A COPA É MUITO MAIOR DO QUE O BRASIL

Não posso afirmar que eu “seque” o Brasil. Mas também não posso afirmar que eu não “seco”. Por motivos bem pessoais, me dou o direito de amar futebol e de detestar a Seleção Brasileira Masculina Adulta da CBF e de seus patrocinadores graúdos que paga pau para a Rede Globo.

A primeira Copa que acompanhei foi a de 1982. Eu era uma criança de apenas nove anos de idade. Tinha o álbum Ping-Pong da Copa do Mundo, colei os adesivos que vinham nas bandejas de yogurte Yoplait na porta do meu quarto, andava pra lá e pra cá com a minha bandeira nacional de plástico com o Naranjito colado nela. O narrador titular da Globo era o Luciano do Valle e o comentarista era o Márcio Guedes. O eslógão da emissora na época era “Mundial’82: todos em ação para um Brasil campeão”.

Na 3ª série do Daltrão, éramos dispensados mais cedo para assistirmos aos jogos do escrete canarinho.

28 anos e sete Copas depois, sem  querer desmerecer ninguém e sem comparar alhos com bugalhos, revi há poucas semanas atrás o fatídico Brasil 2×3 Itália que desclassificou a Seleção e causou um clima de velório bem maior do que o Maracanazo dos bravíssimos e categóricos orientais Obdulio Varela, Schiaffino, Ghiggia e também maior do que o da verdadeira morte – a morte do piloto de F1 Ayrton Senna da Silva.

Valdir Peres era um frangueiraço de marca maior. Um goleiro tenebroso, de deixar o pobre goleiro argelino de 2010 corado. Leandro e Júnior eram excelentes laterais NO APOIO, pois não marcavam absolutamente ninguém. Oscar e Luizinho jogavam o fino da bola. Todavia, zagueiro que se preze não pode ganhar o prêmio Belfort Duarte e precisa honrar o ditado “bola pro mato porque o jogo é de campeonato”. Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico jogavam bem demais. Todos os quatro meias, sem exceção, com a bola nos pés e em termos de movimentação ofensiva, eram brilhantes. No entanto, quem marcava? Quem cobria o avanço dos laterais? Todo contra-ataque era praticamente fatal: tivemos muita sorte de não termos, naquela época, uma Alemanha de 2010. Senão, seríamos uma presa muito mais vulnerável do que o foi a Argentina treinada por Maradona.

Cerca de 1/4 da população brasileira vive nos estados de RJ e SP. O grosso da indústria, do dinheiro, dos empregos, da mídia de circulação nacional e dos grandes patrocinadores concentram-se nesses dois estados. Eles possuem oito clubes que já foram campeões brasileiros e detém a esmagadora maioria dos convocados para todas as seleções. Naturalmente, quando uma maioria pensa em uníssono porque existe um forte vínculo cultural e a referência informacional é praticamente unânime, torna-se extremamente difícil racionalizar – o que dirá então tentar enxergar o contexto procurando adquirir uma visão externa…

Salvo raríssimas e honrosas exceções, em todas as classes sociais, castas, estamentos, etnias, sexos, religiões e faixas etárias, a esmagadora maioria da população brasileira não possui motivos objetivos nem para ser otimista, nem para ser patriota. Com ou sem razão, há muitas gerações, o relato do senso comum é permeado por discussões simplistas, pois ou sofreu-se a forte influência de ascendentes ultraconservadores e de pouco estudo, ou tomou-se como referência a mídia corporativa, que veicula notícias conservadoras voltadas à satisfação dos interesses de seus patrocinadores em detrimento da exposição de múltiplas visões com paridade de juízos de valor nas opiniões e sem misturar notícia e opinião. E um outro fator que complica a predominância de uma visão ais ampla por parte da sociedade como um todo refere-se à modernidade taylorista-fordista, na qual todos não passam de meras engrenagens que fazem a máquina do sistema funcionar. Quem trabalha de maneira mecânica tem o tempo ocupado demais com atividades pouco gratificantes e perde a capacidade de se pôr no lugar de pessoas cuja realidade a sua rotina limitada de “casa-trabalho-casa” os impede de vislumbrar.

