A RESISTÊNCIA PELO COMUM

O mais lamentável na política partidarizada, sindicalizada e classista de TODOS OS MATIZES IDEOLÓGICOS e também em relação àqueles que costumam criticar as práticas da mídia corporativa e da publicidade sem um mínimo de domínio técnico, econômico, administrativo, jurídico e, sobretudo, SOCIAL do setor é que a polarização tem aumentado vertiginosamente como reflexo dos equívocos do uso dos poderes político, econômico, coercitivo e comunicacional por todo o país.

Seja pela ignorância, pela hipocrisia ou pelo oportunismo, muitos creem e difundem os valores da imparcialidade e da isenção como se isso realmente fosse possível. Todos tem um lado. Porém, o fato de ter um lado não significa que se deva cometer a desonestidade intelectual de considerar que os métodos, as práticas e as teorias utilizadas para analisar o quadro social a partir de um conjunto de valores no qual eu creio sejam sempre os melhores e os mais adequados. Do mesmo modo, também não é honesto crer que todas as premissas que desvelam os valores dos quais duvido estejam sempre 100% equivocados ou que todos os que os defendem sejam corruptos, ignorantes ou picaretas.

Percebo que o discurso de justiça e igualdade prioriza – em ambos os polos – aqueles que são mais parecidos. Uns tem mais o jeitão do meu time; outros, não. Com isso, a igualdade vai para o espaço, já que parte do princípio de que uns são mais ou menos iguais aos outros. Com isso, a solidariedade, a comunhão, o respeito e o valor que se dá a cada um passa a ser muito mais individualmente seletivo do que coletivamente inclusivo.

A igualdade – assim como a verdade, a isenção e a imparcialidade – só existem aos olhos de quem os vê e para aqueles que julgam merecê-las.  Nesse ponto, tanto o discurso da “esquerda” como o da “direita” estão desatualizados, descontextualizados e desencaixados.

Por que é tão difícil pensar que não existe nada nem ninguém igual e que temos muito em COMUM?! Não é a igualdade que se deve cobrar mas, sim, a superação do comum por ele mesmo como uma forma de atrair o interesse de cada vez mais pessoas interessadas em dar mais de si para manter a energia desse fluxo a pleno vapor.

O comum é feito para ser compartilhado e compartilhado. O comum reside na cooperação e na solidariedade. O comum não é único nem privado: ele é ubíquo e social. A ele agrega-se o valor da troca de conhecimento a partir do DISSENSO, pois são as diferenças debatidas em um regime de dialética pacífica que agregam valor ao que só pode evoluir a partir do momento em que não mais se repete.

A sociedade capitalista taylorista-fordista e – posteriormente – a neoliberal lidaram com conflitos de classes cuja premissa básica era a detenção dos meios e o fatiamento do bolo de maneira que poucos não fiquem com tudo e muitos não fiquem sem nada.

O comum é o conteúdo e o continente das práticas sociais que buscam fugir de um controle hegemônico. É o produto da resistência, da horizontalização e da auto-organização – que são os valores que grande parte da esquerda deveria utilizar a fim de superar o da luta pela inclusão a partir de um modelo igualmente verticalizado, burocratizado, clientelista, corrupto e sectário inversamente excludente em relação às práticas da direita.

O comum é o ativo que circula na sociedade em rede. Já o bem material ou simbólico cuja propriedade é institucionalizada e definida pelas leis oficiais ou por algum “contrato social” é aquele que gera uma série de passivos em cascata (juros, latifúndio, monopólio, oligopólio, corrupção, desestruturação do campo de ação dos poderes, miséria, fome, devastação do meio ambiente, excesso de industrialização, ignorância, doenças psicossomáticas, etc.)

As lógicas definem os processos que – por sua vez – redefinem as lógicas alteradas em função da dinâmica sociotécnica. A lógica do comum é a lógica daquilo que circula e que passa por todos: essa apropriação coletiva devolve ao fluxo novas contribuições.

