.540

Posteriormente tratarei unicamente da questão dos sócios, desde o preço das suas mensalidades até a sua distribuição dentro da Arena. Agora, trarei 6 cenários distintos de público médio para a Arena, o que logicamente resultará em receitas bastante variadas. Considerei um preço médio de R$ 61,00 para o Anel Superior (R$ 50,00 atrás do gol, R$ 60,00 no corner e R$ 70,00 no meio), de R$ 83,33 para o Anel Inferior (R$ 70,00 atrás do gol, R$ 80,00 no corner e R$ 90,00 no meio), de R$ 40,00 para a Geral (em qualquer parte dela) e de R$ 150,00 para o Anel Gold (qualquer parte dela). São valores muito acima daqueles vendidos para os torcedores no Olímpico e esse é um dos principais temores daqueles que se declaram críticos da Arena, pois ingressos altos representam reembolsos altos do Grêmio à SPE. Mais adiante nesta análise será identificada a real consequência financeira ao Grêmio pela presença de sócios nos diferentes setores da Arena. Os camarotes (capacidade de 12 pessoas cada um) seriam negociados a um preço médio de R$ 6,5 mil ao mês, o que não destoa dos preços atualmente praticados no Olímpico, ainda que com uma oferta bem mais baixa. Dado estes valores, abaixo seguem as projeções de arrecadação – por jogo e por mês (considerando 3 jogos por mês) – para diferentes médias de público na Arena:

  1. ARENA LOTADA

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (ARENA LOTADA)

Anel Superior

 R$1.431.670,00

Anel Inferior

 R$1.272.166,67

Anel Gold

 R$1.027.200,00

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$409.120,00

TOTAL

 R$4.423.990,00

Faturamento SPE Bilheteria Mensal Lotada

 R$13.271.970,00

  1. ARENA COM MÉDIA DE 40 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (40 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$945.933,27

Anel Inferior

 R$840.546,20

Anel Gold

 R$678.691,77

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$270.313,84

TOTAL

 R$3.019.318,41

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 40 mil

 R$9.057.955,24

  1. ARENA COM MÉDIA DE 30 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (30 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$709.449,95

Anel Inferior

 R$630.409,65

Anel Gold

 R$509.018,83

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$202.735,38

TOTAL

 R$2.335.447,14

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 30 mil

 R$7.006.341,43

  1. ARENA COM MÉDIA DE 20 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (20 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$472.966,63

Anel Inferior

 R$420.273,10

Anel Gold

 R$339.345,89

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$135.156,92

TOTAL

 R$1.651.575,87

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 20 mil

 R$4.954.727,62

  1. ARENA COM MÉDIA DE 15 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (15 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$354.724,98

Anel Inferior

 R$315.204,82

Anel Gold

 R$254.509,42

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$101.367,69

TOTAL

 R$1.309.640,24

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 15 mil

 R$3.928.920,71

  1. ARENA COM MÉDIA DE 8 MIL PAGANTES

FATURAMENTO SPE BILHETERIA POR JOGO (8 MIL PESSOAS)

Anel Superior

 R$189.186,65

Anel Inferior

 R$168.109,24

Anel Gold

 R$135.738,35

Anel Camarote

 R$283.833,33

Geral

 R$54.062,77

TOTAL

 R$830.930,35

Faturamento SPE Bilheteria Mensal 8 mil

 R$2.492.791,05

Nos 6 cenários acima a única receita que se manteria estável é aquela oriunda de camarotes, pois estes terão demanda inelástica em relação aos jogos de futebol. Funcionarão como suítes e escritórios particulares inclusive para dias sem futebol no Estádio. Todas as demais áreas variam igualmente entre os cenários conforme diminui a média de público. É, certamente, uma análise simples, mas que tende a refletir razoavelmente uma média de arrecadação no longo-prazo. O mesmo ocorre com o Anel Gold, embora o Vice-Presidente Eduardo Antonini tenha informado que este setor deve ter 70% das cadeiras negociadas diretamente pela SPE à pessoas-jurídicas. Optou-se, contudo, não considerar este cenário apresentado pelo nosso Vice-Presidente justamente para se considerar um cenário que resulte em mais desembolsos do Grêmio à SPE, ou seja, um cenário mais pessimista.

As outras fontes de receita da Arena virão da locação de 28 mil metros quadrados de área locável bruta no interior do estádio, da locação de 2300 vagas de estacionamento, da negociação de naming rights e da locação do estádio para outros eventos, sejam eles shows ou até jogos da seleção brasileira.

A primeira receita analisada é aquela oriunda dos 28 mil metros quadrados área locável bruta. Para se ter um norte do valor comercial destes espaços, optou-se por se fazer um paralelo com o preço de shopping centers em grandes centros urbanos brasileiros. A constatação é de que estes espaços são o mais próximo possível daquilo que teremos na Arena, muito embora seja necessário corrigir o preço da locação pelo número de dias em que não ocorrerão eventos dentro do estádio, já que shoppings centers atualmente possuem movimento 7 dias por semana. Os melhores shoppings brasileiros possuem um preço de locação do metro quadrado de cerca de R$ 375,00 por mês. É o caso do Shopping Iguatemi localizado na avenida Faria Lima de São Paulo. Esse, entretanto, certamente não é o paralelo correto para ser utilizado na comparação com a Arena Gremista. Shopping Centers normais tem um preço médio de metro quadrado ao redor de R$ 250,00. É isto que informa a consultoria imobiliária Cushman & Wakefield. Tendo em vista que a Arena Gremista terá cerca de 3 match days por mês e mais uma mínima utilização em dias sem jogos, optou-se por utilizar uma relação de 15% em relação ao preço de shopping centers normais, ou seja, cerca de R$ 30,00 por mês o preço do metro quadrado locável. Desta forma, a Superficiária arrecadaria cerca de R$ 840 mil ao mês com a locação de toda a sua área bruta disponível.

