APELO A MEC, CAPES, CNPQ, PPGs EM COMUNICAÇÃO E UNIVERSIDADES EM GERAL

Um post do Raphael Tsavkko Garcia retrata as dificuldades que ele enfrenta para obter um trabalho fixo remunerado e legalmente reconhecido. Tais dificuldades referem-se à enorme – e injusta – discrepância entre a experiência que a esmagadora maioria das pessoas pode oferecer no momento e entre as exigências que empresas privadas e públicas (inclusive por meio de concurso) fazem para contratar pessoas de um perfil muitas vezes inexistente.

O jovem blogueiro, um universitário carioca, ressalta também que a exigência de experiência acima de seis meses é ilegal. Portanto, trata-se de mais uma lei não obedecida no Brasil.

Seu caso é angustiante. Porém, genérico e já explorado à exaustão pela mídia corporativa – infelizmente, sem muitos efeitos sociais relevantes. É sinal de que não existe nenhuma política de recursos humanos e de empregabilidade setorial-demográfica no país. Voltarei a este tema mais adiante.

Enfim, parto dese caso como princípio para uma situação pessoal que – certamente – aflige a dezenas de mestrandos, mestres, doutorandos e doutores em Comunicação desempregados no Brasil inteiro.

Defendi minha dissertação de mestrado no dia 05/03/2009 no PPGCC/UNISINOS. Antes do mestrado, já havia lecionado por dois semestres como professor substituto na FABICO/UFRGS (instituição na qual obtive meu bacharelado em Comunicação Social na habilitação em Publicidade e Propaganda) e por mais um semestre na UNIFRA, em Santa Maria/RS. Já fui orientador de dois TCCs e participei de mais três bancas. Tudo isso ainda sem titulação e sem nenhum vínculo empregatício permanente. Professores experientes, exigentes e bastante críticos disseram que eu fui muito bem na experiência da UFRGS.

Tentei a seleção para ingressar no mestrado nos anos de 2003, 2004, 2005, 2006 e 2007 no PPGCOM/UFRGS. Tentei, ainda, o mesmo PPGCC/UNISINOS  que me acolheu em 2007 também em 2005 e, em 2007, tentei também o PPGCOM/PUCRS. Embora inseguro em uma série de questões, persistência e convicção acerca do que considero minha aptidão não falta. E consciência acerca das minhas limitações, do quanto preciso aprender para poder obter uma maior reputação também não falta.

Isso posto, definitivamente, não se pode dizer que a minha experiência até aqui é irrelevante. Tampouco pode-se dizer que sou um “aventureiro”.

Tive o privilégio de ter sido representante discente da minha turma de mestrado. Aprendi muito em termos burocráticos e institucionais – sobretudo quanto às exigências da CAPES para avaliar os cursos de pós-graduação no país. Obtive meu título em uma instituição de ponta não apenas no Brasil, como certamente também na América Latina. Fui aluno de sumidades inquestionáveis que são consultores ad hoc do CNPQ e da CAPES; ocupam ou ocuparam cargos diretivos na INTERCOM e na COMPÓS; publicaram artigos e já deram cursos de extensão e palestras inclusive no exterior – incluindo aí as minhas queridas orientadora e a coordenadora do curso. Estudei em uma instituição nota 5, que busca incessantemente atingir o nível 6 na área.

Com isso, não nego que posso – e devo – ser questionado e submetido a entrevistas, provas escritas e que pode-se divergir ou cobrar-me acerca da minha até agora modestíssima produção intelectual. Porém, as oportunidades tem sido bastante escassas.

Gostaria muito de poder sair do sul e do sudeste do país para ajudar regiões com carência de profissionais graduados em Comunicação Social. O país é imenso e as melhores oportunidades não estão necessariamente nos grandes centros econômicos ou próximas a eles. Todavia, desempregado (o investimento contínuo de tempo, dinheiro e o foco em um objetivo específico acabaram desqualificando-me profissionalmente e tirando o meu interesse na atuação em empresas do setor privado), não possuo fundos para poder percorrer o Brasil e bater de porta em porta nas universidades particulares para me oferecer.

