APRENDIZADOS DE CAMPANHA PARA O PT-POA

Infelizmente, há nuances político-eleitoreiras que são negligenciadas até mesmo pelas raras pessoas esclarecidas, críticas e socialmente conscientes. Vamos a elas:

1) A mídia corporativa não possui necessariamente o poder que a ela se atribui: caso contrário, não teria havido nenhuma espécie de contestação à administração atual. Portanto, todos os votos não-dados a Fogaça (ou seja, mais da metade dos votos válidos foram destinados a todos os demais candidatos) significam insatisfação – mesmo que seja uma insatisfação predominantemente despolitizada;

2) Tecnicamente, o senso comum confunde marketing, propaganda e publicidade, mas são três técnicas distintas. Ei-las:

- O marketing é um arranjo entre quatro variáveis: produto, preço, escolha dos pontos-de-venda e promoção. Essas quatro variáveis, conhecidas como os 4 P’s (em inglês: product, price, place e promotion), dependem de produção, transporte e transformação material ou produção de um bem intangível como, por exemplo, um site de comércio eletrônico. Portanto, a comunicação (publicidade E/OU propaganda; assessoria de imprensa e relações públicas) é apenas uma parte dentro do composto promocional. Portanto, não existe marketing político;

- Propaganda é a promoção de um produto ou idéia de cunho político-ideológico. Portanto, uma campanha para a Rosário é propaganda, assim como contra o porte de armas ou a favor do presidencialismo. Mas a aparição midiática sob uma linguagem persuasiva, normativa e/ou envolta em um determinado juízo de valores de uma bicicleta, de um perfume ou de um automóvel não são propaganda;

- Finalmente, a publicidade é a promoção de um bem (seja ele simbólico ou material) que precisa ser apresentado e consumido: pacote de viagens, bola de futebol, apartamento, conta bancária, etc. são publicidade e não propaganda.
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Atualmente, a sociedade midiatizada, isto é, a sociedade na qual cerca de 80% de tudo o que se discute é produto de mediações (história premeditadamente editada) e remidiações (atravessamentos entre pautas semelhantes ou contrárias em todos os meios de comunicação), não dá valor nem importância à ágora pública (praças, parques, avenidas). E, sendo predominantemente consumista, pouco letrada e de classe média, não adianta forçar a barra pra tentar “conscientizá-la” acerca do seu papel social, “instruí-la” ou “educá-la” sobre política, cidadania, sociologia, filosofia, psicologia ou pedagogia de maneira informal através de explicações longas. Da mesma forma, é um erro crasso querer impor que a maioria dessas pessoas tenham de crer no discurso de um partido qualquer.

Hoje em dia, os partidos não têm mais cara e todo candidato é um produto. Os pobres, vítimas de racismo, sexismo, maior probabilidade de doenças, subnutrição, ignorância e todo tipo de violência, não são mais a classe operária de Marx, nem tampouco o “povo”: as pessoas podem até se unir em torno de uma causa em comum. Porém, não é por terem-se unido em torno de um determinado objetivo neste instante que terão que unir-se e defender as mesmas demandas sempre, já que não há mais um “povo” uno e nem uma “massa” facilmente manobrável: a sociedade atual é composta por uma MULTIDÃO que não é homogênea e não precisa fazer parte de um determinado grupo classista – é a causa que gera a união e não uma crença e práticas individuais predominantemente comuns, já que todos são diferentes.

Portanto, o desafio é reivindicar por transformações radicais nas leis que regem o sistema político-partidário-eleitoral, as prestações de contas da campanha e repensar o papel da cidadania política separada dos partidos. A falta de consciência a respeito de todos esses fatos fez o PT porto-alegrense parar no tempo em que a sua base militante ainda era formada por uma grande parcela da população representada por operários da indústria e por funcionários públicos moradores da periferia.