A receita com locação para shows e outros eventos na Arena é de difícil mensuração, pois estamos tratando de um mercado em expansão na capital gaúcha e que contará, além da Arena Gremista, também com o Beira-Rio reformulado para a realização deste tipo de eventos na cidade de Porto Alegre. Em contato com um  funcionário de uma empresa de eventos de Porto Alegre, foi perguntado qual era o custo de um estádio como o Beira-Rio para a locação para a realização de um grande espetáculo. Foi informado que o preço girava em torno de R$ 100 mil. A análise, portanto, além de considerar esse preço no fluxo de caixa projetado da Arena, considerou que o novo estádio tricolor será sede de cerca de 3 grandes shows a cada 2 anos, o que resultaria em receitas anuais ao redor de R$ 150 mil.

A receita com naming rights também gera bastante dúvidas quanto ao seu real potencial de impactar as finanças da Superficiária. A razão é a total ausência de histórico para balizar uma projeção confiável. A solução foi comparar o preço anual do patrocínio principal da camisa do clube com este novo produto relacionado não a uma camisa de futebol, mas a um estádio de futebol. O Grêmio atualmente recebe cerca de R$ 15 milhões anuais do seu patrocinador master. Partindo desse valor, foi projetado ser bastante factível negociar o patrocínio de um grande estádio de futebol por cerca de R$ 12 milhões ao ano.

A receita advinda das 2300 vagas de estacionamento, considerando que no Estádio Olímpico o custo de cada uma das cerca de 400 vagas gira em torno de R$ 150,00, deve ficar ao redor de R$ 345 mil por mês. Este analista não encontrou motivos para a majoração de preços, principalmente pelo grande aumento da oferta de vagas. Além das 2300 vagas existentes na Arena Gremista, haverá ainda mais 3 mil vagas disponíveis em um edifício garagem a ser explorado unicamente pela OAS Empreendimentos.

Na esfera das despesas a Superficiária da Arena Gremista incorrerá basicamente em 3 grandes desencaixes além da tributação: amortização do financiamento junto ao BNDES, manutenção do Estádio e o ressarcimento de R$ 8 milhões ao Grêmio. É importante deixar claro que a amortização do financiamento tem como prazo 90 meses e que, com a sua liquidação, a Superficiária passará a ressarcir o Grêmio em R$ 16 milhões anuais. Nessa análise, contudo, será  considerada apenas a viabilidade do negócio durante o período de amortização do financiamento junto ao BNDES.

O financiamento que a Superficiária retirou junto ao BNDES muito possivelmente teve o valor de R$ 260 milhões, o máximo permitido conforme termo do aditivo de contrato firmado entre Grêmio e OAS. O prazo informado foi de 90 meses. A linha utilizada não foi informada. Não se sabe se foram concedidos recursos do Pró-Copa à Arena, sabidamente mais baratos. Logo, foi considerada s taxa de 6,5% ao ano, comumente utilizada pelo BNDES em suas operações de longo-prazo. Carregando os dados acima em uma HP12C o valor mensal a ser amortizado pelo Superficiária ficou em R$ 3,655 milhões.

A manutenção da Arena é um ponto interessante de ser analisado e de difícil mensuração, pois, embora o novo Estádio seja muito maior em área que o Estádio Olímpico, grande parte das suas instalações (28 mil metros quadrados) serão locados para terceiros e esses incorrerão em custos condominiais para a manutenção das áreas em comum. Isso deve resultar em menores desembolsos para a Superficária no que se refere à manutenção. Outro aspecto positivo é que a Arena deve ter uma gestão mais eficiente em virtude da profissionalização da sua gestão. A projeção é a de que serão necessários cerca de R$ 1 milhão por mês para cobrir estas despesas.

A última despesa que a Superficiária deve ter são R$ 666,6 mil fixos que ela terá que desembolsar ao Grêmio em contrapartida aos custos que este último deve ter para permitir o livre ingresso dos seus sócios à Arena. Adiante será debatido o montante desse custo para o Grêmio. É importante deixar claro que este valor fixo de R$ 666,6 mil não está relacionado com o real desembolso que o clube deve ter para permitir o livre acesso à Arena para os associados.