Minha esposa larga tudo para me acompanhar. Porém, ela está trabalhando e estudando para poder fazer o que gosta e ingressar em um curso superior. Seu salário não é muito alto e, se não fosse pelo enorme coração da minha mãe ao permitir que um filho de 36 anos e uma nora de 42 morem com ela. Já passei por uma experiência de largar tudo sem possuir um lastro para chegar com certa estabilidade em outra cidade e em outro estado… Caso fosse solteiro e caso minha mãe fosse mais jovem e plenamente saudável, provavelmente arriscaria alguma vaga do Oiapoque ao Chuí.

Embora essa seja uma questão meramente pessoal e o problema não seja nem do MEC, nem da CAPES, nem do CNPQ, considero que o Governo Federal deveria ser muito mais direto, objetivo e explícito acerca do seu investimento em bolsas de pós-graduação: afinal de contas, de que adiantou investir cerca de R$36.000,00 no meu mestrado sem mostrar aonde eu posso atuar?!

Os concursos públicos para professor são altamente excludentes. Da mesma forma, as questões econômicas falam muito mais alto do que a qualidade para as instituições particulares pequenas do interior. Algumas observações que tenho feito a partir da minha procura são as seguintes:

1) Se o mestrado é exigência básica e se não há vagas disponíveis para lecionar na maioria das universidades particulares do sul e do sudeste do país e também nas capitais do Nordeste, por que a exigência mínima para a maioria dos concursos é o doutorado?

2) No sul e no sudeste, o nível de exigência está tão alto que nem mesmo mestrandos estão sendo contratados – exceção feita para os raríssimos cursos iniciantes e para alunos de graduação e bolsistas de iniciação científica que são da própria região da universidade;

3) Universidades particulares que precisam de professores de Publicidade acabam fazendo professores de Jornalismo acumularem funções ou, então, contratam como professores bacharéis sem titulação porque sai mais barato encontrar alguém com essas características na região onde se encontra a instituição do que investir provisoriamente em um mestre de outra cidade e atraí-lo com uma certa estabilidade;

4) Os concursos públicos quase sempre exigem graduação, mestrado E doutorado na mesma área. Antigamente, havia oferta para pós em áreas afins. O mundo está ficando cada vez mais multidisciplinar, com uma série de profissões novas. Ao mesmo tempo, as àreas da Comunicação, das Ciências Sociais e da Educação estão intrinsecamente ligadas a partir de um atravessamento técnico, político, econômico e social cada vez mais forte – inclusive na graduação. Segundo a exigência da esmagadora maioria dos concursos atuais nas universidades federais, se eu sou publicitário e mestre em Comunicação, preciso necessariamente fazer doutorado em Comunicação. Do contrário, estou inelegível para qualquer concurso. Esse erro é grave: afinal de contas, um professor multidisciplinar pode contribuir muito mais do que um especialista de base teórica mais ortodoxa.

Será que o Ministério da Educação possui uma política estratégica de descentralização e de qualificação do ensino, da pesquisa e da extensão em Comunicação? Pergunto isso porque, se um mestre não possui a chance de trabalhar na sua área em determinadas regiões do país, por que então o CAPES financiou o meu mestrado se não ajuda a fazer valer o seu próprio investimento?!

Sem poder lecionar, não tenho vínculo com universidade alguma. Isso significa que não posso sequer ser pesquisador remunerado, pois nenhuma instituição pode aceitar a minha presença formal. E, mesmo que eu pudesse me sujeitar a trabalhar sem remuneração em dinheiro, também não seria aceito porque as instituições tem medo de que eu possa entrar na Justiça do Trabalho contra elas.

Por questões financeiras, não participei de nenhum congresso porque não tenho como viajar. Então, não teria como apresentar trabalho. Nesse meio, quem não é visto, não é lembrado. E, quanto mais tempo fora, menores serão as minhas chances de colocação.

Outra questão gravíssima: assim como no “mercado” de trabalho empresarial, também nas universidades dá-se preferência por pessoas mais jovens. Bolsistas de iniciação científica já possuem experiência de pesquisa e tem professores de pós-graduação como tutores. Não-raro, possuem artigos em co-autoria com esses mesmos professores em uma quantidade impressionante antes mesmo de se decidirem por entrar no mestrado. Independentemente da sua competência e de nenhum fator ilegal ou antiético envolvido nessa questão, é preciso salientar que a dificuldade de quem é mais velho e não passou pela mesma experiência não poderia jamais ser critério de seleção.

