BLOGOSFERA E MIDIATIZAÇÃO

Reitero a importância da campanha NÃO SOU BLOGUEIRO DE ALUGUEL lançada pelo FREELANDO PRO DIABO: todo blogueiro amador que leva a sério esse movimento garante a sua preocupação com a ética e com a credibilidade dos blogs que se propõem a falar sobre política e a criticar as escolhas da mídia corporativa.

Essa ética que os blogs clamam para si precisa reconher um fato muito delicado que grande parte da esquerda simplesmente ignora porque esquece que seu telhado possui o mesmo vidro do telhado do vizinho: não há barreiras entre a blogosfera e os meios de comunicação de massa, quer falemos sobre veículos da mídia alternativa, quer falemos sobre a mídia hegemônica. Afinal de contas, as notícias, as críticas, as denúncias, as informações e a disponibilidade de provas documentais estão em um lugar e estão em todos os lugares ao mesmo tempo.

A pós-modernidade é a rede. As relações são encadeadas através de teias, nas quais cada um de nós representa um nó. E cada nó apresenta um número diferente de laços com outros nós, estejam eles geograficamente próximos ou distantes entre si. Ao mesmo tempo, estabelecemos laços mais fortes com alguns nós e laços mais fracos com outros nós, sendo que, em alguns casos, os laços podem simplesmente ser rompidos.

A midiatização está aí. Ela não é palpável, nem tampouco é um bicho-papão. Porém, dela, hoje em dia, praticamente ninguém escapa: afinal de contas, de onde vem tudo o que discutimos em nossos blogs, hein?!

Direta ou indiretamente, quer queiramos ou não, somos nós que apresentamos laços elásticos com a mídia alternativa e também com a mídia hegemônica, sejam eles diretos ou indiretos. Pode-se preferir um tipo de relação a outra. Podemos ignorar ou até mesmo negarmos a existência de um laço com um nó que não partilha da mesma agenda que defendemos em nossos blogs. Contudo, estamos todos ligados.

Vou continuar chovendo no molhado para que vocês entendam melhor o ambiente no qual decidiram se meter no momento em que decidiram publicar seus pensamentos na internet:

a) Mídia hegemônica: possui a seu favor milhões de leitores, ouvintes e telespectadores; nomes de profissionais conhecidos e famosos que lhes dão letras, vozes e imagens; uma gramática discursiva exaustivamente treinada e reconhecida pela massa há várias décadas; muito dinheiro e toda uma rede social arranjada no seio dos poderes econômico, político e coercitivo à sua disposição;

b) Mídia alternativa: possui uma massa crítica diferenciada, porém minoritária. Carece de verba para expansão do seu alcance e, acima de tudo, de aprender a discursar com mais imagens, menos texto e palavras-chave que evoquem a participação em rede;

c) Blogosfera política não-patrocinada: não pode negar a sua responsabilidade como elo em uma cadeia de eventos imprevisíveis, cuja vazão nem a mídia central e nem a mídia periférica têm como controlar.

Também não podemos negar a grande contradição contida nessa relação: sempre que nos interessa, somos oportunistas o suficiente para, eventualmente, deixarmos de lado a crítica e a denúncia do método de produção de subjetividades. Afinal de contas, é absolutamente impossível deixarmos de referenciá-los e de (mesmo negando até a morte) desejarmos ser referenciados por eles porque, bem ou mal, percebemos que blog não é mídia de massa.

Os blogs não são amigos nem inimigos dos meios de comunicação de massa e nem estes são amigos ou inimigos dos blogs: não se pode nem se deve esperar nada deles, muito menos fazê-los esperar de nós um comportamento ou um padrão de cooperação: todos eles, sem exceção, irão publicar pautas que não serão unanimidade na blogosfera. Seja na crítica, seja na denúncia, seja na adesão, seja no aprofundamento de uma questão qualquer, mesmo com muitos pontos em comum, somos multifacetados, multiculturais e diferenciados a partir de nossas referências exclusivamente individuais.

Reflitam bastante sobre o papel dos blogs políticos de esquerda: afinal de contas, a direita não tem obrigação de ser diferente do que ela é. Não tem necessidade de reinventar-se a cada fracasso, pois foi a partir dela que os sistemas econômico e político vigentes foram forjados.

