POR UM 442 À INGLESA PARA EQUILIBRAR O GRÊMIO

Apesar da enorme satisfação pela primeira atuação convincente do Grêmio no ano com uma vitória relativamente tranquila sobre o perigoso Junior de Barranquilla (COL) pela 5ª e penúltima rodada do grupo 2 da Copa Santander Libertadores 2011, é impossível deixar de apontar uma alternativa de jogo que considero bastante promissora, pois vejo nela uma possibilidade maior do que a atual de equilibrar o time.

O @marcosalmeida72 comentou no @sempreimortal :

“A velocidade do Paulão faz falta para a defesa ontem quase foi fatal.”

Isso me traz novamente à preocupação que tenho com o 442 de Leonardo na Internazionale, que – dadas as diferenças técnicas quase todas a favor do time italiano se comparado ao nosso – é quase o mesmo que Renato aplica aqui no Tricolor: sendo os quatro homens do meio dispostos em um losango, temos um meia defensivo (centromédio ou volante); dois meias – um pela esquerda e outro pela direita – que não são nem ofensivos nem defensivos demais, mas que tem a obrigação de ser os homens que auxiliam o único centromédio na marcação e que apoiam o apoiador, armador ou “ponta de lança” sempre que possível.

[ATUALIZAÇÃO de 15/04: @valdirespinosa comentou sabiamente hoje que o esquema das fracassadas Seleções de 2006 e de 2010, além do atual esquema praticado pelo @manomenezes, é praticamente o mesmo. Isso reflete o modelo tático mais utilizado pelos técnicos brasileiros da Série A. Portanto, a Seleção é um reflexo dos clubes – mesmo que a maioria dos jogadores estejam no exterior. Lá, via de regra, muito poucos de nossos convocados mais frequentes atuam no mesmo esquema e na mesma posição. Isso não significa que os nossos técnicos estão defasados e que o intercâmbio com a Europa é muito pequeno?!]

Isso posto, a dificuldade que o Grêmio tem em não conseguir reter a bola no ataque adicionada à baixa capacidade de o nosso time marcar adiantado não decorrem apenas de uma qualidade menor do que a desejada em nosso plantel.

Por que? Porque tivemos uma série de atuações recentes assustadoras, nas quais produzimos muito pouco defensivamente (média superior a um gol por jogo), apesar do excelente desempenho contra clubes pequenos neste início de ano (média de mais de dois gols por partida).

Espero que isso [ATUALIZAÇÃO: incluindo aí o vexame contra o Oriente Petrolero] tenha acendido o sinal amarelo para que a nossa comissão técnica repense a forma de armar o sempre complexo quebra-cabeça da escalação, do posicionamento e do equilíbrio entre marcar sem sofrer muito e manter a iniciativa lá na frente.

Na minha visão, partindo do pressuposto de que não iremos contratar mais nenhum jogador para a sequência da Libertadores, em função das características e com as deficiências que verifiquei em nosso plantel num post recente (recomendo a leitura: passa lá, comenta e volta, por favor!), o losango me parece enfraquecer todo e qualquer sistema de marcação quando não possuirmos: a) exímios passadores; b) zagueiros velozes e c) dois avantes no estilo pivô ou dois atacantes abertos. Um outro detalhe: Douglas, devido à sua lentidão, à sua péssima forma física e ao seu apenas eventual interesse em dedicar-se ao time, é tudo o que não precisamos (assim como Carlos Alberto, que é da mesma posição) ou, seja, não acelera o jogo e não marca. O Grêmio é incapaz de vencer fora de casa a adversários apenas razoáveis porque falta velocidade, precisão nos passes e nas conclusões e posse de bola. Tudo isso estoura na zaga e diminui o potencial de aproximação dos bons volantes Adilson e Rochemback.

Falando neles e voltando ao esquema tático equivocadamente utilizado por Renato, reitero que, com o meio disposto em losango, as inversões de posição entre os volantes é menor do que a necessária, pois eles acabam indo para cima menos vezes do que seria possível fazer.

Isso ocorre porque o centromédio (isto é, o meia do vértice baixo do losango) fica quase sempre restrito à sua função defensiva. Outro ponto prejudicial no posicionamento desse jogador: trata-se de um único homem para tentar evitar que a zaga fique no mano-a-mano contra os meias e os atacantes adversários.