Atualmente, é mais do que necessário que eu exerça uma atividade remunerada ou, então, que tenha a chance de receber uma bolsa CAPES. Porém, a produção científica e a participação em congressos são critérios fortes na seleção para o doutorado e na destinação de bolsas. Sou muito grato por ter podido cursar o mestrado com uma bolsa CAPES. Porém, neste momento, só seria possível eu ingressar no doutorado se recebesse uma bolsa CNPQ ou, então, uma CAPES especial.

A vida de quem não tem família para manter e de quem é bem maos jovem e possui lastro familiar para bancar o aprendizado acadêmico é muito mais fácil. Respeitadas as proporções,  é uma situação tão desparelha e incômoca quanto um estudante da periferia vindo da escola pública que só pode entrar em uma faculdade se for na federal, onde irá concorrer contra estudantes de classe média alta oriundos de escolas particulares e de cursos pré-vestibular.

Além disso, deixo sugestões para a solução de problemas técnicos relacionados ao acesso às informações necessárias para se obter uma vaga de professor:

- Há dezenas de sites de universidades. Por questão de desinteresse ou de ignorância, a maioria dos coordenadores de cursos simplesmente não respondem e-mails. Nem sempre é possível investir em ligações telefônicas ou em viagens para conhecer instituições sem compromisso. Isso torna a busca extremamente frustrante para um candidato a professor, pois ele não obtém retorno algum sobre seu currículo, sobre o que precisa fazer para poder obter uma vaga naquela ou em outra instituição e assim por diante. Um banco de dados unificado entre as universidades com nome, e-mail, Lattes e links DIRETOS para os artigos e projetos de pesquisa dos coordenadores e de todos os professores deveria ser coordenado pela CAPES. Dessa forma, não precisaríamos entrar em um monte de sites ou termos que depender da boa vontade e de conhecer pessoas ligadas a todas as universidades para ter que pedir informações;

- Ao contrário da graduação, na pós cada PPG possui linhas de pesquisa totalmente diferentes. Até aí, nenhuma objeção. Porém, a busca e o estabelecimento de contatos instituição por instituição é um processo lento e complicado.  Por exemplo: no meu caso, muito provavelmente terei que ir para a UFRJ, pois não possuo produção acadêmica suficiente para poder me candidatar a uma bolsa na UNISINOS nem na UFRGS. Tentarei também na PUCRS, mas os orientadores e a linha de pesquisa mais adequados estão no Rio de Janeiro;

- Tanto as faculdades de Comunicação das universidades públicas como das privadas poderiam estabelecer um padrão de editais no qual fosse divulgado o CURSO, a DISCIPLINA e a QUANTIDADE DE VAGAS em primeiro lugar ao invés de termos que baixar ou navegar por zilhões de PDFs chamados de “edital nº xxx-2009″. Isso precisaria ser acessado diretamente do site do da CAPES, através de um padrão semântico de nomenclatura de arquivos e de tags;

- Por que não se reescreve a interface de atualização do Currículo Lattes? Uma estrutura fundada na chamada “web 2.0″ evitaria o recarregamento e as rolagens d páginas desnecessárias, que tomam muito tempo, caso fossem utilizados formulários atualizados “on the fly”;

- Meu pai, quando formou-se com muita dificuldade em Engenharia de Minas e Metalurgia na então URGS, no distante ano de 1956, recebeu uma carta da Petrobras oferecendo-lhe emprego no Rio de Janeiro. Ele não foi, mas obteve facilidade de colocação na Viação Férrea do RS (posteriormente encampada pela RFFSA). Ora, se o Governo Federal precisa expandir a educação no país e se há uma vasta área repleta de cidades com deficiência de formação, por que não indicar os mestres recém-formados para essas áreas?

