EM PORTO ALEGRE, A ESQUERDA PRECISA VOTAR NULO

Há algumas semanas, o RODRIGO CARDIA do CÃO UIVADOR mencionou a possibilidade de votar nulo.

Durante muitos anos, tive motivos de sobra para crer que o voto nulo favorecia às oligarquias e à direita. Além disso, ele era um direito do cidadão para tentar melhorar a convivência, a civilidade, o respeito, a autonomia e a economia de um determinado espaço geográfico cuja natureza e cuja urbe compartilha com muitos outros cidadãos. Em uma condição supostamente “normal” (ou, melhor, seguindo um certo consenso), abdicar de um direito desse porte significaria omissão, egoísmo ou ignorância – na minha opinião, os piores resultados da modernidade.

Todavia, o BRASIL mudou muito: em determinados quesitos, melhorou demais. Já em outros, as concessões feitas para poder distribuir melhor a renda e investir mais no social resultaram em severas catástrofes do ponto-de-vista do que é sensível e coletivo.

Tais mudanças colaboraram para que o maior medo das esquerdas (o coronelismo interiorano da troca de votos por paliativos materiais para a miséria) tenha sido significativamente reduzido.

Dessa forma, penso que o voto obrigatório já pode ser plenamente substituído pelo voto facultativo: primeiro, porque o dinheiro para comprar votos nunca é suficiente; segundo, porque qualquer pessoa coagida por um “coroné” ou por um de seus “capitães do mato” pode votar em outro candidato, anular ou votar em branco porque (estritamente nesse sentido), felizmente, não há provas materiais do seu voto.

Não gosto da área do Direito – ciência normativa moldada por uma ampla maioria de representantes do conservadorismo, que legisla a favor da sua própria casta. Também não confio no sistema eleitoral atual, que obriga todos a realizarem alianças programática e ideologicamente inaceitáveis e a venderem-se para os interesses daqueles que sempre estiveram no poder para atingirem o poder político. Também sei que não é possível fazer todo mundo escolher sim ou não ou, então, que todos os cidadãos tenham a palavra em assembléias. Plebiscito pra tudo também é impossível.

Com ou sem uma classe média raivosa, revanchista, racista e ignorante; com ou sem uma articulação poderosa, maleável e independente de qualquer relação espacial, geográfica ou até mesmo virtual; com ou sem o megafone desse poder etéreo chamado mídia corporativa, hoje penso de maneira diferente.

O Governo Lula resulta de um hibridismo entre esquerda e direita que só pôde ser realizado através de um pragmatismo capaz de ampliar a distribuição de renda desagradando amplamente à extrema esquerda e à exrema direita. Isso não quer dizer que o Governo Lula seja o melhor de todos os tempos e nem o pior, mas que faz muito mais tanto pelos especuladores financeiros e pelos miseráveis do que qualquer outro desde a Era Vargas (não que Vargas fosse suficientemente ‘bom’).

A luta de classes e as várias dicotomias tais como capital x trabalho; burguesia x proletariado; ricos x pobres; brancos x negros + índios; brasileiros x estrangeiros; civis x militares e assim por diante existem e não podem ser empurradas para debaixo do tapete. Da mesma forma, o neoliberalismo é muito mais nocivo do que favorável à maioria da sociedade. Os pobres sempre verão os ricos de uma certa forma e vice-versa. Afinal de contas, ignorância, preconceito e boatos ocorrem em qualquer ambiente moldado por humanos.

De toda sorte, há uma série de crenças que não apresentam mais nenhuma possibilidade
de serem empiricamente representadas através de fatos, eventos ou
modelos prontos ou puristas, nos quais muitos ainda crêem e continuarão crendo. Isso vale para todos os pólos, sem exceção, sem favorecimentos e sem desculpas.

Não delego o meu destino e não torço mais a favor nem contra nenhuma instituição organizadas com fins político-partidários, classistas ou normativos porque são todos excludentes. Também me tornei extremamente desconfiado da verdadeira intenção de quem se candidata a algum cargo de representação pública em função de todas as incoerências e de todas as inversões de prioridade.