Por outro lado, entendo, louvo e respeito demais que muitos não tenham interesse nem necessidade de conhecer ou sequer de gostar de futebol. Também acho sensacional que haja uma vontade de pertencer a uma coletividade, de encontrar um elemento de identidade sociocultural e que este elemento seja a Seleção…

…Contudo, o futebol não é nem o ópio do povo, nem a mais bem acabada metáfora da vida: afinal de contas, é tão difícil ocorrer uma onda de viciados em drogas, de vagabundos e de alienados como é mais difícil ainda que o mesmo futebol sirva de exemplo para solucionar a maioria dos problemas pessoais e coletivos que assolam o país.

A minha formação e a minha identidade não me permitem sentir-me integrado à maioria que apenas faz festa e torce sazonalmente pelo Brasil. Eu sou muito emotivo, me comovo bastante e choro facilmente com o esporte. E, ao contrário do que muitos possam imaginar, por ser sul-riograndense, não acho nada positivo quem pensa que o RS é melhor do que o Brasil ou que este estado deveria ser um país independente. Não canto mais a hipocrisia do hino riograndense, assim como não hastearia a sua bandeira. Pelo contrário: adorava hastear a bandeira do Brasil na hora cívica e gosto muito de cantar o nosso hino, que não é belicista nem racista como os hinos da França, da Alemanha e da Itália, que são os três com melodias tão belas quanto as do Brasil.

Mas daí a achar que o ato de torcer pelo Brasil em uma Copa do Mundo ou não fará de mim uma pessoa “melhor” ou “pior” do que quem torce ou deixa de torcer; que eu seria “mais” ou “menos” patriota ou que eu seria mais ou menos inteligente, segue uma distância de 23 universos. Realmente admito que não sou uma boa companhia, pois sou muito crítico e não tenho saco para patriotadas hipócritas ou por uma pseudoeuforia. Eu prefiro que quem jogue um futebol melhor, isto é, mais competitivo e com menos falhas, ganhe. Apesar de eu ter predileção pelas seleções africanas e por todas as latinoamericanas de língua espanhola (principalmente as do Prata), muitas vezes me ponho em uma posição de neutralidade, que irá me emocionar quando o melhor vencer e fazer com que sinta-me triste pela desclassificação de quem perde.

Digo que foi muito mais significativo para mim ter podido torcer pela Argentina de Diego Maradona e está sendo muito mais prazeroso e intenso torcer pelo Uruguai do que o foi pelo Brasil. Me reservo o direito de sentir-me mais integrado ao Prata e ao Grêmio do que a Porto Alegre, ao Rio Grande do Sul ou ao Brasil e de perceber que é esse futebol aguerrido e desacreditado de povos bem mais empobrecidos do que o nosso e de governos que normalmente investem muito mais na educação básica do que o brasileiro o fez em todos os tempos que me comove.

Afora o diário esportivo Olé e os excessos isolados de um portenho ou de outro, não consigo enxergar nenhum motivo inteligente e sério para me fazer tripudiar ou odiar os argentinos. Eles nos recebem bem demais nas suas cidades, assim como amam de paixão as nossas praias. Muitos podem ser excêntricos por cultivarem emoções bipolares e superlativas. No entanto, são pessoas agradabilíssimas de se conviver.

A ternura de um homem argentino beijando outro homem na testa ou no rosto demonstra afeto, compreensão e respeito fraternos e sinceros.

O futebol por estas bandas só terá chances de minimizar ao máximo as falcatruas e os desmandos que vitimam a sua respeitabilidade e a constância na sua qualidade no dia em que o Brasil ficar de fora de uma Copa do Mundo. Acho que só assim teremos uma chance de formarmos melhores dirigentes, melhores jornalistas e de termos uma cultura torcedora mais consciente e mais positiva.

RAP DO BORIS CASOY, REI DO RS

Muitos amigos  já haviam escrito sobre essa questão: Maria Frô, Azenha, Rodrigo Vianna e tantos outros.

A preciosidade acima é fruto da criatividade da periferia. Infelizmente, a esmagadora maioria da classe mérdia (isto é, a parcela casoyana da classe média) é culturalmente desinformada por falta de tempo, por falta de interesse e também por preconceito.

