A FORMAÇÃO DE JOGADORES SUBSTITUÍDA PELO MARKETING

Jamais seria louco de remar contra a maré e de negar a necessidade e a importância do marketing esportivo. Tampouco nego que – atualmente – o jogador precise ser uma empresa repleta de assessores para agenciar a sua carreira (os mais promissores e os já consagrados contam com assessoria de imprensa contratada, media training para não falarem muitas bobagens, estilista pessoal, marca própria, etc.). Afinal de contas, ele é um componente-chave dentro de uma cadeia produtiva.

Contudo, a recente contratação de um jogador chinês pelo Corinthians e as falhas da Lei Pelé nocivas aos clubes põem em sério risco a priorização da formação de jogadores nas categorias de base por parte dos grandes clubes brasileiros.

Apesar do fantástico exemplo do Barcelona – cujo investimento em La Masia é crescentemente recuperado dentro e fora do campo (inclusive no Brasil e na Argentina) – temos, no Brasil, um fator limitador: os clubes só podem firmar um contrato profissional com jogadores a partir do dia em que eles completarem 16 anos de idade. Antes, eles são agentes livres – podem sair gratuitamente para qualquer lugar, sem que a instituição formadora seja minimamente ressarcida.

A partir da Lei Bosman na Europa, as leis trabalhistas passaram a impedir os clubes de ter aquilo que chamávamos antigamente de “passe” – apesar da multa rescisória pela negociação anterior ao prazo definido nos ora ditos “direitos federativos” resultar quase na mesma condição anterior. Além disso, por uma questão de isonomia e para evitar qualquer jurisprudência trabalhista nesse sentido, seria injusto com outras categorias profissionais ou flexibilizar, ou tornar mais rígida a condição do atleta profissional. Portanto, a solução precisa de um outro mecanismo – mesmo que seja necessário abrir uma exceção jurídica, o que nossos amigos da área do Direiro podem ajudar a operar com as devidas salvaguardas para evitar o risco da jurisprudência. Se não agirmos nesse sentido, casos de aliciamento como o deste triste exemplo irão minar o interesse dos grandes clubes em seguirem bancando as categorias de base.

Se o que interessa é expandir o universo de consumidores e de fãs, apesar de o nosso país ser demograficamente vasto, a fidelidade, a identidade regional, a tradição familiar e a necessidade de faturar cada vez mais para contratar e reter talentos são limitadores do crescimento do público de um clube. Apesar de a globalização levar à procura rumo aos mercados superpopulosos e financeiramente prósperos da Ásia, a pesquisa da Pluri Consultoria sobre o torcedor brasileiro aponta para uma maior proximidade do fã para com a sua respectiva identidade regional.

Mesmo assim, demográfica e culturalmente, não posso afirmar, hoje, que haja – demográfica e culturalmente – certeza de que a maioria dos jogadores que poderão vir a proporcionar frutos valiosos para o nosso Grêmio em um futuro próximo repliquem a mesma lógica que permeou a maioria de nossas equipes multicampeãs (isto é, a de jogadores predominantemente gaúchos feitos em casa). Todavia, a forma com que os agentes (insisto: mal denominados como “empresários”) prospectam, oferecem e adquirem os meninos como mercadorias faz com que eles circulem de maneira muito precoce por mercados aos quais a maioria deles terá imensa dificuldade de adaptação.

Paralelamente, temos um exemplo bastante próximo do RS no Uruguai, onde a AUF, sob o comando do técnico Óscar Tabarez, tem obtido resultados extremamente significativos dentro de campo e – mais do que isso – contribui para um culturamento formal mais amplo, reduzindo a chance de os jogadores serem descartados como qualquer bem de consumo material de obsolescência programada. A intenção uruguaia é bem diferente da brasileira, que é uma réplica do que ocorre na maioria dos grandes centros europeus: enquanto nossos vizinhos cisplatinos investem na formação do cidadão, do homem culto, politizado e autônomo em relação ao seu futuro, sabedor da sua identidade sociocultural, aqui se tem muito medo de que os jogadores deixem de ser as ovelhinhas preferidas por muitos técnicos e dirigentes.