Com o atual plantel do Grêmio, só vejo uma chance (pequena, diga-se de passagem) de o time voltar a render mais do que tem rendido ainda sob esse esquema a meu ver falido (o losango): entendo que, caso já carregasse consigo as devidas maturidade, entrosamento e força física, o centromédio deveria ser Fernando. manter um homem parado entre os meias e o ataque só funciona se ele não tiver pança, se dignar a dar o combate e errar menos entre cadenciar e acelerar o jogo (repito: Douglas não é solução porque é bipolar; e, se não é regular, é insuficiente). Por fim, viver de cruzamentos quando não se tem um avante alto é um erro que custa a perda da posse de bola e muitos contra-ataques ao adversário.

O 442 em duas linhas de quatro é muito mais equilibrado tanto para atacar quanto para defender. Todavia, ele exige que todos os zagueiros e volantes sejam velozes e que os meias mordam, pois o seu objetivo é manter a posse de bola no ataque. Para isso, a marcação se faz no campo do adversário.

Tendo isso em vista, eu escalaria o Grêmio da seguinte forma:

Victor; Gabriel, Mário Fernandes, Rodolfo e Lúcio; Pessali, Rochemback, Adilson e Escudero; Leandro e Borges.

Com este esquema, até jogadores como Willian Magrão e Fernando receberiam mais oportunidades. Assim, dentro de alguns meses, também fariam parte de um grupo mais homogêneo, com um maior compartilhamento de alternativas por setor gerando, assim, uma quantidade maior de acertos. Haveria também a possibilidade de acelerar o processo de amadurecimento do bom Mateus Magro e haveria mais efetividade quando fossem utilizados outros atacantes – sobretudo Vinicius Pacheco e Viçosa. E até mesmo Bruno Collaço tenderia a melhorar sob esse esquema.

Aí, vocês perguntam: mas e Douglas? Afinal de contas, não seria ele o jogador mais bem dotado de qualidades técnicas para acionar o ataque e surpreender o adversário alterando a velocidade para ditar o ritmo do jogo?

Vale a pena insistir: Douglas, Carlos Alberto e Escudero (este último ainda com alguma chance de dar certo) não são os homens certos para o que o Grêmio precisa na posição. Perdemos a chance de trazermos dois homens que fazem a diferença no Cruzeiro, o grande favorito à Libertadores 2011: Gilberto e Roger.

Douglas corre pouco. Douglas poucas vezes dá o combate. A proporção dos erros de Douglas em relação aos acertos, infelizmente, é grande. Vejo qualquer grande clube europeu jogar e não vejo nenhum jogador barrigudo. Vejo qualquer grande clube brasileiro que atue nesse mesmo esquema do Grêmio cujo “enganche” (meia de ligação ou “ponta de lança”) seja muito mais brigador do que o nosso.

O Grêmio se vê quase obrigado a jogar nesse esquema com o losango no meio de campo porque possui três enganches caros, sendo que nenhum deles é exatamente afirmado e seria necessário obter lugar no time para pelo menos dois deles – seja inventando um deles mais aberto pela meia esquerda (Escudero, na eventual impossibilidade de Lúcio poder atuar) ou pela meia direita (Carlos Alberto). Já se tentou deslocar um deles para o ataque (Escudero pela esquerda ou Carlos Alberto pela direita), mas eles ainda não conseguiram mostrar um desempenho aceitável.

Descontada a timidez e o mau estado físico com que o argentino Escudero chegou ao Olímpico e a real possibilidade de ele poder oferecer um bom nível de atuação pelo lado esquerdo do ataque (embora inferior ao que pode apresentar como enganche), Carlos Alberto só teria lugar aonde fica Douglas.

Portanto, a única chance de equilibrar esses – até o momento – erros de avaliação por mim considerados até o momento é alterar o esquema tático e mostrar que não há ninguém intocável no plantel do Grêmio.

Outra pergunta que podem me fazer: por que Pessalli? Porque o menino, depois de ter passado por uma fase em que pensava jogar mais do que realmente jogava e após uma lesão grave, demonstra um amadurecimento e uma humildade surpreendentes para a sua idade. E, quando entra, ele demonstra ter velocidade e – disparado – o melhor cruzamento do plantel do Grêmio com o pé direito.

Vejo que Escudero tem potencial e pode vir a recuperar a sua forma física em breve. E atuar pela sua faixa preferencial de campo em combinação com o lateral e com o atacante deve trazer muitas alegrias para a torcida tricolor.

