O QUE KAKÁ NO REAL MADRID TEM A VER COM O GRÊMIO?!

O Real Madrid, clube mais rico e mais vitorioso da história do futebol mundial, tem por hábito buscar a recuperação de uas más fases a partir de demonstrações pesadíssimas do seu poderio econômico.

Além de ter trazido os dois últimos jogadores escolhidos como melhores do mundo na festa anual da FIFA, o brasileiro Kaká (2007) e o português Cristiano Ronaldo (2008), o presidente Florentino Pérez (o mesmo que trouxera Ronaldo, Zidane, Beckham e Figo na geração vitoriosa de 2002 conhecida como “Os Galáticos“) fez um mise-en-scène impressionante na apresentação do melhor jogador da Seleção Brasileira desde 2006.

Destaco, de toda a festa, a foto acima: os espetaculares departamentos de Marketing e de Comunicação do Real Madrid enfileiraram as NOVE taças da UEFA CHAMPIONS LEAGUE na passarela que acolheu Kaká. Além disso, o presidente de honra e maior jogador da história do clube, o argentino ALFREDO DI STEFANO, estava lá, prestigiando o maior orgulho do futebol brasileiro contemporâneo.

Voltando à nossa realidade, é preciso que o Grêmio abra bem seus olhos e trate de fazer o dever de casa: a cada contratação DE-CEN-TE (ou, seja, não é pra apresentar os dispensáveis Ruy e Alex Mineiro que se monta uma estrutura dessas), deve-se pôr todas as LIBERTADORES, a COPA INTERCONTINENTAL (que significava, de fato, o título mundial em função do contexto do futebol de então), os BRASILEIRÕES e as COPAS DO BRASIL como corredor e vitrine para a nova esperança que se apresenta. De quebra, que traga-se sempre que possível RENATO PORTALUPPI para apresentá-lo:

“GRÊMIO, FULANO. FULANO, GRÊMIO. SE FIZERES 30% DO QUE EU FIZ PRA ESSA GALERA AÍ, ELES NUNCA IRÃO SE ESQUECER DE TI. GARANTO QUE NEM NO FLAMENGO A TORCIDA SERIA CAPAZ DE TE APOIAR COMO A NOSSA GERAL”.

É como a piada da linguiça: para a mídia de massa, o maior dentre os embutidos postos à mesa impõe mais respeito sim, senhor. Além disso, serve como estímulo e pressão positiva sobre o novo jogador, pois deixa às claras o que dirigentes, comissão técnica e torcida de um clube de tradição esperam de seu desempenho dentro E FORA de campo.

Caso essa simples medida tivesse sido tomada há mais tempo, garanto que muitos dissabores e muito dinheiro posto fora teriam sido evitados.

FOUCAULT, KANT E O RS DE YEDA

CUIA: ícone do controle e da menoridade guasca

CUIA: ícone do controle e da menoridade guasca

Não sou filósofo como o MARCO WEISSHEIMER, a KATARINA PEIXOTO nem o MARCELO DA SILVA DUARTE. Também não sou sociólogo como o CRISTÓVÃO FEIL. Corrijam-me se estiver errado, mas acho que vale a pena eu arriscar um exercício

Vocês conhecem um LUGAR que, por acaso, faz parte do BRASIL cujo senso comum não se considera brasileiro; se acha mais próximo do URUGUAI, mas acha os uruguaios ‘chinelões’; fala mal dos argentinos, porém adora a ARGENTINA e não percebe que a sua empáfia é ainda maior do que a que atribuem aos portenhos?

Sem generalizar, essa é a visão da oligarquia local transmitida para seus humildes funcionários. MICHEL FOUCAULT que me perdoe e compreenda – espero estar utilizando corretamente seus conceitos. Vamos a eles:

O principal MECANISMO DE CONTROLE dessa oligarquia é um tradicionalismo falcatruesco que se exacerba sempre que um REGIME NAPOLEÔNICO toma o poder nessa terra. Os preceitos dessa cultura de almanaque são irradiados pelo PANÓPTICO GUASCA (que pratica o pior jornalismo político, econômico e comunitário deste imenso país).

A todos aqueles que, seja como for, conseguem escapar parcial ou totalmente dessa crença, meus sinceros e entusiasmados parabéns. Afinal de contas, à medida que seu ‘povo’ não percebe que suas virtudes escoam pelo ralo da história ao aceitarem passivamente serem VIGIADOS e PUNIDOS, tornando-os ESCRAVOS dos mais ordinários, daquele tipo que não reage, que se resigna, que teme, que ignora e que come galinha e arrota faisão pra ter a concessão de virar CAPITÃO DO MATO.

