POR QUE A ESQUERDA NÃO MUDA O MUNDO I

Este post é para todos. Mas, em especial, responde o excelente comentário que o VALDIR DALLA MARTA do blog TIMBLINDIM da belíssima CAMPO GRANDE (MS) fez há dois posts atrás.

Os leitores e os blogueiros que me dão o prazer, a amizade, o carinho e a honra de compartilhar comigo momentos de troca de informação, de inteligência e de solidariedade através de participações mútuas nos blogs de um e de outro e em alguns encontros presenciais (que, se dependessem de mim, seriam muito mais frequentes do que têm sido) estão cansados de saber que eu vivo insistindo na condição sine qua non de que a esquerda aprenda a trabalhar sem liderança centralizada e sem almejar tomar o poder político e coercitivo. O único poder possível de ser conquistado a partir das ferramentas que nos são disponibilizadas (mesmo assim, a duras penas) é o simbólico: no momento em que a sociedade amadurecer o suficiente a ponto de rever seus valores e seus conceitos para um mundo mais sustentável e mais tolerante, a tendência à alternância no poder político ora aumentar a miséria da esmagadora maioria e enriquecer estupidamente a raríssimos outros, ora inverter a hegemonia entre dois grupos de privilegiados semiantagônicos certamente diminuirá exponencialmente.

Sou um singelo iniciante na leitura e na interpretação (ainda um tanto pobre, admito) da obra de sociólogos e de filósofos clássicos cujas análises sociais, econômicas e políticas seguem valendo até hoje, dois ou três séculos depois daquilo que escreveram. Preciso aprofundar-me muito neles. Mas foi pra isso que serviu o mestrado: pra começar a ler e pra usar as teorias como muletas para justificar a ocorrência ou não de alguns insights que surgem a partir da observação de um determinado objeto empírico durante a pesquisa. Mais adiante, no doutorado, obviamente, meu discurso tornar-se-á muito mais sofisticado e eu deixarei de ser um mané, capacitando-me a inovar e a produzir conhecimento relevante para a sociedade.

Vou falar um pouco mais sobre uma maneira de resistir baseada na emergência e na articulação descentralizada e em rede que considero mais eficiente e adequada de ser posta em prática no atual contexto mundial.

Os livros IMPÉRIO e MULTIDÃO de ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT obviamente são  passíveis de infinitas interpretações diferentes. Todos têm o direito de concordar e de discordar parcial ou integralmente com as idéias desses dois filósofos (o primeiro, italiano; o segundo, estadounidense). No caso, encontrei uma forma de discordar contraproducente, desinformada, desatualizada e limitada em relação à correlação de forças atual. E é sobre isso que eu quero falar.

Tais críticos defendem sempre a mesma maneira de resistir e de fazer o socialismo, além de crerem que as características daqueles que compõem tanto a classe privilegiada como a classe subordinada são quase imutáveis. Ora, se existe um pensamento em que a luta de classes ocorre sempre entre os mesmos entes de características sociais praticamente imutáveis, é sinal de que este pensamento não leva em conta o contexto sócio-econômico-político-cultural de cada período histórico como deveria. Estamos, pois, diante de uma significativa falta de capacidade de PROPOR algo DIFERENTE e TRANSFORMADOR a partir dessa crítica.

Pois bem: na crítica do link acima, entendo que a obra não foi devidamente interpretada como os autores esperavam que fosse. O pior dessa crítica é a sua ignorância em relação a uma série de ressalvas que NEGRI e HARDT fazem ao longo do livro: ao contrário do que diz o crítico em questão, Negri e Hardt NUNCA ignoraram ou minimizaram o papel das classes subalternas. Eles tão-somente constataram que a classe subjugada de hoje precisa utilizar novas formas de resistência compatíveis com as novas formas de dominação do império. Portanto, práticas antigas só oferecem capacidade de reação e de transformação quando confrontam práticas hegemônicas correspondentes em articulação financeira, social e tecnológica.

A esquerda leva laço porque não procura obter a bomba atômica, enquanto acha essa arma desleal e segue tentando vencer usando arco e flecha. É essa a comparação grosseira possível de fazer para explicar em outras palavras. Só que, ao possuir a bomba, não pode nem detoná-la, nem permitir que o império a detone. O fato de possuir a mesma arma serve para TENSIONAR e PREOCUPAR o outro lado. Quem não possui um adversário competente, não fica tenso nem preocupado. Não passa trabalho pra se impor e ainda pode dar-se o luxo de errar feio mas seguir “nas cabeças”.