Lúcio, que é uma figura humana incrível e trata-se de um jogador muito inteligente e qualificado, deveria ser recuado para a lateral esquerda. Lá, ele rende ainda mais do que o bom futebol que tem apresentado na meia. E, de quebra, resolve o nosso maior problema, que é a colossal deficiência técnica de Gilson e a miudez de Bruno Collaço.

Mário Fernandes, a quem Renato – em princípio – considera reserva, possui estatura, leveza, técnica e velocidade. Embora (ao contrário de muitos) eu reconheça em Rafael Marques um bom jogador (regular, aceita atuar nos dois lados da zaga, faz gols e, mesmo sem brilhar, erra menos do que seus companheiros de posição), neste caso, para manter a sua titularidade, só se ele fizesse o lado esquerdo em lugar de Rodolfo. Porém, este último, embora demonstre ser mais extremado do que regular (quando erra, erra feio; e, quando acerta, seu brilho é notável), ainda parece ser superior tecnicamente, em que pese a sua baixa estatura.

Repeti algumas considerações porque realmente considero fundamental repensar MUITO o time do Grêmio. Quem sabe se o próprio Espinosa não senta com o Renatão pra tomar um choppinho e sugerir algo parecido ao amigo, hein? ;)

GRÊMIO 2011: UM DIAGNÓSTICO

O pior é o esquema tático preferencial do Santo, que pouco se modifica em função da falta de mais de um jogador de características semelhantes para cada posição. Eu não gosto do 4-4-2 losango, pois ele indica uma mecânica de jogo que só pode ser bem-sucedida quando se tem um time inteiro pegador, veloz e que erre pouquíssimos passes, sem viver de bola aérea nem de lançamentos.
Insisto que, no futebol atual, quando há equilíbrio, a mecânica de jogo costuma ser a seguinte:
1) Esquema 4-4-2 com duas linhas de quatro homens: assim, não há um volante que sobe pouco e que cumpre o (normalmente) desncessário papel de “terceiro” ou “quinto” zagueiro (vértice inferior do “losango” no desenho) e evita transformar mais um ou dois volantes desprovidos de técnica adequada em meias. Infelizmente, Renato acha que a figura do ponta-de-lança (vértice ofensivo do “losango”) é mais ofensiva. Mas ofensivo é o time que possui amplo repertório de jogadas pelas pontas, pelo meio e, EVENTUALMENTE, pelo alto. Quando acuado, o Grêmio não consegue livrar-se da marcação porque Douglas não “cadencia” nem “acelera” o jogo mas, sim, torna o ritmo normalmente lento, facilitando a marcação de todo e qualquer jogador que se lance ao ataque;
2) No 4-4-2 em duas linhas de quatro homens, não existem “primeiro” e “segundo” volantes. Além disso, nunca se deve jogar com três ou quatro volantes (a la Celso Roth): os dois volantes possuem papeis idênticos e devem ser os jogadores mais importantes do time. Não existe um “quebrador” de bola e um “clássico” ou “técnico”: é condição sine qua non da posição que AMBOS saibam marcar firme com antecipação para não levarem cartões bobos. Precisam, ainda, ser excelentes passadores, com coragem e liberdade para executar tabelas e triangulações com o lateral, com o meia aberto e com o atacante do seu respectivo lado. E é preferível que saiba chutar de fora da área. O modelo não é Dinho/Goiano (muito bom há 15 anos atrás, porém totalmente desatualizado) mas, sim, Keita ou Mascherano + Iniesta. Hoje, Rochemback é absolutamente imprescindível. Porém, o único que – por enquanto – sabe cobri-lo quando ele sobe e vice-versa tem bote e passe ruins (Adilson). Mateus Magro é tecnicamente superior, mas muito tímido e pequeno. Willian Magrão só se salva pelos eventuais gols, pois é o pior em posicionamento e força. Resta investir em Fernando;
3) O 4-4-2 “losango” fomenta a falácia do “segundo” volante, inibe o papel de um dos meias (“marco ou apoio?”) e põe tanto o meia inibido como o “segundo” volante adiantados demais para poderem exercer uma marcação forte com antecipação. É por isso que Adilson erra tanto, pois, por pior que falem, ele + Rochemback jogavam melhor com Silas, pois o “alemão” não ficava no meio do caminho e podia se apresentar junto a Lúcio no ataque, aproximando-se do homem de área, deixando o lateral livre para cruzar ou passando diretamente para o atacante do lado esquerdo;