Portanto, na contemporaneidade, a cidadania não é mais representada pelo voto para cargos públicos, nem por trabalhar (remuneradamente ou não) a favor de alguma candidatura. Cidadania é participar, agir, ajudar, ser útil e buscar o bem comum com respeito, tolerância e despido de preconceitos, aliando sensibilidade e técnica a serviço de todos.

Se a ágora representada pela praça pública da pólis grega deslocou-se majoritariamente para os produtos da mídia (seja ela grande ou pequena, física ou virtual, massiva ou de nicho), é através do domínio dessa nova linguagem, dessa nova dinâmica de fluxos comunicacionais e, sobretudo, dessa gramatologia que a participação tem sido potencializada.

Política partidária significa tomada de poder. Todavia, as demandas individuais e coletivas são tão heterogêneas e pontuais que a forma mais eficiente de obter êxito ao negociá-las na atualidade é através da pulverização dos anseios, das necessidades, dos sonhos, das queixas e das soluções materiais imediatas sem tomar o poder.

É preciso compreender que ser a favor do sensível, do humano e do honesto e marcar posição firme contra o especulativo, o egoísmo e a ignorância não pressupõe a adesão ao discurso inócuo que ataca ou defende incondicionalmente a alguém ou a alguma coisa. Dessa forma, ser a favor de algo não significa ser contrário a alguém mas, sim, ser contrário a idéias antagônicas inconciliáveis e incompatíveis com o bem comum a todos.

Hoje, sinto-me como membro de uma multidão heterogênea e dispersa que, volta e meia, une-se em prol de uma demanda comum e, tão logo obtenha êxito definitivo, dispersa-se porque, de resto, aquelas pessoas todas não apresentam valores e crenças compartilhadas pela maioria na maior parte do tempo.

O povo é manipulado por uma série de interesses. A massa é desorganizada e 100% imprevisível. Já a multidão não: a multidão é onipresente e não obedece a nenhum mantra político-partidário. E, felizmente, sua força reside em sua autonomia e na possibilidade de cada um aceitar que é diferente mas que não é melhor nem pior do que ninguém. Que eles, elas e os outros não existem: o que existe é a circularidade entre o eu e o nós, desde o poucos de nós até o muitos de nós.

Essa é a leitura que faço de NEGRI e HARDT.

E essa é a leitura que faço do ZAPATISMO.

Minha decisão é: enquanto o sistema for assim, VOTO NULO com a tranqüilidade de que não posso me contentar com “o melhor dentre os ruins” ou com o “menos fraco” e, acima de tudo, de que o voto pode tranqüilamente ser facultativo.

Ao invés de omissão, de ignorância ou de intempestividade, considero minha posição um ato de protesto contra as regras da representatividade político-partidária. É uma forma de definir o meu lugar de exercer política.

Finalmente, por uma questão de ordem prática, desunida ou incoerente, a esquerda local não tem condições de retomar o poder aqui. Sendo assim, como cobrar, como fiscalizar, como exigir e como dialogar quando ainda se acredita que a única forma de ação política é tomar o poder?!

“O FATO DE ALGUÉM PENSAR DIFERENTEMENTE DE MIM NÃO SIGNIFICA NEM QUE EU SEJA MELHOR, NEM QUE ELE SEJA PIOR.”

VOTE NULO.

AINDA SOU O MESMO DE SEMPRE

Este blog nasceu quando eu ainda acreditava em muitas das instituições brasileiras que demonstram-se ora viciadas. Na mesma época, eu ainda acreditava em várias formas de reivindicação e de debate regidas pelas atuais leis brasileiras como a “melhor” forma de solucionar demandas sociais relevantes para tentarmos transformar a pirâmide social em um cubo.

