DIA SEM GLOBO: PENSAMENTO EM REDE

As formas de mobilização social normalmente costumam reconhecidas e aceitas pela maioria das pessoas ligadas a partidos e sindicatos somente se forem executadas sob a ótica marxista, para a qual a maioria dos conflitos sociais resume-se à luta de classes e à comparação entre fracos/oprimidos (que não são tão fracos assim) e burgueses/oligarcas (que têm, sim, pés de barro).

O ser humano é um ser social. Discordo – em parte – do julgamento simplista de que a sociedade atual seja majoritariamente despolitizada e alienada. Em função disso, considero que grande parte da população, consciente ou inconscientemente, não se comporta como receptora passiva do conteúdo da mídia de massa. Todavia, cada caso é um caso: as reações podem ser muito heterogêneas, oscilando entre mobilizações meramente locais até um alcance global, além da motivação de cada indivíduo poder ser meramente pessoal até um ponto em que haja total desprendimento. E, como lidamos com pessoas, não existe previsibilidade nos resultados dessas mobilizações.

Observo o predomínio da falta de interesse por parte de muitos intelectuais quanto à leitura atenta de autores sérios sobre as teorias de redes sociais. Não são apenas a História, a Sociologia, a Antropologia e a Ciência Política que acumulam teorias, pesquisas e estudos de caso seculares. Acredito que tenha havido um atraso na aceitação de experiências multidisciplinares no campo das Ciências Sociais Aplicadas, que sofrem preconceito de parte da comunidade científica justamente por não virem de uma única ciência ao mesmo tempo. Hoje em dia, felizmente, aceita-se juntar Matemática, Biologia, Antropologia e Ciências da Comunicação em trabalhos complementares, esclarecedores e – acima de tudo  – socialmente úteis, cujo alcance extrapola as estantes das bibliotecas e os congressos em que só se fala para os próprios pares.

Ao contrário do que costuma ser publicado por jornalistas que não se atêm a uma apuração mais aprofundada das pautas relacionadas a fenomenos multitudinários cuja emergência se dá através de fluxos de informação inicialmente originados no ambiente online, a grande maioria dos encontros, conversações e/ou debates online tem como objetivo transferir essa pauta para o ambiente presencial. Porém, muitos ainda pensam da maneira moderna, taylorista-fordista, em modelos de hierarquia e de ação institucionalizada, onde pensam que precisam depender de instâncias superiores para que algo realmente ocorra e, aí, se desmobilizam. E uma desmobilização online precoce resulta na inexistência da prática ou da repercussão desse fato no ambiente offline ou presencial.

É preciso reconhecer que até mesmo o pessoal de esquerda se desmobiliza facilmente. Por negar-se a compartilhar ideias com quem pensa ao contrário, infelizmente, aparenta ser ainda mais ignorante do que a direita, pois afasta-se da centralidade na rede, adotando um posicionamento periférico de onde dificilmente será solicitada. Sobre isso, escrevi recentemente sobre a minha visão acerca do porquê de Lula unir-se a Sarney. O viés das redes, a meu ver, parece muito mais lógico do que tentar procurar alguma razão na Sociologia clássica (embora eu deixe claro que nenhuma ciência ou teoria pode ser considerada em desuso, superada ou atrasada, até porque todos bebemos da mesma fonte). A esquerda é ainda mais obediente às hierarquias do que a direita – a não ser que tenha por filosofia e praxis a comunidade do Software Livre como uma diretriz para pensar em compartilhamento e não em propriedade.

Pensar em Maffesoli (neotribalismo), Multidão (Negri, Hardt), Emergência e Cultura da Interface (Steven Johnson), remidiação (Bolter, Grusin) e procurar entender um pouco mais sobre redes (v. Linked; Connected; Cultura da Convergência; A Cauda Longa) resulta em uma compreensão maior acerca do cotidiano atual das grandes metrópoles.

O cerne da questão é o seguinte: não é preciso ser de esquerda, não é preciso ser partidarizado e é possível sofrer a influência do #pig e, mesmo assim, ser solidário e engajado. Todavia, os sistemas ideológicos clássicos preveem uma inexistente “pureza”: as pessoas que votam em Lula e Dilma são extremamente conservadoras. E o conservadorismo é, usualmente, tido como uma característica da direita. Além disso, todos são egoístas e solidários ao mesmo tempo: sua ação dependerá de como, com quem e para que.