4) O 4-4-2 em linha faria com que os laterais se mantivessem na mesma linha dos zagueiros ao invés de jogarem mais à frente. Assim com está, levam bolas nas costas, obrigam os volantes (ou o “segundo” volante e o meia inibido) a escancararem o meio para a cobertura. Consequentemente, essa postura evita que ambos os laterais tendam ao vício de atuarem de maneira síncrona como “alas” (posição que, de fato, só existe no 3-5-2 “chama-derrota”). Ambos os laterais precisam saber marcar, cruzar, tabelar, ter velocidade, ir e voltar. Além disso, quando um vai, o outro fica: os dois não podem se lançar ao ataque simultaneamente;
5) Os meias abertos precisam saber carregar a bola, tabelar e chutar de fora da área. Preferencialmente, precisam atuar tanto abertos quanto centralizados e inverter o lado para confundir a marcação. E devem saber marcar. Escudero pela esquerda (desde quem bem fisicamente e com a volta de Lúcio à lateral) e Carlos Alberto pela direita (desde que deixe de ser peladeiro e pare de querer mostrar serviço dando pau – coisa que não sabe fazer) seriam esses homens. Portanto, Douglas não entraria no meu time (aliás, eu sequer cogitaria a contratação desse tipo de Gerson pós-1970). Como o CA19 está muito mal, eu prefiro investir no menino Leandro por ali. O resto dos candidatos à vaga, infelizmente, não serve;
6) Dois atacantes de velocidade abertos ou dois homens de área centralizados geram menos oportunidades de gol. Hoje, infelizmente, só temos Borges como afirmação técnica e André Lima “só esforço” como um bom reserva. Diego Clementino e Júnior Viçosa são técnica e fisicamente débeis. A base não nos traz atualmente nenhum bom centroavante.Precisamos contratar com urgência;
7) Lúcio quer voltar à lateral. Neuton marca melhor e apoia pouco, pois é zagueiro. Gilson e Bruno Collaço são dispensáveis. Douglas mais prejudica do que traz resultados. Escudero ainda está mal fisicamente. Portanto, o momento me parece exigir a manutenção de Lúcio no meio e a entrada de Neuton por uma questão de maior segurança defensiva na lateral-esquerda;
8) Rafael Marques é útil, identificado, polivalente e maduro nas decisões. Saimon ainda é muito imaturo. Rodolfo é imponente, porém baixo. Sabe sair jogando, mas só atua pelo lado esquerdo. Mário Fernandes é ótimo tecnicamente com a bola nos pés. Porém, ou não aceita jogar como lateral nem como volante, ou já foi testado nessas posições e não deu certo. Paulão, apesar da tosquice e de não ser um cara tipo “BOPE” (só tem tamanho – é quase uma moça, no bom sentido), era o único zagueiro que sabia se antecipar. E quem antecipa-se costuma iniciar contra-ataques e suspender uma pressão adversária no seu campo de defesa. O critério antecipação deveria ser prioridade na manutenção ou na aquisição de novos zagueiros;
9) Mário na lateral é uma alternativa capenga a Gabriel. Infelizmente, devido à falta de um bom lateral direito vindo da base e da conhecida limitação de Edilson, seguimos com as calamidades inventadas: Mário ou Maylson;
10) Os críticos do 4-4-2 em duas linhas normalmente desconhecem o fato de que todos devem cobrir a todos e que é fundamental antecipar e passar bem. A posse de bola é muito mais importante do que os lançamentos e não se pode viver preferencialmente de jogadas aéreas (ainda mais quando não temos nem de perto a eficiência de Arce, Paulo Nunes e Jardel). Precisamos nos desprender de mitos como o de que um centroavante grandalhão é quase sempre solução quando, na verdade, deveria ser uma alternativa para variar o jogo.
Na minha modesta opinião, a escalação menos desequilibrada possível sob um desenho tático mais bem distribuído em campo e sem improvisações seria a seguinte (cada setor separado por ponto e vírgula com cada linha começando da direita e terminando na esquerda):
Victor; Gabriel, Rafael Marques, Rodolfo e Lúcio; Roberson, Rochemback, Adilson e Escudero; A CONTRATAR e Borges.
No banco (sete jogadores): Busatto, Mário Fernandes, Neuton, Fernando, Pessali, Vinicius Pacheco e André Lima.
Salvo se algo surpreendente ocorrer, infelizmente e com todo o respeito, os demais jogadores do plantel não-citados não merecem vestir a nossa camiseta sagrada.

