Embora todo fenômeno social seja complexo e demande uma observação contínua, observo uma cadeia de práticas sociais que podem explicar por que a maioria das pessoas dá de ombros para qualquer mobilização nesse sentido.
Inicialmente, aumenta a crença de que a democracia representativa representa prioritariamente os interesses dos patrocinadores da mídia corporativa, que são os mesmos que garantem a maioria dos empregos da classe média.
Também creio firmemente nessa hipótese, mas isso não impede que eu mantenha a minha determinação em discutir alternativas de aperfeiçoamento da democracia. A grosso modo, a descrença nos políticos e a obrigatoriedade do voto também não podem desvincular os descrentes da participação política e social. Todavia, é mais fácil omitir-se do que fazer parte de algo que trará desgaste. Portanto, são muito poucos os indivíduos dispostos a perceber que o bônus da tensão é a superação de um modelo. Falta tenacidade e coragem para chegar até o fim.
Em paralelo, a esquerda conceitualmente atualizada – que costuma pensar que participa e contribui para a mudança desse quadro de apatia mais do que a maior parte da sociedade – mantém a defesa desse modelo muito em função de estar deslumbrada pela absurda quantidade de acertos em relação aos erros crassos e até inesperados do Governo Lula.
A extrema esquerda (conceitualmente superada e míope em relação ao macroambiente) hoje está ainda mais vinculada aos movimentos sociais do que o próprio PT. Ela também tem obtendo algumas vitórias no que tange à ética, à veracidade e aos critérios das investigações e das denúncias que ora tem protagonizado. Como ela elege seus poucos representantes e – a exemplo do PT – também foi forjada a partir da contestação à ditadura, o sistema parece-lhe justo. A extrema direita (golpista e reacionária), por sua vez, domina há muito tempo o que há de mais conservador entre as culturas regionais e as elites econômicas do país (mais precisamente RS, PR, SP e MG – não necessariamente nesta ordem). Ela tem sido quem mais se beneficia da democracia representativa e é composta por uma parcela da população bem maior do que aquela que a extrema esquerda representa.
Enfim, de todos os lados, a maioria ainda prefere ater-se à crença nesse modelo político-partidário do que preocupar-se em superá-lo paulatinamente a partir de uma alternativa que ofereça o privilégio e o direito de participar sem envolvimento presencial enquanto obriga o cidadão em geral a sentir-se verdadeiramente responsável pelas suas escolhas sociais.
A despeito dessa crise da democracia representativa, onde os políticos representam a todos mas não representam ninguém e onde ninguém presta mas todos decidem algo relevante sob a nossa chancela, a esmagadora maioria do funcionalismo público voltou a reconhecer em si um caráter muito mais técnico do que ideológico.
A bem da verdade, quando não existe um regime de exceção formal, esta costuma ser a prática mais usual da maior parte dos funcionários públicos. Logo, prevalece a consciência de que o funcionário público trabalha para atender aos cidadãos em geral e não a interesses privados – e nem tampouco pessoais. Como promessas a eles jamais foram cumpridas em sua totalidade por nenhum campo ideológico e por nenhum partido, perdeu-se aí aquela aura de combatividade e o sentido de fazer parte de um ideário coletivo.
Na prática, a maioria dos funcionários públicos que não é CC (esse grupo, sim, ou se beneficiam, ou se ferram) deve necessariamente atender a duas pontas simultaneamente:
1) As diretrizes gerais do seu ofício, que decorrem de um projeto de estado que independa de partidos e da persona do executivo: referem-se ao cumprimento do estatuto da empresa pública, ministério, secretaria de estado ou de município ou autarquia para a qual foram concursados;
2) As diretrizes pontuais relacionadas ao método de execução e aos objetivos traçados pela ideologia que ora é governo – o que determina o uso de um dado conjunto de técnicas voltadas ao cumprimento de planos que o chefe e seus parceiros do momento consideram mais eficientes.
No momento em que não se vive em uma ditadura, até mesmo as fiscalizações técnicas de auditores e corregedores voltam-se tão-somente ao cumprimento de leis e protocolos que, em princípio, devem evitar ao máximo expor e manchar a reputação da instituição.
Creio que tais diretrizes técnicas resultam em uma postura que segue alguns passos.
a) A crença do senso comum (isto é, o argumento não-técnico e não-especializado da maioria que não possui laços fortes com o poder público) no apoio ou na criminalização de uma determinada questão é altamente subjetiva, pois depende tanto da reputação de quem fornece a informação como do interesse de cada um em procurar – ou não – opiniões divergentes. Portanto, a opinião de cada indivíduo será formada tanto em função daquilo que acompanha na mídia de massa como nas mídias sociais, aliado ao depoimento de contatos presenciais com laços fortes junto ao poder público. E tão desvinculada da realidade será essa opinião pública quanto aumentar o seu interesse por questões das quais estiver desvinculada geográfica, técnica e socialmente – eis o porquê da ignorância agrária, da não-aceitação da Olimpíada de 2016 e do não-envolvimento com a corrupção no RS, por exemplo.
De maneira geral, o conservadorismo da classe média urbana reproduz o pior legado da ditadura militar e da formação oligárquica do estado brasileiro de uma forma exponencialmente superior à idealizada pelos seus mentores: a da conciliação hipócrita. A maioria da classe média é predominantemente medrosa, pouco crítica e profere opiniões vazias não por causa do individualismo e do ludismo pós-moderno, nem por causa do analfabetismo funcional, da miséria ou de um poder (a meu ver) exagerado atribuído à mídia corporativa mas, sim, por que acostumou-se à política dos panos quentes.
Independentemente da valoração que atribuímos à confiabilidade do noticiário e das opiniões encontradas tanto na mídia corporativa quanto na blogosfera (incluindo também o principal, que é composto pelo que NÃO foi dito), mesmo diante de tantos indícios exaustivamente denunciados publicamente – em particular, os indícios e as provas relacionadas à corrupção no desgoverno Yeda ( com ou sem blindagem midiática); as CPIs abafadas no desgoverno Serra e a censura do desgoverno Aécio – a crença na democracia representativa está ligada à descrença nos atores político-partidários e no Judiciário, pois quase tudo acaba em pizza. Ainda, a classe média em geral não deixa de estar consciente das prerrogativas de que “todos são inocentes até prova em contrário” e que “o ônus da prova é de quem acusa”.
Diante da hiperexposição midiática da corrupção (isso independe de quem e de como seja direcionado quando analisa-se friamente os fatos), cada um fica na sua para se proteger.
Finalmente, a esmagadora maioria das pessoas que possuía maior interesse em envolver-se diretamente em política nos moldes tradicionais ou já morreu, ou está aposentada. Inclusive grande parte de seus herdeiros de militância (a maioria na faixa dos 45 a 55 anos) insiste em seguir a mesma toada, sem perceber o quanto o mundo mudou.
Métodos superados, teorias superadas, práticas superadas, desconhecimento das armas do inimigo e por aí afora.
É preciso ser mais lúdico. É preciso ser mais assertivo. É preciso ser mais digital. É preciso ser menos panfletário.
Do contrário, tanto as mobilizações públicas como a do último domingo em Porto Alegre contra Yeda como o “célebre” Cansei – apesar de legítimas – permanecerão sendo quixotescas.