POSICIONAMENTO DO BLOG: A AGENDA PARA UM NICHO ESPECÍFICO

Assisti (online) à mesa de debates sobre blogs e política da Campus Party 2010. O tema me é caríssimo, pois considero-me (embora a academia não me considere enquanto não estiver disposta a me dar um lugar) um pesquisador iniciante na área.

Sempre vi os blogs como a maior possibilidade que o cidadão não-profissional e não-sindicalizado possui de tornar a sua opinião conhecida pelo público. Além disso, o olhar de quem descreve, elogia e denuncia está cada vez mais próximo do cotidiano do que as práticas usuais da mídia corporativa de massa. Defendo que a blogosfera é capaz de desconstruir o pseudoenvolvimento e o distanciamento nada sociológico e nada psicológico das reportagens e das opiniões de um sistema de comunicação que procura emitir uma única visão de mundo para todos.

A polarização partidária e ideológica restringe a credibilidade de temas e fatos que deveriam estar na boca de todos. A crítica à edição e à apuração baseados na distorção, na omissão, na supervalorização, na minimização, na escolha do que e como deve ou não ser dito (e, sobretudo, nas bandeiras levantadas a favor dos interesses econômicos dos financiadores da mídia corporativa) principalmente em relação a tudo o que envolve política, economia, lei e moral deve ser sempre denunciada e monitorada. Contudo, creio que a maioria dos blogs independentes erra feio ao fazer dessa pauta a sua principal (muitas vezes até mesmo a sua única) razão de existir.

Dentre os maiores erros da blogosfera política dita independente (porém, na verdade, altamente vinculada a ideários partidários e sindicais) é ainda crer que o mundo ainda é regido pela relação entre capital material e trabalho material e pela consequente “luta” de “classes” acima de quaisquer outros pressupostos que deveriam ser levados em consideração nesse atravessamento que vivemos entre dinâmicas sociais tão complexas e amalgamadas entre si.

É importante salientar que não vejo mais sentido algum em defender o modelo da democracia representativa, o voto obrigatório e ter que necessariamente “torcer” por um lado ou por outro. Obviamente, todos têm um lado e devem expressá-lo claramente. Afinal de contas, transparência e coerência são valores altamente desejáveis no mercado da credibilidade política em mídias digitais. Porém, não adianta nada possuir um vasto repertório intelectual e/ou uma vasta experiência de campo e de militância quando os modelos nos quais crêem apresentam-se como estáticos, ao passo que as misturas informais entre escolas não pode ser vista como má intenção ou incoerência.

Infelizmente, a população brasileira é predominantemente covarde e omissa. Os ricos, porque locupletaram-se desde o “descobrimento”; a classe média, porque tem os ricos como exemplos de sucesso e os pobres como a materialização do terror de perder o pouco que têm; e os pobres porque sempre foram bombardeados por práticas e mensagens que sempre visaram o sumo rebaixamento da sua autoestima.

Essas pessoas batem boca. Elas têm uma visão absurdamente simplista e incrivelmente genérica sobre tudo e sobre todos. Futilidades e reacionarismos à parte, todo brasileiro é médico, técnico de futebol, engenheiro, advogado, funcionário público ou empresário. A única forma de eles compreenderem algo de maneira mais complexa é sabendo produzir conteúdo posicionado, sim. Porém, não posicionado para o confronto: informação, opinião e ideologia, mas sem nenhum traço de evangelização.

A meu ver, uma sociedade covarde e egoísta se interessa mais pelo confronto sobretudo em duas situações que parecem bastante nítidas: ou quando o pivô do conflito está relacionado à sua vida cotidiana e afeta diretamente a sua qualidade de vida; ou, então, como uma forma de catarse e de desabafo em um ambiente agonístico e lúdico, porém competitivo.

Percebam nesta segunda situação a importância do esporte de alto rendimento: o campo esportivo é aquele cuja midiatização apresenta da maneira mais direta possível os conflitos e as virtudes mais comumente observados em todos os demais campos sociais: política, afetividade, sucesso, fracasso, doença, empreendedorismo, justiça, moral, religiosidade e assim por diante.

