POR QUE A PARTICIPAÇÃO POLÍTICA PRESENCIAL É PÍFIA?

Embora todo fenômeno social seja complexo e demande uma observação contínua, observo uma cadeia de práticas sociais que podem explicar por que a maioria das pessoas dá de ombros para qualquer mobilização nesse sentido.

Inicialmente, aumenta a crença de que a democracia representativa representa prioritariamente os interesses dos patrocinadores da mídia corporativa, que são os mesmos que garantem a maioria dos empregos da classe média.

Também creio firmemente nessa hipótese, mas isso não impede que eu mantenha a minha determinação em discutir alternativas de aperfeiçoamento da democracia. A grosso modo, a descrença nos políticos e a obrigatoriedade do voto também não podem desvincular os descrentes da participação política e social. Todavia, é mais fácil omitir-se do que fazer parte de algo que trará desgaste. Portanto, são muito poucos os indivíduos dispostos a perceber que o bônus da tensão é a superação de um modelo. Falta tenacidade e coragem para chegar até o fim.

Em paralelo, a esquerda conceitualmente atualizada – que costuma pensar que participa e contribui para a mudança desse quadro de apatia mais do que a maior parte da sociedade – mantém a defesa desse modelo muito em função de estar deslumbrada pela absurda quantidade de acertos em relação aos erros crassos e até inesperados do Governo Lula.

A extrema esquerda (conceitualmente superada e míope em relação ao macroambiente) hoje está ainda mais vinculada aos movimentos sociais do que o próprio PT. Ela também tem obtendo algumas vitórias no que tange à ética, à veracidade e aos critérios das investigações e das denúncias que ora tem protagonizado. Como ela elege seus poucos representantes e – a exemplo do PT – também foi forjada a partir da contestação à ditadura, o sistema parece-lhe justo. A extrema direita (golpista e reacionária), por sua vez, domina há muito tempo o que há de mais conservador entre as culturas regionais e as elites econômicas do país (mais precisamente RS, PR, SP e MG – não necessariamente nesta ordem). Ela tem sido quem mais se beneficia da democracia representativa e é composta por uma parcela da população bem maior do que aquela que a extrema esquerda representa.

Enfim, de todos os lados, a maioria ainda prefere ater-se à crença nesse modelo político-partidário do que preocupar-se em superá-lo paulatinamente a partir de uma alternativa que ofereça o privilégio e o direito de participar sem envolvimento presencial enquanto obriga o cidadão em geral a sentir-se verdadeiramente responsável pelas suas escolhas sociais.

A despeito dessa crise da democracia representativa, onde os políticos representam a todos mas não representam ninguém e onde ninguém presta mas todos decidem algo relevante sob a nossa chancela, a esmagadora maioria do funcionalismo público voltou a reconhecer em si um caráter muito mais técnico do que ideológico.

A bem da verdade, quando não existe um regime de exceção formal, esta costuma ser a prática mais usual da maior parte dos funcionários públicos. Logo, prevalece a consciência de que o funcionário público trabalha para atender aos cidadãos em geral e não a interesses privados – e nem tampouco pessoais. Como promessas a eles jamais foram cumpridas em sua totalidade por nenhum campo ideológico e por nenhum partido, perdeu-se aí aquela aura de combatividade e o sentido de fazer parte de um ideário coletivo.

Na prática, a maioria dos funcionários públicos que não é CC (esse grupo, sim, ou se beneficiam, ou se ferram) deve necessariamente atender a duas pontas simultaneamente:

1) As diretrizes gerais do seu ofício, que decorrem de um projeto de estado que independa de partidos e da persona do executivo: referem-se ao cumprimento do estatuto da empresa pública, ministério, secretaria de estado ou de município ou autarquia para a qual foram concursados;

2) As diretrizes pontuais relacionadas ao método de execução e aos objetivos traçados pela ideologia que ora é governo – o que determina o uso de um dado conjunto de técnicas voltadas ao cumprimento de planos que o chefe e seus parceiros do momento consideram mais eficientes.

No momento em que não se vive em uma ditadura, até mesmo as fiscalizações técnicas de auditores e corregedores voltam-se tão-somente ao cumprimento de leis e protocolos que, em princípio, devem evitar ao máximo expor e manchar a reputação da instituição.