Todo jogo tem suas regras – nem que elas existam para serem quebradas. E todo jogo é uma forma de competir. Infelizmente, são raríssimos os jogos nos quais todos são vencedores ou todos são vencidos.

Quem entra na chuva é pra se molhar: entrou em campo, tem que saber que é pra ganhar ou perder. Em relações sociais desiguais não existe empate nem resultado bom para ambos os oponentes.

Porém, que tal trocarmos “luta” por RESISTÊNCIA e “burguesia x proletariado” por INCLUSÃO + DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL? Que tal reivindicar por demandas bem pontuais ao invés de oferecer um calhamaço que ninguém irá ler até o final?

A ESQUERDA E AS MUDANÇAS NECESSÁRIAS

Pra quem acompanha as mudanças que paulatinamente vou empreendendo neste blog, minhas maiores preocupações são conceituais. São em que tom devo propor um debate a respeito de como EU, HÉLIO, acredito que a esquerda deva se articular diante de uma realidade agreste, dura, impiedosa.

Já anunciei, há algumas semanas, meu desejo de cumprir metas e atingir objetivos que atraiam um número maior de leitores. Para isso, preciso investir (sim, a vida indissociada do dinheiro em uma sociedade urbanizada não existe) através da oferta de um layout estética e funcionalmente melhor.

Desse projeto para meados de 2009, começo ressuscitando minha marca própria: heliopaz sem maiúsculas e tudo junto gera uma empatia maior com o público da internet identificado através de apelidos (nicknames) e e-mails. O sol estilizado (que também lembra uma flor) indica que helios significa sol em grego, mas que eu ofereço mais calor humano do que queimaduras.

A marca é uma prévia para a aquisição de um domínio bom de marketing, eliminando devagarito as denominações “palanque” e “apito”.

Outra novidade é a forte influência de todo o conhecimento que eu tenho adquirido durante o mestrado em uma instituição que possui uma enormidade de professores de esquerda que, contudo, criticam e acompanham atenta e continuadamente as Ciências Sociais Aplicadas desde os autores clássicos até os mais recentes, que propõem novas práticas e que enxergam problemas e soluções para os conflitos em um contexto no qual muitos autores sempre importantes não apresentam mais aquela suposta universalidade conceitual e no modus operandi de uma sociedade que jamais foi estática.

Em função disso, desisti de apoiar integral, incondicional e acriticamente toda e qualquer instituição forjada na modernidade, com as quais precisamos conviver de maneira obediente, protocolar e submissa: não creio em partidos, sindicatos, associações de classe (sejam elas patronais ou de funcionários) e dedico um tempinho a algumas pequenas causas bem pontuais que se, por um lado, representam uma modalidade de voluntariado organizada por “burgueses”, por outro já participei de muitas ações voluntárias de pessoas ditas de esquerda onde burocracia, falta de agilidade e tentativas vãs de conscientização política e de complexificação da compreensão da sociedade sempre predominaram.

Ser de esquerda HOJE exige admitir o capital e saber usá-lo, acumulando-o sem consumismo nem ostentação, porém multiplicando-o para resistir ao sistema sem tornar-se seu refém; o domínio de uma linguagem fragmentada que deve contar uma história em poucas palavras através de uma edição dinâmica e com recursos de computação criativos e competentes; buscar resolver causas pontuais sem preocupações de pertença (nada de dar valor a ser gaúcho, porto-alegrense, brasileiro, etc.).

À hegemonia global se resiste. Não se luta contra, pois a derrota é certa diante da coerção. Não se tenta substituí-la no poder, pois seremos tão totalitários quanto a direita em pouco tempo. Contudo, cada pequena ação pontual insistentemente dispersa em rede e organizada seguindo as porcas leis burguesas tende a constituir uma cadeia de acontecimentos sucessivos e parecidos com aqueles que originaram as nossas demandas no outro lado do globo. Sociedades antagônicas com problemas parecidos tendem a aproximar-se, fazendo com que o sentido de pertença, isto é, no nosso caso, o “ser gaúcho”, o “ser porto-alegrense” ou o “ser brasileiro” não tenham a menor importância, já que o modelo de dominação hegemônica e o modelo de exclusão não são mais locais e, sim, globais.