O enorme atraso com que partidos de esquerda e sindicatos apenas começam a aderir lentamente ao pensamento em rede tornou o seu discurso quase inócuo em relação àqueles a quem pretendem atingir para transformar e pouco resolve a condição dos seus próprios filiados. Acho que a chave para o insucesso político-partidário é essa: o desejo de socializar a propriedade ao invés de entrar no fluxo de produção e compartilhamento de conhecimento.

DITABRANDA: REPERCUSSÃO

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Eis a lista de TWITTEIROS que me mantiveram informados (os grandes responsáveis pela existência deste post):

GUTO CARVALHO

MARIA FRÔ

PAULA GÓES

CLÁUDIA CARDOSO

DEA VG

AWHITTICK

JOILDO

ERICK TOSTES

AMANDA GOMEZ

ANTONIO ARLES

FELLIPE VERNON

MARCELO BRANCO

POR QUE A ESQUERDA NÃO MUDA O MUNDO I

Este post é para todos. Mas, em especial, responde o excelente comentário que o VALDIR DALLA MARTA do blog TIMBLINDIM da belíssima CAMPO GRANDE (MS) fez há dois posts atrás.

Os leitores e os blogueiros que me dão o prazer, a amizade, o carinho e a honra de compartilhar comigo momentos de troca de informação, de inteligência e de solidariedade através de participações mútuas nos blogs de um e de outro e em alguns encontros presenciais (que, se dependessem de mim, seriam muito mais frequentes do que têm sido) estão cansados de saber que eu vivo insistindo na condição sine qua non de que a esquerda aprenda a trabalhar sem liderança centralizada e sem almejar tomar o poder político e coercitivo. O único poder possível de ser conquistado a partir das ferramentas que nos são disponibilizadas (mesmo assim, a duras penas) é o simbólico: no momento em que a sociedade amadurecer o suficiente a ponto de rever seus valores e seus conceitos para um mundo mais sustentável e mais tolerante, a tendência à alternância no poder político ora aumentar a miséria da esmagadora maioria e enriquecer estupidamente a raríssimos outros, ora inverter a hegemonia entre dois grupos de privilegiados semiantagônicos certamente diminuirá exponencialmente.

Sou um singelo iniciante na leitura e na interpretação (ainda um tanto pobre, admito) da obra de sociólogos e de filósofos clássicos cujas análises sociais, econômicas e políticas seguem valendo até hoje, dois ou três séculos depois daquilo que escreveram. Preciso aprofundar-me muito neles. Mas foi pra isso que serviu o mestrado: pra começar a ler e pra usar as teorias como muletas para justificar a ocorrência ou não de alguns insights que surgem a partir da observação de um determinado objeto empírico durante a pesquisa. Mais adiante, no doutorado, obviamente, meu discurso tornar-se-á muito mais sofisticado e eu deixarei de ser um mané, capacitando-me a inovar e a produzir conhecimento relevante para a sociedade.

Vou falar um pouco mais sobre uma maneira de resistir baseada na emergência e na articulação descentralizada e em rede que considero mais eficiente e adequada de ser posta em prática no atual contexto mundial.

Os livros IMPÉRIO e MULTIDÃO de ANTONIO NEGRI e MICHAEL HARDT obviamente são  passíveis de infinitas interpretações diferentes. Todos têm o direito de concordar e de discordar parcial ou integralmente com as idéias desses dois filósofos (o primeiro, italiano; o segundo, estadounidense). No caso, encontrei uma forma de discordar contraproducente, desinformada, desatualizada e limitada em relação à correlação de forças atual. E é sobre isso que eu quero falar.

Tais críticos defendem sempre a mesma maneira de resistir e de fazer o socialismo, além de crerem que as características daqueles que compõem tanto a classe privilegiada como a classe subordinada são quase imutáveis. Ora, se existe um pensamento em que a luta de classes ocorre sempre entre os mesmos entes de características sociais praticamente imutáveis, é sinal de que este pensamento não leva em conta o contexto sócio-econômico-político-cultural de cada período histórico como deveria. Estamos, pois, diante de uma significativa falta de capacidade de PROPOR algo DIFERENTE e TRANSFORMADOR a partir dessa crítica.