Creio que tais diretrizes técnicas resultam em uma postura que segue alguns passos.

a) A crença do senso comum (isto é, o argumento não-técnico e não-especializado da maioria que não possui laços fortes com o poder público) no apoio ou na criminalização de uma determinada questão é altamente subjetiva, pois depende tanto da reputação de quem fornece a informação como do interesse de cada um em procurar – ou não – opiniões divergentes. Portanto, a opinião de cada indivíduo será formada tanto em função daquilo que acompanha na mídia de massa como nas mídias sociais, aliado ao depoimento de contatos presenciais com laços fortes junto ao poder público. E tão desvinculada da realidade será essa opinião pública quanto aumentar o seu interesse por questões das quais estiver desvinculada geográfica, técnica e socialmente – eis o porquê da ignorância agrária, da não-aceitação da Olimpíada de 2016 e do não-envolvimento com a corrupção no RS, por exemplo.

De maneira geral, o conservadorismo da classe média urbana reproduz o pior legado da ditadura militar e da formação oligárquica do estado brasileiro de uma forma exponencialmente superior à idealizada pelos seus mentores: a da conciliação hipócrita. A maioria da classe média é predominantemente medrosa, pouco crítica e profere opiniões vazias não por causa do individualismo e do ludismo pós-moderno, nem por causa do analfabetismo funcional, da miséria ou de um poder (a meu ver) exagerado atribuído à mídia corporativa mas, sim, por que acostumou-se à política dos panos quentes.

Independentemente da valoração que atribuímos à confiabilidade do noticiário e das opiniões encontradas tanto na mídia corporativa quanto na blogosfera (incluindo também o principal, que é composto pelo que NÃO foi dito), mesmo diante de tantos indícios exaustivamente denunciados publicamente – em particular, os indícios e as provas relacionadas à corrupção no desgoverno Yeda ( com ou sem blindagem midiática); as CPIs abafadas no desgoverno Serra e a censura  do desgoverno Aécio – a crença na democracia representativa está ligada à descrença nos atores político-partidários e no Judiciário, pois quase tudo acaba em pizza. Ainda, a classe média em geral não deixa de estar consciente das prerrogativas de que “todos são inocentes até prova em contrário” e que “o ônus da prova é de quem acusa”.

Diante da hiperexposição midiática da corrupção (isso independe de quem e de como seja direcionado quando analisa-se friamente os fatos), cada um fica na sua para se proteger.

Finalmente, a esmagadora maioria das pessoas que possuía maior interesse em envolver-se diretamente em política nos moldes tradicionais ou já morreu, ou está aposentada. Inclusive grande parte de seus herdeiros de militância (a maioria na faixa dos 45 a 55 anos) insiste em seguir a mesma toada, sem perceber o quanto o mundo mudou.

Métodos superados, teorias superadas, práticas superadas, desconhecimento das armas do inimigo e por aí afora.

É preciso ser mais lúdico. É preciso ser mais assertivo. É preciso ser mais digital. É preciso ser menos panfletário.

Do contrário, tanto as mobilizações públicas como a do último domingo em Porto Alegre contra Yeda como o “célebre” Cansei – apesar de legítimas – permanecerão sendo quixotescas.

PROPOSTA DE VALORIZAÇÃO DA POLÍTICA PARTIDÁRIA

A exemplo da discussão no DIÁRIO GAUCHE, também acho que tinha que acabar com essa palhaçada de 2º turno, a fim de garantir que as forças que estão do mesmo lado já atuem oficial, legal e inapelavelmente coligadas desde o início da campanha.

Não considero mais o 2º turno como uma forma de repensar ou então de separar o joio do trigo: são tempo, dinheiro e paciência perdidos.

Ao mesmo tempo, a Cláudia tem toda a razão: eleições completas (presidente, governador, prefeito, senador, deputado federal, deputado estadual, vereador E, a exemplo dos EUA e de vários outros países ‘civilizados’, eleição de um representante do Estado para a Suprema Corte).

Voto facultativo, voto distrital (cada vereador, deputado estadual e deputado federal é o único representante de uma determinada região geográfica, não podendo ser votado fora dessa região), fim do voto nulo, fim do voto em branco, fim do voto na legenda, obrigatoriedade de votar exclusivamente em candidatos da MESMA coligação e um máximo de 5 e mínimo de 3 candidatos nas majoritárias: tem partido demais que não representa absolutamente nada na sociedade.