Os sistemas ideológicos e as reuniões de pessoas a partir de partidos, sindicatos, religiões, organização empresarial corporativa e sistemas militares pressupõem uma equivocada dicotomia: ou se pensa, se crê, se mobiliza e se executa TODAS AS AÇÕES POSSÍVEIS E IMAGINÁVEIS do nosso jeito, ou, então, não está do nosso lado.

As pessoas se unem a partir de nichos: pessoalmente, eu não me interesso por fazer crítica da mídia de massa, pois ela não irá melhorar nem mudar enquanto o seu interagente dela não cobrar uma postura diferente. Eu hoje valorizo as mídias sociais, que possibilitam a dissociação do tempo e do espaço e reunem instantaneamente pessoas do mundo inteiro com demandas e interesses em comum – coisas que nem mesmo em nossos vizinhos de porta ou em nossos irmãos de sangue poderemos reconhecer.

Não se pode exigir coerência nem participação de quem quer dar um alerta à Globo e de quem quer ajudar as vítimas da enchente de AL e MA. Não se pode exigir que alguém que lute contra a venda da FASE seja contra a Arena do Grêmio.

O conceito de emergência explica bem essa situação: pessoas de origens heterogêneas surgem de todos os lados para exercer uma determinada pressão. Assim que a sua demanda for satisfeita, cada um voltará a levar a sua vida de maneira normal.

Por exemplo: o movimento Defenda a Orla, que foi responsável pela valorização das associações de bairro de classe média, utiliza-se muito bem desse princípio. Caso a questão da Rua Gonçalo de Carvalho tivesse sido organizada com um cunho político-partidário anti-Fogaça ou petista, menos de 30% das pessoas que conseguiram o tombamento da rua e a não-construção do estacionamento de um suposto novo Teatro da OSPA ao lado do Shopping Total com saída para os fundos teriam participado da mobilização.

Outro grande erro do marxismo e da esquerda partidarizada é desconhecer que multidão não é povo e não é massa: a multidão age de maneira emergente, não pode e nem precisa estar sempre unida e é totalmente heterogênea e contraditória. O que vale é cada mobilização pontual para resolver-se um problema de cada vez, além da aceitação do fato de que, seja por uma questão de interesse, seja por julgar-se inapto, o mesmo grupo que ganhou uma determinada causa não precisa estar totalmente reunido para outra causa.

Negri e Hardt falam em RESISTÊNCIA, jamais em tomar o poder. O poder institucional pode ter o apoio ou o repúdio de um movimento emergente qualquer. Todavia, não possui necessariamente adesão ao candidato ou ao partido ao qual defende. A forma contemporânea de se criticar e de modificar as relações de poder consiste em não almejar o poder. Senão, ao tomar o poder, quem antes era “oprimido” passará a ser conservador, totalitário e excludente para os seus.

Ainda, sofremos com o fato de sermos pouco conectados e de termos uma baixíssima escolaridade média (75% de analfabetos funcionais). Isso faz com que seja necessário começar a mobilização a partir de causas relativamente fúteis ou, então, de haver o encontro presencial apenas em um momento de pressão máxima, pois ninguém quer interromper ou ter o seu fluxo interrompido: fluxo de mobildade urbana, fluxo de trabalho, fluxo de dinheiro, fluxo de pensamento.

Pra terminar, redes sociais sempre existiram. E redes sociais não dependem exatamente da internet, embora o seu fluxo e o seu alcance sejam infinitos e instantâneos. O Orkut, o Facebook, o Flickr, o You Tube, etc. não são redes sociais: esses serviços são mídias sociais nas quais seus interagentes estabelecem diversas redes de relacionamento entre si.

Outra coisa: não existe mundo virtual e mundo real mas, sim, ambiente digital e ambiente presencial. Primeiro, porque o mundo é um só. Segundo, porque virtual vem de “virtus”, falso, em latim. Terceiro, porque as relações e as trocas online são tão reais quanto as presenciais. Finalmente, tudo se complementa.

PELO DUNGA, UM DIA SEM GLOBO

A paródia acima está dando o que falar: na próxima sexta-feira dia 25/06/2010, o Twitter @diasemglobo e o seu canal correspondente no You Tube , o Globo Fora da Copa , estão fomentando uma campanha com a hashtag #diasemglobo como uma continuação do #calabocgalvao #calabocagalvao (no qual até o senador Cristovam Buarque comentou) e do #calabocatadeuschmidt.