Não vou deletar nem me arrepender de nada do que eu escrevi daqueles tempos em que ainda cria nos partidos, nos sindicatos, nas leis: eventualmente, um daqueles fatos pontuais pode ser fonte de alguma solução contemporânea porque a temporalidade de ambas as questões permanece semelhante e segue o mesmo ritmo dos ritos políticos modernos.

A transição da modernidade para a pós-modernidade é desigual e jamais terminará: mais cedo ou mais tarde, a mudança de época consolidar-se-á por diversas culturas de forma que a técnica e a comunicação atinjam o mesmo grau de fonte de poder e de meio de realização econômica ao qual o meio urbano já vive.

Por outro lado, algumas raras sociedades pré-históricas, medievais ou agrárias ainda poderão viver muito bem nesses estágios de temporalidades, culturas e alteridades distintas. Por uma questão de cidadania, tudo isso deve ser tolerado, respeitado e não-modificado de fora para dentro. O desafio é proteger essas culturas e ajudá-las a resistir ao bombardeio hegemônico, cujo objetivo de homogeneizar a sociedade é meramente comercial.

O problema maior surge quando defende-se como único modelo de sociedade a celebração dos valores iluministas da Revolução Francesa como um mantra; a modernidade industrial taylorista-fordista como uma forma de organização tão necessária como conflitante e a tecnofilia do fetiche, na qual o produto sociotécnico torna-se mais do que a forma com que a sociedade irá se apropriar do seu uso mais importante do que esse uso.

Cada indivíduo é responsável e interessado por uma determinada esfera da sociedade. Sua vontade de atuar coletivamente depende do quão consciente ele é da sua identidade e da sua pertença. Essa consciência da preservação de uma cultura local, hoje em dia, para a MINHA forma de atuar como ativista, significa pouco e não soluciona mais nem questões pontuais e imediatas, nem tampouco ajuda-nos a encontrar o primeiro floco que originou a imensa bola de neve na qual estamos todos presos.

Não tenho como ensinar nem como impor um jeito “certo” de blogar ou de resistir. Tampouco sei qual é o jeito “errado” de blogar ou de resistir. A única coisa que eu sei neste início de pós-modernidade é que toda a informação que circula pelo ar e pelas ondas eletromagnéticas vai reverberar em algum lugar. Depois, em outros. Mais adiante, em mais outros. Quando voltar, terá sido rebatida e transformada por incontáveis mediadores e remediadores daquele fato inicial.

Portanto, não creio que a solução para um problema local tenda a ser resolvida mais rapidamente se ela permanecer restrita a um conjunto extremamente pequeno de interlocutores locais: ela precisa circular e ser transformada no meio do caminho.

BLOGOSFERA E MIDIATIZAÇÃO

Reitero a importância da campanha NÃO SOU BLOGUEIRO DE ALUGUEL lançada pelo FREELANDO PRO DIABO: todo blogueiro amador que leva a sério esse movimento garante a sua preocupação com a ética e com a credibilidade dos blogs que se propõem a falar sobre política e a criticar as escolhas da mídia corporativa.

Essa ética que os blogs clamam para si precisa reconher um fato muito delicado que grande parte da esquerda simplesmente ignora porque esquece que seu telhado possui o mesmo vidro do telhado do vizinho: não há barreiras entre a blogosfera e os meios de comunicação de massa, quer falemos sobre veículos da mídia alternativa, quer falemos sobre a mídia hegemônica. Afinal de contas, as notícias, as críticas, as denúncias, as informações e a disponibilidade de provas documentais estão em um lugar e estão em todos os lugares ao mesmo tempo.

A pós-modernidade é a rede. As relações são encadeadas através de teias, nas quais cada um de nós representa um nó. E cada nó apresenta um número diferente de laços com outros nós, estejam eles geograficamente próximos ou distantes entre si. Ao mesmo tempo, estabelecemos laços mais fortes com alguns nós e laços mais fracos com outros nós, sendo que, em alguns casos, os laços podem simplesmente ser rompidos.