A formação uruguaia traz consigo um gigantesco bônus para o futebol: ao invés de seguidores, líderes; ao invés de alienados e/ou semianalfabetos, profissionais capazes de se manifestar como formadores de opinião qualificados; ao invés de respostas evasivas, de polemizações desnecessárias e de um falso bom-mocismo, entrevistas mais francas e mais repletas de significado, com as quais a mídia e os torcedores terão muito a aprender.

Em função de todo esse contexto, precisamos urgentemente de uma verdadeira UNIÃO dos clubes para que as comissões + cessão ou divisão dos direitos federativos de todo e qualquer menino das categorias de base para agentes FIFA não ultrapasse os 30% e que, neste caso especialíssimo – o dos atletas em formação – o primeiro contrato profissional possa ser firmado aos 12 anos.

Finalmente, que todo e qualquer clube dito profissional deva necessariamente manter e desenvolver sempre TODAS as categorias de base, a fim de manter-se federado e presente em ligas competitivas. Isso garantiria a geração de empregos em todas as instâncias do futebol e tornaria a ação dos agentes mais transparente.

Contudo, há um fortíssimo entrave para a concretização desse modo de trabalho: a poderosa articulação entre dirigentes e patrocinadores que faturam alto com as constantes transações e agentes que funcionam ora como mecenas, ora como agiotas. E se esse tipo de relacionamento promíscuo ocorre até mesmo no seio dos clubes (eventuais diretores de escolinhas inescrupulosos, conselheiros que tormaram-se agentes e o costumeiro constrangimento que impede que conhecidos e partidários desses entes revelem a verdade).

Na área da Administração, costuma-se incentivar o empreendedorismo afirmando-se que, para toda a ameaça, surge uma oportunidade. Eis, portanto, o meu, o teu, o NOSSO desafio para, ainda que lentamente, possamos alterar esse estado de coisas que é comprovadamente nocivo ao Grêmio.

GRÊMIO, FUTEBOL, BRASIL: CLUBES SEM PATRIMÔNIO = APENAS MARCAS

No POST ANTERIOR, recebi o seguinte comentário do amigo JORGE VIEIRA – um dos gremistas mais conscientes que me dão o prazer de conversar comigo através deste blog:

Hélio, se entendi bem o Imortal vira um tipo de marca, como a NIKE. No Brasil, o estádio identifica o clube é um espaço de interação dos torcedores. Tirar o estádio é acabar com essa troca entre os torcedores, surge então uma nova situação como marca, um produto. Não seria um passo para vender a marca? Pode ser uma loucura, mas o caminho fica aberto. Afinal, quem é o dono da marca?

Tenho certeza de que, caso meu pai e meu avô – admiradores do meu querido xará presidente HÉLIO DOURADO -  também fossem vivos, pensariam de maneira muito parecida. Aliás, tudo o que envolve a questão da “arena” (que passo a tratar em minúsculas e entre aspas) desde o seu início versa sobre a falta de transparência na decisão sobre como escolher e sobre quem seriam os parceiros nesta empreitada; sobre a divulgação completa e tecnicamente bem interpretada de domínio público através da mídia especializada a respeito dos direitos e deveres do GRÊMIO FOOTBALL PORTO-ALEGRENSE, da verdadeira importância e necessidade de se criar a empresa GRÊMIO EMPREENDIMENTOS S.A. e, finalmente, das questões de previsão de receita, lucratividade, divisão do patrimônio e, finalmente, como ficará a situação do associado.

A profissionalização dos grandes clubes de futebol no mundo inteiro é uma questão de sobrevivência – pelo menos enquanto duas instâncias mantiverem-se como hegemônicas: a) a necessidade de gerar renda (que requer a multiplicação do consumo), a fim de manter o torcedor-consumidor entretido, integrado e participante através de um time competitivo; que nos leva à b) tentativa de transformar um bem intangível em um valor financeiro e simbólico reconhecido ao redor do mundo inteiro.