Em vista dos dados discutidos, abaixo é mostrada a projeção de resultado para a Superficiária em cima de 6 cenários diferentes para o público presente na Arena:

Demonstração de Resultado Superficiária

 

Arena Lotada

40 Mil

30 Mil

RECEITAS

 15.469.470

 11.255.455

 9.203.841

Bilheteria

 13.271.970

 9.057.955

 7.006.341

Naming Rights

 1.000.000

 1.000.000

 1.000.000

Locação Área Comercial

 840.000

 840.000

 840.000

Locação Shows

 12.500

 12.500

 12.500

Estacionamento

 345.000

 345.000

 345.000

DESPESAS

 (5.321.837)

 (5.321.837)

 (5.321.837)

Amortizaçao Financiamento

 (3.655.170)

 (3.655.170)

 (3.655.170)

Manutenção Estádio

 (1.000.000)

 (1.000.000)

 (1.000.000)

Ressarcimento Gremio

 (666.667)

 (666.667)

 (666.667)

RESULTADO ANTES DO IR

 10.147.633

 5.933.618

 3.882.005

Imposto 34%

 (3.450.195)

 (2.017.430)

 (1.319.882)

LUCRO LÍQUIDO

 6.697.438

 3.916.188

 2.562.123

 

20 Mil

15 Mil

8 Mil

RECEITAS

 7.152.228

 6.126.421

 4.690.291

Bilheteria

 4.954.728

 3.928.921

 2.492.791

Naming Rights

 1.000.000

 1.000.000

 1.000.000

Locação Área Comercial

 840.000

 840.000

 840.000

Locação Shows

 12.500

 12.500

 12.500

Estacionamento

 345.000

 345.000

 345.000

DESPESAS

 (5.321.837)

 (5.321.837)

 (5.321.837)

Amortizaçao Financiamento

 (3.655.170)

 (3.655.170)

 (3.655.170)

Manutenção Estádio

 (1.000.000)

 (1.000.000)

 (1.000.000)

Ressarcimento Gremio

 (666.667)

 (666.667)

 (666.667)

RESULTADO ANTES DO IR

 1.830.391

 804.584

 (631.546)

Imposto 34%

 (622.333)

 (273.559)

 -

LUCRO LÍQUIDO

 1.208.058

 531.025

 (631.546)

O único cenário negativo para a Superficiária é aquele que apontou uma média de público de 8 mil pessoas por jogo. As receitas com bilheteria não seriam suficientes para cobrir os desencaixes fixos do estádio. Todos os demais cenários são positivos para a Superficiária. Um cenário bastante factível – aquele que apresenta média de público de 30 mil pessoas por jogo – resulta em um lucro líquido de cerca de R$ 2,5 milhões por mês.

            Após a análise do negócio Arena sob a ótica da Superficiária, fica a pergunta: de quê forma o resultado da Superficiária impacta as finanças do Grêmio em relação aos jogos em que o clube é mandante? Afinal, o clube terá participação de 65% no resultado (lucro líquido) desta Superficiária, desde que esta não apresente prejuízo (cláusula prevista no aditivo de contrato firmando em agosto de 2011). A resposta é muito dependente da receita que o clube terá com o seu quadro social, pois ela é a principal fonte de receita do clube quando se analisa unicamente os jogos em que ele é mandante. Outras receitas como patrocinador da camisa, publicidade móvel, comercialização de jogadores, etc, não devem ser consideradas, porque não estão inclusas no negócio Arena. O objetivo é comparar quanto o clube ganha ou perde com a troca do Estádio Olímpico pela Arena.

            O preço das mensalidades é o grande ponto de discussão, bem como o número de associados. Quanto maior for o valor destas duas variáveis, maior será a receita do clube. Entretanto, pela lógica micro-econômica, a correlação destas duas variáveis é negativa. A busca de um ponto ótimo é mandatória por parte do Conselho de Administração do clube. Muito debate em torno do assunto em redes sociais e informações imprecisas já foram lançadas por nossos dirigentes e mídia esportiva. Este analista que vos escreve, portanto, optou por um cenário em que o quadro social não muda de tamanho e que o Conselho de Administração decide por uma majoração razoável das mensalidades. Entende-se que a atratividade do novo Estádio permitirá este aumento, logo não deve haver ingresso de novos associados no clube. Os preços escolhidos, inclusive, tem sido divulgados recentemente por conselheiros próximos ao Eduardo Antonini. Nos próximos parágrafos, além da divulgação dos preços das mensalidades (opinião), serão mostrados os critérios utilizados por este analista para definir a procura por cada uma das modalidades que provavelmente existirá na Arena.

A procura dos sócios-patrimoniais aos diferentes setores do novo Estádio gremista é algo difícil de ser mensurado, pois estamos tratando de uma situação nova e jamais vivida pelo clube. Por conta disso, optou-se por utilizar o critério do preço da mensalidade x disponibilidade de assentos para estipularmos a demanda. Logo, quanto mais nobre é o setor, menor será a sua procura. Entretanto, se a área for pequena (em termos relativos), o percentual de ocupação dessa área por sócios-locatários poderá ser maior. Logicamente, há muita subjetividade nessa questão. Mesmo que saibamos que cada um tem o seu, o bom senso foi a ferramenta utilizada para determinar o tamanho das áreas disponíveis e o quão procuradas elas seriam. É importante frisar que a divisão dos setores do Estádio e os seus respectivos preços mensais para sócios-locatários obedeceu informações dadas informalmente pelo Vice-Presidente Eduardo Antonini em entrevistas às rádios de Porto Alegre. Não é nada oficial divulgado pelo clube. Antonini mais de uma vez divulgou que o setor mais barato para sócios-locatários seria a Geral (anel inferior atrás do gol) e que o mais caro, depois do anel Gold (área VIP), seria a área central do anel inferior. Todos estes setores seriam divididos entre áreas localizadas atrás do gol, nos corners e no meio das arquibancadas. Quanto mais central, mais caro. Abaixo é mostrada como ficou a matriz de preços versus disponibilidade de assentos versus procura sócios-locatários.:

  1. GERAL

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

G E R A L

Geral  R$90,00

 10.228

70%

 7.160

 R$644.364,00

Total Geral  

 10.228

 

 7.160

 R$644.364,00

  1. ANEL INFERIOR

 

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

A N E L   I N F E R I O R

Inferior Corner  R$160,00

 5.089

50%

 2.544

 R$407.093,33

Inferior Atrás do Gol  R$140,00

 2.544

60%

 1.527

 R$213.724,00

Inferior Meio  R$180,00

 7.633

45%

 3.435

 R$618.273,00

Total Inferior  

 15.266

 

 7.506

 R$1.239.090,33

 

 

  1. ANEL GOLD

 

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

A N E L   G O L D

Gold SPE  R$300,00

 6.848

15%

 1.027

 R$308.160,00

Gold Grêmio  R$300,00

 2.000

15%

Total Gold  

 8.848

 

 1.027

 R$308.160,00

 

 

  1. ANEL SUPERIOR

 

Categoria

Valor Mensalidade

Lugares na Arena

% de Associados Neste Setor

Associados Neste Setor

Renda Mensal

 
 

A N E L   S U P E R I O R

Superior Corner  R$120,00

 11.735

75%

 8.801

 R$1.056.150,00

 
Superior Atrás do Gol  R$100,00

 4.694

80%

 3.755

 R$375.520,00

 
Superior Central  R$140,00

 7.041

65%

 4.577

 R$640.731,00

 
Total Superior  

 23.470

 

 17.133

 R$2.072.401,00

 

 

 

            Os números acima mostram que o Grêmio terá cerca de 24 mil sócios-locatários de espaços nos setores mais baratos da Arena: a Geral e o Anel Superior. O fato condiz com a distribuição verificada atualmente no Estádio Olímpico. Os demais sócios locatários, cerca de 8,5 mil, estão nos setores mais caros, assim como ocorre atualmente no setor oeste do anel superior do Estádio Olímpico. A diferença é que, na opinião deste analista, a Arena terá cerca de 3 mil associados a mais nestes setores considerados mais nobres, pois esta conquistará clientes que o velho Olímpico não tinha condições de atender. Destaca-se o fato de que no Anel Gold apenas 15% dos 6.848 assentos disponíveis para locação foram negociados para sócios. O número é baixo em virtude do Antonini já ter antecipado que cerca de 70% daquele setor deve ser negociado para pessoas jurídicas, além de que 2 mil cadeiras serão próprias do Grêmio para concessão à membros do Conselho Deliberativo, do Conselho de Administração, proprietários de cadeiras perpétuas do Olímpico e convidados do clube.

            O valor das mensalidades, como se pode perceber, sofreu uma majoração de cerca de 40% para os associados que hoje são sócios-proprietários no Olímpico e que passarão a ser locatários de cadeira (ou de espaços, no caso da Geral) na Arena. A localização destes no estádio mudará do primeiro para o quarto anel. Para os atuais sócios-locatários do Estádio Olímpico (localizados no anel superior, setor oeste) a majoração ocorreria apenas se o Anel Gold fosse a sua escolha.

            O número de sócios-torcedores permaneceria mais ou menos o mesmo daquele verificado atualmente com o Estádio Olímpico, isto é, 32 mil associados. Eles pagariam metade do valor da mensalidade mais barata da Arena, isto é, da Geral.

Sócios Torcedores  R$45,00

                32.000

 R$1.440.000,00

            Muito embora o quadro social deva se manter estagnado em número de associados em virtude da majoração das mensalidades, ele passará a ser mais rentável para o clube. Foi considerado que os sócios patrimoniais, em sua grande maioria, pretenderá manter o seu direito de acesso irrestrito à Arena, aceitando o aumento da mensalidade em troca do melhor conforto oferecido no novo Estádio. Aqueles que não desejarem ainda terão mais de 10 mil lugares na Geral oferecendo praticamente o mesmo custo atual. A receita mensal do Quadro Social do Grêmio, portanto, passaria a ser esta:

TOTAL

            64.826

 R$5.704.015,33

A receita de R$ 666,6 mil reais por mês que o Grêmio terá oriunda da Superficiária será, obviamente, a contrapartida da  despesa de mesma natureza da Superficiária conforme descrito e analisado anteriormente. Portanto, esse ponto não precisa ser novamente debatido.

O mesmo pode ser dito em relação às despesas de ressarcimento que o Grêmio deverá incorrer junto à Superficiária. Elas representam o pagamento que o Grêmio deverá fazer junto à Gestora da Arena para bancar o seu sócio dentro do novo Estádio. A lógica é a de que quanto maior for o número de associados presentes na Arena, maior será o desembolso do Grêmio para bancar este associado no novo Estádio.  Em vista da projeção do número de associados em cada setor da Arena e do preço cobrado pela Superficiária para cada um destes setores, foram construídas tabelas projetando o valor total a ser ressarcido pelo Grêmio considerando cada um dos 6 cenários já citados. São eles:

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE POR JOGO (ARENA LOTADA)

Sócios Locatários de Cadeira

 R$2.111.065,04

Sócios Torcedores no Anel Superior

 R$169.860,84

Sócios Torcedores no Anel Inferior

 R$284.170,63

Sócios Torcedores no Anel Gold

 R$383.672,37

Sócios Torcedores na Geral

 R$53.933,49

TOTAL

 R$3.002.702,38

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (ARENA LOTADA)

R$9.008.107,13

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (40 MIL PESSOAS)

R$5.545.922,84

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSALL (30 MIL PESSOAS)

R$4.057.963,29

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (20 MIL PESSOAS)

R$2.570.003,74

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (15 MIL PESSOAS)

R$1.826.023,96

RESSARCIMENTO GRÊMIO P/ SPE MENSAL (8 MIL PESSOAS)

R$784.452,28

Os valores que não aqueles referentes à Arena lotada representam uma função desta, portanto não foi divulgado o valor específico de ressarcimento para cada modalidade de sócio conforme a sua localização dentro da Arena.