GRÊMIO: QUEM DECIDE QUANDO A COISA APERTA?

Tem gente me estranhando: uns, pensam que amoleci. Outros, que estou cansado e, por isso, tenho sido complacente com o time do Grêmio.

Não, nada disso: apenas acho que deva-se esperar um pouco mais para que as abóboras se acomodem com o andar da carroça.

A Libertadores é o que mais importa: sem ela, o segundo semestre inteiro será brochante – ainda mais se porventura o Tricolor dos Pampas começar mal o Brasileirão.

Mesmo assim, o condicionamento físico não pode ser desequilibrado como se fazia há até poucos anos atrás: se o campeonato prioritário for no primeiro semestre, acelera-se o processo agora e aguenta-se as consequências no início do Brasileirão. Ora, dessa forma, já deixamos de ser campeões e já perdemos a vaga para a Libertadores algumas vezes.

Confesso, ainda, que vejo com dificuldade a avaliação técnica de muitos jogadores no futebol brasileiro atual: salvo estatísticas mensuráveis como velocidade, força, cabeceio, drible, passe e chute em quantidade e com uma baixa quantidade de erros, não é mais tão simples determinar o poder de decisão quando a maioria dos boleiros adota um discurso padrão, politicamente correto e excessivamente subordinado.

Esse não é um defeito do Grêmio mas, sim, um fato corrente no país inteiro. Hoje, não há tempo pra notarmos se um jogador oriundo da base será um ídolo ou não; se ele terá tempo de ser campeão pelas nossas cores como coadjuvante, como protagonista ou por pura sorte.

Me parece mais justo avaliar pelo conjunto do que pela individualidade – a não ser que esta decida a nosso favor a partir de lampejos. Por que? Porque a atuação da maioria dos jogadores define-se a partir da interferência ou da afinação da sua relação com os seus companheiros e com os seus adversários.

Os erros absurdos e até mesmo uma certa omissão de Douglas e a falta de presença ofensiva de Gabriel contra o Junior Barranquilla não foram apenas frutos de uma má atuação individual ou da inteligência do técnico adversário e da aplicação de seus jogadores mas, sim, um desacerto total entre as peças que Renato escolheu para iniciar o jogo.

A movimentação e a medida do espaço que cada um ocupa dentro de campo pode também mostrar que há desentrosamento ou falta de capacidade de adaptação às características do outro.

Além disso, me preocupa no Grêmio o fato de que há jogadores que parecem se comportar como se fossem de tênis, mas não de futebol, isto é, que só produzem plenamente em gramados mais longos ou mais curtos; contra clubes grandes ou pequenos; em casa ou fora; contra adversários que marcam sob pressão ou não; quem intimidam ou se deixam intimidar.

É mais ou menos como o tenista que atropela a todos na grama, mas perde para o nº100 do ranking no saibro na primeira rodada.

Enfim… Coisas boas podem vir. Mas, além dos aspectos técnico e tático, tomara que o pensamento da comissão técnica e da direção sobre o comportamento de cada jogador mais ou menos voltado à decisão esteja bem certinho… ;)