Financiamento público da campanha (seria proibida a doação por parte de pessoas jurídicas), e-mail profissional de funcionários públicos, sindicalistas e filiados com cargos em partidos de TODOS os escalões ABERTOS À COMUNIDADE, todos os telefones de órgãos públicos com ligações GRAVADAS e disponíveis na internet, telefones fixo e celular únicos (isto é, tem que estar registrados no nome e no endereço do político, do funcionário público ou do sindicalista e cada um não pode possuir mais de um celular em seu nome nem mais de um telefone fixo para a família inteira em sua respectiva residência.

Finalmente, tempos iguais para todos os candidatos independentemente do número de partidos ou da representação proporcional de sua respectiva coligação na câmara.

ILUSÕES E DESILUSÕES DE UM MILITANTE DE ESQUERDA BURGUÊS

Bem sei que minha opinião formada por um olhar que me força sempre a duelar contra as minhas crenças a fim de encontrar nelas as suas próprias idiossincrasias ou contradições através do distanciamento crítico cria muitas discordâncias em relação ao pensamento da própria esquerda bovina (sim, os bovinos estão por toda a parte na capital e no RS).

Fui líder estudantil no final do 1º grau em escola pública. Estudei em universidade pública, gratuita e, até então, ainda de qualidade. Viajei pelo país em três ENECOMs; fui militante do PT durante quase duas décadas e, sempre que tiver tempo ou julgar minha opinião útil e – acima de tudo – passível de ser devidamente ouvida, respeitada e aceita, ainda participarei eventualmente de reuniões no diretório municipal.

Tenho vários episódios de embates urbanos durante campanhas partidárias-eleitorais que, felizmente, posso garantir com toda a honestidade do mundo que JAMAIS foram provocadas por mim ou por qualquer um dos millitantes que estavam junto comigo em tais ocasiões:

1) No canteiro defronte à Praça da ENCOL, um homem com menos de 40 anos muito bem vestido e bem grande (gordão e com cerca de 1,90m de altura), arrogante e irônico, atravessou a rua para provocar a nossa militância. Algumas professoras estaduais e seus filhos queriam apelar para a ignorância. Felizmente, meu distanciamento permitiu-me ser o único do grupo a enxergar um carro estacionado defronte à praça com um cara de estilo muito parecido com o do que veio nos provocar cujo motorista estava sorrindo com uma câmera de vídeo. Prontamente, apontei-o para todos e apartei o princípio de desentendimento (1994);

2) Quase fui atropelado com o sinal fechado por um jovem motorista de um Gol que sentiu-se muito incomodado com as bandeiras do PT tomando conta do cruzamento da Mostardeiro com a Goethe defronte ao Parcão de maneira alegre, pacífica e hegemônica (1998);

3) Me deixei ser “espancado” pelo inócuo “pauzinho de plástico” da bandeira de uma eleitora do Rigotto defronte ao HSBC da 24 com Olavo Barreto Viana. Se o filho dela não fosse um guri sensato, a merda estaria feita: eu tinha tanta razão que fiquei parado e ameacei processá-la e chamar a imprensa (2002);

4) De 1989 até 2006 (a última campanha da qual participei nas ruas), sempre bandeirando nas avenidas Nilo Peçanha, Carlos Gomes, Plínio Brasil Milano, 24 de Outubro, Goethe, Independência, Osvaldo Aranha, Parcão, Redenção, Gasômetro e indo a todos os comícios no Largo da EPATUR (em 2008, foi a primeira vez que eu sequer soube quando haveria algum comício e perdi os dois ou três que ocorreram), cansei de ser abordado por pessoas que perguntavam se eu era CC, professor, funcionário público, dirigente sindical, delegado de partido, desempregado, se não tinha coisa melhor pra fazer, “como é que um moço tão ['bonito, inteligente, alegre, cheio de energia', etc. - dependendo do interlocutor, que quase sempre, esteve enganado em relação a mim] é capaz ‘disso’?”