No momento em que o dinheiro deixa de ser um meio para transformar-se em princípio e fim, toda a retórica administrativa de valores, objetivos, etc. vira motivo de chacota, pois depende essencialmente da integração quase religiosa às idéias rabiscadas nesse papel, que só podem ser efetivadas quando os funcionários, dirigentes e consumidores passam a desempenhar um papel meramente mecânico ao invés de ideativo. Porém, sabe-se que as pessoas são todas diferentes entre si e que é absolutamente impossível alguém aceitar cumprir todos os quesitos propostos em sua integralidade.

Passa-se, então, a tratar do esporte em alto nível como se este fosse tão-somente uma relação entre causa e efeito: o clube oferece entretenimento e bens de consumo descartáveis, recebe o dinheiro e lida com ele da maneira que melhor lhe convier.

Pois bem: embora tenha escrito algumas obviedades e algumas questões passíveis de discordância nos parágrafos anteriores, a introdução anterior nos leva ao ponto que o JORGE VIEIRA levantou (e no qual também acredito): à medida que o estado falimentar de muitos dos grandes clubes brasileiros beira a insolvência ou, então, depende de benesses do Poder Público (que mal cumpre o seu papel social através de uma horrorosa distribuição de renda), torna-se necessário a esses clubes desfazerem-se de seus respectivos patrimônios por falta de capacidade de endividamento junto ao sistema bancário, por falta de capital para investir em aplicações que ofereçam uma rentabilidade maior e, finalmente, porque devem para fornecedores, empresários, ex-atletas, ex-técnicos, federações, consultorias e para o próprio Governo.

Um amigo que é Ph.D. em Marketing Esportivo e vive nos EUA explicou-me que todos os TIMES (vejam que não usei a palavra clube) profissionais de basquetebol, hóquei sobre o gelo, beisebol e futebol americano precisam constantemente investir pesado em publicidade a fim de manter a marca viva na lembrança dos consumidores. Os ingressos para os jogos custam muito caro e os ginásios e estádios recém construídos não pertencem aos times. Todavia, lá existe uma classe média numerosa, alto poder aquisitivo e uma ampla variedade de atrações que tornam esses templos do esporte e das artes lucrativos. Aqui, seria preciso criar esse desejo, mas somente após a distribuição de renda no Brasil pelo menos triplicar. Do contrário, o consumo desse tipo de entretenimento tornar-se-á cada vez mais restrito a uma pequena elite.

Lá, torcedor, mesmo, é aquele que acompanha os times UNIVERSITÁRIOS. Em primeiro lugar, porque a universidade é determinada pela e determinante da identidade da sociedade com o lugar de pertença e de estabelecimento de cada um (muitos encontrarão esse conceito em inglês como settlement e em latim como locus); em segundo lugar, porque o nome e a marca de um time universitário não correm o risco de serem apropriados por uma pessoa ou por empresas. Portanto, não irá mudar de cidade nem de estado, não será uma mera franquia e não correrá o risco de quebrar mediante investimentos equivocados no mercado de ações ao serem juridicamente transformados em empresas.

Por exemplo: o time de basquete com o qual mais simpatizo na NBA é o LOS ANGELES LAKERS, que surgiu como MINNEAPOLIS LAKERS, iniciando suas atividades na temporada 1947-1948. Desde essa época, a história de cada time da NBA pode ser contada não apenas a partir dos títulos, recordes estatísticos individuais ou coletivos e da torcida mas, sim, pelo tempo de propriedade e pelo que ocorreu financeira e mercadologicamente em cada FRANQUIA.

Na mudança de MINNESOTA para a CALIFORNIA no comecinho dos anos 1960′s, o LAKERS tornou-se a primeira franquia da Costa Oeste. Donos multimilionários (às vezes de mais de um time ao mesmo tempo) e uma certa democratização necessária à expansão do esporte por todo o território dos EUA (from coast to coast ou de costa a costa) exigiu um regramento extremamente complexo sobre o porquê de permitir a criação de um novo time (franquia) ou não a cada temporada e de definir em que cidade estabelecer-se-á essa nova franquia.