A midiatização está aí. Ela não é palpável, nem tampouco é um bicho-papão. Porém, dela, hoje em dia, praticamente ninguém escapa: afinal de contas, de onde vem tudo o que discutimos em nossos blogs, hein?!

Direta ou indiretamente, quer queiramos ou não, somos nós que apresentamos laços elásticos com a mídia alternativa e também com a mídia hegemônica, sejam eles diretos ou indiretos. Pode-se preferir um tipo de relação a outra. Podemos ignorar ou até mesmo negarmos a existência de um laço com um nó que não partilha da mesma agenda que defendemos em nossos blogs. Contudo, estamos todos ligados.

Vou continuar chovendo no molhado para que vocês entendam melhor o ambiente no qual decidiram se meter no momento em que decidiram publicar seus pensamentos na internet:

a) Mídia hegemônica: possui a seu favor milhões de leitores, ouvintes e telespectadores; nomes de profissionais conhecidos e famosos que lhes dão letras, vozes e imagens; uma gramática discursiva exaustivamente treinada e reconhecida pela massa há várias décadas; muito dinheiro e toda uma rede social arranjada no seio dos poderes econômico, político e coercitivo à sua disposição;

b) Mídia alternativa: possui uma massa crítica diferenciada, porém minoritária. Carece de verba para expansão do seu alcance e, acima de tudo, de aprender a discursar com mais imagens, menos texto e palavras-chave que evoquem a participação em rede;

c) Blogosfera política não-patrocinada: não pode negar a sua responsabilidade como elo em uma cadeia de eventos imprevisíveis, cuja vazão nem a mídia central e nem a mídia periférica têm como controlar.

Também não podemos negar a grande contradição contida nessa relação: sempre que nos interessa, somos oportunistas o suficiente para, eventualmente, deixarmos de lado a crítica e a denúncia do método de produção de subjetividades. Afinal de contas, é absolutamente impossível deixarmos de referenciá-los e de (mesmo negando até a morte) desejarmos ser referenciados por eles porque, bem ou mal, percebemos que blog não é mídia de massa.

Os blogs não são amigos nem inimigos dos meios de comunicação de massa e nem estes são amigos ou inimigos dos blogs: não se pode nem se deve esperar nada deles, muito menos fazê-los esperar de nós um comportamento ou um padrão de cooperação: todos eles, sem exceção, irão publicar pautas que não serão unanimidade na blogosfera. Seja na crítica, seja na denúncia, seja na adesão, seja no aprofundamento de uma questão qualquer, mesmo com muitos pontos em comum, somos multifacetados, multiculturais e diferenciados a partir de nossas referências exclusivamente individuais.

Reflitam bastante sobre o papel dos blogs políticos de esquerda: afinal de contas, a direita não tem obrigação de ser diferente do que ela é. Não tem necessidade de reinventar-se a cada fracasso, pois foi a partir dela que os sistemas econômico e político vigentes foram forjados.

Todo jogo tem suas regras – nem que elas existam para serem quebradas. E todo jogo é uma forma de competir. Infelizmente, são raríssimos os jogos nos quais todos são vencedores ou todos são vencidos.

Quem entra na chuva é pra se molhar: entrou em campo, tem que saber que é pra ganhar ou perder. Em relações sociais desiguais não existe empate nem resultado bom para ambos os oponentes.

Porém, que tal trocarmos “luta” por RESISTÊNCIA e “burguesia x proletariado” por INCLUSÃO + DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL? Que tal reivindicar por demandas bem pontuais ao invés de oferecer um calhamaço que ninguém irá ler até o final?

A ESQUERDA E AS MUDANÇAS NECESSÁRIAS

Pra quem acompanha as mudanças que paulatinamente vou empreendendo neste blog, minhas maiores preocupações são conceituais. São em que tom devo propor um debate a respeito de como EU, HÉLIO, acredito que a esquerda deva se articular diante de uma realidade agreste, dura, impiedosa.