Atualmente, os filhos e netos dos operários, dos funcionários públicos e da pequena parcela da classe média que lutou contra a ditadura militar e fez política há 30, 40 ou 50 anos atrás não são mais pobres e compõem a maioria da população da capital sul-riograndense. Distantes do ensino público de qualidade e completamente dissociados da história do país, não possuem a menor identificação com os valores políticos e sociais nos quais seus pais e avós acreditam – ou acreditavam.

A classe média é predominantemente conservadora, pois quer preservar o pouco que possui e almeja ser como os figurões que encontram nos cadernos de “variedades” dos jornais, em revistas de fofocas ou através de programas sensacionalistas de rádio, televisão e portais da internet.

Apesar desse quadro, a esquerda precisa aceitar vender seus candidatos como mercadorias ao mesmo tempo em que deva esmerar-se tecnicamente para saber apresentar suas idéias e suas realizações confrontando as falhas dos seus oponentes com dinamismo, velocidade e sem confrontos contraproducentes.

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A DOR ENSINA A GEMER

Quando a aliança de MANUELA parecia ser de esquerda, confesso que me entusiasmei com a possibilidade em função da perda de espaço do PT na classe média porto-alegrense. Obviamente, desisti quando ela firmou parceria com o PPS. Não sei até que ponto o deputado estadual RAUL CARRION e a candidata a vereadora JUSSARA CONY deram seus depoimentos na propaganda eleitoral gratuita da candidata com sinceridade ou com profundo constrangimento – mas isso é outra história…

Enfim… Já pensei seriamente durante várias semanas em ANULAR MEU VOTO. Depois, intuí que continuar com o PT apesar de sua candidata ser MARIA DO ROSÁRIO e não MIGUEL ROSSETTO (que, infelizmente, entende tanto de ‘TENÉTI‘ quanto a candidata escolhida pelo partido) Também é conhecido por todos os que lêem este blog que eu estou muito decepcionado com o MODELO REPRESENTATIVO POLÍTICO-ELEITORAL (EIRO?) definido pelas leis brasileiras. Recentemente, dei minha opinião a respeito das FALHAS IMPERDOÁVEIS DO PT DE POA relacionadas ao excesso de complexidade para explicar as coisas e também pelo sectarismo em relação a uma parte significativa da CLASSE MÉ(R)DIA.

Não vou fazer campanha. Apenas abri meu voto, constrangido. Não tem mais bandeiraço, camiseta, bandana, button, distribuição de santinhos: todos os dias, só vejo MILITÂNCIA DE ALUGUEL. Sem entusiasmo, recebendo um trocado e um lanche – assim como todos os outros partidos sempre fizeram.

O PT NÃO É MELHOR NEM DIFERENTE: no momento em que começou a aparecer roubalheira (sim, houve mensalão – começou com os outros e tem origem bem antiga, mas por que diabos o PT aderiu a tudo o que mais abominava, hein?!).

Essa foi a derrocada da política partidária e de todas as crenças na bondade humana, na vontade política e na “participação popular”.

Ser de esquerda não é necessariamente ser comunista, socialista ou marxista: ser de esquerda é indignar-se com a ignorância, com a miséria, com o preconceito, com a injustiça, com a corrupção, com o moral de cuecas, com o autoritarismo e com o culto à religião e às “tradições”. É ser a favor do serviço público de qualidade. É ser contra as privatizações.

Mas é, acima de tudo, ser a favor da RESISTÊNCIA PÓS-MODERNA, baseada em REDES SOCIAIS, transformando demandas locais em casos conhecidos globalmente, multiplicando os relacionamentos e o debate online para, no momento em que se atingir massa crítica suficiente, aí, sim, reunindo a MULTIDÃO presencialmente. Sem partido. Sem entidade de classe. Sem empresa. Sem clube. E sem interromper o fluxo.