Dentre essas regras, a identificação dos árbitros através de números e uma escalação criteriosa dos mais experientes para os maiores jogos e o chamado draft pressupõem que haja muito mais lisura e organização lá do que no nosso futebol, seja na FIFA, na UEFA ou na CBF.

No caso do draft, como as franquias NÃO SÃO formadoras de novos atletas (o que constitui a necessidade de fazer muito mais dinheiro para manter times competitivos e atrativos), elas vão buscar os melhores atletas que se destacaram na última temporada universitária. O melhor deles vai para o pior colocado da NBA na temporada anterior; o segundo melhor vai para o penúltimo colocado e assim por diante.

Pois bem: já falei que é necessário criar-se todo um aparato simbólico que convença as pessoas a torcerem por uma marca e não por um time. O mesmo esforço incessante de comunicação e de marketing também  naturaliza a imagem do ídolo esportivo muito menos como tal do que como um popstar. Entre tantos outros, temos os casos de PELÉ, MARADONA, ZICO, ROMÁRIO, RONALDO, RONALDINHO, KAKÁ, BECKHAM e ZIDANE. Porém, o fato de serem jogadores de exceção e de serem desinibidos o suficiente para apresentarem uma imagem midiática vendável é muito mais significativa do que  no caso da NBA, onde, não-raro, a imagem de um jogador meramente promissor ou bastante simpático acaba suplantando a performance dele dentro de quadra. Neste caso, a imagem de uma persona preparada para gerar lucro acima de performance tende a deteriorar-se muito mais rapidamente do que a de um jogador de futebol de Terceiro Mundo vindo da miséria e da ignorância em caso de um deslize social, legal ou moral qualquer.

Outro ponto: toda mudança de cidade costuma ocorrer após uma ampla pesquisa de mercado, onde identifica-se uma região metropolitana ou um estado repleto de fãs de basquete com um enorme potencial de consumo, porém distantes o suficiente de outras franquias a ponto de não torcerem para elas. Mesmo assim, os maus resultados após a saída de um craque cuja reposição não ocorreu logo fomentaram a mudança em 1960 de MINNEAPOLIS para LOS ANGELES. Portanto, os últimos cinco longos anos em MINNEAPOLIS foram penosos para manter, conquistar e reconquistar torcedores-consumidores e para garantir um mínimo de público que fizesse valer a pena seguir com o investimento.

Contudo, o fato de ser uma franquia de basquetebol nova em uma cidade grande não era suficiente: foi preciso surgir um fato novo, isto é, foi preciso que houvesse a transferência de uma outra franquia de um outro esporte de massa aparentemente mais popular oriunda de outra cidade do leste para fazer com que uma alavancasse a outra. A franquia DODGERS foi negociada de NEW YORK para tornar-se o LOS ANGELES DODGERS em 1958. Aparentemente, isso facilitou a implantação do LAKERS:

During the offseason the Lakers became the NBA’s first West Coast team. Although Minneapolis fans had come out in droves to watch the Lakers when Mikan was with the club, attendance had fallen off dramatically in the ensuing five seasons. Even the presence of Elgin Baylor hadn’t made much of a difference. Meanwhile, Major League Baseball’s Dodgers had moved from Brooklyn to Los Angeles in 1958 and had become a huge financial success. Lakers owner Bob Short, a shrewd young businessman from Minneapolis who had owned the franchise for two years, packed up the club and moved it to Los Angeles before the 1960-61 season. (v. HISTÓRIA DO LAKERS)

Outros exemplos de franquias que ainda precisam vingar são: CHARLOTTE -> NEW ORLEANS HORNETS e os novos CHARLOTTE BOBCATS. Funciona mais ou menos assim: quando uma franquia ou “morre” ou muda de dono cujos negócios estão em outra região de consumo cujo potencial lhes pareça ser mais interessante, é necessário criar uma nova franquia para substituí-la por outra na cidade anterior.