Já anunciei, há algumas semanas, meu desejo de cumprir metas e atingir objetivos que atraiam um número maior de leitores. Para isso, preciso investir (sim, a vida indissociada do dinheiro em uma sociedade urbanizada não existe) através da oferta de um layout estética e funcionalmente melhor.

Desse projeto para meados de 2009, começo ressuscitando minha marca própria: heliopaz sem maiúsculas e tudo junto gera uma empatia maior com o público da internet identificado através de apelidos (nicknames) e e-mails. O sol estilizado (que também lembra uma flor) indica que helios significa sol em grego, mas que eu ofereço mais calor humano do que queimaduras.

A marca é uma prévia para a aquisição de um domínio bom de marketing, eliminando devagarito as denominações “palanque” e “apito”.

Outra novidade é a forte influência de todo o conhecimento que eu tenho adquirido durante o mestrado em uma instituição que possui uma enormidade de professores de esquerda que, contudo, criticam e acompanham atenta e continuadamente as Ciências Sociais Aplicadas desde os autores clássicos até os mais recentes, que propõem novas práticas e que enxergam problemas e soluções para os conflitos em um contexto no qual muitos autores sempre importantes não apresentam mais aquela suposta universalidade conceitual e no modus operandi de uma sociedade que jamais foi estática.

Em função disso, desisti de apoiar integral, incondicional e acriticamente toda e qualquer instituição forjada na modernidade, com as quais precisamos conviver de maneira obediente, protocolar e submissa: não creio em partidos, sindicatos, associações de classe (sejam elas patronais ou de funcionários) e dedico um tempinho a algumas pequenas causas bem pontuais que se, por um lado, representam uma modalidade de voluntariado organizada por “burgueses”, por outro já participei de muitas ações voluntárias de pessoas ditas de esquerda onde burocracia, falta de agilidade e tentativas vãs de conscientização política e de complexificação da compreensão da sociedade sempre predominaram.

Ser de esquerda HOJE exige admitir o capital e saber usá-lo, acumulando-o sem consumismo nem ostentação, porém multiplicando-o para resistir ao sistema sem tornar-se seu refém; o domínio de uma linguagem fragmentada que deve contar uma história em poucas palavras através de uma edição dinâmica e com recursos de computação criativos e competentes; buscar resolver causas pontuais sem preocupações de pertença (nada de dar valor a ser gaúcho, porto-alegrense, brasileiro, etc.).

À hegemonia global se resiste. Não se luta contra, pois a derrota é certa diante da coerção. Não se tenta substituí-la no poder, pois seremos tão totalitários quanto a direita em pouco tempo. Contudo, cada pequena ação pontual insistentemente dispersa em rede e organizada seguindo as porcas leis burguesas tende a constituir uma cadeia de acontecimentos sucessivos e parecidos com aqueles que originaram as nossas demandas no outro lado do globo. Sociedades antagônicas com problemas parecidos tendem a aproximar-se, fazendo com que o sentido de pertença, isto é, no nosso caso, o “ser gaúcho”, o “ser porto-alegrense” ou o “ser brasileiro” não tenham a menor importância, já que o modelo de dominação hegemônica e o modelo de exclusão não são mais locais e, sim, globais.

Dessa forma, percebo que o erro crasso da esquerda brasileira (apesar de suas pequenas vitórias comemoradas como se fossem grandes para, logo ali, serem novamente expulsas para a periferia das questões sociais) é viver em cima da briga do capital contra o privado, da estatização de tudo e da visão do Estado como um pai que deveria proteger a todos os seus filhos.

Vamos desenhar um círculo no qual a direita e a esquerda estejam separadas por 180º. A direita é representada pelo lobby, pelo tráfico de influência, pela aplicação acrítica de um modelo social, econômico, político e cultural nada original segundo o padrão de quem o inventou, pela corrupção, pelo gigantismo, pela falta de consideração com o sujeito e pela intolerância à diversidade que tanto criticamos. No lado oposto da roda, a esquerda, com sua burocracia, com seu excesso de regras, com sua lentidão nas decisões, com seu excesso de debates que atrasam muito a adoção de medidas populares.