Chupei o videoclipe acima do altamente corajoso e combativo Cloaca News. Para mim, oriundos deste estado, ele, o RS Urgente, o Diário Gauche, o Dialógico, o Alma da Geral e o Animot são aqueles que condensam e discutem fatos políticos, econômicos e sociais da maneira mais necessariamente radical e crua possível. Do contrário, não seria possível conhecermos os pormenores e a verdade  da política e da economia no RS. Afinal de contas, a blindagem midiática mascara os interesses de patrocinadores através da ação de profissionais ou incompetentes, ou oportunistas, ou mal-intencionados que militam na mídia corporativa.

A mídia corporativa deveria funcionar como um catalisador da orientação do homem no ambiente em que vive. Ela não pode ser determinista. Ela não pode destilar preconceitos. Ela deve dar margem para o receptor tornar-se interagente. Ela precisa dar o que falar, documentar, denunciar, observar, mas não pode pautar a vida das pessoas.

Contudo, a mentira, a omissão e/ou a descontextualização em meio a um processo histórico muito mais amplo tem pernas muito curtas: o “cobertor curtonão se sustenta mais. E nem Casoy há mais como manter sua reputação. Nele, toda explicação torna a emenda sempre pior do que o soneto.

No caso, os blogs independentes de esquerda, embora pequem por serem predominantemente partidarizados e por ignorarem grande parte dos preceitos do Direito que os tornariam muito mais críveis, funcionam como vozes dispersas e minoritárias, mas que possuem a vantagem de poder dividir o mesmo espaço junto aos portais do PiG – muito embora o comportamento do consumidor de mídia na internet costume ser predominantemente o mesmo em relação a quem ele considera como referência de credibilidade na mídia de massa.

Creio que falta pensar em rede (digo isso mais em relação à sociedade do RS em si, não exatamente aos blogueiros, que estão acima da média de letramento digital) ao invés de meramente considerar a mídia corporativa de massa como um Big Brother, pois a sociedade contemporânea é multifacetada e dividida em infinitos nichos.

Pensar em rede pressupõe demonstrar uma disposição para compartilhar conhecimento e informação inclusive a partir do próprio PiG. Afinal de contas, ele depende cada vez mais da interação com o jornalismo cidadão, que chega nos nichos em que o gigantismo da infraestrutura e do financiamento não lhes permite chegar. Para ser honesto, ter pensamento autônomo, ser bom investigador e ter vontade de escrever e de publicar vídeos e fotos, não é preciso ter diploma. E quem conta aquilo que toda a sociedade realmente deveria saber, acaba sendo intimidado.

Infelizmente, a degradação do modelo corporativo em função de este atender cada vez mais de maneira incondicional ao seu principal cliente (que não é o consumidor final da informação que publica e transmite) é um caminho sem volta em um país no qual 72% da população adulta (inclusive contando a privilegiada parcela que possui um canudo universitário) é analfabeta funcional.

Como a maioria dos editores e dos donos da mídia agem e pensam de maneira conservadora e como o sistema de financiamento da chamada Grande Mídia assim os favorece, embora não seja possível generalizar (o que seria uma leviandade), há muito mais Casoys do que se possa imaginar. Casoys com microfone e sem microfone; com câmera e sem câmera; com teclado e sem teclado; com gravador e sem gravador; de terno Armani e Lamborghini, mas também de camiseta rasgada e carroça; armados e de punhos nus.

Todos praticando os seus achismos. Todos destilando os seus preconceitos. Todos procurando evangelizar ideias reacionárias que levem seus crentes a relaxar no pau-de-arara do consumismo e a perceber com fúria e com estresse as coisas mais simples da vida.

Vivo em um estado desgovernado por capatazes bufões regidos por uma rainha de copas a serviço da insustentabilidade, do escravagismo e da intolerância, amplamente protegida pela criadagem de seus intelectuais orgânicos. Vivo em um estado de uma população predominantemente crente em uma revolução que nunca existiu e que se acha a mais culta, a mais politizada, a mais aguerrida do mundo.

Conheço 16 Estados brasileiros. E, infelizmente, o RS acumula a maior quantidade de casoys e de servos do país.