Pois bem: na crítica do link acima, entendo que a obra não foi devidamente interpretada como os autores esperavam que fosse. O pior dessa crítica é a sua ignorância em relação a uma série de ressalvas que NEGRI e HARDT fazem ao longo do livro: ao contrário do que diz o crítico em questão, Negri e Hardt NUNCA ignoraram ou minimizaram o papel das classes subalternas. Eles tão-somente constataram que a classe subjugada de hoje precisa utilizar novas formas de resistência compatíveis com as novas formas de dominação do império. Portanto, práticas antigas só oferecem capacidade de reação e de transformação quando confrontam práticas hegemônicas correspondentes em articulação financeira, social e tecnológica.

A esquerda leva laço porque não procura obter a bomba atômica, enquanto acha essa arma desleal e segue tentando vencer usando arco e flecha. É essa a comparação grosseira possível de fazer para explicar em outras palavras. Só que, ao possuir a bomba, não pode nem detoná-la, nem permitir que o império a detone. O fato de possuir a mesma arma serve para TENSIONAR e PREOCUPAR o outro lado. Quem não possui um adversário competente, não fica tenso nem preocupado. Não passa trabalho pra se impor e ainda pode dar-se o luxo de errar feio mas seguir “nas cabeças”.

Outro detalhe importantíssimo desse trabalho dos filósofos italiano e estadounidense nos leva à constatação de que essa classe subalterna não é mais predominantemente composta por trabalhadores rurais e, menos ainda, por operários: ela vive nas grandes cidades, com média de cerca de 80% da população  URBANA em quase todos os países do mundo. Logo, os filhos de operários da primeira metade do século XX que foram estudantes de classe média na época da ditadura militar hoje possuem filhos e netos que vivem uma realidade totalmente alheia àquela, pois não enxergam nem naquilo em que acreditam e menos ainda naquilo em que não acreditam o mundo de seus pais, avós e bisavós.

Vamos ver se consigo me fazer entender: as dificuldades emocionais, financeiras, de se manter no emprego, de como aproveitar o tempo livre e de como adquirir conhecimento e melhorar de vida almejando um mundo mais justo e mais solidário da classe operária pouco tem a ver com essas mesmas questões levantadas por um jovem que só não usa a internet como banheiro, cama, amante, bola, motor e avião porque não pode. É preciso entender que ele não é ignorante, alienado ou desinteligente: ele quer fazer política, desde que essa forma de fazer política e de trabalhar por um mundo melhor apresente a linguagem, a estética e uma forma de mobilização que ELES SEJAM CAPAZES DE ENTENDER.

Além do lixo da LEI AZEREDO e do ridículo TSE, o fato de a esquerda partidarizada e operária predominar em uma sociedade totalmente diferente daquela que originou a sua formação política não é um atraso nem tampouco um choque de gerações, mas significa um HIATO que impediu que o latim de uns e o provençal de outros resultasse em um francês comum a todos.

É esse gap que precisa ser superado para voltarmos a ter um papel transformador.

POR QUE O RS NÃO ANDA

Comecei o novo layout deste blog fazendo uma brincadeira promovendo a candidatura do meu alterego BLACKÃO (apelido de adolescência), utilizando depoimentos fictícios e datas de eleições fictícias a fim de falar sobre o DESGOVERNO, que é uma alegoria ao que ocorre hoje em altíssimo grau no RS e em menor grau em PORTO ALEGRE.

A brincadeira começou alterando a logo da campanha do presidente dos EUA, BARACK HUSSEIN OBAMA, para as cores da bandeira do RIO GRANDE DO SUL, como uma alegoria à mudança.