Ambas podem ser totalitárias e ditatoriais. Todavia, a velocidade, o ritmo e o sentido com os quais cada um dos quesitos que usei para caracterizar dois modos tradicionalmente antagônicos de ver o mundo se cruzam nessa roda (e, acima de tudo, o tempo em que dura a intersecção entre dois ou mais desses quesitos) comprova que há atravessamentos de diferentes níveis realizados de maneira mais ou menos competente, mais ou menos solidária, mais ou menos eficiente por todos os atores existentes.

A circularidade acima também explica em parte o porquê da mídia hegemônica partidarizada e comprometida com interesses graúdos ter um lado não-FDP: o mesmo jornalista, o mesmo patrocinador e o mesmo leitor predominantemente conservadores não são, per se, intrinsecamente “maus” nem “bons”: eles são, assim como a Madre Teresa de Calcutá, Adolf Hitler, Gustavo Kuerten ou Marcelinho Carioca tão capazes de matar ou morrer de maneira atroz e ilegal se movidos por um nível de pressão forte o suficiente para fazer o lado racional levar uma goleada histórica do lado instintivo que cada um tem dentro de si.

Ela tem seus interesses. É predominantemente comprometida. Todavia, não pode jamais negar-se totalmente a prestar, por mínimo que seja, um serviço de utilidade pública que pode ajudar pessoas a poupar tempo, dinheiro e até mesmo a salvarem suas vidas.

Não estou defendendo-a. Nem tampouco acho que os blogs (e até mesmo eu, eventualmente) devam deixar de analisar nas entrelinhas o que o texto diz. A blogosfera tem a obrigação de denunciar, de expor a verdade. Sua credibilidade depende disso.

Porém, mesmo que cada blogueiro fale sobre aquilo que entende melhor ou que lhe dê na telha sem censura e com o seu próprio livre arbítrio é fundamental sempre que o esquerdista reveja seus próprios conceitos. Aprender e reciclar-se não significa se vender, fraquejar e nem tampouco achar que a esquerda boa é a do lulo-petismo, dos trabalhistas ou da Manu.

Insisto sempre no ponto-de-vista das redes: a esquerda precisa ACEITAR USAR E MULTIPLICAR o capital como instrumento de aparelhamento. Deve, acima de tudo, perder o seu histórico preconceito contra a midiatização e contra as novas tecnologias, dominando-as a seu favor para atingir a classe média urbana.

Ao invés de mudar uma lei inteira de soco, deve-se aprender a mudar cláusula por cláusula, até converncer o lado oposto a transformar 20% ou 30% da lei de maneira que isso baste para melhorar a condição dos excluídos. É dizer a que veio, sem enrolação. É preocupar-se SIM em vender uma imagem de aparência física asseada e simpática e falar sério sem fazer cara feia.

E a esquerda tradicional costuma fazer cara feia na maior parte do tempo. A esquerda tradicional enrola, fala difícil, quer forçar a barra em conscientizar a tudo e a todos.

Isso é antipático. Isso definitivamente não funciona. E isso é muito mais grave do que meramente discutir a falta de eqüidade de formas de fazer mídia ou, “Oh, coitados de nós! Como iremos aparecer para a sociedade de maneira positiva sem dinheiro?”

Se não for dessa forma, jamais se conseguirá obter adesões significativas de onde quer que elas venham para causas que parecem pequenas mas que, por analogia, des
pertarão o interesse localizado de pessoas que vivem problemas parecidos com os nossos e que precisarão de nossa ajuda.

Se não for assim, o enorme contingente de 88% de brasileiros que vive no meio urbano jamais será simpático ao desenvolvimento sustentável, à reforma agrária, à prática desportiva, à multiplicação dos pequenos empreendimentos locais com parcerias globais idôneas e sem gigantismo a fim de fazer a economia prosperar de vez.