Além dessas histórias urbanas, sempre tive calorosas, pouco civilizadas e extremamente traumatizantes discussões familiares (sobretudo quando eu era muito novo e era conscientemente censurado e inconscientemente humilhado perante estranhos pelo meu pai e pelo meu irmão), as quais durante muitos anos, mesmo coberto de razão, não conseguia saber me defender nem contra-atacar de maneira racional e fidalga. Essas são as marcas que mais doem e que nunca irão se apagar: mesmo sem ódio, sem raiva e procurando evitar esse tipo de desgaste, não nego minha fraqueza de, mesmo conseguindo entender o porquê deles serem assim, é impossível para mim não guardar rancor. Nenhuma demonstração atual ou futura de amor, carinho, atenção, respeito, solidariedade ou coisa parecida até hoje foi capaz de fazer com que eu esqueça, minimize ou seja capaz de me sentir melhor em relação a esses sentimentos.

Meus bons e velhos amigos, em muitos momentos foram mais significativos e mais importantes em termos de empatia e de afinidade do que com a minha própria família. Contudo, hoje sei que não há como contar nem com os amigos, nem com a família para tudo: cada grupo de afeto e de identidade supre determinadas necessidades individuais e coletivas, mas é incapaz de satisfazer a todas.

As escolhas profissionais e a maneira com que cada um foi criado, mesmo tendo uma adolescência de esquerda a partir de pais entre 10 e 20 anos mais jovens do que os meus que efetivamente tentaram lutar contra a ditadura civil e militar de direita, hoje são muito divergentes das minhas: pode-se dizer que eu nunca consegui ser pragmático e que sempre tive severas divergências em relação a me tornar ou a me sentir como um escravo do “deus-mercado”. Mantendo-me parcialmente à margem do sistema, ainda não tive filhos, não possuo patrimônio, não viajei pelo mundo e não consegui estabelecer uma rede social capaz de me ajudar profissionalmente.

Foi extremamente difícil tentar integrar-me a esse sistema. Demorei muito tempo até descobrir minha vocação autêntica e para entender que politicagem, subjetividade e, acima de tudo, a necessidade de estabelecer laços HONESTOS e SINCEROS com pessoas influentes (ou muito populares, ou dotadas de um alto poder político, social e/ou financeiro) é a única forma de se conseguir chegar aonde se quer sem sectarismo e com a capacidade de poder circular com respeito por vários ambientes diferentes inclusive em meio a severas divergências.

Jamais mudarei de lado. Porém, sei que que meu ponto-de-vista baseado em uma matriz teórica contemporânea gera um afastamento da visão reducionista e simplista que é progressivamente irreversível e autofágica em função da miopia da única forma aceita e conhecida de se fazer política: partidos e sindicatos mandam, os outros “bedecem”.

A paixão, a idolatria e a defesa incondicional de práticas e de pessoas cuja contribuição política e cidadã não vale meio centavo furado em relação a tudo o que OLÍVIO DUTRA protagonizou me fez estudar e pesquisar seriamente outras alternativas legitimamente políticas, politizadas e politizantes, atuantes, ativistas, cidadãs, esclarecidas e mobilizantes ainda emergentes cujos resultados têm sido muito mais eficientes do que sob lideranças centralizadoras baseadas em uma visão atrasada e retrógrada (que não tem nada a ver com o discurso direitista do ‘novo’).

Para mim, o declínio do sistema representativo político baseado em partidos cujo financiamento de campanha funciona de maneira X e que depende de uma espécie de relacionamento Y a fim de sobreviver às forças conservadoras (banqueiros, megacorporações globais, latifundiários, agronegócio, políticos de direita e corporações de mídia) exige uma ampla discussão a fim de buscar uma nova legislação capaz de fazer com que alterações profundas nesse modelo falido possam fazer com que ele volte a fazer sentido para a sociedade como um todo.

Enfim… Tudo o que demanda centralização, autoritarismo e pensamento único me torna extremamente pessimista e faz com que eu, alguém disposto e interessado em debater a respeito de qualquer coisa desde sempre, chegue ao extremo de considerar perda de tempo discutir política sob os moldes partidários, eleitorais e representativos sob este modelo.

Há muita gente extremamente lutadora, de biografia tão longa quanto significativa e que é muito conhecida no meio da esquerda sul-riograndense por uma quantidade enorme de militantes mergulhando em uma espiral de ilusão, de auto-enganação e de incapacidade total de analisar o macroambiente, por mais que leia, por mais que participe de palestras e cursos, por mais que viaje.

Há, tamb

ENTENDENDO A CONJUNTURA ATUAL

O GUILLERMO e o GUGA TÜRCK fizeram dois comentários bem inteligentes e observadores sobre o post anterior. Eles viram os erros do PT aqui em PORTO ALEGRE (ou no RS como um todo com reflexo na capital) de uma forma que eu não havia abordado, através da lembrança das escolhas de candidatos errados para o momento errado.