O resultado final para o Grêmio na conjunção dos dois fluxos de caixa, da Superficiária e do próprio clube, foi considerado positivo por este analista, pois em nenhum dos 6 cenários de público médio projetados o Grêmio verificaria saldo de caixa negativo. Entretanto, ocorreria um fato curioso: quanto maior o público médio na Arena, menor será o resultado positivo do clube devido ao incremento nas despesas de ressarcimento à Superficiária. Vamos aos números:

Fluxo de Caixa Final Projetado para o Grêmio

 

Arena Lotada

40 Mil

30 Mil

Receita Quadro Social

 5.704.015

 5.704.015

 5.704.015

Receita SPE > Gremio

 666.667

 666.667

 666.667

Despesa de Ressarcimento SPE por Lotação

 (9.008.107)

 (5.545.923)

 (4.057.963)

Resultado Sem Participação SPE (Grêmio)

 (2.637.425)

 824.759

 2.312.719

Receita Participação SPE

 4.353.335

 2.545.522

 1.665.380

Resultado Líquido (Grêmio + SPE)

 1.715.910

 3.370.281

 3.978.099

 

20 Mil

15 Mil

8 Mil

Receita Quadro Social

 5.704.015

 5.704.015

 5.704.015

Receita SPE > Gremio

 666.667

 666.667

 666.667

Despesa de Ressarcimento SPE por Lotação

 (2.570.004)

 (1.826.024)

 (784.452)

Resultado Sem Participação SPE (Grêmio)

 3.800.678

 4.544.658

 5.586.230

Receita Participação SPE

 785.238

 345.167

 -

Resultado Líquido (Grêmio + SPE)

 4.585.916

 4.889.825

 5.586.230

Considerando um cenário básico onde o Grêmio mantenha um público médio de 30 mil espectadores por jogo, o resultado do Grêmio com o negócio Arena giraria em torno de R$ 4 milhões por mês, um valor muito longe dos números alarmistas encontrados “no mercado”.

            O resultado final dessa análise jamais pode ser considerado conclusivo. Este analista, além de não dispor de todas as informações necessárias para a construção de uma análise mais completa, trabalhou quase sempre com hipóteses. Entretanto, considera-se que os dados que serão divulgados futuramente sobre preços e mensalidades não devem destoar muito daquilo que foi trabalhado, o que torna possível ao leitor ter um norte de como o novo Estádio tricolor poderá impactar as finanças do clube nos próximos anos. A análise recém finalizada visa somente enriquecer o debate em torno do Projeto Arena. Em nenhum momento este analista buscou defender uma posição política ao realizar esse estudo, até mesmo por ser um associado sem vínculo algum a qualquer grupo político dentro do clube. O seu partido é o Grêmio e, por amar o clube, querer o seu melhor e para dirimir dúvidas pessoais quando à viabilidade econômico-financeira do Projeto Arena, tentou unicamente se certificar se este será saudável ou não para o clube. Por isso, o mesmo está aberto a críticas. Elas servirão para trazer um melhor entendimento sobre o tema e para enriquecer o debate em torno daquele que pode ser o turning point do clube nas próximas décadas.

Bruno Saraiva Ferreira e Silva
Sócio desde 1998
Administrador de Empresas
Mail: mundiko@msn.com

CARA A CARA COM O REI LEÃO: APRENDER SEM TIETAR E OUVIR EM SILÊNCIO

Peço muitas desculpas a todos os blogueiros e moderadores de comunidades vinculados à rede social que ajuda a divulgar o Exército Gremista e os planos de sócios do Grêmio pelo atraso neste post. Porém, a vida anda bastante atribulada. E, por falar no Tricolor, às vezes ocorrrem fatos que precisam furar a fila por alguma razão.

As fotos e vídeos deste post estão no Flickr. Assim que estiverem no ar, selecionarei algumas para ilustrá-lo. Portanto, ainda editarei este post algumas vezes. ;)

Graças à uma iniciativa das queridas amigas Melissa Devens e Bianca Ramos com a colaboração de Vitor Rodriguez, fui sorteado para participar da entrevista coletiva após a conquista do 1º turno do Gauchão 2011 ou Copa Piratini. Não vou adentrar na análise do jogo, pois o que importa é o que eu senti na sala de conferências do Olímpico. ;)

Preciso agradecer também ao nosso novo (porém velho conhecido e com um pedigree daqueles!) diretor-executivo de marketing Paulo César Verardi e à gerente de marketing Michelle Billo, pois são eles que organizam e viabilizam as iniciativas de tantos gremistas espalhados pelo mundo.

