Há algumas semanas, o RODRIGO CARDIA do CÃO UIVADOR mencionou a possibilidade de votar nulo.
Durante muitos anos, tive motivos de sobra para crer que o voto nulo favorecia às oligarquias e à direita. Além disso, ele era um direito do cidadão para tentar melhorar a convivência, a civilidade, o respeito, a autonomia e a economia de um determinado espaço geográfico cuja natureza e cuja urbe compartilha com muitos outros cidadãos. Em uma condição supostamente “normal” (ou, melhor, seguindo um certo consenso), abdicar de um direito desse porte significaria omissão, egoísmo ou ignorância – na minha opinião, os piores resultados da modernidade.
Todavia, o BRASIL mudou muito: em determinados quesitos, melhorou demais. Já em outros, as concessões feitas para poder distribuir melhor a renda e investir mais no social resultaram em severas catástrofes do ponto-de-vista do que é sensível e coletivo.
Tais mudanças colaboraram para que o maior medo das esquerdas (o coronelismo interiorano da troca de votos por paliativos materiais para a miséria) tenha sido significativamente reduzido.
Dessa forma, penso que o voto obrigatório já pode ser plenamente substituído pelo voto facultativo: primeiro, porque o dinheiro para comprar votos nunca é suficiente; segundo, porque qualquer pessoa coagida por um “coroné” ou por um de seus “capitães do mato” pode votar em outro candidato, anular ou votar em branco porque (estritamente nesse sentido), felizmente, não há provas materiais do seu voto.
Não gosto da área do Direito – ciência normativa moldada por uma ampla maioria de representantes do conservadorismo, que legisla a favor da sua própria casta. Também não confio no sistema eleitoral atual, que obriga todos a realizarem alianças programática e ideologicamente inaceitáveis e a venderem-se para os interesses daqueles que sempre estiveram no poder para atingirem o poder político. Também sei que não é possível fazer todo mundo escolher sim ou não ou, então, que todos os cidadãos tenham a palavra em assembléias. Plebiscito pra tudo também é impossível.
Com ou sem uma classe média raivosa, revanchista, racista e ignorante; com ou sem uma articulação poderosa, maleável e independente de qualquer relação espacial, geográfica ou até mesmo virtual; com ou sem o megafone desse poder etéreo chamado mídia corporativa, hoje penso de maneira diferente.
O Governo Lula resulta de um hibridismo entre esquerda e direita que só pôde ser realizado através de um pragmatismo capaz de ampliar a distribuição de renda desagradando amplamente à extrema esquerda e à exrema direita. Isso não quer dizer que o Governo Lula seja o melhor de todos os tempos e nem o pior, mas que faz muito mais tanto pelos especuladores financeiros e pelos miseráveis do que qualquer outro desde a Era Vargas (não que Vargas fosse suficientemente ‘bom’).
A luta de classes e as várias dicotomias tais como capital x trabalho; burguesia x proletariado; ricos x pobres; brancos x negros + índios; brasileiros x estrangeiros; civis x militares e assim por diante existem e não podem ser empurradas para debaixo do tapete. Da mesma forma, o neoliberalismo é muito mais nocivo do que favorável à maioria da sociedade. Os pobres sempre verão os ricos de uma certa forma e vice-versa. Afinal de contas, ignorância, preconceito e boatos ocorrem em qualquer ambiente moldado por humanos.
De toda sorte, há uma série de crenças que não apresentam mais nenhuma possibilidade
de serem empiricamente representadas através de fatos, eventos ou
modelos prontos ou puristas, nos quais muitos ainda crêem e continuarão crendo. Isso vale para todos os pólos, sem exceção, sem favorecimentos e sem desculpas.
Não delego o meu destino e não torço mais a favor nem contra nenhuma instituição organizadas com fins político-partidários, classistas ou normativos porque são todos excludentes. Também me tornei extremamente desconfiado da verdadeira intenção de quem se candidata a algum cargo de representação pública em função de todas as incoerências e de todas as inversões de prioridade.
Portanto, na contemporaneidade, a cidadania não é mais representada pelo voto para cargos públicos, nem por trabalhar (remuneradamente ou não) a favor de alguma candidatura. Cidadania é participar, agir, ajudar, ser útil e buscar o bem comum com respeito, tolerância e despido de preconceitos, aliando sensibilidade e técnica a serviço de todos.
Se a ágora representada pela praça pública da pólis grega deslocou-se majoritariamente para os produtos da mídia (seja ela grande ou pequena, física ou virtual, massiva ou de nicho), é através do domínio dessa nova linguagem, dessa nova dinâmica de fluxos comunicacionais e, sobretudo, dessa gramatologia que a participação tem sido potencializada.
Política partidária significa tomada de poder. Todavia, as demandas individuais e coletivas são tão heterogêneas e pontuais que a forma mais eficiente de obter êxito ao negociá-las na atualidade é através da pulverização dos anseios, das necessidades, dos sonhos, das queixas e das soluções materiais imediatas sem tomar o poder.
É preciso compreender que ser a favor do sensível, do humano e do honesto e marcar posição firme contra o especulativo, o egoísmo e a ignorância não pressupõe a adesão ao discurso inócuo que ataca ou defende incondicionalmente a alguém ou a alguma coisa. Dessa forma, ser a favor de algo não significa ser contrário a alguém mas, sim, ser contrário a idéias antagônicas inconciliáveis e incompatíveis com o bem comum a todos.
Hoje, sinto-me como membro de uma multidão heterogênea e dispersa que, volta e meia, une-se em prol de uma demanda comum e, tão logo obtenha êxito definitivo, dispersa-se porque, de resto, aquelas pessoas todas não apresentam valores e crenças compartilhadas pela maioria na maior parte do tempo.
O povo é manipulado por uma série de interesses. A massa é desorganizada e 100% imprevisível. Já a multidão não: a multidão é onipresente e não obedece a nenhum mantra político-partidário. E, felizmente, sua força reside em sua autonomia e na possibilidade de cada um aceitar que é diferente mas que não é melhor nem pior do que ninguém. Que eles, elas e os outros não existem: o que existe é a circularidade entre o eu e o nós, desde o poucos de nós até o muitos de nós.
Essa é a leitura que faço de NEGRI e HARDT.
E essa é a leitura que faço do ZAPATISMO.
Minha decisão é: enquanto o sistema for assim, VOTO NULO com a tranqüilidade de que não posso me contentar com “o melhor dentre os ruins” ou com o “menos fraco” e, acima de tudo, de que o voto pode tranqüilamente ser facultativo.
Ao invés de omissão, de ignorância ou de intempestividade, considero minha posição um ato de protesto contra as regras da representatividade político-partidária. É uma forma de definir o meu lugar de exercer política.
Finalmente, por uma questão de ordem prática, desunida ou incoerente, a esquerda local não tem condições de retomar o poder aqui. Sendo assim, como cobrar, como fiscalizar, como exigir e como dialogar quando ainda se acredita que a única forma de ação política é tomar o poder?!
“O FATO DE ALGUÉM PENSAR DIFERENTEMENTE DE MIM NÃO SIGNIFICA NEM QUE EU SEJA MELHOR, NEM QUE ELE SEJA PIOR.”