Dessa forma, percebo que o erro crasso da esquerda brasileira (apesar de suas pequenas vitórias comemoradas como se fossem grandes para, logo ali, serem novamente expulsas para a periferia das questões sociais) é viver em cima da briga do capital contra o privado, da estatização de tudo e da visão do Estado como um pai que deveria proteger a todos os seus filhos.

Vamos desenhar um círculo no qual a direita e a esquerda estejam separadas por 180º. A direita é representada pelo lobby, pelo tráfico de influência, pela aplicação acrítica de um modelo social, econômico, político e cultural nada original segundo o padrão de quem o inventou, pela corrupção, pelo gigantismo, pela falta de consideração com o sujeito e pela intolerância à diversidade que tanto criticamos. No lado oposto da roda, a esquerda, com sua burocracia, com seu excesso de regras, com sua lentidão nas decisões, com seu excesso de debates que atrasam muito a adoção de medidas populares.

Ambas podem ser totalitárias e ditatoriais. Todavia, a velocidade, o ritmo e o sentido com os quais cada um dos quesitos que usei para caracterizar dois modos tradicionalmente antagônicos de ver o mundo se cruzam nessa roda (e, acima de tudo, o tempo em que dura a intersecção entre dois ou mais desses quesitos) comprova que há atravessamentos de diferentes níveis realizados de maneira mais ou menos competente, mais ou menos solidária, mais ou menos eficiente por todos os atores existentes.

A circularidade acima também explica em parte o porquê da mídia hegemônica partidarizada e comprometida com interesses graúdos ter um lado não-FDP: o mesmo jornalista, o mesmo patrocinador e o mesmo leitor predominantemente conservadores não são, per se, intrinsecamente “maus” nem “bons”: eles são, assim como a Madre Teresa de Calcutá, Adolf Hitler, Gustavo Kuerten ou Marcelinho Carioca tão capazes de matar ou morrer de maneira atroz e ilegal se movidos por um nível de pressão forte o suficiente para fazer o lado racional levar uma goleada histórica do lado instintivo que cada um tem dentro de si.

Ela tem seus interesses. É predominantemente comprometida. Todavia, não pode jamais negar-se totalmente a prestar, por mínimo que seja, um serviço de utilidade pública que pode ajudar pessoas a poupar tempo, dinheiro e até mesmo a salvarem suas vidas.

Não estou defendendo-a. Nem tampouco acho que os blogs (e até mesmo eu, eventualmente) devam deixar de analisar nas entrelinhas o que o texto diz. A blogosfera tem a obrigação de denunciar, de expor a verdade. Sua credibilidade depende disso.

Porém, mesmo que cada blogueiro fale sobre aquilo que entende melhor ou que lhe dê na telha sem censura e com o seu próprio livre arbítrio é fundamental sempre que o esquerdista reveja seus próprios conceitos. Aprender e reciclar-se não significa se vender, fraquejar e nem tampouco achar que a esquerda boa é a do lulo-petismo, dos trabalhistas ou da Manu.

Insisto sempre no ponto-de-vista das redes: a esquerda precisa ACEITAR USAR E MULTIPLICAR o capital como instrumento de aparelhamento. Deve, acima de tudo, perder o seu histórico preconceito contra a midiatização e contra as novas tecnologias, dominando-as a seu favor para atingir a classe média urbana.

Ao invés de mudar uma lei inteira de soco, deve-se aprender a mudar cláusula por cláusula, até converncer o lado oposto a transformar 20% ou 30% da lei de maneira que isso baste para melhorar a condição dos excluídos. É dizer a que veio, sem enrolação. É preocupar-se SIM em vender uma imagem de aparência física asseada e simpática e falar sério sem fazer cara feia.

E a esquerda tradicional costuma fazer cara feia na maior parte do tempo. A esquerda tradicional enrola, fala difícil, quer forçar a barra em conscientizar a tudo e a todos.