Enfim… Na tarde desta quarta, pretendo atualizar este post com uma série de citações da mídia de massa nacional e internacional, além da blogosfera.

Agora, deixa o homem trabalhar, dormir, viajar e trabalhar de novo! ;)

DIGA NÃO À PALMADA

Concordo com o Marcos Donizetti e não tiro nenhuma vírgula do seu argumento.
Discutindo o assunto mais profundamente, considero que toda relação é – ao mesmo tempo – um jogo e uma negociação: o jogo é o recurso lúdico que procura substituir a necessidade de ter que utilizar argumentos demasiadamente complexos que tomariam muito tempo e demandariam uma bagagem cultural extensa demais para ser devidamente compreendidos.
Toda negociação busca satisfazer demandas manifestas ou implícitas. Quando se depende de terceiros para se chegar a um determinado objetivo, a conversação tende a iniciar-se por uma relação mais assertiva. Caso não haja concordância inicial de ambas as partes, o ambiente vai-se tornando tenso, pois os dois lados fazem força para puxar a corda – cada um para o seu respectivo lado.
Portanto, surge uma disputa: caso os dois lados percebam que cada um precisa ceder um pouco para ambos ganharem, é sinal de que sabe-se que não se pode ter tudo ao mesmo tempo. E que abrir mão de alguns pontos não significa uma derrota. A falta de paciência e de respeito faz com que se procure tentar afirmar posições extremadas por meio da agressão.
Se a agressão é aprendida, é sinal de que houve um exemplo – um mau exemplo, diria eu. Se não há uma reação calma e racional apaziguadora e reparadora, para mim parece claro que não está havendo nenhuma sinalização nem pedagógica, nem de arrependimento.
Logo, o entendimento está fora de questão para quem foi o vetor da agressão: desde que seu poder esteja sendo afirmado pela lamentável atitude que exerceu um sentimento negativo junto ao outro, aquilo que o outro sentiu quando sofreu a agressão torna-se irrelevante.
Se um agressor conseguir “ganhar” com frequência utilizando-se frequentemente desse método, a superioridade do seu poder tende a “naturalizar-se” tanto para ele como para os agredidos que não sentem-se emocionalmente preparados para deixarem de ser subjugados.
Porém, ou um dia os agredidos procuram virar a mesa extravasando uma forma de agressão exponencialmente mais violenta do que todo o somatório do seu sofrimento físico ou moral, ou, então, terceiros que apenas conhecem essa relação conturbada poderão reagir sem violência por não estarem nem na condição de opressores, nem na de oprimidos.
Enfim… A desconstrução simbólica da violência, embora lenta e altamente dependente da ação de indivíduos externos ao conflito sempre ocorre – mais cedo ou mais tarde.
[]‘s,
Hélio

Volta e meia, algum tuiteiro me traz algum link muito valioso. Para quem crê nos blogs como ambientes de conversação e de relações transformadoras, um tuíte da minha querida, sensível e inteligente seguidora @jaquelinapacks que, por sua vez, o recebeu de @doni.

As tags deste justificam exatamente a abordagem e os tópicos relacionados ao post do blogueiro Marcos Donizetti sobre a minha concordância sobre a NÃO-validade do uso de palmadas nos filhos como método pedagógico.

Discutindo o assunto mais profundamente, considero que toda relação é – ao mesmo tempo – um jogo e uma negociação: o jogo é o recurso lúdico que procura substituir a necessidade de ter que utilizar argumentos demasiadamente complexos que tomariam muito tempo e demandariam uma bagagem cultural extensa demais para ser devidamente compreendidos.

Toda negociação busca satisfazer demandas manifestas ou implícitas. Quando se depende de terceiros para se chegar a um determinado objetivo, a conversação tende a iniciar-se por uma relação mais assertiva. Caso não haja concordância inicial de ambas as partes, o ambiente vai-se tornando tenso, pois os dois lados fazem força para puxar a corda – cada um para o seu respectivo lado.

Portanto, surge uma disputa: caso os dois lados percebam que cada um precisa ceder um pouco para ambos ganharem, é sinal de que sabe-se que não se pode ter tudo ao mesmo tempo. E que abrir mão de alguns pontos não significa uma derrota. A falta de paciência e de respeito faz com que se procure tentar afirmar posições extremadas por meio da agressão.

Se a agressão é aprendida, é sinal de que houve um exemplo – um mau exemplo, diria eu. Se não há uma reação calma e racional apaziguadora e reparadora, para mim parece claro que não está havendo nenhuma sinalização nem pedagógica, nem de arrependimento.