A seriedade do futebol define-se a partir da sua importância como elemento identitário, cultural e de pseudo igualdade social em um país extremamente desigual. No Brasil, a cultura oral suplanta a cultura letrada em um país de péssima escolaridade. Esse quadro favorece a fixação de lições de convivência e de modelos positivos e negativos de conduta social mais ou menos como uma fábula ou um conto. A diferença é que o cacique hoje atende pelo nome Televisão, o papa por Craque, a igreja por Estádio e as principais formas informais de transformação desse ecossistema atendem pelo nome de Mídias Sociais.

O problema-chave para mim desde que comecei a blogar politicamente é o seguinte: se eu não sou conhecido; se eu não sou jornalista, sociólogo nem cientista político e se eu não sou líder comunitário nem filiado a nenhum partido, de onde virá a minha credibilidade e a subsequente expansão da minha rede de interagentes?

A quantidade de entrevistas e de observações de campo é muito pequena. Portanto, não sou um repórter típico.

Procuro na blogosfera e nos portais uma série de opiniões e de notícias sobre os quais me interessa analisar. No entanto, se um jornalista possui uma visão limitada, densamente filtrada, generalista e – normalmente – bastante afastada de fatos e pessoas relacionadas a estes últimos, o que dizer da minha visão, que é a de quem faz a crítica da crítica e está regularmente afastado até mesmo de quem critica por estar distante?

Por isso, a visita sistemática a blogs que parecem ser mais críticos e mais jornalísticos e o uso do Twitter para disseminá-los me parece muito mais significativa do que eu escrever sobre as mesmas coisas. A minha participação como comentador nesses blogs parece ser muito mais legítima, crível e relevante do que se eu postar o mais do mesmo, ainda que de uma maneira só um pouco diferente.

Isso me traz à cultura de nichos: se eu gosto de política, do Grêmio e de esportes em geral, devo trazer a democracia emergente e a crítica das práticas da mídia corporativa para esse âmbito. Tudo o que eu tenho a aprender e a realizar dentro desse pequeno segmento em particular tende a trazer resultados mais relevantes para o ecossistema dessa coletividade em especial.

Todavia, essa opção de pauta não impossibilita – nem diminui o meu interesse – por outros assuntos. É como ter o Bovinão e a Libertadores pra disputar ao mesmo tempo: é preciso priorizar a competição que traz resultados mais significativos ao clube. ;)

ESQUERDA NÃO SABE USAR A INTERNET NEM FAZER MÍDIA ALTERNATIVA

Pra corroborar ainda mais com meus argumentos contra o diploma de jornalismo em função da visão corporativista, paternalista e oportunista da FENAJ e dos sindicatos em relação ao tema devido ao fato de não estarem interessados nem em aprender/financiar o empreendedorismo e a autonomia de seus filiados e nem tampouco em propor melhoras no currículo e na pedagogia das faculdades de Jornalismo brasileiras, eis o post de RODRIGO ÁLVARES do blog NOVA CORJA.

IMPERDÍVEL: LEIAM JÁ!!!

O mito da imparcialidade é conversa mole pra boi dormir, assim como o coitadismo de querer/precisar ser funcionário da Grande Mídia.

Afinal de contas, até onde eu sei, nenhum jornalista é obrigado a ser escravo, omisso ou pelego, certo?

O ESQUEMA TÁTICO É IMPORTANTE?

No seguinte comentário, meu grandissíssimo amigo prof. GUSTAVO FISCHER fez algumas considerações que merecem ser apreciadas.

O Gustavo disse: “meu insight é o seguinte: os treinadores brasileiros nunca mostraram
inovação tática. o brasil é colonizado taticamente no futebol. nossa
invenção está no fato de jogadores extraordinários ocuparem as vagas
desde os WMs, 2-3-5, 4-3-3, 5-3-2, 4-4-2, etc…todos esquemas importados.”