Concordo com eles. E se fosse voltar no tempo com a ajuda de outros blogueiros (RS URGENTE, DIÁRIO GAUCHE, DIALÓGICO, AGENTE 65, PORTO ALEGRE DE FOGAÇA, CÃO UIVADOR KAYSER, A CARAPUÇA, JEAN SCHARLAU, JULIO GARCIA e tantos outros) pra lembrar de decisões pontuais – todas diretamente relacionadas às estratégias de articulação eleitoral e de propaganda política – certamente apareceriam ainda mais fatos.

Porém, eu acho que a conjuntura é muito mais complexa e foge do âmbito da discussão sobre tendências, candidatos e suas declarações pessoais; sobre o que seriam esquerda e direita; sobre até que ponto poder-se-ia aceitar ser vice; de quais partidos seria possível aceitar um papel de coadjuvante e sob quais condições…

…Faltou uma análise conjuntural, estrutural, contextual não do comportamento do eleitor ou do monitoramento da mídia corporativa mas, sim, da transformação da visão de mundo dos estamentos porto-alegrenses em função da maior capacidade de consumo dos pobres que migraram para o meio da pirâmide em função das políticas de distribuição de renda e de fomento realizadas pelo PT nacional: o lulo-petismo de resultados tão combatido por nós (alguns com menos concessões, outros mais condescendentes) fez emergir um grande contingente de pessoas.

Porém, o foco da nossa insatisfação em relação às escolhas à direita feitas em Brasília sempre esteve equivocado: nos preocupamos demais com políticos, partidos e com a mídia corporativa ao invés de observarmos mais atentamente à maior homogeneidade entre os ex-pobres (a quem chamo de classe média) e aqueles que nunca moraram na periferia e não passam dificuldades financeiras há pelo menos três gerações (a quela a quem chamo de classe mérdia).

Os pobres não tiveram suas cabeças feitas pelos seus patrões de classe mérdia quando votaram em Lula em 2002 e em 2006. Todavia, a ascensão social tornou a NOVA classe média mais alheia às suas origens. A fim de evitar ao máximo o risco de perder suas novas conquistas, passam a adotar uma visão de mundo conservadora não apenas pela preocupação econômica mas, sobretudo, para aproximarem-se da classe mérdia que ainda os discrimina, não aceitando dividir seu espaço como “pré-elite” com quem era pobre há até bem pouco tempo atrás.

Em termos de propaganda, de formação de alianças, da escolha de candidatos e das discussões programáticas e ideológicas dentro de TODOS os partidos, nada mudou. Sobre a forma com que a mídia corporativa produz subjetividades, mudam as moscas, mas a merda permanece a mesma…

…O que mudou foi a severa diminuição de pessoas mais interessadas em melhorar a sociedade a partir de uma visão coletiva e complexa para uma visão mais individualista e simplista.

Com isso, mais uma vez retorno à falência do sistema político-partidário-eleitoral, que precisa encontrar uma ponte provisória por sobre o abismo que separa os objetivos dos políticos, dos técnicos e dos empresários que financiam campanhas e alteram leis a favor de seus interesses comerciais e o ato prático independente e solidário de tentar melhorar o mundo sem ter que pedir a bênção.

Nesse ponto, os conservadores são mais ágeis. Através de clubes sociais e de ONGs vinculadas a empresas, os ricos reunem a classe média para receber desconto nos impostos e para fazer publicidade gratuita de suas empresas que, politicamente, passam a representar o “bem”, substituindo o papel do estado.

O estado de direita faz pouco pelo cidadão carente. Porém, seus defensores que não atuam na política partidária fazem mais do que o estado de esquerda em ações pontuais porém muito mais visíveis do que o macro que uma prefeitura competente e bem-intencionada realiza e mostra.

Portanto, a atual sociedade não se importa muito em COMO, POR QUEM e COM QUE OBJETIVO IMPLÍCITO os atos solidários e cidadãos são realizados: para eles, o que importa é que seja eficiente e que apareça bastante.