Excluindo o machismo, o racismo, o carolismo e todas as demais formas de ignorância e de preconceito contidas nessa cultura deplorável, esta província tinha tudo pra jamais deixar de ser reconhecida através de uma imagem de marca justa e positiva em função de vários indicadores sociais.

Para isso, não seria preciso ser melhor do que ninguém, nem tampouco competir com os outros entes da Federação: bastaria tão-somente não regredir à MENORIDADE da qual IMMANUEL KANT falava.

A evolução social, política, educacional, cultural, alimentar, ecológica, econômica e cidadã depende de um esforço contínuo rumo à MAIORIDADE kantiana. Para ser maior, é preciso amadurecer. É preciso refletir. É preciso pensar. Ponderar. Agir. Buscar sempre dar o melhor de si. Reconhecer o outro como igual. SER ESCLARECIDO.

No entanto, SER MENOR É MUITO MAIS CÔMODO…

POR QUE A ESQUERDA NÃO MUDA O MUNDO I

Este post é para todos. Mas, em especial, responde o excelente comentário que o VALDIR DALLA MARTA do blog TIMBLINDIM da belíssima CAMPO GRANDE (MS) fez há dois posts atrás.

Os leitores e os blogueiros que me dão o prazer, a amizade, o carinho e a honra de compartilhar comigo momentos de troca de informação, de inteligência e de solidariedade através de participações mútuas nos blogs de um e de outro e em alguns encontros presenciais (que, se dependessem de mim, seriam muito mais frequentes do que têm sido) estão cansados de saber que eu vivo insistindo na condição sine qua non de que a esquerda aprenda a trabalhar sem liderança centralizada e sem almejar tomar o poder político e coercitivo. O único poder possível de ser conquistado a partir das ferramentas que nos são disponibilizadas (mesmo assim, a duras penas) é o simbólico: no momento em que a sociedade amadurecer o suficiente a ponto de rever seus valores e seus conceitos para um mundo mais sustentável e mais tolerante, a tendência à alternância no poder político ora aumentar a miséria da esmagadora maioria e enriquecer estupidamente a raríssimos outros, ora inverter a hegemonia entre dois grupos de privilegiados semiantagônicos certamente diminuirá exponencialmente.

Sou um singelo iniciante na leitura e na interpretação (ainda um tanto pobre, admito) da obra de sociólogos e de filósofos clássicos cujas análises sociais, econômicas e políticas seguem valendo até hoje, dois ou três séculos depois daquilo que escreveram. Preciso aprofundar-me muito neles. Mas foi pra isso que serviu o mestrado: pra começar a ler e pra usar as teorias como muletas para justificar a ocorrência ou não de alguns insights que surgem a partir da observação de um determinado objeto empírico durante a pesquisa. Mais adiante, no doutorado, obviamente, meu discurso tornar-se-á muito mais sofisticado e eu deixarei de ser um mané, capacitando-me a inovar e a produzir conhecimento relevante para a sociedade.

Vou falar um pouco mais sobre uma maneira de resistir baseada na emergência e na articulação descentralizada e em rede que considero mais eficiente e adequada de ser posta em prática no atual contexto mundial.

Os livros IMPÉRIO e MULTIDÃO de ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT obviamente são  passíveis de infinitas interpretações diferentes. Todos têm o direito de concordar e de discordar parcial ou integralmente com as idéias desses dois filósofos (o primeiro, italiano; o segundo, estadounidense). No caso, encontrei uma forma de discordar contraproducente, desinformada, desatualizada e limitada em relação à correlação de forças atual. E é sobre isso que eu quero falar.

Tais críticos defendem sempre a mesma maneira de resistir e de fazer o socialismo, além de crerem que as características daqueles que compõem tanto a classe privilegiada como a classe subordinada são quase imutáveis. Ora, se existe um pensamento em que a luta de classes ocorre sempre entre os mesmos entes de características sociais praticamente imutáveis, é sinal de que este pensamento não leva em conta o contexto sócio-econômico-político-cultural de cada período histórico como deveria. Estamos, pois, diante de uma significativa falta de capacidade de PROPOR algo DIFERENTE e TRANSFORMADOR a partir dessa crítica.