Outro detalhe importantíssimo desse trabalho dos filósofos italiano e estadounidense nos leva à constatação de que essa classe subalterna não é mais predominantemente composta por trabalhadores rurais e, menos ainda, por operários: ela vive nas grandes cidades, com média de cerca de 80% da população  URBANA em quase todos os países do mundo. Logo, os filhos de operários da primeira metade do século XX que foram estudantes de classe média na época da ditadura militar hoje possuem filhos e netos que vivem uma realidade totalmente alheia àquela, pois não enxergam nem naquilo em que acreditam e menos ainda naquilo em que não acreditam o mundo de seus pais, avós e bisavós.

Vamos ver se consigo me fazer entender: as dificuldades emocionais, financeiras, de se manter no emprego, de como aproveitar o tempo livre e de como adquirir conhecimento e melhorar de vida almejando um mundo mais justo e mais solidário da classe operária pouco tem a ver com essas mesmas questões levantadas por um jovem que só não usa a internet como banheiro, cama, amante, bola, motor e avião porque não pode. É preciso entender que ele não é ignorante, alienado ou desinteligente: ele quer fazer política, desde que essa forma de fazer política e de trabalhar por um mundo melhor apresente a linguagem, a estética e uma forma de mobilização que ELES SEJAM CAPAZES DE ENTENDER.

Além do lixo da LEI AZEREDO e do ridículo TSE, o fato de a esquerda partidarizada e operária predominar em uma sociedade totalmente diferente daquela que originou a sua formação política não é um atraso nem tampouco um choque de gerações, mas significa um HIATO que impediu que o latim de uns e o provençal de outros resultasse em um francês comum a todos.

É esse gap que precisa ser superado para voltarmos a ter um papel transformador.

ESQUERDA DE PORTO ALEGRE, REFLITA


A defesa incondicional, acrítica, tendenciosa e desinformada do PT, de LULA e das ações de esquerda baseadas em dicotomias não possui mais o menor sentido.

Dada a enorme dificuldade em vários militantes de partidos e de sindicatos acostumados a enxergar a atividade de esquerda como dependente e idólatra desse modelo ineficiente para o contexto social contemporâneo nas respostas ao excelente post do DIÁRIO GAUCHE do CRISTÓVÃO FEIL ou eu precisemos desenhar para que as pessoas entendam o que nosso amigo blogueiro e sociólogo quis dizer na sua fala, vou tentar dizer mais ou menos o mesmo, só que de uma forma diferente. ;)

1) O mundo está fragmentado e não bipolarizado: não existe mais um povo uno, uma massa uniforme mas, sim, uma MULTIDÃO (NEGRI e HARDT), que se une tão-somente quando lhe interessa atingir determinadas demandas bem pontuais e não municipais, estaduais, nacionais, continentais ou mundiais. Isso significa que pessoas de diferentes profissões, classes sociais, culturas e nacionalidades se juntam apenas quando elas querem, sem nenhuma espécie de filiação, de liderança vertical ou de vínculo político ou ideológico permanente: solucionou o problema? Dispersa! Na emergência de alguma outra demanda pontual, vai haver outros grupos multitudinários diferentes, com alguns indivíduos que participaram de um determinado movimento e outros de outros. É por isso que não dá pra partidarizar, sindicalizar ou ideologizar;

2) As pessoas vivem em REDES SOCIAIS e não isoladas em grupos estanques. Todos os grupos possuem laços que os ligam a todos os outros, mesmo quando discordam deles. Não dá pra pensar em não querer dialogar nem debater com A ou B porque eu penso C. Afinal de contas, A e B podem precisar de mim e eu mais ainda deles na solução de pendengas em comum;

3) Nos grandes centros urbanos, o que menos se tem são “operários”. E a figura do “proletário” não existe mais: serviços e o comércio de bens imateriais oferecem muito mais oportunidades do que a indústria;