Mais foco e menos coitadismo. Mais criatividade e menos ortodoxia. O discurso apenas deslocou-se para outro locus e segue uma nova gramática. Porém, não se esvaziou. Portanto, o movimento da sociologia, da psicologia, da pedagogia, da comunicação, da administração e da economia precisam ser mais ágeis ao recriarem seus novos discursos.

DESCENTRALIZAÇÃO > INSTITUCIONALIZAÇÃO

O prof. GILSON CARONI, que leciona SOCIOLOGIA na FACHA, é colunista da AGÊNCIA CARTA MAIOR e colabora com o OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, defende, em seu artigo mais recente, que Lula é de esquerda.

Embora minhas leituras sobre Sociologia, Antropologia, Ciência Política, Filosofia, Psicologia e tanto minha militância presencial como minha relativa juventude sejam extremamente incipientes perto de qualquer intelectual (mesmo os de má qualidade – o que não é o caso do prof. Gilson), tenho uma percepção e uma série de referenciais que me permitem emitir minha opinião.

Perrrguntas:

1) A quem interessa defender um partido, um sistema partidário, as empresas globalizadas ou um estado como locus de pertença representativo da alteridade?

2) A quem interessa utilizar figuras semânticas em retóricas vazias sem um verdadeiro sentido de inclusão, tais como “povo”, “partido”, “sindicato”, “cooperativa”, etc.?!

Quando em algum momento da história o PT trabalhou verdadeiramente pelos movimentos sociais a não ser para incluí-los no seu modelo de cidadania e de meritocracia, que inclui somente quem for sindicalizado? Enquanto o cara não for sindicalizado, ele não tem voz. Ele é um mero prospect, ou cliente em potencial. Quando “assina o contrato”, o partido trabalha um pouco por ele a fim de ganhar adeptos para todas as suas causas. Contudo, quem verdadeiramente faz um FORUM SOCIAL MUNDIAL são as entidades globais e locais da sociedade civil organizada. Os partidos, os governos e as empresas têm um papel extremamente reduzido em termos de mobilização e de proposições para as demandas da sociedade.

Mesmo que toda resistência seja necessária, já foi-se o tempo em que fazer bravata, greve, operação-tartaruga e o escambau resolvia alguma coisa de maneira permanente e, sobretudo, garantindo os grevistas ou os sindicalistas no emprego. Hoje em dia, não é o discurso político que é vazio mas, sim, o discurso político-partidário. Não é mais a pertença a um determinado pedaço de terra ou a identificação com um punhado de gente que se criou de maneira semelhante que garante por quem ou para quem se deve lutar a fim de se ter uma vida melhor: o ativismo é pela saúde do planeta que, espera-se, influenciará melhorias substanciais na saúde, na educação, na infra-estrutura, na energia sustentável, no reaproveitamento de material, na redução radical da exploração dos recursos naturais e em uma racionalidade jamais antes vista em transportes e infra-estrutura, contribuindo para uma sociedade cujo maior valor seja a solidariedade.

Mesmo com palavras diferentes dos autores e misturando uma coisa com a outra, tudo o que eu disse no parágrafo anterior aproxima-se bastante dos últimos trabalhos do prof. BOAVENTURA DE SOUZA SANTOS, da UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA, e também dos trabalhos de ALBERT-LASZLÓ BARABÁSI (LINKED), STEVEN JOHNSON (EMERGÊNCIA) e, acima de todos estes, da dupla ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT (IMPÉRIO e MULTIDÃO).

