Apesar da enorme satisfação pela primeira atuação convincente do Grêmio no ano com uma vitória relativamente tranquila sobre o perigoso Junior de Barranquilla (COL) pela 5ª e penúltima rodada do grupo 2 da Copa Santander Libertadores 2011, é impossível deixar de apontar uma alternativa de jogo que considero bastante promissora, pois vejo nela uma possibilidade maior do que a atual de equilibrar o time.
O @marcosalmeida72 comentou no @sempreimortal :
“A velocidade do Paulão faz falta para a defesa ontem quase foi fatal.”
Isso me traz novamente à preocupação que tenho com o 442 de Leonardo na Internazionale, que – dadas as diferenças técnicas quase todas a favor do time italiano se comparado ao nosso – é quase o mesmo que Renato aplica aqui no Tricolor: sendo os quatro homens do meio dispostos em um losango, temos um meia defensivo (centromédio ou volante); dois meias – um pela esquerda e outro pela direita – que não são nem ofensivos nem defensivos demais, mas que tem a obrigação de ser os homens que auxiliam o único centromédio na marcação e que apoiam o apoiador, armador ou “ponta de lança” sempre que possível.
[ATUALIZAÇÃO de 15/04: @valdirespinosa comentou sabiamente hoje que o esquema das fracassadas Seleções de 2006 e de 2010, além do atual esquema praticado pelo @manomenezes, é praticamente o mesmo. Isso reflete o modelo tático mais utilizado pelos técnicos brasileiros da Série A. Portanto, a Seleção é um reflexo dos clubes – mesmo que a maioria dos jogadores estejam no exterior. Lá, via de regra, muito poucos de nossos convocados mais frequentes atuam no mesmo esquema e na mesma posição. Isso não significa que os nossos técnicos estão defasados e que o intercâmbio com a Europa é muito pequeno?!]
Isso posto, a dificuldade que o Grêmio tem em não conseguir reter a bola no ataque adicionada à baixa capacidade de o nosso time marcar adiantado não decorrem apenas de uma qualidade menor do que a desejada em nosso plantel.
Por que? Porque tivemos uma série de atuações recentes assustadoras, nas quais produzimos muito pouco defensivamente (média superior a um gol por jogo), apesar do excelente desempenho contra clubes pequenos neste início de ano (média de mais de dois gols por partida).
Espero que isso [ATUALIZAÇÃO: incluindo aí o vexame contra o Oriente Petrolero] tenha acendido o sinal amarelo para que a nossa comissão técnica repense a forma de armar o sempre complexo quebra-cabeça da escalação, do posicionamento e do equilíbrio entre marcar sem sofrer muito e manter a iniciativa lá na frente.
Na minha visão, partindo do pressuposto de que não iremos contratar mais nenhum jogador para a sequência da Libertadores, em função das características e com as deficiências que verifiquei em nosso plantel num post recente (recomendo a leitura: passa lá, comenta e volta, por favor!), o losango me parece enfraquecer todo e qualquer sistema de marcação quando não possuirmos: a) exímios passadores; b) zagueiros velozes e c) dois avantes no estilo pivô ou dois atacantes abertos. Um outro detalhe: Douglas, devido à sua lentidão, à sua péssima forma física e ao seu apenas eventual interesse em dedicar-se ao time, é tudo o que não precisamos (assim como Carlos Alberto, que é da mesma posição) ou, seja, não acelera o jogo e não marca. O Grêmio é incapaz de vencer fora de casa a adversários apenas razoáveis porque falta velocidade, precisão nos passes e nas conclusões e posse de bola. Tudo isso estoura na zaga e diminui o potencial de aproximação dos bons volantes Adilson e Rochemback.
Falando neles e voltando ao esquema tático equivocadamente utilizado por Renato, reitero que, com o meio disposto em losango, as inversões de posição entre os volantes é menor do que a necessária, pois eles acabam indo para cima menos vezes do que seria possível fazer.
Isso ocorre porque o centromédio (isto é, o meia do vértice baixo do losango) fica quase sempre restrito à sua função defensiva. Outro ponto prejudicial no posicionamento desse jogador: trata-se de um único homem para tentar evitar que a zaga fique no mano-a-mano contra os meias e os atacantes adversários.
Com o atual plantel do Grêmio, só vejo uma chance (pequena, diga-se de passagem) de o time voltar a render mais do que tem rendido ainda sob esse esquema a meu ver falido (o losango): entendo que, caso já carregasse consigo as devidas maturidade, entrosamento e força física, o centromédio deveria ser Fernando. manter um homem parado entre os meias e o ataque só funciona se ele não tiver pança, se dignar a dar o combate e errar menos entre cadenciar e acelerar o jogo (repito: Douglas não é solução porque é bipolar; e, se não é regular, é insuficiente). Por fim, viver de cruzamentos quando não se tem um avante alto é um erro que custa a perda da posse de bola e muitos contra-ataques ao adversário.