A alienação é muito menor do que se imagina: ocorre, na verdade, uma PROFUNDA DECEPÇÃO. E o fato de a ágora pública ter-se transferido para a mídia não significa necessariamente o esvaziamento dos discursos e das crenças mas, sim, uma nova forma de fazer política que exigem uma nova linguagem e um novo discurso adaptados à gramatologia do novo espaço público.

Quem não entender isso, DANÇA.

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POR QUE O PT NÃO VAI GANHAR EM PORTO ALEGRE

Depois de ter lido os COMENTÁRIOS do post do RS URGENTE sobre a pesquisa CORREIO DO POVO/METHODUS para a PREFEITURA DE PORTO ALEGRE, pensei em escrever o seguinte texto:

No dia em que muitas pessoas (que passam por aqui ou não; que são vinculadas a partidos políticos ou não) lerem IMPÉRIO e MULTIDÃO de ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT e as obras de ZYGMUNT BAUMAN, ELISEO VERÓN, NÉSTOR GARCÍA-CANCLINI (principalmente CONSUMIDORES E CIDADÃOS, CULTURAS HÍBRIDAS, DIFERENTES, DESIGUAIS e DESCONECTADOS, LEITORES, ESPECTADORES E INTERNAUTAS e LATINO-AMERICANOS À PROCURA DE UM LUGAR NESTE SÉCULO) e ALBERT-LASZLÓ BARABÁSI (LINKED) talvez as coisas clareiem um pouco mais.

Não adianta: em uma sociedade na qual a classe média é predominante, ela vai pender sempre à direita, pois julga que, assim, corre menos riscos de perder suas conquistas materiais.

Hoje em dia, como o fluxo constante é muito mais importante do que parar e olhar para os lados e como a função dos sindicatos é, na melhor das hipóteses, controversa à medida que a classe mais excluída, mais injustiçada e mais pobre não é mais composta por “proletários”, a ágora não é mais a praça pública ou a rua. Ninguém dá bola para manifestações, passeatas, piquetes, etc. Mais de 80% de toda a discussão sobre política, economia, direito e cotidiano se dá através da mídia: é através dela que a classe média se identifica e reconhece a sua pertença.

Da mesma forma, os partidos políticos perderam o sentido, pois o Executivo (municipal, estadual ou federal) só considera como cidadão quem possui poder de consumo(ismo). Senão, os latifundiários, as multinacionais, os EUA, os banqueiros, as indústrias do tabaco, do álcool, automobilística e das corporações de mídia derrubam qualquer governo.

A bem da verdade, antigamente havia cerca de 25% de pessoas convictamente identificadas com todas as nuances da esquerda, 25% de reaças assumidos ou enrustidos e os outros 50% pendiam para o lado que representava melhor as suas demandas ou cujo discurso os ludibriava melhor.

Hoje, temos alguns deputados estaduais e alguns vereadores combativos, além de ex-prefeitos como OLÍVIO e RAUL. O resto se bandeou para o lado pragmático de ser, pois crê que é necessário fazer severas concessões ambientais, legais e econômicas aos oligarcas a fim de poder realizar de maneira paulatina e meio às avessas em relação ao estatuto do PT um certo grau de inclusão social.

O PT não vai para o 2º turno em POA, mas pode eleger mais vereadores aqui do que nunca. Que sirva de consolo para daqui a 4 ou 8 anos o cercamento da capital por vários municípios governados pela FRENTE POPULAR: só mesmo a propaganda de boca a boca feita pelas pessoas da GRANDE POA que trabalham e estudam na capital junto a seus amigos e parentes daqui poderá ajudar a reverter esse quadro.

Não dá pra ser ingênuo e achar que o PT está mal em POA só por causa da FARSUL, da FEDERASUL, da RBS e da IURD: muitas comunidades afastadas não tiveram suas demandas satisfeitas pelo OP que, além de tudo, era aparelhado. O fato da maioria dos participantes das assembléias com voz ativa ser composta por líderes sindicais ou filiados ao partido fez com que pessoas apartidárias que só queriam saber quando a escola, a creche, o esgoto ou a calçada seriam construídos na sua comunidade pegaram nojo.