4) Fora consultoria jurídica e, em alguns raros e honrosos casos como o do Sindicato dos Engenheiros do RS, que proporciona UNIMED por metade do preço a seus filiados, existe tanto oportunismo, desvio de dinheiro, má gestão, nepotismo e politicagem como em qualquer partido, empresa ou repartição pública. Os sindicatos pedem emprego quando deveriam financiar cursos de empreendedorismo, gestão, noções de direito tributário, recursos humanos e, finalmente, parcerias com os 5S, a fim de evitar que seus filiados permaneçam como “empregados”, “funcionários”, “proletários”. Isso se chama oportunismo, ignorância e preconceito contra ciências como Economia e Administração (coisa de ‘capitalista’ ou de ‘burguês’);

5) O uso da mídia corporativa, o excesso de individualismo, o consumismo e os interesses de quem patrocina essa mídia (latifundiários, grandes industriais, políticos, banqueiros e multinacionais) significam o INTERESSE em despolitizar as questões. Contudo, as pessoas fazem PRODUÇÃO BIOPOLÍTICA ao denunciarem questões como a da GONÇALO DE CARVALHO, do PONTAL DO ESTALEIRO, da ARENA DO GRÊMIO e da VILA SÃO JUDAS TADEU;

6) A esquerda não sabe usar a internet e insiste em dar murro em ponta de faca: a população como um todo está CAGANDO para estudantes, professores, bancários, sindicalistas, sem-terra e assim por diante. Manifestações em espaço público urbano só podem funcionar quando setores de fora dos partidos, dos sindicatos e dos próprios cidadãos prejudicados souberem atrair outros setores da sociedade para dar volume às suas demandas. Sozinhos, nunca conseguirão nada, pois só pensam em confronto e na diferença ao invés de pensarem em parcerias e nos pontos em comum.

Portanto:

- Pra que depender do Estado?!

- Pra que depender da Igreja?!

- Pra que depender dos partidos?!

- Por que depender da boa vontade de quem estiver disposto a dar um peixe ao invés de sentir que assim como está não pode ficar, levantar a bunda da cadeira e procurar ajuda de quem pode ensinar a pescar?!

- Por que confiar e se iludir com esse sistema representativo absurdo?!

Graças a tudo isso, a direita e os cidadãos não-politizados de classe média e alta envolvidos com ONGs + VOLUNTARIADO fazem muito mais do que os governos de esquerda em relação a demandas pontuais e serão muito mais lembrados pelas comunidades as quais ajudam do que qualquer político.

A ESQUERDA PARTIDÁRIA E SINDICAL PORTO-ALEGRENSE TORNOU-SE TÃO CARETA, CARRANCUDA, CONSERVADORA, TENDENCIOSA, OPORTUNISTA E PRECONCEITUOSA COMO O PIG E A DIREITA.

ESQUERDA SE FAZ COM ALEGRIA. ESQUERDA SE FAZ SEM PARTIDOS. ESQUERDA SE FAZ ACEITANDO A PARTICIPAÇÃO DE QUALQUER UM EM TORNO DA MESMA CAUSA.

A ESQUERDA DEVE FISCALIZAR, PROPOR, ACOMPANHAR E FAZER, DE MANEIRA DESINSTITUCIONALIZADA.

SEJAM CIBERATIVISTAS. DO CONTRÁRIO, PERDERÃO NÃO APENAS OS ANÉIS E OS DEDOS, MAS AS MÃOS E OS PÉS.

QUEM NÃO APRENDER A PENSAR ASSIM, QUE SE JOGUE DA COBERTURA…

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POR QUE O PT NÃO VAI GANHAR EM PORTO ALEGRE

Depois de ter lido os COMENTÁRIOS do post do RS URGENTE sobre a pesquisa CORREIO DO POVO/METHODUS para a PREFEITURA DE PORTO ALEGRE, pensei em escrever o seguinte texto:

No dia em que muitas pessoas (que passam por aqui ou não; que são vinculadas a partidos políticos ou não) lerem IMPÉRIO e MULTIDÃO de ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT e as obras de ZYGMUNT BAUMAN, ELISEO VERÓN, NÉSTOR GARCÍA-CANCLINI (principalmente CONSUMIDORES E CIDADÃOS, CULTURAS HÍBRIDAS, DIFERENTES, DESIGUAIS e DESCONECTADOS, LEITORES, ESPECTADORES E INTERNAUTAS e LATINO-AMERICANOS À PROCURA DE UM LUGAR NESTE SÉCULO) e ALBERT-LASZLÓ BARABÁSI (LINKED) talvez as coisas clareiem um pouco mais.