Bem… Após a condução da Bianca e do Vitor, fiquei no canto direito, na penúltima fila (a última é sempre ocupada pelos cinegrafistas, para que eles posicionem o foco, a distância e a direção de suas lentes o mais afastados possível de cabeças e braços inoportunos), com a instrução de que não poderia fazer perguntas.

O primeiro a adentrar o recinto para falar aos jornalistas foi o REI LEÃO. Muitos chamam-no de Santo; outros, de O Espírito que Anda e os mais infelizes de “Renato Gaúcho“. O REI LEÃO CHAMA-SE RENATO PORTALUPPI. Ponto. ;)

Com todo o respeito a diversos setoristas de diversos veículos, considero que as únicas perguntas capazes de instigar Renato a discutir as suas decisões como técnico mais a fundo foram a do repórter e analista tático Eduardo Cecconi, do Globoesporte.com. Não que outros profissionais experientes e respeitáveis tenham perguntado bobagens – longe disso. Apenas acho que, para aquilo que me interessa mais observar e, acima de tudo, APRENDER dentro de campo é preciso desenvolver uma conversa que traga consigo um pouco de cientificidade associada à prática. Mas isso é problema meu – coisa típica de acadêmico. Deixa pra lá! ;)

Além do Cecconi, consegui reconhecer também Glauco Pasa da RBS TV / SPORTV; Tatiana Lopes, do ClicRBS / Clube da Bolinha; Eduardo Gabardo, da Rádio Gaúcha; e Luiz Carlos Reche, da Rádio Guaíba.

O ambiente era bastante positivo e festivo. O presidente do Conselho de Administração do Grêmio, Paulo Odone Chaves de Araújo Ribeiro, o vice-presidente e o assessor de futebol Antonio Vicente Martins e César Cidade Dias deram uma discreta passada pela sala de conferências, sem usarem a palavra ou permanecerem no ambiente durante o decorrer das entrevistas do técnico e dos jogadores.

Considero que essa atitude foi muito digna e oportuna, pois as personalidades a serem celebradas e questionadas eram realmente aqueles que decidiram a parada dentro das quatro linhas. Ponto para eles.

Intimamente, Renato sabe que não se trata de uma conquista acachapante. Este foi um pequeno passo para o homem que – oxalá – possa se transformar em um grande passo para a humanidade. De qualquer forma, a celebração e o status de título foram carregados de emoção, quando ele lembrou-se de que a sua querida mãe, dona Maria Portaluppi, falecera no dia 21/02/2010 e que fizera um pedido a seu filho mais famoso: o de voltar a seu clube do coração e conquistar títulos como técnico do GRÊMIO.

Renato faz uma força danada pra manter a pose de durão. Ele claramente conteve as lágrimas, silenciou para evitar falar com a voz embargada e recompôs o semblante altivo com uma rara naturalidade. Renato em Porto Alegre não dá entrevistas de óculos escuros, ao contrário do que SEMPRE fazia no nosso amado Rio de Janeiro (fosse com 45ºC e sol a pino ou com 12ºC em dia de tempestade). Renato não deve nada a ninguém. Mas, aqui, ele mostra os olhos como se estivesse em uma espécie de [fiodebigodemodeon], característico dos melhores caracteres da nossa população.

A vida de pai da Carol, marido da Maristela, técnico profissional de fato e a maturidade de seus quase 49 anos incompletos (09/09/1962) nos oferecem um Renato bem diferente daquele que me fez vibrar ensandecidamente nos dias 29/07/1983 e 11/12/1983 quando eu era um gurizinho de 10 anos e ele uma fortaleza física e uma monstruosidade técnica de 20-21. A personalidade forte, a coragem, a ousadia e a irreverência são parte indissociável do seu ser. No entanto, ele é, hoje, mais sereno. E, dependendo  daquilo que ouve ou de como sente as pessoas a partir do olhar e das falas dos corpos dos outros, menos paciente e mais arredio.

O hoje introspectivo Renato é um sentinela do Grêmio, assim como o são os quero-queros que dão rasantes nos incautos brigadianos que ousam circular próximos demais de seus ninhos ao redor do gramado do nosso Monumental: ele gostaria de saber e de poder cuidar mais e melhor do seu Grêmio. Porém, ele não possui o devido preparo para isso. Ele não foi feito pra fazer política, nem pra ser forçado a estudar para dominar uma técnica profissional diferente daquela que a intuição e a sua experiência de vida possam lhe oferecer.

Mas a velha impetuosidade do nosso ídolo mais incontestável mostra-se inclusive quando erra: sempre que precisa extrapolar o comando do vestiário ou quando insiste com alguns “bruxos” que, infelizmente, não tem trazido o mesmo resultado que no avassalador final de 2010, Renato peca porque é um lobo solitário em uma estepe vazia de comando.

Acho que é essa a impressão que eu posso relatar acerca de um contato próximo do homem que me trouxe a maior felicidade futebolística que eu tive em toda a minha vida.

Lembro que, quando vivi no Rio de Janeiro entre junho de 2000 e março de 2001, encontrei-o por diversas vezes jogando futevôlei e bebendo um chopp com amigos no quiosque do posto 9 em Ipanema. Não sou um cara tímido, mas gosto de preservar a intimidade das pessoas, para que elas sejam elas mesmas e sintam-se à vontade. Por isso, jamais o procurei para conversar naqueles tantos domingos.