Concordo plenamente. 75% da lista de técnicos no post comentado por ele é predominantemente formada por ex-jogadores que falam apenas o português, não possuem nem um curso superior de Educação Física, nem o curso de formação de técnicos de futebol da CBF ou da UEFA. Seu trabalho é orientado pela sua intuição, cuja referência empírica vem de uma época na qual o futebol era muito diferente daquele que é jogado atualmente. Procuram compensar a falta de domínio tático e da percepção detalhada dos pontos fortes e fracos de ambos os oponentes (isto é, do seu próprio time e também do adversário) através da motivação.

Como não são estudiosos e nem psicólogos e o Brasil não possui a figura do diretor técnico que aplica uma tática voltada para cada adversário, escala, contrata e libera jogadores, o prazo de validade de todos os técnicos no país, sem exceção, varia de quatro meses a três anos.

Eu fico com a entrevista que o LUCAS LEIVA, ex-GRÊMIO atualmente no LIVERPOOL deu ao João Castelo Branco da ESPN BRASIL: não há mais, nos centros desenvolvidos europeus, as figuras do volante que defende mais do que ataca nem a do meia habilidoso que ataca mais do que defende. A exigência é que cada um saiba exatamente a sua posição INICIAL dentro de campo e se deverão exercer marcação individual ou por zona. Bom passe, inteligência e habilidade ao dar o bote no adversário e muita velocidade são qualidades inerentes a todos os jogadores.

Por que eu não gosto do MARCEL no GRÊMIO, assim como o PETER CROUCH foi uma solução incompleta para o LIVERPOOL? Porque a mobilidade deles é pequena e nem mesmo atitude de pivô eles têm, já que o passe e a velocidade de resposta de ambos os avantes são pífios.

Vejam a zaga do GRÊMIO: ninguém é lento ou pesado e a qualidade do passe é um pouco acima da fraca média dos zagueiros em atividade no futebol brasileiro. Todos eles, quando devidamente cobertos, arriscam-se não apenas nos escanteios para o cabeceio mas, sim, em avançar como efeito surpresa para lançamentos rumo à área. Peguem o THIEGO no GRÊMIO e o CARRAGHER no LIVERPOOL: dadas as diferenças de experiência, maturidade e consagração, o papel deles muitas vezes substitui o de um volante ou de um lateral.

Acho que o que define o futebol hoje é a versatilidade. Há, sim, um biotipo próprio para quem deve destruir, outro para quem deve construir e outro para quem deve finalizar. Mas nada garante que dois times parelhos em um 442 clássico farão um “jogo de xadrez”, nem que um time no 352 contra outro no 442 será mais frágil ou mais surpreendente.

Bem ou mal, os técnicos de clubes brasileiros – quando suficientemente bons – são verdadeiros alquimistas: no verão, o mercado nacional impõe baixas no plantel dos mais pobres e fartura (mais em quantidade do que em qualidade) nos mais ricos; no inverno, severas baixas para o mercado europeu desmontam um time que está começando a manter o ritmo de jogo desejado. É uma analogia com os economistas brasileiros dos tempos de hiperinflação, que são ágeis ao lidar com cenários tão dinâmicos quanto imprevisíveis.

O importante mesmo é conhecer as peças brancas, as peças pretas e transformar o máximo possível de peões em rainhas.

Um exemplo disso sou eu mesmo: no meu jogo de terça-feira na ASHCLIN, eu me fardo pensando em atacar. Aí, eu vejo que tem um guri rápido que não marca e um veterano mais leve e com melhor chute do que o meu. Vou para a zaga, claro. Mais adiante, quando o time deles começa a cansar e o resultado já é favorável ao meu time, posso ir para cima, pois o espaço para eu perder 2/3 das oportunidades de gol que surgem à minha frente e, mesmo assim, balançar as redes e garantir a vitória aparece na segunda meia hora de jogo.