Pra terminar: nos moldes atuais, só creio na resistência pós-moderna da multidão, que é a arma contemporânea que Negri e Hardt vêem como o antagonismo possível ao império.

Quem não sabe agir de maneira descentralizada, desinstitucionalizada, em rede e, de quebra, não aceita que as mesmas pessoas que reúnem-se somente para resolver uma determinada demanda coletiva não queiram (ou não precisem) estar sempre lado a lado em todas as demandas sociais possíveis, não tem condições de fazer política.

Ou se luta para mudar o sistema representativo político-partidário e para evitar a intersecção de um dos Três Poderes em qualquer um dos outros dois, ou até a palavra luta passa a perder o sentido.

Portanto, eu não creio na tomada do poder mas, sim, em pressionar o poder para satisfazer demandas. Uma oposição de esquerda sem os vícios de sindicatos e de partidos, que siga mais ou menos o que o EDUARDO GUIMARÃES preconiza através do MOVIMENTO DOS SEM-MÍDIA.

Já pararam pra pensar que a maioria das pessoas pode estar satisfeita com o estado das coisas no RS independentemente da RBS e do neoliberalismo ou que, por outro lado, cansaram de tentar porque toda vez que levantaram seus ricos traseiros da cadeira deram com os burros n’água?

A desilusão e a frustração vêm daí.

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CAMPANHAS ELEITORAIS RIDÍCULAS E INÓCUAS PELO BRASIL AFORA

Leiam imediatamente o relato do AZENHA sobre a convenção democrata. Talvez ainda haja uma pequeníssima porém sólida e promissora possibilidade de que se venha a aceitar com respeito e com muita atenção o fato de que não existe um processo de despolitização catastrófico, apocalíptico e irreversível mas, sim, o deslocamento do espaço público para o ambiente mais adequado a conquistar a atenção e a demandar alguma forma de participação multitudinária do que as antigas formas de debate disponíveis antes da midiatização da sociedade.

Não digo que o OBAMA seja o “bem”, nem que o jeito dos EUA fazerem marketing, ideologia e comunicação sejam um modelo a ser seguido. Discordo desse mise-en-scène das campanhas nababescas. Contudo, as estratégias que ele utiliza e eu já citei em outro post são fundamentais para haver a passagem de uma forma e de um ambiente de discussão que não têm mais nenhuma relação com a gramática, com a estética, com a retórica, com a discursividade, com a linguagem e, acima de tudo, com a maneira mais bem aceita pelos cidadãos serem contactados rumo a algum tipo de ação política.

Nesse sentido, a legislação, a representatividade político-partidária, a lei de doações de campanha e a competência das assessorias de comunicação que não sabem usar as TICs (Tecnologias da Comunicação e da Informação) como um instrumento de integração, barateamento, de debate e de incitação ao engajamento predominantes no BRASIL estão pra lá de atrasadas.

Ganhe quem ganhe (do jeito que ganhar) as eleições por todo o país, a população como um todo perderá porque não irá se envolver o suficiente para buscar alguma forma de mudança.

E apareçam o que aparecerem depois de resultados técnicos e financeiros plenamente satisfeitos, nada irá negar que, em termos de atualização discursiva e de estratégia de campanha, todo e qualquer serviço terá sido porco.

Que me perdoem os coleguinhas pela sinceridade. Por enquanto, o máximo de avanço a que se chegou (porém ainda longe do mínimo aceitável para quebrar um paradigma) foi o que a MANUELA e o MANO CHANGES conseguiram na eleição anterior.

Novamente, não que eles sejam grande coisa ou que sejam mais espertos: eles apenas sabem como chegar no eleitor, pois possuem sintonia discursiva com esta geração.