Agora, troquei os depoimentos e a candidatura do BLACKÃO por reflexões através de frases prontas, de efeito, interligadas por semelhança de propósito. Meu objetivo é fazer com que todos os leitores deste blog reflitam sobre o seu papel social e também para que compreendam que não é, nunca foi e jamais será suficiente cada um fazer a sua parte como profissional, como membro de uma família, como funcionário ou chefe de uma instituição pública ou privada qualquer. Não é, nunca foi e jamais será suficiente ser o melhor aluno, o profissional mais premiado, o cara mais simpático, o mais honesto, o mais ético e o mais profundo conhecedor em uma determinada área do conhecimento.

Minha preocupação maior é em evitar fazer com que a RESISTÊNCIA (guardem esse termo e procurem diminuir a importância do peso de outros, tais como: luta, guerra, etc., que são demasiadamente pesados para se atrair novos adeptos) faça água antes mesmo de começar por falta de planejamento, de estratégia, de organização. Mas planejamento, estratégia, organização e administração são palavras pelas quais grande parte da esquerda partidarizada possui ojeriza, já que lembra a disputa entre burguesia x proletariado.

A verdade é que os antigos militantes pouco fazem para aprender com o contexto atual e eles não servem de referência para os novos militantes, a quem consideram frios e despolitizados porque não vão às ruas como se ia durante a ditadura militar. Eles precisam se reciclar e a forma de atrair jovens solidários não pode visar a tomada do poder, pois o “poder proletário” é tão repleto de mazelas corporativistas quanto o “poder neoliberal”.

Nos EUA, os blogs já derrubaram candidatos à SUPREMA CORTE (o STF deles) por causa de um trabalho de formiguinha de blogs de advogados de vários estados que postaram verdadeiros dossiês dos candidatos, entregando à população e à mídia que havia lobby para que os juízes ligados aos REPUBLICANOS fossem todos eleitos.

Por enquanto, infelizmente o RS ainda é a terra do retrocesso no BRASIL: a mente de quem tem dinheiro e cultura é uma mente agropastoril forjada sob as estratégias de defesa, guerra, ataque e contra-ataque patrimonialista de dois séculos atrás. A economia gaúcha cresceu sob uma forte dose de racismo e intolerância estimulada pelos conceitos do positivismo comteano, que apresenta uma semelhança bastante grande com a junção entre judeus sionistas e cristãos protestantes presbiterianos na antiga NOVA INGLATERRA, o berço dos EUA. No nosso caso, é a exacerbação da moral judaico-cristã em relação a trabalho, família, tempo livre e riqueza a responsável pela mente mesquinha, covarde, hipócrita e ignorante que norteia os valores da classe média para cima.

Esses componentes históricos de organização social, política e econômica baseada em uma certa corrente filosófica de origem extremamente conservadora é que são os maiores responsáveis pelo atraso do RS. Não importa o partido que governe, as empresas que sejam consideradas as maiores, o  tipo de produto que domine o comércio, a indústria e os serviços em cada microrregião do estado: enquanto a mentalidade for essa, não vai haver cooperação de espécie alguma nem pensamento social em rede.

Por acaso alguém pensa que MAHATMA GANDHI, JOHN FITZGERALD KENNEDY, MARTIN LUTHER KING JR., ANWAR EL-SADAT ou INDIRA GANDHI teriam tido vida mais longa caso tivessem sido governantes gaúchos?!

Sinceramente, creio que teriam sido assassinados desde que eram coroinhas ou líderes de turma na escola…

DANTAS, JORNALISMO, DIREITO, ESTADO, CIBERCULTURA

FATO 1: o Brasil não possui uma Grande Imprensa predominantemente confiável, honesta, justa, investigativa, inquisidora, denunciadora, minuciosa e nem tampouco apuradora. Sinto muito aos bons bacharéis que, ao invés de fazerem valer seu juramento, calam e consentem. Meu diploma de publicitário vale o mesmo que o de jornalista: menos do que um rolo de papel Neve usado. Essa é a realidade.