Enfim: seria mais ou menos como o GRÊMIO mudar-se para CAMPO GRANDE e, em seu lugar fosse criado o HIGIENÓPOLIS PORTO ALEGRE.

O último ponto a respeito da morte do patrimônio, das categorias de base, da elitização do entretenimento e da perda de identidade com o clube pode ser verificado no próprio futebol europeu: um modelo baseado na propriedade acionária e no investimento em capital de risco pode fazer com que clubes tradicionais sejam obrigados a mudar de nome e tenham que penar muitos anos nas Séries B e C, como foi o caso de NAPOLI e FIORENTINA na Itália.

Na Inglaterra, o futebol é muito rico porque, dentre tantos fatores (tradição, identidade, fanatismo, alto poder aquisitivo e a popularização da TV a cabo), há o investimento sempre sob suspeita de investidores estrangeiros. Como exemplo, os proprietários estado-unidenses do LIVERPOOL têm recebido propostas para vender o clube em função de um endividamento na casa dos $400 MILHÕES. Isso abortou durante alguns anos na construção de um novo estádio para os Reds. Uma, por causa da crise financeira atual; outra, em função da eterna suspeita em relação à origem, à tributação e ao verdadeiro objetivo do investimento de magnatas do leste europeu e dos países árabes surgidos do dia para a noite.

Na Espanha, por sua vez, os clubes não são empresas de capital aberto e proporcionam vida social, recreativa, cidadã e de entretenimento bastante diversificadas para seus associados. O BARCELONA é o exemplo mais claro disso, com ações sociais em parceria com a UNICEF espalhadas por todos os continentes, mais os times de hóquei sobre patins, basquetebol, handebol e outros, que atraem tantos torcedores quanto o futebol.

Aqui no Brasil, apenas os competentíssimos FRAGÁRIOS e SÃO-PAULINOS têm trilhado esse caminho com constância, procurando gerir seu negócio da maneira mais profissional, menos arriscada e, acima de tudo, mais focada em manter o status de CLUBE do que em virar uma marca vazia, sem patrimônio tangível.

Amigos ligados à Comunicação e ao Marketing no Tradicional Adversário já me diziam desde 2006 que o modelo de negócio que o TRICOLOR DOS PAMPAS estava seguindo era, desde sempre, PERIGOSÍSSIMO.

Ora, como quase todos os clubes estão quebrados e como a doutrina econômica e ideológica predominante na atual sociedade é o neoliberalismo, embora ainda não se tenha observado nenhuma ação concreta em direção às franquias, à abertura de capital e à efetivação de uma liga transparente, profissional e paritária, não creio que o exemplo dos esportes nos EUA, na Itália e na Inglaterra vingue de maneira sustentável aqui no Brasil nas próximas décadas.

RONALDO, CORINTHIANS, MARKETING

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more about “RONALDO VAI ENRIQUECER CORINTHIANS“, posted with vodpod

Muitas vendas de camisetas e a atração de patrocinadores internacionais: mesmo que não jogue nada, seis meses a um ano de RONALDO no CORINTHIANS deverão viabilizar um time competitivo para a LIBERTADORES 2010, no ano do centenário do clube.

YEDA E COMISSÃO DO RS PARA COPA 2014 APROVAM ARENA

Notícia do SITE OFICIAL DO GRÊMIO.

Não há problema algum do clube negociar apoio do GOVERNO DO ESTADO para um projeto cuja expectativa financeira, logística e de significativa mudança na paisagem e no fluxo urbano da cidade. Afinal de contas, isso é normal em qualquer lugar do mundo.

Mais certo do que 2+2=4 é a certeza de que o TRICOLOR DOS PAMPAS deve ter ao realizar qualquer negócio: definitivamente, o EMPRÉSTIMO que a equipe da IMPERATRIZ fez não deve servir de exemplo pra ninguém.