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POLÍTICA MUNICIPAL: PESSIMISMO TOTAL

O penúltimo post deste blog recebeu uma série de comentários. Alguns já foram respondidos naquele espaço. Outros, me levam a associar uma série de coisas que eu tenho lido na blogosfera gaúcha independente de esquerda, a fim de estendermos a discussão sobre o futuro de Porto Alegre.

Há várias questões seriíssimas que têm sido levantadas diariamente por vários blogs. Precisamos nos inteirar acerca de fatos globais que interferem diretamente no direcionamento da gestão social, ambiental e econômica do município. Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer de discussões locais importantíssimas que têm sido sucessivamente esvaziadas nos fóruns públicos de debate.

Meu tempo aqui tem sido curto em função das tarefas semanais de elaboração e correção do texto que estou escrevendo para a banca de qualificação no mestrado. Na medida do possível, passo os olhos no Correio do Povo e estou ciente das subjetividades propostas pela RBS e seus mantenedores através do PONTO DE VISTA, do RS URGENTE, do DIALÓGICO, do ALMA DA GERAL, do DIÁRIO GAUCHE, d’A CARAPUÇA, d’A PORTO ALEGRE DE FOGAÇA e, finalmente, de duas descobertas recentes que fiz na blogosfera, logo após os indispensáveis AMIGOS DA GONÇALO DE CARVALHO e CÃO UIVADOR.

O geógrafo Mário Rangel tem feito muito bem em insistir, no blog A GEOGRAFIA EM TUDO, na discussão sobre a especulação imobiliária crescente em PORTO ALEGRE. Em cada um de seus posts recentes, Rangel deixa claro que é inegável que tal modelo econômico, social, urbano e de consumo resulta em uma sensível piora na já caótica distribuição de renda sul-americana, brasileira, gaúcha e porto-alegrense. Conseqüentemente, tal modelo multiplica exponencialmente a exclusão social e reduz enormemente a qualidade de vida da maioria, daqueles que mais precisam, como diria o grande TIO OLÍVIO.

Como funciona tal modelo econômico?

FATO: a PREFEITURA e a CÂMARA MUNICIPAL procrastinam (isto é, empurram com a barriga) as discussões a respeito das reformas no PLANO DIRETOR.

QUEM DEFINE A AÇÃO? Tal morosidade política é articulada pelo poder econômico que, neste caso, parece ser representado por uma parte graúda da indústria da construção civil. O setor anuncia pesada e sistematicamente em todos os veículos da mídia corporativa que atuam preferencialmente na capital. Também não é de se duvidar que possa investir nas campanhas de candidatos a vereador e a prefeito de praticamente todos os partidos para cobrar a conta quando julgar necessário.

COMO SE ESTABELECE A AGENDA “POSITIVA”? Os anunciantes não apenas pagam dinheiro para a mídia corporativa buscando expor seus produtos para venda direta ao consumidor em potencial de seus imóveis: embora comercialmente tal procedimento não seja ilegal, seja lá qual for o preço que a mídia cobra e qual o valor disponível dos anunciantes do setor, estão sendo comprados, além do espaço publicitário, matérias favoráveis ao seu modelo de exploração do meio ambiente e de alteração radical da cultura urbana porto-alegrense.

De maneira indireta, também pode-se supor que três dos mais significativos entre os demais setores que mais anunciam na mídia corporativa também beneficiem-se indiretamente dessa articulação entre o poder público, a mídia corporativa e parte da indústria da construção civil. São eles os bancos, as seguradoras e a indústria automobilística.

Os bancos financiam os empreendimentos imobiliários de quem não possui cacife para bancar terreno, empreiteira, material, etc. As seguradoras faturam alto apenas dentro das classes A e B, que possuem poupança e capacidade de investir na segurança de seus bens. Finalmente, a indústria automobilística (veículos, pneus, óleo, combustível, etc.) também lucra com o fato de que tais complexos imobiliários faraônicos não proporcionam o desenvolvimento sustentável porque seus entornos excluem do trânsito pernas e bicicletas.