Não adianta: em uma sociedade na qual a classe média é predominante, ela vai pender sempre à direita, pois julga que, assim, corre menos riscos de perder suas conquistas materiais.

Hoje em dia, como o fluxo constante é muito mais importante do que parar e olhar para os lados e como a função dos sindicatos é, na melhor das hipóteses, controversa à medida que a classe mais excluída, mais injustiçada e mais pobre não é mais composta por “proletários”, a ágora não é mais a praça pública ou a rua. Ninguém dá bola para manifestações, passeatas, piquetes, etc. Mais de 80% de toda a discussão sobre política, economia, direito e cotidiano se dá através da mídia: é através dela que a classe média se identifica e reconhece a sua pertença.

Da mesma forma, os partidos políticos perderam o sentido, pois o Executivo (municipal, estadual ou federal) só considera como cidadão quem possui poder de consumo(ismo). Senão, os latifundiários, as multinacionais, os EUA, os banqueiros, as indústrias do tabaco, do álcool, automobilística e das corporações de mídia derrubam qualquer governo.

A bem da verdade, antigamente havia cerca de 25% de pessoas convictamente identificadas com todas as nuances da esquerda, 25% de reaças assumidos ou enrustidos e os outros 50% pendiam para o lado que representava melhor as suas demandas ou cujo discurso os ludibriava melhor.

Hoje, temos alguns deputados estaduais e alguns vereadores combativos, além de ex-prefeitos como OLÍVIO e RAUL. O resto se bandeou para o lado pragmático de ser, pois crê que é necessário fazer severas concessões ambientais, legais e econômicas aos oligarcas a fim de poder realizar de maneira paulatina e meio às avessas em relação ao estatuto do PT um certo grau de inclusão social.

O PT não vai para o 2º turno em POA, mas pode eleger mais vereadores aqui do que nunca. Que sirva de consolo para daqui a 4 ou 8 anos o cercamento da capital por vários municípios governados pela FRENTE POPULAR: só mesmo a propaganda de boca a boca feita pelas pessoas da GRANDE POA que trabalham e estudam na capital junto a seus amigos e parentes daqui poderá ajudar a reverter esse quadro.

Não dá pra ser ingênuo e achar que o PT está mal em POA só por causa da FARSUL, da FEDERASUL, da RBS e da IURD: muitas comunidades afastadas não tiveram suas demandas satisfeitas pelo OP que, além de tudo, era aparelhado. O fato da maioria dos participantes das assembléias com voz ativa ser composta por líderes sindicais ou filiados ao partido fez com que pessoas apartidárias que só queriam saber quando a escola, a creche, o esgoto ou a calçada seriam construídos na sua comunidade pegaram nojo.

Pra terminar: nos moldes atuais, só creio na resistência pós-moderna da multidão, que é a arma contemporânea que Negri e Hardt vêem como o antagonismo possível ao império.

Quem não sabe agir de maneira descentralizada, desinstitucionalizada, em rede e, de quebra, não aceita que as mesmas pessoas que reúnem-se somente para resolver uma determinada demanda coletiva não queiram (ou não precisem) estar sempre lado a lado em todas as demandas sociais possíveis, não tem condições de fazer política.

Ou se luta para mudar o sistema representativo político-partidário e para evitar a intersecção de um dos Três Poderes em qualquer um dos outros dois, ou até a palavra luta passa a perder o sentido.

Portanto, eu não creio na tomada do poder mas, sim, em pressionar o poder para satisfazer demandas. Uma oposição de esquerda sem os vícios de sindicatos e de partidos, que siga mais ou menos o que o EDUARDO GUIMARÃES preconiza através do MOVIMENTO DOS SEM-MÍDIA.

Já pararam pra pensar que a maioria das pessoas pode estar satisfeita com o estado das coisas no RS independentemente da RBS e do neoliberalismo ou que, por outro lado, cansaram de tentar porque toda vez que levantaram seus ricos traseiros da cadeira deram com os burros n’água?