Pois bem: na crítica do link acima, entendo que a obra não foi devidamente interpretada como os autores esperavam que fosse. O pior dessa crítica é a sua ignorância em relação a uma série de ressalvas que NEGRI e HARDT fazem ao longo do livro: ao contrário do que diz o crítico em questão, Negri e Hardt NUNCA ignoraram ou minimizaram o papel das classes subalternas. Eles tão-somente constataram que a classe subjugada de hoje precisa utilizar novas formas de resistência compatíveis com as novas formas de dominação do império. Portanto, práticas antigas só oferecem capacidade de reação e de transformação quando confrontam práticas hegemônicas correspondentes em articulação financeira, social e tecnológica.

A esquerda leva laço porque não procura obter a bomba atômica, enquanto acha essa arma desleal e segue tentando vencer usando arco e flecha. É essa a comparação grosseira possível de fazer para explicar em outras palavras. Só que, ao possuir a bomba, não pode nem detoná-la, nem permitir que o império a detone. O fato de possuir a mesma arma serve para TENSIONAR e PREOCUPAR o outro lado. Quem não possui um adversário competente, não fica tenso nem preocupado. Não passa trabalho pra se impor e ainda pode dar-se o luxo de errar feio mas seguir “nas cabeças”.

Outro detalhe importantíssimo desse trabalho dos filósofos italiano e estadounidense nos leva à constatação de que essa classe subalterna não é mais predominantemente composta por trabalhadores rurais e, menos ainda, por operários: ela vive nas grandes cidades, com média de cerca de 80% da população  URBANA em quase todos os países do mundo. Logo, os filhos de operários da primeira metade do século XX que foram estudantes de classe média na época da ditadura militar hoje possuem filhos e netos que vivem uma realidade totalmente alheia àquela, pois não enxergam nem naquilo em que acreditam e menos ainda naquilo em que não acreditam o mundo de seus pais, avós e bisavós.

Vamos ver se consigo me fazer entender: as dificuldades emocionais, financeiras, de se manter no emprego, de como aproveitar o tempo livre e de como adquirir conhecimento e melhorar de vida almejando um mundo mais justo e mais solidário da classe operária pouco tem a ver com essas mesmas questões levantadas por um jovem que só não usa a internet como banheiro, cama, amante, bola, motor e avião porque não pode. É preciso entender que ele não é ignorante, alienado ou desinteligente: ele quer fazer política, desde que essa forma de fazer política e de trabalhar por um mundo melhor apresente a linguagem, a estética e uma forma de mobilização que ELES SEJAM CAPAZES DE ENTENDER.

Além do lixo da LEI AZEREDO e do ridículo TSE, o fato de a esquerda partidarizada e operária predominar em uma sociedade totalmente diferente daquela que originou a sua formação política não é um atraso nem tampouco um choque de gerações, mas significa um HIATO que impediu que o latim de uns e o provençal de outros resultasse em um francês comum a todos.

É esse gap que precisa ser superado para voltarmos a ter um papel transformador.

A DEMOCRACIA NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA TEM LIMITE

Depois de tanto tempo lendo críticas pertinentes porém, em sua maioria, infelizmente inócuas a respeito do discurso da Grande Mídia, passei a me interessar pelo ativismo em rede em pequena escala e pelo empoderamento dos excluídos através do ensino e da prática do uso simultâneo de uma série de mídias sociais, pois tanto a mídia de massa precisa da blogosfera alternativa, ativista e politizada como esse nicho precisa da mídia de massa. Do contrário, o gigantismo e a arrogância da mídia corporativa irá sempre perder espaço para o jornalismo cidadão e a blogosfera ativista será lida sempre por meia dúzia de gatos pingados.

Prefiro fazer coisas mais produtivas do que ficar criticando o que os jornais ou a TV dizem o tempo inteiro por quatro razões atravessadas entre si (isto é, todas influenciam e são influenciadas, refletem e são reflexo das outras em infinitos graus de crença, de agendamento e de práticas sociais):

1) A mídia corporativa sempre irá defender o lado de seus patrocinadores, dos políticos que podem ajudá-la a reduzir encargos trabalhistas, impostos e pagar menos pelos insumos que utiliza. Quem se opuser a eles em questões pontuais, será defenestrado, mesmo que já tenha sido muito seu amigo. E quem sempre se opôs a seus interesses explícitos e ocultos jamais deixará de ser ou ignorado, ou criminalizado. Porém, a Pequena Mídia também possui patrocinadores, valores e interesses que podem, um dia, deixar de ser valores universais e perderem o seu caráter de tentativa de eqüidade social, tornando-a um pouco direitista e fazendo com que a reação da direita seja um pouco esquerdista sem nenhum constrangimento ou contradição;