Portanto, trata-se de um sistema circular ubíqüo de ciclo constante: a classe AB consome notícias e opiniões de VEJA, ÉPOCA, ISTOÉ, EXAME, VALOR ECONÔMICO, GAZETA MERCANTIL e JORNAL DO COMÉRCIO; a classe BC consome ZERO HORA, CORREIO DO POVO, O SUL, rádios GAÚCHA e GUAÍBA; e a classe CD lê DIÁRIO GAÚCHO e ouve FARROUPILHA e CIDADE.

Todos os citados no parágrafo anterior são veículos de poucos donos. De maneira geral, eles costumam trabalhar unidos em torno de bandeiras cujo interesse é compartilhado por praticamente todos os produtores hegemônicos dessa indústria midiática. Isso significa que também investem em diversos outros mercados, ora criando empresas próprias com outra razão social e nomes que em nada lembram os nomes de suas respectivas corporações de mídia, ora obtendo descontos nos serviços de seus anunciantes através de permutas e barganhas, ora investindo nesses anunciantes como proprietários de títulos de capital. Obviamente, como a mídia corporativa não é nem o quarto poder e nem a dona do mundo, seus anunciantes mais freqüentes em volume de anúncios e de pagamento também demonstram a sua força ao investirem em papéis dessa indústria da mídia.

CONCLUSÃO 1: não há interesse das oligarquias brasileiras em proporcionar ao país um capitalismo concorrencial que conte com uma grande quantidade de atores em cada setor.

CONCLUSÃO 2: todo grande empresário que não se interessa primeiro em gerar a maior satisfação possível ao seu consumidor (qualidade, durabilidade, agilidade, resposta rápida, soluções completas, estética e funcionalidade, consumo maduro e não consumismo) preservando a natureza só quer saber de custo mínimo e de lucro máximo.

CONCLUSÃO 3: o jornalismo deixa de ser um serviço de informação relevante capaz de provocar a diferença e o debate social através do estranhamento do receptor à mensagem emitida pelos meios de comunicação de massa. Bem dizendo, esse tipo de propagação comunicativa deixa de ser jornalismo para se transformar em um serviço de comunicação integrada de relações públicas, de propaganda política e ideológica e de assessoria de imprensa informal.

CONCLUSÃO 4: a política partidária e classista deixa de ser uma atividade séria, democrática e voltada ao bem comum para tornar-se um mero símbolo individual de status obtido através de uma liderança comunitária repleta de interesses meramente pessoais e extra-comunitários. Independentemente de partido, programa ou ideologia, o contexto atual indica o predomínio da prática política dentro de qualquer parlamento, sindicato, partido ou entidade patronal como um reles balcão de negócios.

CONCLUSÃO 5: o exercício da cidadania política direta infelizmente não atrai a atenção da sociedade em função da desilusão total com o modelo representativo legalmente constituído em um país pouco letrado e pouco afeito à solidariedade.

CONCLUSÃO 6: todo foco de resistência precisa ser amplamente publicizado e devidamente vinculado a outros focos comunitários através de ferramentas de comunicação e informação baratas que atinjam em cheio a classe média.

CONCLUSÃO 7: estamos diante de oito fantoches disputando a prefeitura do entreposto mais central do Cone Sul. Os títeres desses fantoches são os velhacos que representam a pior face do capitalismo e eles estão em todas.

CONCLUSÃO 8: os verdadeiros empresários e os verdadeiros empreendedores são aqueles que põem o humano, o sensível, o lado genuinamente criativo, solidário e includente como condição sine qua non para o sucesso de um capitalismo saudável e também de uma democracia transparente. Para os comunistas e socialistas mais ortodoxos que duvidam disso, eles existem, sim. Todavia, por conhecerem bem a articulação graúda institucionalizada, não se envolvem nem na política partidária, nem na política classista de suas respectivas entidades.