O penúltimo post deste blog recebeu uma série de comentários. Alguns já foram respondidos naquele espaço. Outros, me levam a associar uma série de coisas que eu tenho lido na blogosfera gaúcha independente de esquerda, a fim de estendermos a discussão sobre o futuro de Porto Alegre.
Há várias questões seriíssimas que têm sido levantadas diariamente por vários blogs. Precisamos nos inteirar acerca de fatos globais que interferem diretamente no direcionamento da gestão social, ambiental e econômica do município. Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer de discussões locais importantíssimas que têm sido sucessivamente esvaziadas nos fóruns públicos de debate.
Meu tempo aqui tem sido curto em função das tarefas semanais de elaboração e correção do texto que estou escrevendo para a banca de qualificação no mestrado. Na medida do possível, passo os olhos no Correio do Povo e estou ciente das subjetividades propostas pela RBS e seus mantenedores através do PONTO DE VISTA, do RS URGENTE, do DIALÓGICO, do ALMA DA GERAL, do DIÁRIO GAUCHE, d’A CARAPUÇA, d’A PORTO ALEGRE DE FOGAÇA e, finalmente, de duas descobertas recentes que fiz na blogosfera, logo após os indispensáveis AMIGOS DA GONÇALO DE CARVALHO e CÃO UIVADOR.
O geógrafo Mário Rangel tem feito muito bem em insistir, no blog A GEOGRAFIA EM TUDO, na discussão sobre a especulação imobiliária crescente em PORTO ALEGRE. Em cada um de seus posts recentes, Rangel deixa claro que é inegável que tal modelo econômico, social, urbano e de consumo resulta em uma sensível piora na já caótica distribuição de renda sul-americana, brasileira, gaúcha e porto-alegrense. Conseqüentemente, tal modelo multiplica exponencialmente a exclusão social e reduz enormemente a qualidade de vida da maioria, daqueles que mais precisam, como diria o grande TIO OLÍVIO.
Como funciona tal modelo econômico?
FATO: a PREFEITURA e a CÂMARA MUNICIPAL procrastinam (isto é, empurram com a barriga) as discussões a respeito das reformas no PLANO DIRETOR.
QUEM DEFINE A AÇÃO? Tal morosidade política é articulada pelo poder econômico que, neste caso, parece ser representado por uma parte graúda da indústria da construção civil. O setor anuncia pesada e sistematicamente em todos os veículos da mídia corporativa que atuam preferencialmente na capital. Também não é de se duvidar que possa investir nas campanhas de candidatos a vereador e a prefeito de praticamente todos os partidos para cobrar a conta quando julgar necessário.
COMO SE ESTABELECE A AGENDA “POSITIVA”? Os anunciantes não apenas pagam dinheiro para a mídia corporativa buscando expor seus produtos para venda direta ao consumidor em potencial de seus imóveis: embora comercialmente tal procedimento não seja ilegal, seja lá qual for o preço que a mídia cobra e qual o valor disponível dos anunciantes do setor, estão sendo comprados, além do espaço publicitário, matérias favoráveis ao seu modelo de exploração do meio ambiente e de alteração radical da cultura urbana porto-alegrense.
De maneira indireta, também pode-se supor que três dos mais significativos entre os demais setores que mais anunciam na mídia corporativa também beneficiem-se indiretamente dessa articulação entre o poder público, a mídia corporativa e parte da indústria da construção civil. São eles os bancos, as seguradoras e a indústria automobilística.
Os bancos financiam os empreendimentos imobiliários de quem não possui cacife para bancar terreno, empreiteira, material, etc. As seguradoras faturam alto apenas dentro das classes A e B, que possuem poupança e capacidade de investir na segurança de seus bens. Finalmente, a indústria automobilística (veículos, pneus, óleo, combustível, etc.) também lucra com o fato de que tais complexos imobiliários faraônicos não proporcionam o desenvolvimento sustentável porque seus entornos excluem do trânsito pernas e bicicletas.