Mas não pensem que a culpa maior desse triste quadro recai direta ou principalmente sobre os sucessivos desgovernos, sobre a má educação, a má saúde, a corrupção política, as cúpulas de instituições como RBS, FIERGS, FARSUL ou a FEDERASUL: neste caso, simplesmente não há vencedores nem vencidos e a quantidade de vítimas e de inocentes é muito menor do que se possa imaginar.

A Casoylândia é aqui. Resta àqueles que ainda não foram hipnotizados pela ignorância nem traídos pelos seus piores instintos procurar desconstruir essa lógica perversa. O Brasil começa mas também termina aqui. E, incompreensivelmente, esta é a terra do contrafluxo: pensamos diferente de quase todo o país – até mesmo a esquerda. Assim, não chega a ser nenhuma surpresa que o estado que apresenta a menor taxa de mortalidade infantil e a maior escolaridade média seja também o berço da maior quantidade de ditadores que o país já viu.

TARANTINO E A GATEKEEPER HISTRIÔNICA

Espero que vários amigos interagentes consigam compreender o vídeo acima em inglês.

Em poucas palavras, o diretor Quentin Tarantino foi entrevistado por uma espécie de representante ou porta-voz das donas de casa ultraconservadoras. Esse grupo muitas vezes age com intolerância acerca de uma série de questões políticas, econômicas e sociais devido ao simplismo da sua visão de mundo.

Pessoalmente, minha personalidade foi sendo formada por uma curiosidade muito forte, que sempre me leva a querer conhecer cada vez mais nuances sobre muitos assuntos. Isso não me torna um gênio e nem tampouco um especialista em qualquer coisa. Mesmo assim, acho que posso falar pelo menos sobre a maneira com que muitos encaram a violência.

O bate-papo já começa mal: a entrevistadora demonstra de cara que quer ser engraçada impondo um estilo bonachão e dominador. Até aí, poderíamos dizer que é o jeito dela. Em parte, sim. Porém, aos poucos, ela não vai deixando o interlocutor terminar as suas exposições quando se vê contrariada ao perceber que ele não cede nas suas convicções e que ele não entra em nenhuma saia justa.

Apesar da elevação do tom de voz e das constantes intromissões de parte a parte, ela perde as estribeiras justamente porque Tarantino não se mixa e levanta a voz junto. O pulo do gato do cineasta está justamente no fato de que ele não ofende a entrevistadora e tampouco ofende o seu público.

Vale ressaltar que nenhum dos dois é psicanalista nem sociólogo. Porém, o fato do diretor deixar claro que está falando sobre ficção e a entrevistadora pretende apelar para uma comparação descabida com o “mundo real” já diz muita coisa. A dita cuja sequer deu-se o trabalho de fazer um mínimo de apuração e de pesquisa jornalística para poder contestar com argumentos sólidos a assertiva de Tarantino, que acha que seus filmes retratam tão-somente um mundo de ficção e que a violência não passa de um pano de fundo para satirizar o cinema a partir de clichês de filmes antigos. Depois da dispensa do entrevistado, ela seguiu aproveitando o seu espaço para enxovalhar a visão dele sem a possibilidade do direito de resposta imediata.

Não sei se ela é jornalista ou não. E, sendo ou não sendo, também não há nenhuma garantia que ela tenha agido como agiu em função de ter ou não diploma. Pode ser até que ela não seja titular de nenhum programa. Portanto, não inventem de dizer que eu digo que a maioria dos jornalistas é estúpida. O sentido deste post é levar a uma reflexão:

– A classe dos jornalistas (sobretudo aquele nicho que trabalha em veículos das grandes corporações midiáticas) precisa desvincular-se da onipotência, da onipresença, da megalomania e da sensação de poder “brincar de deus” apenas em função da hiperexposição da sua palavra.

Aliás, sensacionalismo, onipotência, onipresença, megalomania e tendência a querer dar uma de juiz e de advogado ao mesmo tempo são péssimos hábitos que colaboram ainda mais para a descrença na informação jornalística. O pior é que tais hábitos viciados também podem ser demonstrados sem levantar a voz, sem arregalar os olhos e deixando o interlocutor falar.