Recentemente, fiquei sabendo pela coordenadora do PPG em Ciências da Comunicação da UNISINOS, profª Christa Berger, que ela participou de uma banca na UFSC para uma vaga de professor de Jornalismo com 22 CANDIDATOS COM DOUTORADO E TODOS DESEMPREGADOS. Ora, se a intenção do Governo Federal é a de qualificar o ensino e a pesquisa, não deveria justamente encaminhar mestres e doutores para locais distantes e até mesmo abrir novas instituições onde há demanda? Não deveria obrigar as universidades a desvincular graduação, mestrado e doutorado da mesma área para aceitar candidatos de áreas afins?

Caso não haja demanda para a área de Comunicação no país, como é claro que o objetivo do Brasil é tornar-se um país desenvolvido e líder mundial, então sugiro que seja incentivada a exportação de professores para países do Terceiro Mundo e também para a Europa que, por mais rica que seja, por incrível que pareça, ainda tem muito a aprender conosco.

O tempo de formação é muito longo. Idade e falta de capacidade de investimento não podem ser um empecilho. Do contrário, estaríamos diante de um desperdício imensurável de mão-de-obra qualificada

EU QUERO PROVAR POR QUE MERECI MINHA BOLSA E POR QUE MEREÇO ENTRAR PARA O DOUTORADO.

E EU CONFIO NO BRASIL. Mas preciso poder participar mais desse lindo processo de inclusão social através da educação.

CAPES, MEC, UNIVERSIDADES: ATENÇÃO!

Depois de cinco anos de tentativas frustradas, em 2007, consegui entrar no Mestrado em Ciências da Comunicação na UNISINOS. Foram dois anos hiperproveitosos, onde aprendi muito mais do que podia imaginar e conheci pessoas incríveis.

Pude, finalmente, me qualificar como pesquisador. Porém, o título de mestre infelizmente tem valido muito pouco no Brasil.

95% dos concursos públicos para professor nas universidades federais e nas maiores particulares do país exigem doutorado. Claro que eu quero fazer doutorado e pretendo passar na seleção em um prazo bem menor do que o de cinco anos que demorei para entrar no mestrado. Todavia, não se trata de uma reserva de mercado?

Outra questão sem uma justificativa técnica, intelectual ou ética suficientemente plausível relacionada à essa reserva de mercado pode ser explicada a partir de dois exemplos:

1) Duas grandes professoras que tive, ambas com mais de 20 anos de carreira, não poderiam passar em concurso público para professor de Jornalismo, mesmo tendo grande experiência em ensino, pesquisa e extensão apoiadas por dezenas de publicações e participações em congressos até no exterior. Ambas tem mais de 10 anos de doutorado em Comunicação. Uma delas, é graduada em Farmácia, e mestra em História. A outra, é graduada em Arquitetura. Pois apesar desse currículo invejável, nenhuma das duas poderia passar em comcurso público de universidade pública no Brasil para Jornalismo ou Publicidade, pois esses concursos exigem, em 98% das vezes, graduação na respectiva habilitação da Comunicação Social para a qual destina-se o concurso.

Ora, falo de uma Ciência Humana Aplicada conforme os requisitos do próprio CAPES/MEC, certo? Pois bem: ao contrário dos seriíssimos riscos à vida que um médico não-capacitado (mutilação, morte, deformidade, incapacidade física e/ou mental) ou um engenheiro não-capacitado (desabamento, soterramento, inundação, eletrocução, incêndio) podem oferecer, o discurso de nenhuma ciência humana pode oferecer risco direto de catástrofe ou morte a seus consumidores, pois, mesmo que um filósofo, um sociólogo, um jornalista ou um publicitário possam agir de má-fé ou possam cometer um erro capital, ainda assim o livre arbítrio e a capacidade comunicativa e conversacional do ser humano lhe dão a oportunidade de escolha.

Isso posto, a pesquisa, o ensino e a elaboração de projetos de extensão universidade-comunidade-empresa em Ciências Humanas demanda como competências principais a capacidade de reflexão, o desenvolvimento da crítica e a exposição verbal e escrita. Sendo assim. é preciso ler muito e conversar bastante com pesquisadores mais experientes da área e com profissionais experimentados do assim chamado “mercado de trabalho” e dedicar um esforço extra às disciplinas de que o candidato a uma vaga de professor não é especialista.