2) Mesmo os seus profissionais mais honestos e competentes são conservadores que escrevem para uma esmagadora maioria conservadora. No dia que a esquerda tiver um poder semelhante ao da direita, ela também se tornará tão excludente, criminalizadora e totalitária quanto sua ideologia mais siamesa do que oposta em vários sentidos;

3) A clara contradição de copiar, linkar e citar o grosso das posições com as quais a esquerda concorda ou discorda a partir da informação publicada pela própria mídia corporativa em relação ao pequeno número de citações sobre a mídia declaradamente de esquerda (ou, se não for de esquerda e nem nanica, que pelo menos não tenha o péssimo hábito de brigar com a notícia);

4) Logo, o PIG só é PIG e ele só possui um pensamento único quando convém, seja à esquerda, seja à direita. Sim, ele é contraditório, mentiroso e comprometido com a direita. Mas, ao mesmo tempo, ele não deixa de orientar, de situar, de informar e de realizar algumas denúncias e investigações mais cidadãs, de interesse comunitário e solidário – nem que exerça um jornalismo honesto, tecnicamente correto e socialmente relevante em não mais do que  15% a 20% de seu conteúdo.

O mundo da mídia apresenta muitos exemplos que justificam a minha posição. Talvez o mais significativo seja o da Inglaterra, que tem a grande mídia menos desonesta, mais educativa e mais controlada por um governo (ao menos juridicamente tido como) democrático em todo o planeta. Nem por isso sua população altamente escolarizada e com alto poder de compra deixou de ser conservadora ou passou a protestar nas ruas de maneira sistemática.

No plano político, caso a esquerda (a inteligente e coerente – infelizmente, uma pequena minoria) tivesse dinheiro e poder, acabaria criando uma mídia hegemônica às avessas que, por sua vez, tornar-se-ia autoritária e mentirosa às avessas. Além disso, as ações políticas e sociais públicas ou privadas verdadeiramente voltadas para aqueles que mais precisam são muito pequenas e ainda deixam muita gente de fora (até mesmo a política de cotas nas universidades, o Bolsa Família, o investimento pesado em pesquisa acadêmica, o piso nacional para professores de escolas da rede pública, o aumento salarial para boa parte do funcionalismo federal, o investimento em infra-estrutura e a independência do FMI e dos EUA até determinado ponto).

Os próprios políticos são extremamente movidos por interesses diversos, que os impedem de votar 100% a favor do programa ou da ideologia a qual pertencem. Portanto, o ativismo em rede voltado para a solução presencial a partir de um chamamento e de um esclarecimento não-presencial e pulverizado na rede tende a ser mais eficiente como mecanismo de resistência, desde que não almeje o poder e exerça uma pressão sistemática e descentralizada sobre todas as formas de opressão e exclusão (econômica, simbólica ou coercitiva).

Por mais regulado que seja um mercado de mídia por qualquer governo, em qualquer lugar e a qualquer época, a dominação de qualquer viés político-ideológico via mídia de massa como instrumento de propagação de valores depende menos da ignorância de quem não tem estudo e é pobre, da cantilena reacionária ou do exercício da falácia de que “a gente noticia aquilo que o nosso consumidor quer”: afinal de contas, repito mais uma vez que a esmagadora maioria da população é ou torna-se conservadora com o passar do tempo.

Isso leva a outro ponto: não dá pra forçar a barra exigindo uma lei que restrinja os investimentos em mídia de quem é hoje hegemônico e que proíba ou regule qualquer viés discursivo: primeiro, porque eles podem cobrar o mesmo do lado oposto (jurisprudência); segundo, porque, mesmo que se casse as concessões irregulares, a rede social dos ricos é infinitamente mais inteligente, ampla e complexa do que a dos pobres ou da esquerda, pois eles sabem se relacionar melhor entre si e defendem com maior unidade seus interesses.

Isso explica facilmente os tentáculos de Rupert Murdoch em mais de 100 países: aonde puder, ele fará uso de lobby político, econômico e simbólico. Porém, em muitos lugares, ele não precisa entrar na política, não precisa de uma bancada parlamentar parceira e nem tampouco burlar leis de concessões. O que o impede de comprar zilhões de veículos caso não seja comprovada nenhuma atividade ilegal? Afinal de contas, ele não precisa ter ações nem patrimônio em seu nome nem no de qualquer parente ou funcionário seu. Tudo  isso se arranja sem burlar a lei.