A desilusão e a frustração vêm daí.

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INTERNET: CULTURA GLOBAL DE GUETOS EM REDE

Em um primeiro momento, a internet não é aquele espaço tão democrático como se pensava. Em termos técnicos e idealistas (muito em função de o Brasil possuir o maior e melhor programa de inclusão digital do mundo para a população de baixa renda), poder-se-ia até dizer que sim. Contudo, o fato de a internet possuir uma dimensão infinita e de proporcionar maior independência de criação e uma ampla pluralidade de opiniões não significa necessariamente poder e autonomia para todos os plugados.

A maioria esmagadora dos sites é encontrada através de um punhado de ferramentas de busca – ferramentas que põem freqüentemente no topo da página inicial do resultado de qualquer busca não necessariamente os links mais visitados, os mais completos sobre determinado assunto e nem tampouco os preferidos da maioria dos internautas, pois a preferência vai para aqueles que pagam mais para aparecer melhor. Apesar da enorme gama de inteligências e de produtos que vão além do site de buscas, o que vale mesmo é o binômio publicidade e negócio – uma fórmula bem antiga que muitos devem conhecer.

80% dos internautas não passam da primeira página de busca. Apenas 10% passam da terceira. Além disso, a proporção de resultados encontrados em inglês é maior do que a diferença entre a quantidade de sites existentes em inglês e a quantidade de sites encontrados em outras línguas.

À exceção dos sites de órgãos do governo (tanto daqui quanto de qualquer outro país – um serviço muito procurado em todo o planeta) e das grandes universidades, a terceira grande parcela dos sites mais visitados e mais referenciados do mundo são os portais da mídia corporativa.

Apesar da enorme queda na circulação de jornais impressos nos últimos 20 anos no mundo inteiro, da recente porém contínua queda da audiência da TV aberta no Brasil e do envelhecimento do público leitor dos jornalões e que assiste aos telejornais e ouve notícias no rádio, a maioria das pessoas tende a preferir encontrar na internet os mesmos assuntos com o mesmo viés dos seus gostos e valores desenvolvidos no cotidiano e também através da mídia de massa.

De fato, a mudança de hábito de apropriação técnica e de transformação de valores e de discursos pela qual estamos passando trouxe com muita força a percepção da necessidade de um sistema de relacionamento, de troca de informações e de aprendizagem horizontal cujos caminhos são 100% definidos individualmente, descentralizado, infinito e imensuravelmente segmentado imposto de cima para baixo em detrimento de um sistema intrusivo, massivo, segmentado, impessoal e que não lida com o interesse de cada um, apenas com interesses definidos por terceiros que juram que vão conseguir obter o mesmo efeito sobre uma multidão que se move junta somente enquanto for necessário resolver um determinado assunto em comum, mas que preza a liberdade e a individualidade acima de qualquer coisa.

Muito mais do que desencaixes, desencontros, falta de noção de identidade e uma tentativa muitas vezes perdida, desorganizada e até mesmo violenta (neotribalismo) de retornar à afetividade, ao encontro e ao reconhecimento de si, do outro e do mundo justificados por uma crença tardia na teoria hipodérmica, a dificuldade pessoal e coletiva da maioria das pessoas que têm acesso mas que passam longe de um computador é a de aceitar conviver em um ambiente ubíqüo no qual o tempo e o espaço estão dissociados e onde ainda não é possível perceber a relação mediada apenas por três sentidos (visão, audição e fala).

Todas essas constatações não apontam necessariamente para um mundo melhor e nem pior mas, sim, diferente. Hoje, creio que a questão da concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos é anti-democrática quando a maioria das pessoas humildes acredita piamente na TV ou no rádio e quando o alcance dos jornais feitos para donas-de-casa conservadoras de classe média passa a abarcar uma parcela muito maior da sociedade.

Nesse ponto, a população menos letrada porém mais curiosa é mais crítica. Mesmo com o ensimo público sucateado resultando em semi-analfabetos com 3º grau, há uma série de estímulos que aguçam a inteligência e despertam a pró-atividade rolando através de uma pedagogia informal e, não-raro, não-escolar.