OS PROBLEMAS E AS SOLUÇÕES DO MELHOR GRÊMIO DO SÉCULO XXI

Este post de retomada do blog tem três pontos de inspiração: o primeiro foi o feliz e inesperado reencontro com o Dr. Mello, uma pessoa extremamente do bem, com muitas histórias do Grêmio das décadas de 1960 e 1970 pra contar, que passou o domingo em Porto Alegre, vindo diretamente de Farroupilha, onde vive com a família e atua como pediatra. O segundo foi o post relacionado à partida de ontem de um dos cinco blogs gremistas mais visitados, o Sempre Imortal. E o terceiro foi a presença de um cara a quem admiro muito, que abrilhantou o nosso canto da Social com o seu filho pequeno, que já demonstra um gremismo atento e cheio de sonhos, que é o cartunista Luciano Kayser.
1. Desde os 14 anos, as carreiras de quase todos os melhorezinhos (isto é, nem precisa ser muito bom) já estão sob a tutela e sob a procuração de agentes. Embora a mídia insista e tenha se tornado lugar comum chamá-los de “empresários”, empresário é quem é dono/gerente de empresa. Se o jogador não recebe por fora via CNPJ ao invés da carteira de trabalho e se quem cuida dessa parte dos rendimentos do jogador não for o agente então o empresário é outro. Ou, então, enquanto o jogador não tiver nenhuma agenda de trabalho junto a patrocinadores, quem o agencia não é necessariamente empresário;
2. Liguei ontem após o jogo para um homem com ampla experiência em formação de jogadores. Ele disse que o Grêmio possui mais de um jogador ainda melhores do que Leandro. Se isso se confirmar, então nossas categorias de base não andam mal como se dizia. Uma coisa é formar cidadãos e jogadores capazes de se virarem por si dentro e fora do país além de dominare fundamentos técnicos e aprenderem a manter a cabeça no lugar em momentos decsivos. Outra é achar que do sub-15 ao sub-20 os times só prestam se o Grêmio for campeão de alguma coisa. Renato, Paulo Roberto, Casemiro, China, Bonamigo, Paulo César Magalhães, Luís Carlos Martins e outros do início até meados da década de 1980 não conquistaram quase nenhum título na base. E vejam o que eles proporcionaram ao Grêmio no profissional;
3. Nem mesmo na base da experiência Renato poderia insistir em posicionar a equipe com um único volante. É preciso ter outro homem ao lado de Rochemback. Aqui, insisto novamente: seja o 4-4-2 em duas linhas de quatro, seja em forma de losango como Renato prefere trabalhar, não existem as figuras que tantos dizem existir, de “primeiro” e de “segundo” volante. No futebol atual, não existe mais a figura de um homem para quebrar e ser o cão de guarda da zaga e outro para sair jogando. Ambos cumprem a mesma função tática e revezam-se em tabelas triangulações e aproximações para chutes de longa distância e contra-ataques com laterais, meias e atacantes. Portanto, os dois volantes precisam necessariamente saber desarmar, passar, lançar e chegar à frente. Quando Paulo Vinicius Coelho da ESPN (pra mim, já há pelo menos uma década o melhor comentarista do país – perto dele, apenas seus colegas Paulo Calçade, Mauro Cezar Pereira e Leonardo Bertozzi – no SporTV, apenas o Lédio Carmona se salva, além de, nos portais, termos o Eduardo Cecconi, que é daqui; em termos de comentarista comum, isto é, daqueles que não trazem estatísticas e comparações táticas entre as equipes para incrementar a informação, um dos raros a se considerar é o Maurício Saraiva e, em um nível mais abaixo, nas rádios, apenas o Nando Gross – depois, entramos em um deserto frio e seco de ruindade). Enfim… O Grêmio sem Rochemback se torna pouco produtivo na frente e muito vulnerável atrás. Porém, sozinho ele fica sobrecarregado. Nesse sentido, por mais restrições à indecisão de Adilson que eu tenha, enquanto Fernando e Mateus Magro não estiverem FISICAMENTE prontos (falta-lhes força), o “alemão” ainda é a melhor opção disponível;
4. O meio de campo que considero o mais equilibrado e qualificado que o Grêmio pode escalar hoje seria Rochemback, Adilson, Douglas e Carlos Alberto. Se e quando Escudero estiver em plena forma e mais entrosado, creio que, se Renato não criasse seus “bruxos”, Douglas sairia da equipe para a entrada do argentino;
5. Sinceramente, não concordo com a cisma de Renato sobre a forma de Paulão e Mário Fernandes cabecearem. Nunca percebi em muitos jogos de observação de ambos uma deficiência gritante na execução desse fundamento em ambos os atletas. Tecnicamente, considero Mário Fernandes melhor jogador do que Paulão. Contudo, Poderia ser testado como volante, pois possui mais aptidões técnicas do que Adilson;
6. Neuton é o homem para jogar na lateral esquerda. Minha segunda opção, hoje, seria Bruno Collaço, que é mehor do que todos os outros no apoio e menos pior do que a maioria na marcação. Neuton é melhor marcador, embora apoie menos do que seus colegas. Porém, vejo um Grêmio mais protegido com ele que, apesar de ter como origem a zaga esquerda, sabe sair jogando muito bem. Dadas as proporções, ele pode fazer no Grêmio o que o melhor do mundo na posição, pra mim, o francês Abidal do Barcelona, faz lá na maravilhosa equipe blaugrana;
7. Por falar em Barça, ontem o Grêmio finalmente fez valer a sua estatura, a sua tradição e o peso imensurável da sua camiseta (camisa é de abotoar; a peça equivalente no uniforme de vários esportes chama-se camiseta!): melhor entrosado, melhor fisicamente e atuando em seus domínios, mesmo contra um adversário frágil, quase não ofereceu chances. Teve um tempo de posse de bola tipicamente blaugrana, errou poucos passes, mostrou um repertório de jogadas e de opções com vários homens diferentes. É isso o que eu espero ver do nosso time: que não desista jamais, mas que saiba jogar bola!