Por fim, a Lei da Potência, Curva de Paretto ou Cauda Longa é um processo que não foi até hoje convincentemente contestado nem pela Matemática, nem pela Biologia e nem pelas Ciências Sociais: a humanidade sempre possui infinitas formas de escolher uma referência e a ela dar credibilidade. Sua preferência por um e não por outro é algo muito mais profundo e subjetivo do que a crença do senso comum de esquerda de que qualquer valor individual tem como origem os embates e as crenças político-partidárias, midiáticas ou econômicas. Sim, elas fazem parte. Contudo, não explicam as preferências e as repulsas por si próprias.

Mais um exemplo: digamos que fosse possível igualar o alcance (ou a tiragem) de TVs, rádios, jornais, revistas; igualar os valores de todos os padrões de anúncios publicitários nessas mídias; obrigar todos os veículos a terem vários concorrentes do mesmo setor anunciando ao mesmo tempo; fiscalizar a ocorrência de matérias pagas; garantir a distribuição de mídia impressa nos mesmos pontos de venda, na mesma quantidade de exemplares e com a edição seguinte de tudo que uma banca vender chegando ao mesmo tempo e possuindo igual espaço na vitrine…

…Mesmo assim, mesmo que houvesse eqüidade e diversidade de opiniões, cada uma com uma definição ideológica clara, o consumidor rapidamente se encarregaria de optar por algumas referências, pois não tem tempo nem vontade de comparar posições diferentes. Ele vai acabar indo atrás daquela opinião com a qual concorda mais.

Conseqüentemente, a escolha do cidadão e do consumidor a partir da sua liberdade de expressão e de ter o direito a consumir o produto que bem entender irá desequilibrar novamente o mercado midiático, que terá toda a razão em cobrar a perda de anunciantes em função dessa eqüidade artificial e forçada, pois até os pequenos estarão ao lado dos grandes em uma questão de subsistência.

Obviamente, em termos de democracia, a inclusão cidadã de novos internautas, as rádios e TVs digitais, a não-criminalização de rádios comunitárias, a execução e obediência das leis de concessão de emissoras e restrições à baixaria na programação proporcionarão um maior empoderamento social a partir da própria experiência do sujeito no manejo de uma mídia pequena. No entanto, o que impediria que uma corporação de mídia conservadora, muito rica e com patrocinadores poderosos mesmo agindo à luz da legalidade de comprar veículos, distribuir infra-estrutura e empoderar à sua maneira pequenas comunidades fornecendo cursos e montando rádios, TVs e jornais comunitários?

Diante de tudo o que foi exposto neste longo artigo, de maneira chutada, diria que se, hoje, sob esta lei da selva e nestas condições econômicas e culturais, o senso crítico e os valores mais progressistas apreendidos pelos raros consumidores da Pequena Mídia não passariam de 5% a 10% da população, mesmo diante do quadro ideal que eu pintei nos parágrafos anteriores, duvido muito que mais do que 30% da população deixaria de seguir um modus operandi conservador.

Finalmente, comprova-se cada vez mais aqui no Brasil a complementaridade da blogosfera ativista independente com a divulgação de suas demandas através da mídia de massa, em uma relação na qual essa mídia de massa passa a perder credibilidade caso deixe de divulgar a notícia a respeito dos micropoderes dispersos em rede, capazes de comer seus pés de barro. A exemplo do que já se verifica nos EUA há mais de meia década, Atualmente, aqui no Brasil, já podemos comprovar que, na maioria das vezes, os blogs só adquirem maior visibilidade quando citados pela mídia de massa e que eles têm o poder de mobilizar e de fazer política de baixo para cima intercambiando a troca de informações e a sociabilidade tanto no ambiente online (tecnologias da informação e da comunicação – blogs, e-mail, mensageiros instantâneos, etc.) como no offline (encontros presenciais).