Neste caso em particular, a falta de educação dessa mulher e a sua ignorância não são necessariamente frutos da sua enorme vontade de grudar a dentadura no osso da legitimação do micropoder que a sua exposição na mídia de massa lhe traz: tal postura indica a mim que o conflito de gerações entre aqueles que se mantém alheios ao reconhecimento das metalinguagens e quem realiza mashups e produções remediadas por intuição parece tornar essa uma diferença ainda mais significativa do que a que separa o alcance intelectual dos analfabetos e dos letrados.

Sinceramente, não sei se vou conseguir um dia atingir um nível pedagógico suficientemente satisfatório na quebra desse tipo de choque de gerações. Mas vale a tentativa… ;)

ARENA DO GRÊMIO: O QUE ESTÁ EM JOGO

Me desculpem os conselheiros Carlos Josias, Cacaio Azambuja e o amigo arquiteto Marcos Almeida, além de tantos comentadores (associados ou não, anônimos ou não) dos blogs Grêmio Acima de Tudo e Grêmio Sempre Imortal que consideram a Arena como favas contadas e que acreditam que pensar diferente ou discutir o projeto após a assinatura do contrato é trabalhar contra o Grêmio. Se existe essa possibilidade, não apenas eu, mas também centenas de associados poderíamos esclarecer dúvidas acerca da ISL e da Arena a qualquer hora e em qualquer lugar.

Ninguém vai deixar de ser gremista ou de ficar maravilhado caso tudo dê certo. Particularmente, não é o lugar (Humaitá ou Azenha) nem se será um estádio construído do zero (Arena) ou reformado com bastante critério (Novo Olímpico) o que está em jogo mas, sim, a AUTONOMIA e o PATRIMÔNIO do Grêmio.

Sempre deixo de lado o fanatismo, a imaturidade e o simplismo do pensamento resultado-dependente. E discordo veementemente do pensamento único (penda este para o lado que for). Do contrário, nenhuma análise será suficientemente crível.

Sou como o nosso brilhante técnico Paulo Autuori: discuto idéias e não pessoas. Sempre que cito sujeitos, minha preocupação é com as suas práticas políticas e gerenciais, bem como com os respectivos desdobramentos dessas práticas. Discutir idéias não implica em inimizade nem em desrespeito.

Voltando à vaca fria: qualquer Senado, Câmara dos Deputados, Assembléia Legislativa e Câmara dos Vereadores do mundo ocidental democratizado oferece a seus cidadãos a possibilidade de revisar os autos de todos os pareceres dos parlamentares acerca de todos os projetos de lei e demais votações internas.

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense não é uma empresa S.A. nem Ltda. Legalmente sua razão social indica que – pelo menos no papel – não tem fins lucrativos. Logo, possui alguns privilégios fiscais. Dentre eles, o clube é isento do pagamento de IPTU em Porto Alegre (não sei se em Eldorado do Sul também seja isento – acredito que sim).

Isso posto, hoje temos a Grêmio Empreendimentos S.A. com uma representatividade mínima dentro do corpo de administração da Arena. Trocando em miúdos, se a OAS terá três assentos e a Grêmio Empreendimentos S.A. terá dois, apesar de ser uma diferença mínima, isso significa MUITO: se toda decisão acabar em 3×2 para a OAS, o Grêmio não terá direito a eleger nem o porteiro da “arquibancada inferior” da Arena!

Independentemente da temporalidade da discussão, sua importância é, sim, extremamente relevante. Definitivamente, não é jogar contra o Grêmio tentar reverter uma decisão atabalhoada do CD. Atabalhoada, sim. Querem exemplos? Informações de dentro do CD indicam que:

1) A criação da Grêmio Empreendimentos S.A. não estava na pauta do dia da reunião na qual o então presidente Odone a propôs;

2) Havia o interesse em votar logo pela sua implantação sem mesmo definir as filigranas de seus estatutos e finalidades. Por que?

3) O Grêmio vivia um momento de penúria. Logo, por que diabos torrou 100 MIL EUROS (mais de 300 mil reais) contratando a consultoria da Amsterdam Arena Advisory para apenas ter um aval de que a área da Azenha não era interessante, isto é, que não havia espaço suficiente para construir uma “arena” nos moldes europeus?