Também espero de coração que os parceiros do clube na empreitada que promete mudar a história do futebol brasileiro neste primeiro quarto de século 21 não façam o TIPO DE INVESTIMENTO QUE OS AMIGOS DO ATUAL GOVERNO FAZEM. Afinal de contas, nada nem ninguém está livre de uma ISL turbinada.

Enfim, pra conversar com a RAINHA DAS PANTALHAS, se não for adepto da sua VONTADE NAPOLEÔNICA e da DEMÊNCIA se souber minimamente o CAOS QUE VIVE O RS, haja estômago…

Espero que HERR KOMMANDANT MENDES, chefe da GESTAPO GUASCA, não mande bater nos gremistas que não quiserem DANÇAR CONFORME A MÚSICA

Onde quer que seja (parece que deverá mesmo ser no Humaitá), a nova casa do GRÊMIO precisa ser fiscalizada por SENHORES COMO ESTE

ALEA JACTA EST.

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A MÍDIA CORPORATIVA DENTRO DE UM SISTEMA CONSERVADOR

A mídia corporativa, Grande Mídia ou MSM (Mainstream Media) é um problema. Porém, não é exatamente um problema para todos. Mesmo com os Trump, Murdoch, Berlusconi e Marinho da vida atuando em muitos países, há um incontável contingente de seguidores dos valores irradiados por esses protagonistas. O problema maior é a forma como a mídia corporativa estabeleceu-se no Brasil. As corporações de mídia daqui estabeleceram-se através de oligopólios familiares associados a grupos midiáticos estado-unidenses, banqueiros, megacorporações globais, latifundiários e políticos corruptos. Essa casta jamais irá regular o setor do qual tomam conta em prol da sociedade.

Tal modo de produção baseado nesse modelo econômico é extremamente nocivo e espraia-se através de milhares de tentáculos pelo mundo inteiro. No entanto, é preciso perceber que, apesar disso, não é exatamente a mídia corporativa (recursos financeiros + meios técnicos + mentalidade de seus donos + competência técnica, perspicácias e artimanhas dos editores) o principal problema da democracia. Dentre tantos problemas poíticos, econômicos e sociais, embora este seja um problema que, de certa maneira, interfere nos demais, ao mesmo tempo, essa mídia não representa o pior dos problemas que nos afligem.

Contraditório? Não: é apenas uma constatação. O problema maior é o baixo grau de solidariedade, de compaixão, de capacidade de desenvolvimento sustentável, de auto-estima, de confiança e de empreendedorismo consciente e responsável. Embora os valores dos donos do capital sejam reverberados pela mídia corporativa, caso houvesse interesse em promover o esporte, a cultura e o respeito, já teriam sido adotados valores capazes de originar um verdadeiro projeto de nação.

A mídia corporativa não manda nada: ninguém lê, ouve ou assiste o seu conteúdo com uma arma apontada para a cabeça. Mesmo na falta de qualidade conteudística, ninguém é obrigado a manter seus olhos e ouvidos antenados para a mensagem dela: há várias outras formas de lazer, cultura e informação disponíveis – mesmo sem dinheiro, há muito o que ver pela cidade e muita gente para conversar. Quem acredita ou deixa de acreditar em alguém ou em alguma coisa, ou acredita que acredita e sente-se bem com esse condicionamento, ou acredita que não acredita e vai buscar outra coisa pra fazer.

Como não existe unanimidade nem consenso (apenas uma tentativa discursiva de), seus donos e editores conseguem apenas um determinado grau de convencimento junto a determinados nichos dentro do universo que julgam compor sua audiência. Assim, o fazer técnico da mídia corporativa busca satisfazer os interesses dos políticos, do latifúndio, dos bancos e das megacorporações globais através de demandas que, caso atingidas, por tabela também irão beneficiar o negócio dos donos da mídia e tornarão mais famosos os seus funcionários mais pelegos.