Em função disso, as corporações de mídia precisarão gastar centenas de vezes mais recursos a fim de segmentarem seus veículos para uma audiência não apenas heterogênea e segmentada como quase individual, que prefere receber informações personalizadas. Na internet, isso é fácil e barato. No papel e na TV, mesmo com a TV digital (que também será concentrada nas mãos dos mesmos poucos e irá oferecer um nível de segmentação de conteúdo bem menor do que o da internet, dos jornais e das revistas – não se iludam), é uma brincadeira tecnicamente quase inviável.

Muito se idolatra a liberdade de expressão, a diversidade de opiniões, a criatividade, a multiculturalidade, a transdisciplinaridade, a convergência midiática e uma forma mais sensível de se relacionar através de um ambiente no qual não somos meros receptores mas, sim, produtores/usuários/interagentes ao mesmo tempo. Porém, toda essa liberdade só torna-se evidente no sentido de “cada um faz o seu do jeito que quiser” e “cada um vai atrás do que bem entender na ordem que quiser”.

O fato de executar uma série de ações simultâneas como, por exemplo, postar no blog, enviar o orçamento de um trabalho para um cliente por e-mail, fazer videoconferência com um professor, combinar uma cervejada por mensageiro instantâneo e acompanhar as últimas notícias do seu time no portal tende a pulverizar ainda mais as opiniões.

Dessa forma, creio que a auto-organização das redes sociais (tanto online como presenciais) tende a reproduzir reuniões visando reivindicar uma quantidade cada vez menor de pautas em comum, porém de uma maneira cada vez mais global, a partir de um número cada vez maior e mais heterogêneo de atores.

A isso dou o nome de metaefemeridade, ou uma efemeridade do efêmero, onde eu posso simultaneamente fazer parte de uma multidão que exige plano de saúde integral para todos em uma empresa japonesa, verba municipal para comprar o último terreno baldio da minha rua a fim de cultivar uma horta comunitária, a cabeça do técnico do meu time de futebol na Inglaterra e contribuir com um fundo contra a miséria no Uzbequistão.

Tudo isso se resolve ou não de maneira muito veloz e a simultaneidade de atividades é apenas parcial, assim como a intersecção de indivíduos com mais de um interesse em comum tende a ser cada vez menor.

Enfim, embora a sociedade urbana contemporânea esteja completamente midiatizada, vejo a mídia (tanto a ‘boa’ como a ‘má’) como um instrumento a serviço de um poder maior, ao invés de ser a materialização do poder. Porém, à medida que eu e centenas de milhões de leigos vamos nos apropriando da técnica e da discursividade como produtores e usuários de veículos não-massivos e em rede, grande parte do discurso midiático cai no ridículo.

E não pensem que ele cai no ridículo apenas para os tecnófilos ou para os ricos: do contrário, Serra teria sido eleito presidente – e em 1º turno.

Peço desculpas por não ter citado direta ou indiretamente vários autores que inspiraram este post. Perdoem-me também por não ter aprofundado diversos conceitos dos quais me apropriei, mas acho que pude dar uma idéia geral do que eu penso. Tem um quê de Bauman, Maffesoli, Giddens, Foucault, Marcondes Filho, Fragoso, Lèvy, Hardt e Negri, De Masi, Adorno, Horkheimer e outros.

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MULTIDÃO, POVO, MASSAS E CLASSE OPERÁRIA

Mais um trecho da minha quali:

 

 

Negri e Hardt (2005 p. 12) diferenciam três conceitos para reuniões ou agrupamentos de uma grande quantidade de pessoas: a multidão, o povo e as massas:

 

- A multidão seria como uma rede aberta e em expansão, na qual todas as diferenças podem ser expressas livre e igualitariamente, proporcionando os meios de convergência para que possamos trabalhar e viver em comum, com a ressalva de que isso não quer dizer que todos se tornem iguais: essa segunda face da globalização, por sua vez, proporciona a possibilidade de descobrirmos os pontos comuns que permitam que nos comuniquemos uns com os outros a fim de agirmos conjuntamente;

 

- O povo é uma concepção unitária muito utilizada para reduzir as mais amplas diferenças que caracterizam a população numa identidade única;

 