Garantida essa dedicação, mesmo que seja um professor jovem ou que não se trate de alguém com vivência muito grande no “mercado”, ainda assim é plenamente possível, em qualquer área de Humanas (Aplicadas ou não), ser um excelente professor e um excelente pesquisador tanto em termos teóricos quanto técnicos. Afinal de contas, o professor é apenas um facilitador, cuja habilidade está em não oferecer uma informação banal demais a ponto de poder ser encontrada em uma fração de segundos no Google e em não perder o foco da disciplina, nem tampouco desobedecer aos objetivos do curso, da universidade e da CAPES.

Outros problemas que tenho encontrado referem-se a como fazer para ser visto. Passei um ano de cão durante as 48 semanas em que fiz tratamento com Interferon e Ribavirina contra o vírus HCV. Felizmente, tudo indica que estou curado da hepatite C após tê-la descoberto em 1995 e ter feito um tratamento ainda mais longo e sem nenhuma melhora entre 1998 e 2000. Mesmo assim, isso tomou um tempo precioso, justamente no final da pesquisa, onde a dissertação precisava andar para eu não perder minha bolsa. Ao mesmo tempo, ainda não tenho dinheiro para viajar para congressos fora do RS nem mesmo como ouvinte. Então, ainda não submeti nenhum artigo para publicação em periódico nem para apresentá-lo em congressos.

Durante muito tempo, tentei enviar e-mails ou preencher formulários nos sites de um montão de universidades particulares do sul do país. Por trabalhar diretamente com Mídias Sociais e estar envolvido com as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) desde o longínquo ano de 1994, fui negativamente surpreendido pelo fato de que quase nunca tive um e-mail sequer respondido.

Sendo assim, diante da falta de oferta de vagas para mestres, tenho-me visto obrigado a participar de concursos para os quais tenho pouquíssimas chances de passar por não ser especialista ou por não ter nenhuma experiência dirigida à área em questão.

Tenho 36 anos e custei muito pra chegar até aqui. Nunca tive nenhum tutor na graduação e, naquela época, também não tinha consciência nem conhecimento suficientes nem sobre a carreira acadêmica, sobre pesquisa e nem tampouco tinha certeza sobre qual era a minha vocação.

Não tenho queixa absoluta de nenhuma instituição, professor, colega, estudante, pesquisador. De forma alguma. Compreendo todas as vicissitudes encontradas pelo caminho. Também sei que o timing, isto é, a temporalidade da minha entrada no mestrado em relação ao boom inicial do estudo das TICs e de Mídias Sociais está defasado em pelo menos quatro anos. Sem soar coitadista nem pessimista, noto que, no Rio Grande do Sul, na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, encontrar uma vaga é como procurar uma agulha em um palheiro.

Quanto a isso, estou mais do que disposto a mudar de Estado e tenho uma mulher maravilhosa que, mesmo agora tendo uma possibilidade real de, pela primeira vez em uma longa carreira, ganhar um salário digno e poder crescer dentro de uma empresa grande e honesta.

Percebo que a vida de quem decide ser bolsista de iniciação científica ainda bem novinho durante a graduação ou de quem conseguiu a sorte grande de já ter sido admitido em uma boa universidade do interior mesmo sem pós (coisa raríssima hoje em dia) e tem algum professor que lhe leva muito em conta desde cedo é infinitamente mais fácil inclusive para queimar etapas que facilitem sua presença em congressos a partir da obtenção de financiamentos de instituições de fomento e às vezes até da própria instituição a qual estão vinculados e a publicação de seus artigos.

Há cerca de um mês atrás, descobri um concurso no Piauí. O salário era baixo e a carga horária, idem. Porém, a exigência era baixíssima: tão-somente especialização. Eu tenho mestrado. Seria uma barbadinha passar nesse concurso, sobretudo porque raríssimas pessoas estão dispostas, seja por preconceito, seja por comodidade, a ir viver em um estado tão desconhecido da maioria dos brasileiros. Todavia, antes de encaminhar a documentação e de comprar as caríssimas passagens aéreas para pagar em prestações beeem pedaladas e atoladas de juros, liguei para lá e a secretária da unidade informou-me que só seriam aceitos candidatos com graduação em Jornalismo e eu sou publicitário…

Um outro problema sério é que, no Brasil, tudo é muitíssimas vezes mais difícil do que no exterior. Nos EUA e na Comunidade Européia, embora existam mestrados, os mestrados de lá são equivalentes a nossos cursos de pós-graduação lato sensu, isto é, voltados ao “mercado”, sem nenhuma habilitação para a pesquisa científica.