Obviamente, como o negócio deles é grana a qualquer custo, se eles não tivessem uma ampla base de consumidores conservadores, mesmo que jamais pendesse à esquerda, seu discurso seria menos extremista, a fim de evitar perder pontos na audiência. Conseqüentemente, os abusos da mídia corporativa só ocorrem porque a sociedade em geral não é necessariamente influenciada mas, sim, porque ela alimenta o conservadorismo e os valores neoliberais de volta para a mesma mídia corporativa. Esta, por sua vez, aperfeiçoa e modifica o seu discurso em função do retorno (feedback) desse receptor, seja ele conservador ou não, procurando agradar mais ao perfil dos conservadores.

O procedimento técnico e a ideologia escolhidos para defender os interesses dessas oligarquias (manipulação, mentira, omissão, espetacularização, etc.), por sua vez, também é utilizado pela mídia dita pequena, seja esta militante de esquerda ou não. Afinal de contas, todos têm um lado e isso não pode ser escondido. A única verdade é que a maioria dos indivíduos deseja convencer o outro de que estão certos. Todos adorariam que houvesse um pensamento único voltado para a preservação dos seus próprios valores e do status quo. Em uma análise sincera e sem hipocrisia, o mundo seria muito mais tranqüilo, seguro e a vida seria muito mais fácil se não houvesse necessidade de discutirmos, certo?

As únicas regras
estabelecidas pela mídia são as regras que ela impõe aos integrantes de outros campos sociais para discursarem sob a formatação de suas técnicas e enunciados quando precisam aparecer através dela. Isso posto, a mídia como um todo (até mesmo a pequena, alternativa ou não-corporativa) serve como um megafone para espraiar toda e qualquer
ideologia, pois a política, a economia e a comunicação estão presentes em tudo e em todos. Ela serve de tradutora do discurso dos vários campos sociais através de uma gramática (falas, gestos, entonação, vocabulário)
didaticamente genérica, a fim de que os mais diversos segmentos da
sociedade laica conheçam aquilo que cada campo deseja revelar de si ou
como os seus mediadores acham que enxergam esses campos sociais.

Dessa forma, a denúncia e a investigação sobre tudo e sobre todos não faz parte desse modelo econômico. A pluralidade, a neutralidade e a objetividade não passam de simples mitos, já que o jornalismo não exprime “A” verdade mas, sim, uma dentre tantas verdades possíveis contada e editada por alguém que, como sujeito, interfere na sociedade e é afetado por ela, de tal sorte que essa vivência define a forma que sua história irá tomar e para quem ela será contada.

Então, os veículos que EU escolho para me dar a sensação de estar bem informado ou os veículos que EU escolho para criticar através de suas contradições que fazem com que eu me sinta mal informado também dependem da minha vivência, das minhas influências e do meu poder individual e exclusivo de intervir em meu próprio ambiente.

O fato de eu acreditar que acredito ou de acreditar que não acredito em algo ou em alguém pode mudar. Porém, esta mudança, na maior parte das vezes, far-se-á de maneira lenta e gradual. Mudando ou não, nada garante que eu esteja certo depois de mudar, ou que eu estivesse certo enquanto pensava da maneira anterior. Ao mesmo tempo, os valores são tantos que há diferentes pesos entre certezas e incertezas. Portanto, mesmo um analfabeto faminto perdido no meio do mato com uma TV onde só pega o canal 12 não é necessariamente influenciável por todos os enunciados da mídia.

O cerne da discussão não deve
ser técnico mas, sim, de uso: não importa se a mídia é grande ou
pequena, se é militante ou não, se é declaradamente de esquerda ou de
direita e nem tampouco se é plurigenérica ou se transmite um único
gênero específico: o que não pode é haver o abuso de práticas que
prejudiquem a vida, que julguem, que rotulem ou que defendam um lado
sem apresentar ou – pior – demonizar o outro.

O poder da mídia corporativa é
menor na pós-modernidade – pelo menos nas grandes metrópoles do planeta
altamente conectadas. Mesmo no Brasil nota-se essa perda de poder. Caso
contrário, o “nordestino preto analfabeto desempregado feio e burro”
teria dado ouvidos às milhares de emissoras de rádio e TV, revistas e
jornais que circulam neste imenso país.