Logo, o entendimento está fora de questão para quem foi o vetor da agressão: desde que seu poder esteja sendo afirmado pela lamentável atitude que exerceu um sentimento negativo junto ao outro, aquilo que o outro sentiu quando sofreu a agressão torna-se irrelevante.

Se um agressor conseguir “ganhar” com frequência utilizando-se frequentemente desse método, a superioridade do seu poder tende a “naturalizar-se” tanto para ele como para os agredidos que não sentem-se emocionalmente preparados para deixarem de ser subjugados.

Porém, ou um dia os agredidos procuram virar a mesa extravasando uma forma de agressão exponencialmente mais violenta do que todo o somatório do seu sofrimento físico ou moral, ou, então, terceiros que apenas conhecem essa relação conturbada poderão reagir sem violência por não estarem nem na condição de opressores, nem na de oprimidos.

Enfim… A desconstrução simbólica da violência, embora lenta e altamente dependente da ação de indivíduos externos ao conflito sempre ocorre – mais cedo ou mais tarde.

ARENA DO GRÊMIO: O QUE ESTÁ EM JOGO

Me desculpem os conselheiros Carlos Josias, Cacaio Azambuja e o amigo arquiteto Marcos Almeida, além de tantos comentadores (associados ou não, anônimos ou não) dos blogs Grêmio Acima de Tudo e Grêmio Sempre Imortal que consideram a Arena como favas contadas e que acreditam que pensar diferente ou discutir o projeto após a assinatura do contrato é trabalhar contra o Grêmio. Se existe essa possibilidade, não apenas eu, mas também centenas de associados poderíamos esclarecer dúvidas acerca da ISL e da Arena a qualquer hora e em qualquer lugar.

Ninguém vai deixar de ser gremista ou de ficar maravilhado caso tudo dê certo. Particularmente, não é o lugar (Humaitá ou Azenha) nem se será um estádio construído do zero (Arena) ou reformado com bastante critério (Novo Olímpico) o que está em jogo mas, sim, a AUTONOMIA e o PATRIMÔNIO do Grêmio.

Sempre deixo de lado o fanatismo, a imaturidade e o simplismo do pensamento resultado-dependente. E discordo veementemente do pensamento único (penda este para o lado que for). Do contrário, nenhuma análise será suficientemente crível.

Sou como o nosso brilhante técnico Paulo Autuori: discuto idéias e não pessoas. Sempre que cito sujeitos, minha preocupação é com as suas práticas políticas e gerenciais, bem como com os respectivos desdobramentos dessas práticas. Discutir idéias não implica em inimizade nem em desrespeito.

Voltando à vaca fria: qualquer Senado, Câmara dos Deputados, Assembléia Legislativa e Câmara dos Vereadores do mundo ocidental democratizado oferece a seus cidadãos a possibilidade de revisar os autos de todos os pareceres dos parlamentares acerca de todos os projetos de lei e demais votações internas.

O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense não é uma empresa S.A. nem Ltda. Legalmente sua razão social indica que – pelo menos no papel – não tem fins lucrativos. Logo, possui alguns privilégios fiscais. Dentre eles, o clube é isento do pagamento de IPTU em Porto Alegre (não sei se em Eldorado do Sul também seja isento – acredito que sim).

Isso posto, hoje temos a Grêmio Empreendimentos S.A. com uma representatividade mínima dentro do corpo de administração da Arena. Trocando em miúdos, se a OAS terá três assentos e a Grêmio Empreendimentos S.A. terá dois, apesar de ser uma diferença mínima, isso significa MUITO: se toda decisão acabar em 3×2 para a OAS, o Grêmio não terá direito a eleger nem o porteiro da “arquibancada inferior” da Arena!

Independentemente da temporalidade da discussão, sua importância é, sim, extremamente relevante. Definitivamente, não é jogar contra o Grêmio tentar reverter uma decisão atabalhoada do CD. Atabalhoada, sim. Querem exemplos? Informações de dentro do CD indicam que:

1) A criação da Grêmio Empreendimentos S.A. não estava na pauta do dia da reunião na qual o então presidente Odone a propôs;

2) Havia o interesse em votar logo pela sua implantação sem mesmo definir as filigranas de seus estatutos e finalidades. Por que?