Portanto, trata-se de um sistema circular ubíqüo de ciclo constante: a classe AB consome notícias e opiniões de VEJA, ÉPOCA, ISTOÉ, EXAME, VALOR ECONÔMICO, GAZETA MERCANTIL e JORNAL DO COMÉRCIO; a classe BC consome ZERO HORA, CORREIO DO POVO, O SUL, rádios GAÚCHA e GUAÍBA; e a classe CD lê DIÁRIO GAÚCHO e ouve FARROUPILHA e CIDADE.
Todos os citados no parágrafo anterior são veículos de poucos donos. De maneira geral, eles costumam trabalhar unidos em torno de bandeiras cujo interesse é compartilhado por praticamente todos os produtores hegemônicos dessa indústria midiática. Isso significa que também investem em diversos outros mercados, ora criando empresas próprias com outra razão social e nomes que em nada lembram os nomes de suas respectivas corporações de mídia, ora obtendo descontos nos serviços de seus anunciantes através de permutas e barganhas, ora investindo nesses anunciantes como proprietários de títulos de capital. Obviamente, como a mídia corporativa não é nem o quarto poder e nem a dona do mundo, seus anunciantes mais freqüentes em volume de anúncios e de pagamento também demonstram a sua força ao investirem em papéis dessa indústria da mídia.
CONCLUSÃO 1: não há interesse das oligarquias brasileiras em proporcionar ao país um capitalismo concorrencial que conte com uma grande quantidade de atores em cada setor.
CONCLUSÃO 2: todo grande empresário que não se interessa primeiro em gerar a maior satisfação possível ao seu consumidor (qualidade, durabilidade, agilidade, resposta rápida, soluções completas, estética e funcionalidade, consumo maduro e não consumismo) preservando a natureza só quer saber de custo mínimo e de lucro máximo.
CONCLUSÃO 3: o jornalismo deixa de ser um serviço de informação relevante capaz de provocar a diferença e o debate social através do estranhamento do receptor à mensagem emitida pelos meios de comunicação de massa. Bem dizendo, esse tipo de propagação comunicativa deixa de ser jornalismo para se transformar em um serviço de comunicação integrada de relações públicas, de propaganda política e ideológica e de assessoria de imprensa informal.
CONCLUSÃO 4: a política partidária e classista deixa de ser uma atividade séria, democrática e voltada ao bem comum para tornar-se um mero símbolo individual de status obtido através de uma liderança comunitária repleta de interesses meramente pessoais e extra-comunitários. Independentemente de partido, programa ou ideologia, o contexto atual indica o predomínio da prática política dentro de qualquer parlamento, sindicato, partido ou entidade patronal como um reles balcão de negócios.
CONCLUSÃO 5: o exercício da cidadania política direta infelizmente não atrai a atenção da sociedade em função da desilusão total com o modelo representativo legalmente constituído em um país pouco letrado e pouco afeito à solidariedade.
CONCLUSÃO 6: todo foco de resistência precisa ser amplamente publicizado e devidamente vinculado a outros focos comunitários através de ferramentas de comunicação e informação baratas que atinjam em cheio a classe média.
CONCLUSÃO 7: estamos diante de oito fantoches disputando a prefeitura do entreposto mais central do Cone Sul. Os títeres desses fantoches são os velhacos que representam a pior face do capitalismo e eles estão em todas.
CONCLUSÃO 8: os verdadeiros empresários e os verdadeiros empreendedores são aqueles que põem o humano, o sensível, o lado genuinamente criativo, solidário e includente como condição sine qua non para o sucesso de um capitalismo saudável e também de uma democracia transparente. Para os comunistas e socialistas mais ortodoxos que duvidam disso, eles existem, sim. Todavia, por conhecerem bem a articulação graúda institucionalizada, não se envolvem nem na política partidária, nem na política classista de suas respectivas entidades.