Em suma: o estado, por mais que distribua renda e melhore as condições de vida daqueles que mais precisam, inevitavelmente deixará uma enorme quantidade de demandas não-atendidas. Logo, assim como para o pobre o traficante pode não ser tão mau assim porque substitui o Estado ao suprir várias de suas necessidades, a classe média assim vê as grandes empresas. Não é à toa que os governantes sempre comparecem às inaugurações de fábricas, lojas e demais tipos de empreendimento: afinal de contas, o governo deixa o recado de que endossa as iniciativas que atraem mais impostos e geram empregos por parte do seu benfeitor, que, por tabela, dá uma demonstração de poder, reforçando sua imagem de marca e conqistando o respeito e a admiração da classe média emergente e também da classe mérdia.

No cassino das meias-verdades, a banca sempre ganha: ela pode perder três ou quatro rodadas seguidas para um cliente mais sortudo no poker. Porém, na roleta, ela logo se recupera…

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PORTO ALEGRE É A NOVA BARRA DA TIJUCA

Infelizmente, não é questão de ser otimista ou pessimista: nunca antes ocorreu uma diferença tão grande entre os dois candidatos que vão ao 2º turno, seja à Prefeitura de POA, seja ao Governo do Estado do RS a partir do colégio eleitoral da capital.

O PT da capital e os antigos baluartes do partido perderam o trem da história: é preciso saber fazer mídia. A propaganda eleitoral tem mais é que vender um candidato como se fosse um produto, mesmo.

Não dá pra querer forçar a barra e querer “conscientizar”, “educar”, “ensinar” as pessoas. Cada um acredita naquilo que quiser. Como a maioria da população de POA não é mais pobre mas, sim, classe média, a maioria da população passou a ser extremamente conservadora por medo de perder o pouco que tem.

As escolas são um lixo: os analfabetos funcionais estão em todas as classes sociais, em todas as profissões, na esquerda, na direita ou desinteressados da política. É preciso saber comunicar-se através de uma linguagem que as pessoas possam compreender.

O PT se isolou e foi isolado. Não dá mais pra exigir que o partido não se coligue com outros que não pertençam ao mesmo campo ideológico. Só se deve cobrar um mínimo de sensatez e respeito, ou seja, não fazer coligações nem dividir palanque com PP, DEM, PPS e com 2/3 do PMDB.

Por pior que seja, PDT e PTB poderiam ser bastante úteis e fariam toda a diferença caso não fizessem parte da aliança pró-Fumaça.

A política partidária está morrendo porque não é jogo para puritanos nem para quem é 100% honesto: mesmo que a maioria das pessoas não aceite ladrões e corruptos, não vê nada demais nos oportunistas.

Quem ainda acredita em uma sociedade justa deveria se juntar pra mudar as leis de representatividade e de financiamento de campanha. Se isso não funcionar, a única saída é fazer trabalho voluntário comunitário ou através de ONGs idôneas.

O PT só conseguiu prefeituras pequenas (à exceção de Canoas e, talvez, Pelotas). Surpreendeu em Santa Rosa, Erechim e Bento Gonçalves. Retomou Bagé. Na Grande POA, só ganhou porque a população das cidades por onde passa o Trensurb é muito pobre. Onde predomina a classe média, vai dar sempre centro-direita ou extrema-direita.

As perdas em Santa Maria, Alvorada, Viamão e Caxias do Sul e a esmagadora e humilhante derrota em Porto Alegre possuem um significado muito maior do que o de ter eleito mais vereadores e mais prefeitos em municípios inexpressivos.

Eu fico muito triste por estar acompanhando a morte de algo que me fez acreditar que poderia existir política partidária honesta e capaz de trabalhar para a maioria das pessoas sem ser excludente.

Quando morei no Rio de Janeiro, descobri uma coisa: lá, as pessoas comuns que são pobres, de classe média baixa ou idosas de classe média alta são muito mais solidárias, exigentes e cidadãs do que aqui.

O Rio praticamente não tem mais políticos relevantes de esquerda nem partidos de esquerda com grande quantidade de filiados: o que importa pra eles é deixar de lado a preocupação se o prefeito ou governador vai ser do PSDB, PP, DEM, PTB, PDT e PMDB pra se envolverem mais em trabalho voluntário.

Na zona sul do Rio, essa consciência existe porque a favela é grudada aos bairros mais ricos: existe convivência diária entre classes sociais.

Agora… Na Barra e no Recreio, como as pessoas moram em condomínios fechados, são mais preconceituosas, excludentes, reacionárias e ignorantes. Porto Alegre está-se tornando uma grande Barra.

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