3) O Grêmio vivia um momento de penúria. Logo, por que diabos torrou 100 MIL EUROS (mais de 300 mil reais) contratando a consultoria da Amsterdam Arena Advisory para apenas ter um aval de que a área da Azenha não era interessante, isto é, que não havia espaço suficiente para construir uma “arena” nos moldes europeus?

Pelo que eu saiba, 8,5 Ha é uma área consideravelmente maior do que a de um estádio imenso. Wembley e o Ninho de Pássaro caberiam com sobras naquele espaço;

4) O conto da Carochinha de que somente no Humaitá seria possível reformular pontes, vias de acesso, mais linhas de ônibus, metrô, etc. é uma falácia: a arquitetura, a engenharia e o direito possibilitam, tanto na esfera técnica como na esfera política, construir qualquer coisa em qualquer lugar;

5) Converso bastante com biólogos (categoria profissional decisiva para o futuro do planeta e para a nossa sobrevivência). As informações que recebo são, pelo menos para mim, estarrecedoras: parte do terreno da futura Arena e/ou terrenos adjacentes ocupam uma margem fétida do quase morto Rio Gravataí – um curso d’água poluído. Os restos da obra e os banheiros destinados ao uso de MILHARES de pessoas só serviriam para piorar a tênue condição ambiental de um lugar que, hoje, já é bem pior do que o Arroio Dilúvio. Ali, situava-se também um antigo aterro sanitário. As fundações seriam absurdamente caras, pois o solo rochoso está a distantes 35 METROS da superfície. Há inclusive o relato do proprietário de um imóvel naquela região que sofre com rachaduras em função do peso sobre o terreno;

6) Por que desconfiar das decisões de tantos homens importantes que dividiram-se em comissões temáticas? Ora, porque muito poucos conselheiros leram todos os pontos do contrato. Além disso, entre aqueles que o leram, poucos pararam para ponderar a respeito de cada item.

7) O presidente Preis foi sabatinado pelo Hiltor Mombach do Correio do Povo. Foram cerca de 40 perguntas enviadas pelos torcedores e também elaboradas por jornalistas da rede Record. A possibilidade do público participar espontaneamente desse processo não está em discussão: o que eu quero dizer é que, infelizmente, a maioria das perguntas ou não foi respondida, ou foi respondida com excesso de reticências, com laconismo e sem a complexidade necessária. Na reunião do Movimento Grêmio Acima de Tudo com o próprio Preis, não houve clareza quanto aos pontos que garantem ou não tanto o patrimônio do clube como os direitos do associado. Preis também foi entrevistado pelo Ricardo Vidarte no site Final Sports. Conclusão: nenhuma;

8) Em meio ao episódio Odone + Britto (no qual um dos dois seria presidente do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense enquanto o outro seria presidente da Grêmio Empreendimentos S.A. ou vice-versa), Odone declarou que não iria se dedicar ao Projeto Arena nem ao clube caso não fosse aprovada a remuneração do presidente da GE. Por que?

9) Na referida entrevista de Preis ao Final Sports, ele considera excelente o fato de Odone ser o secretário estadual da Copa 2014. Quanto a isso, vamos expandir um pouco a rede para tentarmos analisar os fatos. O prefeito José Fogaça e o vice-prefeito José Fortunatti (secretário especial municipal da Copa 2014) também são conselheiros do Grêmio. Dois dos principais donos da RBS, José Pedro e Nelson Pacheco Sirotsky também são conselheiros do clube. O capital social desses cinco senhores nos campos político, empresarial e midiático é enorme. Sem dúvida, possibilita que haja benefícios ao clube.

Todavia, pensar apenas ou acima de tudo no Grêmio em detrimento da qualidade de vida da população mais carente; em detrimento dos graves problemas de educação, saúde e segurança existentes em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul em um grau mais elevado do que na maioria dos estados da federação nos dias de hoje a meu ver representa um oportunismo absurdo.

Vejamos: a RBS possui uma construtora, a Maiojama; toda a construção civil guasca sonha em alterar o Plano Diretor para transformar Porto Alegre em São Paulo; muitos vereadores tiveram doações de campanha de construtoras e o lobby sobre eles na Câmara Municipal é fortíssimo. O excesso de espigões torna a superfície mais úmida, menos insolada e mais escura.

A privatização dos espaços públicos é a grande causa da violência urbana. E mais: toda a torcida do Flamengo quer um financiamento do BNDES – que deveria ser um banco de fomento a atividades SUSTENTÁVEIS de geração de emprego e renda.