Pesquisadores experientes e iniciantes (que é o meu caso) têm realizado pesquisas  acadêmicas que apontam nessa direção, através da análise quantitativa e/ou discursiva da audiência de blogs e do conteúdo de seus links, posts e comentários, cruzadas com entrevistas qualitativas. É  a adaptação da etnografia (método consagrado no início do século XX pela antropologia) para aquilo que chamamos de netnografia ou etnografia digital, onde o pesquisador realiza um trabalho militante de envolvimento pessoal com o público observado, que só funciona quando os depoimentos presenciais e o material coletado na ida ao campo (no meu caso, um coletivo de blogs bastante significativo no cenário gaúcho de resistência ao neoliberalismo e ao autoritarismo) são tensionados por teorias das áreas da Comunicação, das Ciências Sociais e da Filosofia, cada vez mais atravessadas por alguns princípios da Biologia e da Matemática que não podem ser ignorados.

Por enquanto, isso é o que eu concluo de tudo o que eu já vi sobre midiatização, economia política da comunicação e das discussões sobre a democratização dos meios de comunicação.

DANTAS, JORNALISMO, DIREITO, ESTADO, CIBERCULTURA

FATO 1: o Brasil não possui uma Grande Imprensa predominantemente confiável, honesta, justa, investigativa, inquisidora, denunciadora, minuciosa e nem tampouco apuradora. Sinto muito aos bons bacharéis que, ao invés de fazerem valer seu juramento, calam e consentem. Meu diploma de publicitário vale o mesmo que o de jornalista: menos do que um rolo de papel Neve usado. Essa é a realidade.

FATO 2: há vários tipos de jornalista que vivem de jabá. Quando o contrato de prestação de serviços firmado entre ambas as partes assim o permitir, alguns desses profissionais poderão seguir ligados às corporações de mídia. Outros, ao deixarem de ser funcionários dessas corporações, publicam blogs nos quais usualmente procedem de três maneiras predominantes: a) entrevistam predominantemente a mesma base de sustentação política, econômica, social, financeira e cultural de seus antigos chefes, funcionando apenas como um novo megafone para o discurso único; b) não passam de meros assessores de imprensa ou de relações públicas de seus anunciantes; c) em função de a e b, recebem muito mais do que quando eram empregados não por causa do mérito, da trajetória, da suposta credibilidade profissional, mas, sim, porque são mais conservadores e mais realistas do que o rei quando são editores de si mesmos; d) Não passam de uma mera marca, publicando notícias requentadas através do control-C control-V do que saiu em veículos maiores.

Só no RS, há vários exemplos: 1, 2, 3, 4, dentre outros. Reparem como os patrocinadores são, quase sempre, os mesmos. Há como denunciar ou como pensar diferente sendo financiado pelas mesmas fontes?!

Feliz ou infelizmente, o tão criticado, ridicularizado e até mesmo frívolo XICÃO TOFANI cumpre muito melhor com o papel ao qual se propõe a fazer do que os quatro exemplos acima.

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CONCLUSÃO 1: os fatos 1 e 2 comprovam que a midiatização da sociedade é um fenômeno que mistura funções, profissões, atribuições, direitos e deveres de cada um em uma salada cujos ingredientes são absolutamente impossíveis de serem separados voltando-se ao sabor original de cada um.

CONCLUSÃO 2: creio que nenhuma das profissões técnicas atravessada pelos meios de comunicação tem sofrido tanto com esse desencaixe da alteridade e com essa multiplicidade funcional meramente empírica sem grandes reflexões a respeito do verdadeiro papel social de cada um como os verdadeiros assessores de imprensa e os verdadeiros relações públicas. Afinal de contas, seu território foi invadido por pseudo-profissionais ou por profissionais de fato cujo treinamento e prática tinham como objetivo trabalhar outras técnicas enunciativas. Para os RRPPs e para os assessores de fato e de direito, o caminho inverso ou o rápido encontro de outro nicho no qual possam exercer a sua função sem distorções é quase impossível.
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Isso posto, há tanto no “mercado” como na academia opiniões que consideram a profissão de relações públicas extinta em função do canibalismo do assessor de imprensa. Da mesma forma, se a função do jornalista é a de criticar, investigar, denunciar, ouvir os dois lados da questão, traduzir a linguagem vicária de todos os demais campos sociais para a sociedade laica através da temporalidade e da discursividade de seus meios produzindo um discurso aparentemente homogêneo e facilmente compreensível, no momento em que a maioria dos jornalistas depende de patrocínios que carregam valores econômicos, sociais e culturais embutidos em seus objetivos comerciais que devem necessariamente deter a hegemonia sobre seus concorrentes materiais e simbólicos, o jornalismo também QUASE não existe mais – a não ser quando este não dependa da espetacularização de alguns valores e da omissão de outros para sobreviver.