FATO 2: há vários tipos de jornalista que vivem de jabá. Quando o contrato de prestação de serviços firmado entre ambas as partes assim o permitir, alguns desses profissionais poderão seguir ligados às corporações de mídia. Outros, ao deixarem de ser funcionários dessas corporações, publicam blogs nos quais usualmente procedem de três maneiras predominantes: a) entrevistam predominantemente a mesma base de sustentação política, econômica, social, financeira e cultural de seus antigos chefes, funcionando apenas como um novo megafone para o discurso único; b) não passam de meros assessores de imprensa ou de relações públicas de seus anunciantes; c) em função de a e b, recebem muito mais do que quando eram empregados não por causa do mérito, da trajetória, da suposta credibilidade profissional, mas, sim, porque são mais conservadores e mais realistas do que o rei quando são editores de si mesmos; d) Não passam de uma mera marca, publicando notícias requentadas através do control-C control-V do que saiu em veículos maiores.

Só no RS, há vários exemplos: 1, 2, 3, 4, dentre outros. Reparem como os patrocinadores são, quase sempre, os mesmos. Há como denunciar ou como pensar diferente sendo financiado pelas mesmas fontes?!

Feliz ou infelizmente, o tão criticado, ridicularizado e até mesmo frívolo XICÃO TOFANI cumpre muito melhor com o papel ao qual se propõe a fazer do que os quatro exemplos acima.

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CONCLUSÃO 1: os fatos 1 e 2 comprovam que a midiatização da sociedade é um fenômeno que mistura funções, profissões, atribuições, direitos e deveres de cada um em uma salada cujos ingredientes são absolutamente impossíveis de serem separados voltando-se ao sabor original de cada um.

CONCLUSÃO 2: creio que nenhuma das profissões técnicas atravessada pelos meios de comunicação tem sofrido tanto com esse desencaixe da alteridade e com essa multiplicidade funcional meramente empírica sem grandes reflexões a respeito do verdadeiro papel social de cada um como os verdadeiros assessores de imprensa e os verdadeiros relações públicas. Afinal de contas, seu território foi invadido por pseudo-profissionais ou por profissionais de fato cujo treinamento e prática tinham como objetivo trabalhar outras técnicas enunciativas. Para os RRPPs e para os assessores de fato e de direito, o caminho inverso ou o rápido encontro de outro nicho no qual possam exercer a sua função sem distorções é quase impossível.
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Isso posto, há tanto no “mercado” como na academia opiniões que consideram a profissão de relações públicas extinta em função do canibalismo do assessor de imprensa. Da mesma forma, se a função do jornalista é a de criticar, investigar, denunciar, ouvir os dois lados da questão, traduzir a linguagem vicária de todos os demais campos sociais para a sociedade laica através da temporalidade e da discursividade de seus meios produzindo um discurso aparentemente homogêneo e facilmente compreensível, no momento em que a maioria dos jornalistas depende de patrocínios que carregam valores econômicos, sociais e culturais embutidos em seus objetivos comerciais que devem necessariamente deter a hegemonia sobre seus concorrentes materiais e simbólicos, o jornalismo também QUASE não existe mais – a não ser quando este não dependa da espetacularização de alguns valores e da omissão de outros para sobreviver.

Dado o atual contexto sociotécnico, não podemos mais recuar àquele antigo patamar de compreensão e de operação facilmente percebido até mesmo pela classe média ainda presa ao modus operandi da modernidade: não há como forçar a barra nem para o passado “como o ‘meu tempo’ era bom”, nem para pensar o futuro de maneira apocalíptica (‘o mundo acabou’).

Leis supostamente socializantes (leia-se moralizantes) normalmente são incompletas, arbitrárias às avessas (pois apresentam os mesmos componentes que repudiamos na autocracia de direita legitimados por oportunistas que pareciam estar do nosso lado) e repletas de brechas para que o status quo continue deitando e rolando. Na mesma direção, não consigo ser tão otimista a ponto de crer em um hipotético, utópico, ufanista e espetacularizante código de ética que torne magistrados, políticos, empresários de comunicação, jornalistas corporativos, jornalistas de mídia independente, blogueiros, radialistas, cineastas e artistas tão responsáveis e conhecedores sobre seus direitos e deveres não com a lei mas, sim, com a sociedade.