Vejam ainda que a maior parte dos anúncios dos Classificados de domingo são da construção civil. No mestrado em Ciências da Comunicação, aprendi que o excesso de notícias a respeito de um determinado tema e sob uma ótica predominante na qual a opinião contrária quase não tem voz significa que o noticiário está repleto de matérias pagas para satisfazer a um grupo de patrocinadores em particular.

É bom deixar claro que os Sirotsky, Odone, Fogaça e Fortunatti apóiam o DESGOVERNO LÚMPEN que acaba de ser deposto. Não houve nenhum editorial e nenhuma matéria investigativa durante 31 meses nos veículos da RBS. Em nenhuma manchete foi dita que o lumpesinato yedista inaugurava obras com dinheiro federal. E, a exemplo do Grêmio, nunca foi dito que o endividamento similar ao da ISL contraído por Yeda significava megalomania e mentira travestidos de “coragem”, “criatividade” e “ousadia”.

Outro detalhe: algumas figuras-chave desse lumpesinato até bem pouco tempo possuíam cargos dentro do Grêmio. Sabe-se lá por que, não houve seguimento no processo de expulsão de José Alberto Guerreiro do clube (um breve debate a respeito neste link). E, embora as falcatruas comprovadas pelo Ministério Público Federal e pelo Tribunal de Contas do Estado não tenham sido feitas nem com prejuízo, nem com vantagem ilícita e tampouco tenha sido engendrado a partir do Grêmio, tudo isso não seria motivo suficiente de expulsão de José Otávio Germano, Flávio Vaz Netto e daquele assessor  de Odone também envolvido com o yedismo?!

À exceção disso, as relações empresariais e político-partidárias acima relatadas, até o momento, felizmente ainda não apresentaram nenhum traço explícito de ilegalidade. Não há como falar em corrupção, coerção ou coisa parecida. Mas é imoral. É antiético. Não beneficia a maioria.

Portanto, não compactuo com aquela maioria silenciosa da classe média urbana que respondeu majoritariamente em uma pesquisa do Instituto Datafolha de alguns anos atrás que, desde que as coisas sejam feitas, admitem a corrupção.

O Grêmio e o RS só chegaram aonde chegaram exatamente por causa dessa infeliz crença do senso comum. Práticas seculares nos países escandinavos comprovam que pode-se realizar de tudo e que a iniciativa privada e o Estado podem ser honestos, pró-ativos, sustentáveis e gerar riqueza e conhecimento para todos. Sem obras superfaturadas, sem licitações viciadas, sem tráfico de influência, sem propina, sem comprar votos de deputados para votarem na emenda da reeleição (o mensalão tucano), nem para garantir a governabilidade a partir da cooptação de clientelistas (o mensalão petista).

Como último (porém talvez o mais sério) medo em relação à Arena no Humaitá, tanto a Grêmio Empreendimentos S.A. como a OAS precisam tomar um imenso cuidado também para não se tornarem réus caso a Aeronáutica decida processar o empreendimento em função da alteração proposta na altura máxima dos prédios do complexo em função da aterrissagem de aeronaves maiores na pista ampliada do Aeroporto Internacional Salgado Filho.

Além disso, beiras de rios, lagos e orlas marítimas são áreas pertencentes à União – mais especificamente ao Ministério da Marinha. Todo mundo pode adquirir qualquer terreno de orla seguindo as orientações do Plano Diretor de cada município. No entanto, em caso de guerra ou da necessidade do uso daquela área litorânea ou ribeirinha para exercícios militares, não se ganha um centavo e o Governo tem total direito de tomá-las de volta para si. A sogra da minha irmã já foi notificada em Duque de Caxias/RJ por causa disso e terá que se desfazer do único patrimônio que possui.

Todas as informações acima costumam ser distorcidas ou omitidas. Porém, deveria haver maior espaço para o conhecimento desta realidade aqui. Todavia, apenas um pequeno grupo de empresas detém a posse dos meios de comunicação de massa no RS, a maioria das pessoas toma a posição deles como verdade única e indestrutível.

Não sou conselheiro, não sou empresário, não sou advogado, não sou político e não sou o dono da verdade. Até posso me equivocar em uma informação ou em outra e até já fui a favor do Projeto Arena. Porém, após conversar com muita gente que não foi contaminada pelo pensamento único e de proceder algumas investigações, não me restou outra coisa a fazer além de me posicionar contra o modelo de negócio proposto.