Dado o atual contexto sociotécnico, não podemos mais recuar àquele antigo patamar de compreensão e de operação facilmente percebido até mesmo pela classe média ainda presa ao modus operandi da modernidade: não há como forçar a barra nem para o passado “como o ‘meu tempo’ era bom”, nem para pensar o futuro de maneira apocalíptica (‘o mundo acabou’).

Leis supostamente socializantes (leia-se moralizantes) normalmente são incompletas, arbitrárias às avessas (pois apresentam os mesmos componentes que repudiamos na autocracia de direita legitimados por oportunistas que pareciam estar do nosso lado) e repletas de brechas para que o status quo continue deitando e rolando. Na mesma direção, não consigo ser tão otimista a ponto de crer em um hipotético, utópico, ufanista e espetacularizante código de ética que torne magistrados, políticos, empresários de comunicação, jornalistas corporativos, jornalistas de mídia independente, blogueiros, radialistas, cineastas e artistas tão responsáveis e conhecedores sobre seus direitos e deveres não com a lei mas, sim, com a sociedade.

Vejo blogs dando prioridade à análise do que saiu no jornalão A ou B. Ora, jornal e revista são o de menos. Primeiro: só compra quem quer; segundo: não são concessões públicas; terceiro: cada vez menos gente lê jornais e revistas – os leitores de jornal
tradicionais estão morrendo de velhos. Seus filhos e netos ou trabalham
tanto, ou têm tantas outras opções de lazer e informação disponíveis
online que a tiragem dos jornais está caindo vertiginosamente
PRATICAMENTE NO MUNDO INTEIRO
; quarto: quase sempre, o consumidor padrão do bem simbólico crítico-noticioso pertenceu às classes A e B, cuja influência na base da pirâmide diminuiu drasticamente nas últimas décadas; quinto: a cultura pós-moderna é audiovisual, dinâmica, ubíqüa, fragmentada, inconstante – uma foto num jornal significa muito pouco para essa geração, pois a experiência sensorial que oferece é muito baixa. Seu texto correspondente, menos ainda.

Portanto, o poder do indivíduo está no atravessamento das mídias e no uso que o receptor faz do seu conteúdo na sociedade em que vive. Podemos até julgar, criticar, avaliar, duvidar e até mesmo subvalorizarmos essa experiência midiática multidimensional particular. Todavia, nenhum receptor é passivo: todos estão, cada um a seu modo, ressemantizando e ressignificando tudo o que chega até eles, transformando, reciclando, adaptando e, acima de tudo, PRODUZINDO DIFERENÇA.

Falo sempre em resistência pós-moderna. Em comunicação atomizada, descentralizada, produzida a partir de nós que estabelecem uma teia repleta de laços fortes e de laços fracos ao redor da Terra. Na solução de demandas locais, pontuais, simples, pequenas, mas que resolvem a vida de muita gente ao mesmo tempo – porém discutidas e reverberadas do local para a rede, a fim de que a rede traga de volta para o local uma repercussão em potência de 10 na comparação com a intrusividade do carro de som, das palavras de guerra inúteis do líder sindical mal articulado com o vernáculo, do panfleto mal redigido e de chegar à praça pública de maneira desordenada, impensada, não-planejada, previamente anunciada (dando a cara a tapa para a polícia e para a mídia corporativa vociferar como bem entender a respeito dessa manifestação).

Portanto, o Paulo Sant’Ana, o Nelson Sirotsky, os políticos de direita, empresários e latifundiários que eles usam em seus editoriais e até mesmo a página 10 da Rosane de Oliveira e nada são QUASE a mesma coisa.

Claro que o que fica registrado por escrito pode ser documentado e retomado tantas vezes quantas o suporte dessa informação (papel, plástico, pano) permaneça intacto. Mas o peso da mídia corporativa (sobretudo a impressa) é realmente muito menor do que parece ter. O que fede mais é o que é ouvido, o que é assistido e o que deixa mais marcas na memória – o audiovisual: o Sant’Ana no Jornal do Almoço; a Rosane de Oliveira na Rádio Gaúcha e na TV COM; o Lasier Martins na RBS TV, na Rádio Gaúcha e na TVCOM e tantos outros produzem subjetividades mais intensas e tão marcantes quanto efêmeras ATRAVÉS DE CONCESSÕES ILEGAIS DE ONDAS ELETROMAGNÉTICAS REGIDAS PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E PELA LEI GERAL DAS TELECOMUNICAÇÕES.