Pelo que eu saiba, 8,5 Ha é uma área consideravelmente maior do que a de um estádio imenso. Wembley e o Ninho de Pássaro caberiam com sobras naquele espaço;

4) O conto da Carochinha de que somente no Humaitá seria possível reformular pontes, vias de acesso, mais linhas de ônibus, metrô, etc. é uma falácia: a arquitetura, a engenharia e o direito possibilitam, tanto na esfera técnica como na esfera política, construir qualquer coisa em qualquer lugar;

5) Converso bastante com biólogos (categoria profissional decisiva para o futuro do planeta e para a nossa sobrevivência). As informações que recebo são, pelo menos para mim, estarrecedoras: parte do terreno da futura Arena e/ou terrenos adjacentes ocupam uma margem fétida do quase morto Rio Gravataí – um curso d’água poluído. Os restos da obra e os banheiros destinados ao uso de MILHARES de pessoas só serviriam para piorar a tênue condição ambiental de um lugar que, hoje, já é bem pior do que o Arroio Dilúvio. Ali, situava-se também um antigo aterro sanitário. As fundações seriam absurdamente caras, pois o solo rochoso está a distantes 35 METROS da superfície. Há inclusive o relato do proprietário de um imóvel naquela região que sofre com rachaduras em função do peso sobre o terreno;

6) Por que desconfiar das decisões de tantos homens importantes que dividiram-se em comissões temáticas? Ora, porque muito poucos conselheiros leram todos os pontos do contrato. Além disso, entre aqueles que o leram, poucos pararam para ponderar a respeito de cada item.

7) O presidente Preis foi sabatinado pelo Hiltor Mombach do Correio do Povo. Foram cerca de 40 perguntas enviadas pelos torcedores e também elaboradas por jornalistas da rede Record. A possibilidade do público participar espontaneamente desse processo não está em discussão: o que eu quero dizer é que, infelizmente, a maioria das perguntas ou não foi respondida, ou foi respondida com excesso de reticências, com laconismo e sem a complexidade necessária. Na reunião do Movimento Grêmio Acima de Tudo com o próprio Preis, não houve clareza quanto aos pontos que garantem ou não tanto o patrimônio do clube como os direitos do associado. Preis também foi entrevistado pelo Ricardo Vidarte no site Final Sports. Conclusão: nenhuma;

8) Em meio ao episódio Odone + Britto (no qual um dos dois seria presidente do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense enquanto o outro seria presidente da Grêmio Empreendimentos S.A. ou vice-versa), Odone declarou que não iria se dedicar ao Projeto Arena nem ao clube caso não fosse aprovada a remuneração do presidente da GE. Por que?

9) Na referida entrevista de Preis ao Final Sports, ele considera excelente o fato de Odone ser o secretário estadual da Copa 2014. Quanto a isso, vamos expandir um pouco a rede para tentarmos analisar os fatos. O prefeito José Fogaça e o vice-prefeito José Fortunatti (secretário especial municipal da Copa 2014) também são conselheiros do Grêmio. Dois dos principais donos da RBS, José Pedro e Nelson Pacheco Sirotsky também são conselheiros do clube. O capital social desses cinco senhores nos campos político, empresarial e midiático é enorme. Sem dúvida, possibilita que haja benefícios ao clube.

Todavia, pensar apenas ou acima de tudo no Grêmio em detrimento da qualidade de vida da população mais carente; em detrimento dos graves problemas de educação, saúde e segurança existentes em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul em um grau mais elevado do que na maioria dos estados da federação nos dias de hoje a meu ver representa um oportunismo absurdo.

Vejamos: a RBS possui uma construtora, a Maiojama; toda a construção civil guasca sonha em alterar o Plano Diretor para transformar Porto Alegre em São Paulo; muitos vereadores tiveram doações de campanha de construtoras e o lobby sobre eles na Câmara Municipal é fortíssimo. O excesso de espigões torna a superfície mais úmida, menos insolada e mais escura.

A privatização dos espaços públicos é a grande causa da violência urbana. E mais: toda a torcida do Flamengo quer um financiamento do BNDES – que deveria ser um banco de fomento a atividades SUSTENTÁVEIS de geração de emprego e renda.

Vejam ainda que a maior parte dos anúncios dos Classificados de domingo são da construção civil. No mestrado em Ciências da Comunicação, aprendi que o excesso de notícias a respeito de um determinado tema e sob uma ótica predominante na qual a opinião contrária quase não tem voz significa que o noticiário está repleto de matérias pagas para satisfazer a um grupo de patrocinadores em particular.

