Sinceramente, não tenho acompanhado as pesquisas fora da capital. As
daqui, só leio no C
ORREIO DO POVO, pois a assinatura custa menos do que
dois almoços em algum buffet livre do BOMFIM. E eu já vi tanta coisa em
20 anos como eleitor, líder estudantil e militante partidário que não
tenho considerado muito as pesquisas nem a favor, nem contra a
esquerda, pois a única que acerta com uma margem de erro minimamente
aceitável (uma pesquisa com amostragem significativa não pode permitir
uma margem de erro superior a 2% sob hipótese alguma) é a de boca de
urna e aí já é tarde demais.
Nas ruas da capital e através das janelas do trem, tenho visto que o PT
também se rendeu à militância de aluguel – e com um volume de
investimento que diria ser bem próximo daquele gasto pela direita em
situação semelhante. Essa é uma das conseqüências mais tristes da
midiatização: a necessidade de conviver com o neoliberalismo para poder
sobreviver como sigla e, acima de tudo, para poder realizar algo pelos
mais necessitados sem a possibilidade de fugir completamente da lógica
que trata os discursos como palavras-chave meramente retóricas e da
roupagem meramente publicitária dos candidatos, que são vendidos como
mercadorias. Enfim, um sinal do esvaziamento do espaço público como ágora…
Em função do quadro de blindagem da administração FOGAÇA e da extrema inteligência eleitoral e mercadológica da candidata MANUELA e do partido coligado ao seu PC do B (o PPS) aqui em PORTO ALEGRE, a alienação promovida pelos empresários, políticos e donos dos meios de comunicação oriundos da oligarquia branca guasca maneja direitinho a parcela otária da classe média (ou, seja, aquele tipo que come galinha e arrota faisão). Portanto,não é aqui que está a minha maior esperança de conquistas políticas e eleitorais voltadas prioritariamente para aqueles que mais precisam mas, sim, na maior parte dos municípios da GRANDE POA.
Tenho convivido mais proximamente com pessoas muito humildes da GRANDE POA através do TRENSURB entre as estações AEROPORTO e UNISINOS. À exceção da estação MERCADO no Centro da capital, as estações mais densamente freqüentadas são as de CANOAS: NITERÓI/UNIRITTER, FÁTIMA, CANOAS/LA SALLE, MATHIAS VELHO, SÃO LUÍS/ULBRA e PETROBRÁS.
Sem sombra de dúvida, o maior contingente de pessoas muito sofridas e bem pobrezinhas costuma subir ou descer nas quatro primeiras estações do município vizinho. Muitos trabalham como feirantes, seguranças, porteiros, secretárias, faxineiras, jardineiros, pedreiros, carpinteiros, motoristas ou fazem algum dentre os tantos cursos técnicos baratos do Centro da capital. Fazem um esforço hercúleo para sobreviver com um ou dois salários mínimos e, ainda, tentar estudar à noite. Triste mesmo é a situação de quem já possui mais de 55 anos com uma aparência 20 anos mais velha, sem o ensino fundamental completo e ainda precisa trabalhar para poder comer…
Pois bem: dentro do metrô, já acompanhei muitas conversas entre amigos, vizinhos e colegas de trabalho falando sobre os candidatos a vereador de Canoas. Um mais informado procura explicar aos demais quem é e o que já fez pela comunidade o seu candidato. Para minha surpresa, a maioria dos candidatos bem recomendados são do PT. Embora em SÃO LEOPOLDO tenha visto uma certa eqüidade de material de campanha de candidatos a vereador pelo PT e PDT e em SAPUCAIA DO SUL pareça que o candidato a prefeito pelo PMDB seja o mais exposto, em GRAVATAÍ, SÃO LEOPOLDO, VIAMÃO, CACHOEIRINHA e – pasmem – até NOVO HAMBURGO, os favoritos a essas prefeituras são do PT. E o número de vereadores petistas seguramente irá crescer em todos esses municípios, sendo que em alguns deles pode ocorrer pela primeira vez na história uma maioria de esquerda na Câmara Municipal.
A conservadora NOVO HAMBURGO seria uma conquista de valor simbólico e prático extremamente densa, pois é muito difícil a esquerda vingar até mesmo entre os pobres em municípios de herança cultural predominantemente alemã. A possibilidade do candidato do PT ser eleito abriu-se no instante em que negros, índios e mestiços já representam grande parte da população pobre, que era antigamente composta pelas mesmas etnias hegemônicas.
GRAVATAÍ, SÃO LEOPOLDO e VIAMÃO já tornaram-se redutos petistas mesmo com apenas dois ou três mandatos petistas nos últimos 20 anos. A ex-prefeita e deputada estadual STELA FARIAS (extremamente combativa na CPI do DETRAN) ajudou a formar novas lideranças, assim como seu colega DANIEL BORDIGNON em GRAVATAÍ (que vai ganhar provavelmente com a maior margem de diferença da GRANDE POA), de volta para o seu terceiro mandato. Em SÃO LEOPOLDO, o prefeito ARY VANAZZI também vai para o “bicampeonato”.
Poderia ainda falar sobre outras grandes cidades do RS, como CAXIAS DO SUL, SANTA MARIA, PELOTAS e BAGÉ. Porém, dou preferência ao que está próximo da maioria dos leitores e também do meu cotidiano, trazendo-lhes o meu olhar e não o olhar mediado pelas notícias dos jornais, mesmo que sejam boas para a esquerda.
Neste ano, também passei a circular por regiões de PORTO ALEGRE pelas quais não tinha o hábito de circular anteriormente como, por exemplo, a enorme região do PARTENON. E também passei a conviver mais freqüentemente com pessoas de menor poder aquisitivo, porém não necessariamente pobres. Percebo que, apesar das urnas de bairros classe AB muito provavelmente elegerem KEVIN KRIEGER e BETO MOESCH do PP, MÁRCIO BINS ELY do PDT e REGINALDO PUJOL do DEM, além de caras tipo MAURO ZACHER do PDT, há gente nova que nunca foi eleita anteriormente pelo PT que parece ter uma excelente densidade eleitoral sem tirar muitos votos de vereadores.
Enfim, um aumento na CÂMARA DE VEREADORES para o PT não seria de todo mal caso não consiga eleger MARIA DO ROSÁRIO: apesar da perda de mais quatro anos para a cidade, o PT volta na próxima com certeza se vencer FOGAÇA e vai para o pau no 2º turno em 2012 contra MANUELA.
O alento seria o movimento bottom-up de quase todos os municípios ao redor de POA forçando um crescimento da esquerda da periferia para o núcleo central: daqui a quatro anos, essa pressão será irresistível.