Lá, o mestrado não é exigido em nível acadêmico: o que importa é o doutorado. E, ao contrário do Brasil, onde temos que fazer dois anos de mestrado e mais quatro anos de doutorado perfazendo uma looonga estrada de SEIS ANOS, lá o doutorado dura apenas três. Via de regra, a maior parte dos brasileiros que saem daqui ainda “verdes” e chegam lá tendo que aprender um novo idioma e um novo modelo de orientação acadêmica agregando aí novos valores socioculturais costuma matar a pau, dando um banho em um monte de privilegiados que sempre viveram aquela realidade social e acadêmica.

Pior é que eu já dei aula na UFRGS durante dois semestres como professor substituto de duas sumidades e me dei muito bem e também dei aula na UNIFRA em Santa Maria/RS, em uma disciplina optativa durante mais um semestre e não pude, durante todos esses anos, disputar uma vaga nem mesmo nas universidades particulares do interior.

Hoje, parcialmente habilitado, não posso mais me dar ao luxo de ficar sem receber, sem conhecer pessoas, sem aprender na prática. Sem estar lecionando, não posso entrar no doutorado.

Ao mesmo tempo, não possuo mais interesse nem portfólio para voltar ao mercado de trabalho nas agências de publicidade e nas produtoras web. O preço que paguei por ser bolsista e não poder ser remunerado em um trabalho regular e o ônus de ter uma idade relativamente avançada infelizmente, até o momento, tem superado o bônus de eu ser um cara mas experiente em diversos outros aspectos que agregam muito valor à minha nova atividade.

Antigamente, eu pecava por querer escolher demais e também por não ter dado continuidade a uma carreira que realmente não desejava seguir. Hoje, eu tenho certeza absoluta de que posso ser excelente naquilo que me deu tanto trabalho para conseguir. Porém, as barreiras de entrada são muito maiores do que eu imaginava.

Antigamente, eu desistia após a primeira dificuldade. Hoje, sou persistente. Hoje, amadureci bastante. Hoje, posso dizer que, assim como fazia na UFRGS em 2002 ainda muito “verde” por um salário baixíssimo, chegando cedo e sendo um dos últimos a sair do prédio tarde da noite, fizesse frio ou calor, inclusive não deixando de dar aula nos últimos dias de vida do meu pai, chegava sempre de bom humor. Estava sempre disposto a dar conselhos, a mostrar novidades, a aprender, a debater, a ser honesto e admitir o que desconheço perante os alunos, oferecendo-lhes o contato de quem fosse mais competente do que eu para solucionar suas dúvidas que estavam fora do meu alcance.

Sinceramente, isso é coisa rara! Tive trocentos professores e colegas que já estão colocados em alguma universidade que não tem esse astral todo. Tem gente muito menos versátil do que eu colocada há tempos, inclusive com menos qualificação do que eu.

Não quero tirar o lugar de ninguém nem virar nenhuma instituição de cabeça pra baixo. Só quero poder mostrar aquilo que eu tenho aprendido há tanto tempo…

Garanto que posso ser muito útil também para ONGs dispostas a ajudar a empoderar comunidades. Meu papel é facilitar o estabelecimento de laços de confiança e de afeto entre comunidades heterogêneas e muitas vezes distantes que possuam demandas parecidas. O veículo seriam as Mídias Digitais (Orkut, MSN, blogs, Twitter, etc.) como um contraponto ao discurso, à agenda e à pauta da mídia corporativa de massa. Porém, sem evangelização nem partidarismo, a partir dos valores solidariedade, busca da igualdade, elevação da autoestima e da alteridade e da não-compactuação com o consumismo.

Esse hiato, essa busca, esse sonho não-realizado e o desconhecimento de pessoas e de caminhos menos duros para pelo menos dar início a essa caminhada tem sido muito mais dolorosos e demorados do que poderia imaginar…