A Grande Imprensa ataca, mente e omite. Mas a audiência NÃO É PASSIVA: ela interpreta a notícia e a coluna de acordo com o referencial cultural (escolaridade, rua, bairro, cidade, clube, profissão, trabalho, praça, trânsito, idiomas, viagens, etc.) e com a sua alteridade (aonde estou, a que/a quem/com quem/com o que me sinto íntimo, à vontade e me dá vontade de ajudar e de aceitar ser ajudado; de defender e de cobrar que seja defendido). A esquerda precisa conhecer autores latino-americanos que escrevem sobre sociedade midiatizada, propaganda, consumo como JESÚS MARTÍN-BARBERO, OROZCO, NESTOR GARCÍA-CANCLINI, ARMAND MATTELART, MUNIZ SODRÉ e também fazer um paralelo entre as histórias sociais do conhecimento e da mídia, através do trabalho dos ingleses ASA BRIGGS e PETER BURKE.

Se todos fossem uns coitadinhos ignorantes, explorados em todos os sentidos, subservientes e obedientes em todas as situações de suas vidas, aí, sim, a Grande Mídia, seus patrocinadores e seus representantes em todos os níveis de governo seriam “os” grandes intelectuais orgânicos. Seu papel é importante para a manutenção do status quo e merece todo o nosso cuidado e as nossas denúncias. Porém, há várias instâncias que devem ser observadas fora da mídia, dos partidos, dos sindicatos e das empresas que envolvem ações globais descentralizadas que, através da internet e dos celulares, ao invés de entregarem o ouro ao bandido, voltam a oferecer força e seriedade às manifestações presenciais. Portanto, o discurso político existe com força, sim, e não é nada vazio.

Concordo com o artigo: Lula não deixou de ser de esquerda e nem tampouco se vendeu ao sistema: todavia, tudo em que sempre acreditou está repleto de referências setentistas do “milagre brasileiro”, onde engenharia pesada era sinônimo de desenvolvimento e foda-se a natureza, pois o homem é um animal “superior”.

Não importa quem, aonde nem quantos foram os petistas históricos que abandonaram o partido prevendo esse desastre nem quais foram os oportunistas de outras siglas não necessariamente de esquerda que juntaram-se ao PT (e, pior, foram aceitas). O que importa é que, se a falta de escolaridade do presidente o prejudicou em alguma coisa, o prejudicou no fato de que seus antigos “cumpanhêros” com curso superior, viajados, poliglotas e melhor articulados com empresários são hoje consultores da mesma estirpe dos que superpovoavam os gabinetes de Collor e FHC.

Um pseudo-partido de pseudo-esquerda no governo sempre fará menos pior do que um partido de centro-esquerda diante de uma população predominantemente miserável.

Repito: voto no PT, mas porque é o único partido que possui um conteúdo programático que indica menos desonestidade, maior inclusão e maior respeito às minorias. Nas eleições, caso saia de camiseta, bandana, estrela, bótons e adesivos espalhados pelo corpo, será por puro desespero, pelo mais profundo medo de ver o pior dos piores manter-se ditando as regras e privilegiando quem menos precisa de privilégios em toda a sociedade. Como nunca me filiei a partido algum, posso afirmar minha frustração e minha descofiança sem eliminar a sua importância nem o seu valor que, em determinados nichos da sociedade, ainda oferece um alento. Porém, não serve mais como tábua de salvação para um país.

Caso isso se perca, ou mudam na lei a forma de representatividade democrática, ou passarei a votar nulo, pois a militância mais importante não é a do partido, da igreja, do sindicato, do clube, da profissão: é a da cidadania. Mas não da cidadania meramente local para resolver pro
blemas egoístas ou, às vezes, até mesmo pequenos: a verdadeira militância, o verdadeiro ativismo é o da CIDADANIA GLOBAL.

Bato sempre nessa tecla. Enquanto isso não for introjetado em toda a esquerda, enquanto os esquerdistas não crerem mais na desinstitucionalização do que em entidades de classe oportunistas que funcionaram durante décadas mais como intelectuais orgânicos para sustentar os privilégios de uma minoria do que como fonte permanente e honesta de militância, ativismo e luta contra um poder antagônico e excludente, todo e qualquer embate tende a ser vergonhosa e ingenuamente perdido.

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