Queria dizer a ele que eu era um piazinho que estava no hoje Quadro Social do Olímpico esperando por ele com a Mãe, com o Pai, com o Vô e com a dona Maria, quinta esposa do meu avô. Que o Vô era de setembro de 1903, assim como o Grêmio. Que o Pai era de Junho de 1930, assim como a primeira Copa do Mundo disputada em território platino, na República Oriental do Uruguai. Que eu achei sensacional o quimono que ele vestia quando deu um abraço bem apertado e um beijo pra lá de amoroso na sua mãe. Que o Vô, minutos antes, havia dançado alegremente com a dona Maria Portaluppi, com a alegre concessão da sua Maria, minha quarta avó emprestada. E que, infelizmente, eu não tenho mais o negativo daquele filme, que contava toda essa história…

Se a mim tivesse sido dada a oportunidade de falar na coletiva, teria dito uma única palavra: OBRIGADO POR TUDO SEMPRE, RENATO!!!

POR UM GRÊMIO MAIS CATIVANTE E MAIS POPULAR, SEM DEIXAR DE GANHAR DINHEIRO

Não custa absolutamente nada para o Grêmio nem para a OAS reservar lugares para os operários da obra da Arena no estádio Olímpico Monumental. Afinal de contas, eles são os responsáveis diretos por erguer o novo estádio do clube. A todos eles, que verdadeiramente suam e correm riscos pra depois a gente poder desfrutar de acomodações especiais, seria um justo reconhecimento.

Outra opção que defendo (compartilhada também pelo querido amigo César Fernandes do nosso Grêmio do Prata) o Grêmio reservar pelo menos 1000 lugares nos jogos médios e pequenos para crianças e adolescentes de escolas de periferia, pais e professores. Uma medida inclusiva e educativa para o sócio do futuro e – ainda mais importante – para que a imagem do Grêmio se sobreponha de uma vez por todas ao equivocado senso comum que nos rotula como “racistas” e/ou “elitistas”.

Espaço para essa concessão há, pois é extremamente raro lotar o Olímpico. Quando não há clássico nem é fase de “mata-mata” e em épocas nas quais o Grêmio não está bem no Brasileirão, sob essas condições, na melhor das hipóteses, o público raramente ultrapassará 35000 de 51000 ingressos possíveis.

Além disso, a motivação para a vinda de excursões de outras cidades depende muito dos resultados de campo e da meteorologia.

Por todos os fatores acima levantados, só haveria vantagens na popularização do clube: afinal de contas, seriam mais pessoas a conhecer, consumir (mesmo que pouco) e a vivenciar o que é, de fato, torcer pelo nosso Tricolor dos Pampas sem a mediação do rádio e da televisão. Quem vê e gosta, recomenda e espalha a sua experiência.

Enfim… Hoje, dizem que cada traque atravessado precisa valer dinheiro. Mas cativar, fidelizar e oferecer experiência positiva de uso sempre MULTIPLICA a imagem positiva e faz com que conhecidos com maior poder de consumo apareçam.

Não apoio iniciativas puramente elitistas. Mesmo que os ricos gastem mais quando comparecem ou que tenham por tradição adiantar o ano ou o semestre contribuindo substancialmente para o sustento do clube, infelizmente, a maioria deles não é tão frequente no estádio porque pode pagar por outras opções de lazer e possui menos paciência quando o desempenho do time é fraco.

A nova economia deve ser pensada em rede: não existe uma massa, um povo ou uma classe uniforme mas, sim, uma multidão descentralizada dividida em incontáveis nichos de perfis multifacetados, que só se reúne para atingir um determinado objetivo. Quando consegue o que deseja ou quando a sua demanda é derrotada por larga margem, então se dispersa.

É preciso levar em conta que uma quantidade muito maior de consumidores que compra em pequenas quantidades, hoje em dia, quase sempre irá gastar várias vezes a soma do consumo dos poucos ricos. Nesse sentido, a atual campanha de sócios do Grêmio está correta, ao oferecer planos a R$18,00 e a R$36,00 mensais.

Essa é a chamada Teoria da Cauda Longa. Conheçam Chris Anderson, Distribuição de Paretto e Lei de Zipf ou baixem o livro em inglês no site do Chris. Mas para que se concretize um efetivo aumento no número de gremistas na nossa área geográfica, além dos títulos DE VERDADE (que, infelizmente, não vem há exatamente uma década), é preciso reservar um percentual de lugares para a outra teoria do mesmo editor da Wired bastante consagrada na economia digital: FREE.

À medida que o Grêmio superar as atuais falhas de distribuição para as vendas online de produtos da GremioMania e também na entrega atrasada ou extraviada das novas carteirinhas de sócio em função de falhas no sistema e à medida que várias tarefas burocráticas dentro do clube forem automatizadas, certamente será possível ocupar os lugares ociosos no estádio com a garantia de lucro ao invés da sensação de prejuízo.

O que me preocupa é a falsa impressão dos tecnocratas de que só existe uma maneira de fazer marketing, de contabilizar receita e despesa e de caracterizar o que é investimento e o que é gasto. Ou, pior: a perda da criatividade quando se toma como referência uma maioria que tende a proceder da mesma forma.

Em outras palavras: basta ao Grêmio saber escolher quando, como aonde, com quem e por que ser arrojado ou, então, apoiar o movimento da manada…

SÃO AS ARENAS, ESTÚPIDO!