Mesmo assim, a TV aberta felizmente está sofrendo do mal do gigante do pé-de-feijão: não é apenas o seu público tradicional que está desenraizado da sua alteridade, da sua territorialidade e que não sabe como nem em que espaço discutir política. Ela mesma desconhece os meninos nascidos desde o início da década de 1990. No começo, atraíram-nos até o seu castelo sobre as nuvens. Depois, deixaram a galinha dos ovos de ouro ao seu lado e pegaram no sono. Finalmente, João já está de volta ao solo e já pegou o seu machado.

Portanto, é preciso ter um QI de funcho ou uma visão de mundo restrita ao volume de um ovo de tênia para acreditar piamente nos produtos políticos e consumistas das corporações mídia de massa. Afinal de contas 40% dos brasileiros já possuem acesso freqüente à internet, mais de 20% já possuem computador + acesso discado em casa e, a despeito do uso mais freqüente ser para e-mail, MSN, ORKUT, YOU TUBE, notícias (predominantemente dos mesmos grupos de mídia de massa) e, um pouco mais abaixo na lista, para ler, comentar e blogar (sendo que menos de 10% dos blogs lidos são sobre política),

Escrevi este post em função da prisão do DANIEL DANTAS (que, em breve, será solto porque JOSÉ DIRCEU é funcionário dele e JOSÉ EDUARDO GREENHALGH é seu braço jurídico e político dentro do PT, que possui o rabo preso sim, senhor) e da catrefa de peixes pequenos tucano-pefelês pega na mesma tarrafa (FHC, ACM, LUIZ EDUARDO MAGALHÃES, SERJÃO – todos escaparão); da crise no judiciário; e, finalmente, por causa das conclusões da blogosfera sobre o episódio POLÍBIO ADOLFO BRAGA x NOVA CORJA.

Até bem pouco tempo atrás, confesso que levava muito a sério o acompanhamento da mídia corporativa de massa (rádio, televisão, jornal, revista). Hoje, ela me irrita: se intromete na minha vida, no meu trabalho, no meu lazer, na minha intimidade, no meu espaço, na minha privacidade, usa um megafone a 10 cm de distância do meu ouvido, cores berrantes e letras garrafais a 1 cm dos meus olhos e passa o tempo todo dizendo o que e como comprar, como educar os filhos, como votar, quais deveriam ser os meus valores, como ela acha que eu deveria ser cidadão e por aí afora.

Não nego que, embora socialmente precário e reduzido, o seu papel informativo existe e possui lá a sua importância. Também não nego nem a necessidade e tampouco a importância de algo que me irrita muito mais do que o suposto efeito dos meios de comunicação, que são as instituições políticas e sociais. Também não pretendo me tornar um fora-da-lei.

Todavia, o que se vê na política, nas corporações e em parte da mídia nada mais é do que o reflexo da pior crise de identidade da história da humanidade. Tal crise torna-se ainda mais dramática à medida que nem metade da população das duas últimas gerações brasileiras ainda é capaz de enxergar o mundo simultaneamente a partir de todos os significados pessoais e sociais de pertencer a um certo território ao mesmo tempo em que teletransporta-se incessantemente no ritmo da vazante da infomaré.

As leis e o uso do poder no Brasil contemporâneo não dão conta nem dos integrados, nem dos apocalípticos. A aproximação e o intercâmbio entre ambas as maneiras extremistas de reconhecer a si mesmo dentro da sociedade surgem em ondas disformes, impermanentes, imprecisas que, assim como vêm até a praia, voltam para o oceano.

Então, como é que eu posso aceitar me submeter passivamente a um sistema caduco que só me prejudica?! Pra que chover no molhado tentando convencer tanta gente diferente a pensar como eu se nem eu mesmo sei se o que é melhor pra mim hoje vai ser melhor pra mim ou pra todos amanhã?!

Se eu quero adesão, parece ser mais fácil eu disponibilizar o que eu penso não através de um outdoor, de um megafone ou de um locutor piegas cheio de caras e bocas: eu vou deixar poucas idéias – nada muito complexo – num lugar onde quem quiser ver, vai encontrar. Se gostar, vai falar comigo. Se quiser aderir, vai multiplicar à sua maneira. Quando houver massa crítica suficiente (que pode ser de Porto Alegre, de Roma ou de Nairobi), a gente articula um plano de ação, cada um no seu lugar. Quando tudo estiver pronto, a gente sai pra rua sem ser contra ninguém, mas apenas a nosso favor.