8. Renato não prestigia os guris das categorias de base como poderia e como deveria porque o que parece um defeito também inclui no pacote uma qualidade: ele é leal a seus homens e é assim que conquista a sua confiança. Por isso, embora não aceite por questões técnicas, entendo o porquê de ele ter tirado Lins e Mateus Magro da lista da Libertadores e não Viçosa e Clementino. Viçosa é fraco demais. E Clementino é um homem de uma jogada só. Lins mostrou personalidade e estrela no Grenal da fronteira, além de Wesley e deste Leandro de ontem serem superiores tecnicamente. Também considero que Maylson, criticado por muitos, é extremamente útil e decisivo quando lhe atribuem a responsabilidade de armar e de apresentar para concluir;
9. Tenho a convicção de que não possuo nenhuma má vontade em relação a Douglas. Ele é tecnicamente muito bom. Porém, não é craque porque não é aplicado. Ele arrisca chutar muito menos do que deveria da entrada da área, além de adorar inventar passes de calcanhar que, normalmente, tem o endereço do pé do adversário e oferecem contra-ataques perigosíssimos. A bola gruda no pé de Escudero, que possui uma movimentação mais ampla, mais garra e se apresenta mais para o chute. E Lúcio tem demonstrado ser imprescindível, não pode sair do time nem voltar a ser lateral porque marca pouco. Ele pode aparecer mais à frente como ocorre hoje justamente porque não precisa nem se preocupar em evitar levar bolas nas costas e nem ter que correr o campo inteiro;
10. Uma síntese do problema pelo qual o Grêmio passa atualmente e que já foi citada em tópicos anteriores pode ser a seguinte: não há como jogar com um único volante, nem como termos um lateral-esquerdo “faceiro”. Carlos Alberto é o melhor jogador do Grêmio em termos técnicos e Escudero tem tudo para ser o segundo. Porém, é injusto tirar Lúcio do time, é prejudicial recuá-lo para a lateral e Douglas, o terceiro expoente técnico do time, é homem de confiança que murcha animicamente se não tiver o respaldo da lealdade do treinador.
11. Estamos muito bem servidos de zagueiros. No lado esquerdo, temos o titular Rodolfo, que, ao longo das observações, comprova que eu estava errado sobre a sua estatura, pois ele é tão forte que parece mais baixo; temos também o antigo titular Rafael Marques, muito contestado nas mãos de Autuori e Silas mas que cresceu muito sob a batuta de Renato, com a virtude de ser o melhor cabeceador dentre todos os nossos defensores; e Neuton que, a meu ver, poderia ser o lateral-esquerdo titular por ser o melhor tecnicamente, mas não exatamente o mais forte nem o mais alto. Já pelo lado direito, temos o fortíssimo Paulão, que é sério, mas que apresenta algumas deficiências técnicas pequenas; o supertécnico Mário Fernandes, que talvez precise de um pouco mais de força física; e o guri Saimon, que carece de experiência, embora seja jogador de seleção;
12. Renato tem descoberto várias alternativas e deixado de lado outras, que já deram certo tanto com ele mesmo como pelo trabalho de treinadores anteriores a ele no Grêmio. Cada um tem as suas convicções e isso deve ser respeitado. Mas algo me diz que, por mais que o presidente Odone tenha declarado recentemente um apoio sincero e incontesti ao nosso ídolo-mor e uma confiança em suas decisões que, infelizmente, não havia demonstrado pouco antes de assumir formalmente a gestão do clube, falta discutir futebol com Renato de uma maneira mais presente, mais assertiva, mais envolvente. A relação com o nosso treinador precisa estar acima do profissionalismo e da liturgia dos cargos: com demonstrações de companheirismo, a amizade se estabelece e traz consigo a sensibilidade e a confiança necessárias para facilitar que o comandante ouça outras opiniões sem nenhuma resistência. Nesse sentido, gostei de ter conversado pessoalmente por breves minutos com o nosso atual vice-presidente de futebol, Antônio Vicente Martins (embora não tenha entrado nesse assunto com ele);
13. Finalmente, a cada dia que passa, podemos perceber que o Grêmio melhora bastante. Temos como grandes adversários o T.A., o Santos, o Vélez e o Cruzeiro (momentaneamente, considero-os em ordem crescente). Os acontecimentos recentes do Gauchão felizmente impediu que tivéssemos um clássico “glocal” prematuramente. Não digo isso por medo (nunca, jamais!) mas, sim, porque teríamos que dar menos importância ou ao clássico, ou ao próximo compromisso pela prioridade máxima do ano, que é a Copa Santander Libertadores;
14. Nenhuma dessas observações é conclusiva. Hoje, temos uma quantidade e uma qualidade que não temos há muitos anos, apesar da nitida deficiência na lateral esquerda e da séria indefinição quanto ao volante companheiro de Rochemback. Contudo, todas as soluções para os problemas apontados felizmente estão aqui em casa, no Olímpico Monumental. Embora haja especulações sobre um atacante de velocidade que viria do exterior e que jogue aberto para municiar os ótimos Borges e André Lima, apesar da diferença enorme entre Oriente Petrolero e Ipiranga, creio que a dificuldade dos dois centroavantes deu-se muito mais pela bola chegar com dificuldade ao ataque por causa da falta de um volante do que propriamente por eles terem dificuldade em atuar juntos. Porém, apoio essa contratação porque só vejo os meninos Leandro e Wesley em condições de substituí-los – e com uma perda significativa de presença física;
15. Por que não falei de Victor, Gabriel e pouco mencionei Lúcio? Já pararam pra pensar que esses são os homens que menos suscitam dúvidas e que tem jogado melhor? O único jogador de atuações quase sempre irrepreensíveis de quem falei mais foi aquele por quem quase todas as bolas passam e que, quando não está no time, é quem mais faz falta: Fábio Rochemback.
Desde a chegada de Renato Portaluppi como técnico do nosso Tricolor dos Pampas, temos passado por uma sucessão de acertos importantes em meio a erros trágicos cuja importância se dilui em meio aos acertos. Queremos e precisamos MUITO de um título de repercussão mundial (no mínimo, um Brasileirão; sempre em busca da Libertadores, o Mundial seria o ideal). De qualquer maneira, se não vir, acredito que será um bom período do qual nenhum gremista irá esquecer.