Vejo blogs dando prioridade à análise do que saiu no jornalão A ou B. Ora, jornal e revista são o de menos. Primeiro: só compra quem quer; segundo: não são concessões públicas; terceiro: cada vez menos gente lê jornais e revistas – os leitores de jornal
tradicionais estão morrendo de velhos. Seus filhos e netos ou trabalham
tanto, ou têm tantas outras opções de lazer e informação disponíveis
online que a tiragem dos jornais está caindo vertiginosamente
PRATICAMENTE NO MUNDO INTEIRO
; quarto: quase sempre, o consumidor padrão do bem simbólico crítico-noticioso pertenceu às classes A e B, cuja influência na base da pirâmide diminuiu drasticamente nas últimas décadas; quinto: a cultura pós-moderna é audiovisual, dinâmica, ubíqüa, fragmentada, inconstante – uma foto num jornal significa muito pouco para essa geração, pois a experiência sensorial que oferece é muito baixa. Seu texto correspondente, menos ainda.

Portanto, o poder do indivíduo está no atravessamento das mídias e no uso que o receptor faz do seu conteúdo na sociedade em que vive. Podemos até julgar, criticar, avaliar, duvidar e até mesmo subvalorizarmos essa experiência midiática multidimensional particular. Todavia, nenhum receptor é passivo: todos estão, cada um a seu modo, ressemantizando e ressignificando tudo o que chega até eles, transformando, reciclando, adaptando e, acima de tudo, PRODUZINDO DIFERENÇA.

Falo sempre em resistência pós-moderna. Em comunicação atomizada, descentralizada, produzida a partir de nós que estabelecem uma teia repleta de laços fortes e de laços fracos ao redor da Terra. Na solução de demandas locais, pontuais, simples, pequenas, mas que resolvem a vida de muita gente ao mesmo tempo – porém discutidas e reverberadas do local para a rede, a fim de que a rede traga de volta para o local uma repercussão em potência de 10 na comparação com a intrusividade do carro de som, das palavras de guerra inúteis do líder sindical mal articulado com o vernáculo, do panfleto mal redigido e de chegar à praça pública de maneira desordenada, impensada, não-planejada, previamente anunciada (dando a cara a tapa para a polícia e para a mídia corporativa vociferar como bem entender a respeito dessa manifestação).

Portanto, o Paulo Sant’Ana, o Nelson Sirotsky, os políticos de direita, empresários e latifundiários que eles usam em seus editoriais e até mesmo a página 10 da Rosane de Oliveira e nada são QUASE a mesma coisa.

Claro que o que fica registrado por escrito pode ser documentado e retomado tantas vezes quantas o suporte dessa informação (papel, plástico, pano) permaneça intacto. Mas o peso da mídia corporativa (sobretudo a impressa) é realmente muito menor do que parece ter. O que fede mais é o que é ouvido, o que é assistido e o que deixa mais marcas na memória – o audiovisual: o Sant’Ana no Jornal do Almoço; a Rosane de Oliveira na Rádio Gaúcha e na TV COM; o Lasier Martins na RBS TV, na Rádio Gaúcha e na TVCOM e tantos outros produzem subjetividades mais intensas e tão marcantes quanto efêmeras ATRAVÉS DE CONCESSÕES ILEGAIS DE ONDAS ELETROMAGNÉTICAS REGIDAS PELA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E PELA LEI GERAL DAS TELECOMUNICAÇÕES.

Mesmo assim, a TV aberta felizmente está sofrendo do mal do gigante do pé-de-feijão: não é apenas o seu público tradicional que está desenraizado da sua alteridade, da sua territorialidade e que não sabe como nem em que espaço discutir política. Ela mesma desconhece os meninos nascidos desde o início da década de 1990. No começo, atraíram-nos até o seu castelo sobre as nuvens. Depois, deixaram a galinha dos ovos de ouro ao seu lado e pegaram no sono. Finalmente, João já está de volta ao solo e já pegou o seu machado.