Leia isto com atenção. Após uma análise fria dos dados, será que a sua conclusão será muito diferente da minha?
Os estádios são precários.
Os horários são péssimos.
Os ingressos são caros.
Os times são ruins.
Além do resultado de campo e de algumas vantagens nos valores de serviços de parceiros, o que poderia fazer o torcedor se associar?
Melhores estádios obviamente cobram preços bem mais altos a fim de manter a estrutura funcionando e de proporcionar lucro.
Porém, a velocidade do crescimento da economia não é tão grande assim e a diversidade de opções de lazer é grande.
Se há 12400 famílias de classe AB na Grande POA (universo de 3.400.000 habitantes), o pessoal que pode pagar 20 contos de estacionamento, ingresso de cadeira lateral (80) e um nº1 do MacDonald’s (porque não vai mais ter a Towner da “tia” nem o “entrevero” do boteco) não enche um estádio de 50000 lugares. Melhor dizendo, não enche a metade e, por melhor tratado que seja, sem time, não há público. Além disso, dependendo do adversário e do clima, nem vão.
O desafio de um marketing verdadeiramente profissional é MONSTRUOSO dada a realidade da baixíssima média de ocupação dos estádios brasileiros.
Isso que falamos apenas em Série A, grandes capitais, grandes clubes…
A realidade do êxodo cada vez mais precoce de talentos; o retorno de medalhões já operados em alguma articulação e a total falta de identidade dos atletas de outros estados para com a maioria dos clubes para os quais atuam aliada à sua curta permanência em cada cidade afastam o público.
Mesmo nos raros casos em que os dirigentes são gestores e técnicos competentes em suas respectivas áreas e estão no lugar certo, na hora certa e com a companhia ideal, ainda assim é preciso rodar a baiana para ter que remontar o plantel a cada meia temporada.
O Brasil possui pouquíssimos técnicos com formação e cultura tática. A maioria deles é motivadora e esse discurso possui um prazo de validade muito curto.
O desafio é sério e a necessidade de encará-lo está cada vez mais próxima…

EU SÓ PEÇO AO GRÊMIO UM POUCO DE MALANDRAGEM

Embora considere natural e até ache que o mesmo seria feito como forma de mobilizar a audiência gremista caso nós tivéssemos em uma circunstância bem melhor, acho importante observar com atenção determinados tratamentos que a mídia hegemônica dá aos grandes clubes de Porto Alegre.
Hoje, foi publicado uma galeria de fotos que não pára de crescer, que registra o apoio de colorados ao time na semifinal da Libertadores contra o São Paulo (veja aqui).
Pergunto: se as redes sociais mais perenes da internet já existem no Brasil desde 2004 (Orkut, YouTube, Flickr e, mais recentemente, Facebook), por que diabos o Grêmio disputou a final da Libertadores em 2007 e o mesmo tratamento não nos foi dado pelo Grupo RBS?!
Respondo a essa pergunta retórica evitando simplismos: em primeiro lugar, não se pode afirmar que a RBS seja “colorada” ou que a maioria de seus funcionários seja colorada e puxe a sardinha para o assado do Tradicional Adversário. Afinal de contas, a família Sirotsky é predominantemente gremista, já gastou bastante dinheiro mandando imprimir e distribuir bandeirinhas de plástico em nossas principais decisões em casa e já cansou de fretar voos para torcedores ilustres, sendo a viagem mais célebre a do nosso Bi da Libertadores.
Em segundo lugar, não posso crer que a ideia de mobilizar a torcida do nosso T.A. tenha surgido há pouco tempo. A grande verdade é que eles investem muito mais em marketing e em publicidade, além de um lobby muito bem articulado junto à imprensa em geral pelo seu ex-presidente e atual diretor de futebol Fernando Carvalho. Cito isso não como uma atitude ilegal ou antiética mas, sim, como um exemplo de esperteza, de astúcia, de agilidade, de perspicácia e, acima de tudo, de antecipação de problemas, a fim de minimizá-los ao máximo.
Muito por causa da ausência de um conselheiro especialista nessa importante área dentro do Conselho de Administração e também em função da indisponibilidade de uns e da omissão de outros especialistas já presentes no Conselho Deliberativo, nossos departamentos de Marketing e de Comunicação não criam estratégias e não possuem domínio nem prática de táticas de guerrilha midiática.
Futebol também se ganha fora de campo e a torcida precisa ser mobilizada de todas as formas, utilizando-se de todos os canais possíveis. Esse caso prova que não é a quantidade de dinheiro mas, sim, a de contatos influentes o que realmente importa.
Cito como exemplo um homem com mais de 30 anos de Grêmio que é uma pessoa agradabilíssima e possui disponibilidade de atuar pelo clube (como de fato o faz), apesar de estar no lugar errado e na hora errada (isto é, no Marketing): o nosso glorioso Cesar Pacheco: estamos na iminência de termos como a derradeira possibilidade de obtermos um único título relevante na gestão Duda Kroeff – a conquista da Copa Sul-Americana. Este senhor já viajou pelo mundo inteiro e foi o nosso diretor de futebol campeão de quase tudo na gestão Koff. Ele conhece dirigentes de clubes, de federações e patrocinadores. A sua presença nessa hora e nessa função de relações institucionais é fundamental para que o clube obtenha o máximo de garantias possíveis de que não será logrado nem tratado com desrespeito por onde quer que passe.
E sabemos que isso define títulos. Às vezes até mais do que dentro de campo…