[CB'10 SF V] PENSANDO EM SANTOS x GRÊMIO

Dada a amostragem das atuações no decorrer deste semestre a partir da observação das combinações mais gritantes de erros e de acertos, o meio de campo ideal do Grêmio não deveria ser

ADILSON, ROCHEMBACK, MAYLSON E DOUGLAS?

O quebra-cabeça se daria na defesa, pois é nítido que não temos laterais-esquerdos. Desconsidero Bruno Collaço e deixo de lado os lesionados Fábio Santos e Lúcio. Também entendo que Edílson só pode atuar pelo lado direito.

Não considero os jogadores da zaga em geral como insuficientes. Em condições ideais, acho que não há discussão sobre Mário Fernandes pela direita DA ZAGA e Rodrigo pela esquerda. Até mesmo o anteriormente contestado (pelo menos por mim) Rafael Marques tem tido um bom 2010, assim como o tamanho e o posicionamento de Ozéia têm-me surpreendido.

Porém, considero difícil escalar Ozéia e Mário do lado esquerdo da zaga.

Em uma situação extrema como a de ontem, prefiro escalar Mário Fernandes como lateral-direito típico, com direito a apoiar (jamais como terceiro zagueiro – o 3-5-2 precisa ser censurado e punido no Olímpico) e, do lado esquerdo, o jogador improvisado deve ser Joílson e jamais Edílson pelo lado esquerdo.

De maneira geral, o tempo para treinar alternativas está se tornando cada vez mais escasso à medida que acumulam-se viagens e rodadas de meio e de fim de semana. O período da Copa do Mundo seria bom para poder tanto contratar e suprir essa carência quanto para Silas poder testar uma hipótese que pode dar certo: em caso de emergência, deslocar Adílson para a lateral-esquerda e colocar Willian Magrão em seu lugar.

Diria que as contratações mais essenciais seriam de dois atacantes. Roberson e Bergson simplesmente não possuem a menor qualidade sequer para serem reservas do Grêmio.

Pode ser cruel afirmar um veredicto tão taxativo sobre meninos tão jovens. Porém, penso que as oportunidades que já tiveram ao longo do tempo não foram insuficientes.