O 442 em duas linhas de quatro é muito mais equilibrado tanto para atacar quanto para defender. Todavia, ele exige que todos os zagueiros e volantes sejam velozes e que os meias mordam, pois o seu objetivo é manter a posse de bola no ataque. Para isso, a marcação se faz no campo do adversário.
Tendo isso em vista, eu escalaria o Grêmio da seguinte forma:
Victor; Gabriel, Mário Fernandes, Rodolfo e Lúcio; Pessali, Rochemback, Adilson e Escudero; Leandro e Borges.
Com este esquema, até jogadores como Willian Magrão e Fernando receberiam mais oportunidades. Assim, dentro de alguns meses, também fariam parte de um grupo mais homogêneo, com um maior compartilhamento de alternativas por setor gerando, assim, uma quantidade maior de acertos. Haveria também a possibilidade de acelerar o processo de amadurecimento do bom Mateus Magro e haveria mais efetividade quando fossem utilizados outros atacantes – sobretudo Vinicius Pacheco e Viçosa. E até mesmo Bruno Collaço tenderia a melhorar sob esse esquema.
Aí, vocês perguntam: mas e Douglas? Afinal de contas, não seria ele o jogador mais bem dotado de qualidades técnicas para acionar o ataque e surpreender o adversário alterando a velocidade para ditar o ritmo do jogo?
Vale a pena insistir: Douglas, Carlos Alberto e Escudero (este último ainda com alguma chance de dar certo) não são os homens certos para o que o Grêmio precisa na posição. Perdemos a chance de trazermos dois homens que fazem a diferença no Cruzeiro, o grande favorito à Libertadores 2011: Gilberto e Roger.
Douglas corre pouco. Douglas poucas vezes dá o combate. A proporção dos erros de Douglas em relação aos acertos, infelizmente, é grande. Vejo qualquer grande clube europeu jogar e não vejo nenhum jogador barrigudo. Vejo qualquer grande clube brasileiro que atue nesse mesmo esquema do Grêmio cujo “enganche” (meia de ligação ou “ponta de lança”) seja muito mais brigador do que o nosso.
O Grêmio se vê quase obrigado a jogar nesse esquema com o losango no meio de campo porque possui três enganches caros, sendo que nenhum deles é exatamente afirmado e seria necessário obter lugar no time para pelo menos dois deles – seja inventando um deles mais aberto pela meia esquerda (Escudero, na eventual impossibilidade de Lúcio poder atuar) ou pela meia direita (Carlos Alberto). Já se tentou deslocar um deles para o ataque (Escudero pela esquerda ou Carlos Alberto pela direita), mas eles ainda não conseguiram mostrar um desempenho aceitável.
Descontada a timidez e o mau estado físico com que o argentino Escudero chegou ao Olímpico e a real possibilidade de ele poder oferecer um bom nível de atuação pelo lado esquerdo do ataque (embora inferior ao que pode apresentar como enganche), Carlos Alberto só teria lugar aonde fica Douglas.
Portanto, a única chance de equilibrar esses – até o momento – erros de avaliação por mim considerados até o momento é alterar o esquema tático e mostrar que não há ninguém intocável no plantel do Grêmio.
Outra pergunta que podem me fazer: por que Pessalli? Porque o menino, depois de ter passado por uma fase em que pensava jogar mais do que realmente jogava e após uma lesão grave, demonstra um amadurecimento e uma humildade surpreendentes para a sua idade. E, quando entra, ele demonstra ter velocidade e – disparado – o melhor cruzamento do plantel do Grêmio com o pé direito.
Vejo que Escudero tem potencial e pode vir a recuperar a sua forma física em breve. E atuar pela sua faixa preferencial de campo em combinação com o lateral e com o atacante deve trazer muitas alegrias para a torcida tricolor.
Lúcio, que é uma figura humana incrível e trata-se de um jogador muito inteligente e qualificado, deveria ser recuado para a lateral esquerda. Lá, ele rende ainda mais do que o bom futebol que tem apresentado na meia. E, de quebra, resolve o nosso maior problema, que é a colossal deficiência técnica de Gilson e a miudez de Bruno Collaço.
Mário Fernandes, a quem Renato – em princípio – considera reserva, possui estatura, leveza, técnica e velocidade. Embora (ao contrário de muitos) eu reconheça em Rafael Marques um bom jogador (regular, aceita atuar nos dois lados da zaga, faz gols e, mesmo sem brilhar, erra menos do que seus companheiros de posição), neste caso, para manter a sua titularidade, só se ele fizesse o lado esquerdo em lugar de Rodolfo. Porém, este último, embora demonstre ser mais extremado do que regular (quando erra, erra feio; e, quando acerta, seu brilho é notável), ainda parece ser superior tecnicamente, em que pese a sua baixa estatura.
Repeti algumas considerações porque realmente considero fundamental repensar MUITO o time do Grêmio. Quem sabe se o próprio Espinosa não senta com o Renatão pra tomar um choppinho e sugerir algo parecido ao amigo, hein? ;)