É bom deixar claro que os Sirotsky, Odone, Fogaça e Fortunatti apóiam o DESGOVERNO LÚMPEN que acaba de ser deposto. Não houve nenhum editorial e nenhuma matéria investigativa durante 31 meses nos veículos da RBS. Em nenhuma manchete foi dita que o lumpesinato yedista inaugurava obras com dinheiro federal. E, a exemplo do Grêmio, nunca foi dito que o endividamento similar ao da ISL contraído por Yeda significava megalomania e mentira travestidos de “coragem”, “criatividade” e “ousadia”.

Outro detalhe: algumas figuras-chave desse lumpesinato até bem pouco tempo possuíam cargos dentro do Grêmio. Sabe-se lá por que, não houve seguimento no processo de expulsão de José Alberto Guerreiro do clube (um breve debate a respeito neste link). E, embora as falcatruas comprovadas pelo Ministério Público Federal e pelo Tribunal de Contas do Estado não tenham sido feitas nem com prejuízo, nem com vantagem ilícita e tampouco tenha sido engendrado a partir do Grêmio, tudo isso não seria motivo suficiente de expulsão de José Otávio Germano, Flávio Vaz Netto e daquele assessor  de Odone também envolvido com o yedismo?!

À exceção disso, as relações empresariais e político-partidárias acima relatadas, até o momento, felizmente ainda não apresentaram nenhum traço explícito de ilegalidade. Não há como falar em corrupção, coerção ou coisa parecida. Mas é imoral. É antiético. Não beneficia a maioria.

Portanto, não compactuo com aquela maioria silenciosa da classe média urbana que respondeu majoritariamente em uma pesquisa do Instituto Datafolha de alguns anos atrás que, desde que as coisas sejam feitas, admitem a corrupção.

O Grêmio e o RS só chegaram aonde chegaram exatamente por causa dessa infeliz crença do senso comum. Práticas seculares nos países escandinavos comprovam que pode-se realizar de tudo e que a iniciativa privada e o Estado podem ser honestos, pró-ativos, sustentáveis e gerar riqueza e conhecimento para todos. Sem obras superfaturadas, sem licitações viciadas, sem tráfico de influência, sem propina, sem comprar votos de deputados para votarem na emenda da reeleição (o mensalão tucano), nem para garantir a governabilidade a partir da cooptação de clientelistas (o mensalão petista).

Como último (porém talvez o mais sério) medo em relação à Arena no Humaitá, tanto a Grêmio Empreendimentos S.A. como a OAS precisam tomar um imenso cuidado também para não se tornarem réus caso a Aeronáutica decida processar o empreendimento em função da alteração proposta na altura máxima dos prédios do complexo em função da aterrissagem de aeronaves maiores na pista ampliada do Aeroporto Internacional Salgado Filho.

Além disso, beiras de rios, lagos e orlas marítimas são áreas pertencentes à União – mais especificamente ao Ministério da Marinha. Todo mundo pode adquirir qualquer terreno de orla seguindo as orientações do Plano Diretor de cada município. No entanto, em caso de guerra ou da necessidade do uso daquela área litorânea ou ribeirinha para exercícios militares, não se ganha um centavo e o Governo tem total direito de tomá-las de volta para si. A sogra da minha irmã já foi notificada em Duque de Caxias/RJ por causa disso e terá que se desfazer do único patrimônio que possui.

Todas as informações acima costumam ser distorcidas ou omitidas. Porém, deveria haver maior espaço para o conhecimento desta realidade aqui. Todavia, apenas um pequeno grupo de empresas detém a posse dos meios de comunicação de massa no RS, a maioria das pessoas toma a posição deles como verdade única e indestrutível.

Não sou conselheiro, não sou empresário, não sou advogado, não sou político e não sou o dono da verdade. Até posso me equivocar em uma informação ou em outra e até já fui a favor do Projeto Arena. Porém, após conversar com muita gente que não foi contaminada pelo pensamento único e de proceder algumas investigações, não me restou outra coisa a fazer além de me posicionar contra o modelo de negócio proposto.