Portanto, é preciso ter um QI de funcho ou uma visão de mundo restrita ao volume de um ovo de tênia para acreditar piamente nos produtos políticos e consumistas das corporações mídia de massa. Afinal de contas 40% dos brasileiros já possuem acesso freqüente à internet, mais de 20% já possuem computador + acesso discado em casa e, a despeito do uso mais freqüente ser para e-mail, MSN, ORKUT, YOU TUBE, notícias (predominantemente dos mesmos grupos de mídia de massa) e, um pouco mais abaixo na lista, para ler, comentar e blogar (sendo que menos de 10% dos blogs lidos são sobre política),

Escrevi este post em função da prisão do DANIEL DANTAS (que, em breve, será solto porque JOSÉ DIRCEU é funcionário dele e JOSÉ EDUARDO GREENHALGH é seu braço jurídico e político dentro do PT, que possui o rabo preso sim, senhor) e da catrefa de peixes pequenos tucano-pefelês pega na mesma tarrafa (FHC, ACM, LUIZ EDUARDO MAGALHÃES, SERJÃO – todos escaparão); da crise no judiciário; e, finalmente, por causa das conclusões da blogosfera sobre o episódio POLÍBIO ADOLFO BRAGA x NOVA CORJA.

Até bem pouco tempo atrás, confesso que levava muito a sério o acompanhamento da mídia corporativa de massa (rádio, televisão, jornal, revista). Hoje, ela me irrita: se intromete na minha vida, no meu trabalho, no meu lazer, na minha intimidade, no meu espaço, na minha privacidade, usa um megafone a 10 cm de distância do meu ouvido, cores berrantes e letras garrafais a 1 cm dos meus olhos e passa o tempo todo dizendo o que e como comprar, como educar os filhos, como votar, quais deveriam ser os meus valores, como ela acha que eu deveria ser cidadão e por aí afora.

Não nego que, embora socialmente precário e reduzido, o seu papel informativo existe e possui lá a sua importância. Também não nego nem a necessidade e tampouco a importância de algo que me irrita muito mais do que o suposto efeito dos meios de comunicação, que são as instituições políticas e sociais. Também não pretendo me tornar um fora-da-lei.

Todavia, o que se vê na política, nas corporações e em parte da mídia nada mais é do que o reflexo da pior crise de identidade da história da humanidade. Tal crise torna-se ainda mais dramática à medida que nem metade da população das duas últimas gerações brasileiras ainda é capaz de enxergar o mundo simultaneamente a partir de todos os significados pessoais e sociais de pertencer a um certo território ao mesmo tempo em que teletransporta-se incessantemente no ritmo da vazante da infomaré.

As leis e o uso do poder no Brasil contemporâneo não dão conta nem dos integrados, nem dos apocalípticos. A aproximação e o intercâmbio entre ambas as maneiras extremistas de reconhecer a si mesmo dentro da sociedade surgem em ondas disformes, impermanentes, imprecisas que, assim como vêm até a praia, voltam para o oceano.

Então, como é que eu posso aceitar me submeter passivamente a um sistema caduco que só me prejudica?! Pra que chover no molhado tentando convencer tanta gente diferente a pensar como eu se nem eu mesmo sei se o que é melhor pra mim hoje vai ser melhor pra mim ou pra todos amanhã?!

Se eu quero adesão, parece ser mais fácil eu disponibilizar o que eu penso não através de um outdoor, de um megafone ou de um locutor piegas cheio de caras e bocas: eu vou deixar poucas idéias – nada muito complexo – num lugar onde quem quiser ver, vai encontrar. Se gostar, vai falar comigo. Se quiser aderir, vai multiplicar à sua maneira. Quando houver massa crítica suficiente (que pode ser de Porto Alegre, de Roma ou de Nairobi), a gente articula um plano de ação, cada um no seu lugar. Quando tudo estiver pronto, a gente sai pra rua sem ser contra ninguém, mas apenas a nosso favor.