Por conseguinte, quem decide o que é notícia, quem deve ser promovido, quem deve ser defenestrado, a quem defender, a quem atacar, quando, como, aonde, por que e a quem investigar e denunciar possui a mesma formação conservadora dos patrocinadores, de seus chefes e de boa parte da sua audiência. Essa questão explica parcialmente o fato de que o gaúcho médio não
é “tapado” do jeito que é pura e simplesmente por causa da atividade
midiática: ele é “tapado” porque, antes de existir a mídia, já haviam a
retórica, o discurso, a boataria e a coerção.

O quarto poder atribuído às corporações de mídia não existe como tal. Nem o discurso e nem as personas dos editores e dos donos das corporações de mídia possuem controle sobre a audiência e sobre o seu próprio modo de fazer. O verdadeiro primeiro poder (e não segundo, terceiro ou quarto) está muito acima do executivo, do legislativo e do judiciário. Trata-se do poder simbólico circulante na rede, onde os bancos, o latifúndio, as indústrias de armamentos, tabaco, bebidas alcoólicas, medicamentos, a indústria farmacêutica, parte do crime organizado (contrabando e tráfico de drogas, animais silvestres, plantas e pedras preciosas), políticos corruptos com as costas quentes e políticos donos de concessões das afiliadas das nove famílias articulam-se em rede. Todos se conhecem. Todos fazem negócios entre si. Todos pedem coisas uns aos outros e se esforçam ao máximo para atender e ser atendidos, custe o que custar. E todos possuem patrimônio, investimentos, perdas e ganhos em diferentes segmentos econômicos.

A questão é: como desconstruir esse sistema de redes sociais altamente profissional, competente, ágil e adaptável? Em toda a história da civilização ocidental, sempre houve uma casta nababesca e excludente que só pôde ser derrubada pela parte mais ambiciosa e mais esclarecida da casta colocada imediatamente abaixo da primeira. Ambas as castas precisam deum grande volume de pessoas, a fim de defender um lado ou outro. A massa é constituída por uma série de inocentes úteis, que não passam de meras buchas de canhão. Quem luta pelo poder político e simbólico fica na retaguarda, pois não vai correr o risco de morrer. Feita a troca de bastão, no período histórico seguinte, a mesma massa permanecerá sendo excluída. A única diferença é que a aristocracia anterior agora é decadente e serve muito bem à burguesia emergente como referência de dominação. Isso sempre ocorreu, com ou sem mídia de massa, com ou sem internet, com ou sem naves espaciais, com ou sem cavalos.

Com base na teoria dos campos sociais de Pierre Bourdieu, na caracterização dos mídias (grande, pequena, ruim, boa) como um campo social (Adriano Duarte Rodrigues) e na midiatização da sociedade (Eliseo Verón), chega-se à conclusão de que o campo dos mídias é o único campo social que atravessa e é atravessado pelos outros campos. Essa intromissão dos mídias nos demais campos sociais (jurídico, esportivo, médico, político, científico, religioso, militar, etc.) não necessariamente coincide com uma posição de maior poder (seja ele econômico ou simbólico).

O papel da mídia não é nem deseducar, nem educar. A mídia é tão-somente um instrumento técnico. O tipo de uso que se faz dela depende da intenção das pessoas que a patrocinam. E a crença sobre como deve-se “ensinar” a audiência a viver depende sobremaneira da ideologia e dos valores dos produtores de cada programa.

É preciso mudar a maneira de pensar e de viver como um todo. Afinal de contas, se há desinformação, omissão, manipulação descarada, tentativa de consenso através de um pensamento político e econômico único, é porque existe tanto um grupo de financiadores, de produtores e de legisladores como sobretudo uma enorme parcela de público cidadão e consumidor como protagonistas desse processo. A mídia corporativa alimenta sua audiência…

…Mas também é fartamente alimentada por ela.