- Diferentemente do povo e a exemplo da multidão, as massas também não podem ser reduzidas a uma unidade ou identidade, pois são compostas de todos os tipos e espécies. Contudo, não se pode apontar quais dentre os diferentes sujeitos sociais formam as massas, pois a essência das massas é a indiferença: “todas as diferenças são submersas e afogadas nas massas. Todas as cores da população reduzem-se ao cinza. Essas massas só são capazes de mover-se em uníssono porque constituem um conglomerado indistinto e uniforme” (op. cit. p. 13);

 

- O conceito de classe operária, em sentido estrito, é utilizado: a) para distinguir os trabalhadores dos proprietários que não precisam trabalhar para se sustentar; b) para separar os operários dos demais trabalhadores, refere-se apenas aos trabalhadores industriais, distinguindo-os dos trabalhadores da agricultura, do setor de serviços e de outros setores. Em sentido amplo, a classe operária “refere-se a todos os trabalhadores assalariados, diferenciando-os dos pobres que prestam serviços domésticos sem remuneração e de todos os demais que não recebem salário” (op. cit. p. 13). 

 

Para salientar a multiplicidade da multidão em relação à unicidade do povo, Hardt e Negri afirmam que “a multidão é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única” (op. cit. p. 12).

A fim de esclarecer melhor a diferença entre a multiplicidade multitudinária em relação à indistinção uniforme das massas, os autores destacam que “na multidão, as diferenças sociais mantêm-se diferentes, a multidão é multicolorida” (op. cit. p. 13).

Por último, os autores explicam que diferentemente do reducionismo classificatório do conceito de classe operária, a multidão é um conceito aberto e abrangente que procura apreender a importância das recentes mudanças na economia global: hoje em dia, a classe operária industrial, ainda que se mantenha bastante numerosa no mundo inteiro, já não desempenha mais um papel hegemônico na economia global.

Ao mesmo tempo, quando dizem que a produção já não pode ser concebida apenas em termos econômicos, porque deve ser encarada na atualidade como produção social (op. cit. p. 13), Negri e Hardt (2005) iniciam uma discussão sobre o papel e as implicações da multidão que abrange todo o livro: em linhas gerais, além de funcionar como a forma contemporânea de resistência ao império, toda a construção colaborativa de conhecimento, cultura, ação política e geração de riqueza através da transação virtual tanto de bens imateriais como de bens materiais nas redes bottom-up resulta em novas formas de comunicação, relacionamento e formas de vida (op. cit. p. 13) emergentes a partir da multidão. Tal modelo ora dominante na sociedade contemporânea que envolve a produção econômica afetando e produzindo todas as facetas econômicas, culturais ou políticas da vida social é denominado pelos autores de produção biopolítica.

A produção biopolítica e o desejo de democracia como moeda comum a diversos movimentos e lutas de libertação através do mundo (Hardt e Negri, 2005 p. 15) atravessam e são atravessados pela rede distributiva a qual chamamos de internet que, por sua vez, constitui uma base ou modelo para a multidão (op. cit. p. 14). Logo, os coletivos de blogs sobre política e crítica da mídia também são um exemplo de produção biopolítica, cujo objetivo é estabelecer relações capazes de fazer emergir uma forma atual de democracia em rede suficientemente ampla e hábil para resistir ao império representado pelo comportamento top-down das corporações de mídia.

Finalmente, os autores afirmam que os vários pontos nodais se mantêm diferentes mas estão todos conectados na rede e as fronteiras externas da rede são de tal forma abertas que novos pontos nodais e novas relações podem estar sendo constantemente acrescentados (ibidem). Portanto, encontramos em Hardt e Negri (2005) uma série de semelhanças com o experimento do organismo unicelular conhecido como Dictyostelium discoideum utilizado por Johnson (op. cit. p. 9-18) como forma de facilitar a sua explanação sobre o comportamento bottom-up que desemboca na emergência e na teoria da complexidade, bem como referências às redes sociais, à cauda longa, aos grafos, aos laços fortes e laços fracos vistos em Barabási (2003).


Os grifos deste conceito destacam, nas palavras de Hardt e Negri, os principais pontos convergentes entre o pensamento desses autores já observados nas teorias de Barabási (2003) e Johnson (2001).

P. ex.: diferentes culturas, raças, etnias, gêneros e orientações sexuais; diferentes formas de trabalho; diferentes maneiras de viver; diferentes visões de mundo; e diferentes desejos. (op. cit. p. 12)