Isso é antipático. Isso definitivamente não funciona. E isso é muito mais grave do que meramente discutir a falta de eqüidade de formas de fazer mídia ou, “Oh, coitados de nós! Como iremos aparecer para a sociedade de maneira positiva sem dinheiro?”

Se não for dessa forma, jamais se conseguirá obter adesões significativas de onde quer que elas venham para causas que parecem pequenas mas que, por analogia, des
pertarão o interesse localizado de pessoas que vivem problemas parecidos com os nossos e que precisarão de nossa ajuda.

Se não for assim, o enorme contingente de 88% de brasileiros que vive no meio urbano jamais será simpático ao desenvolvimento sustentável, à reforma agrária, à prática desportiva, à multiplicação dos pequenos empreendimentos locais com parcerias globais idôneas e sem gigantismo a fim de fazer a economia prosperar de vez.

Mais foco e menos coitadismo. Mais criatividade e menos ortodoxia. O discurso apenas deslocou-se para outro locus e segue uma nova gramática. Porém, não se esvaziou. Portanto, o movimento da sociologia, da psicologia, da pedagogia, da comunicação, da administração e da economia precisam ser mais ágeis ao recriarem seus novos discursos.

AVAAZ E GLOBAL VOICES: CIDADANIA GLOBAL

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A resistência pós-moderna é realizada por uma multidão descentralizada, cujo ponto em comum é a consciência de que eles pertencem ao mundo todo e não apenas a um continente, país, estado, cidade, partido, associação, sindicato ou movimento social. A pertença e a territorialidade perdem o sentido identitário e revelam uma nova faceta do indivíduo, que é a de defender seus princípios e ajudar àqueles que mais precisam independentemente de onde eles estejam geograficamente.

Ser um cidadão do mundo não é ser estudado, viajado, poliglota, rico ou famoso: é estar ligado nas demandas sociais mais remotas. E, estar ligado em uma dessas demandas é estar ligado em todas ao mesmo tempo. Afinal de contas, elas são GLOBAIS: se ajudarem a resolver um problema no Zimbábue, terão ajuda para resolver um problema semelhante em Porto Alegre e assim sucessivamente.

As ferramentas da disseminação de idéias e a linguagem utilizada são as mesmas que fazem o turbocapitalismo girar: internet, celular, vender idéias políticas sob a forma de bens de consumo midiáticos, a partir de discursos curtos, dinâmicos, cujo conteúdo não precisa repetir o que a mídia corporativa mostra, agindo apenas como uma quebra, como um choque na linearidade do pensamento dirigido.

Se eles querem guerra, NÃO terão guerra: a solução de demandas sociais não funciona de maneira rápida através de leis burguesas, nem da esperança por uma mudança na Lei de Imprensa ou na Lei Geral das Telecomunicações e tampouco pela simples espera pela oferta de novas tecnologias de informação baratas.

Ao contrário do que muitos pensam, não existe alienação, ausência de sentido e nem tampouco esvaziamento da instância política: a esfera pública e o papel do estado agora estão nas mãos de certas instâncias da mídia corporativa e de seus patrocinadores. O estado é fraco e, portanto, é muito mais fácil combater diretamente os donos do mundo (empresas transnacionais de bens simbólicos) do que seguir acreditando que devemos ou alterar, ou defender o estado segundo o falho modelo democrático e legal que não consegue dar conta da sociedade em rede.

Hoje, o vencedor não surge através da tomada do poder político (nem das urnas, nem da força), nem do confronto de palavras em um ambiente totalmente controlado pelo oponente (mídia corporativa) e tampouco através de embates físicos (ocupação, barricada, invasão, destruição, pilhagem, etc.) contra os donos do poder econômico, coercitivo e simbólico: o vencedor é aquele que, pontualmente, consegue massa crítica suficiente para satisfazer demandas diferentes com um cunho semelhante espalhadas ao redor do planeta.

Enfim… Se eu não consigo massa crítica suficiente pra me ajudar aqui, então devo buscá-la no resto do mundo. Um blog não atinge milhões o tempo inteiro e pouca gente acessa internet. Mas a maioria da população mundial possui celular. Em breve, mais gente terá computador em casa do que televisores.

O foco – creio eu – é chegarmos antes no Primeiro Mundo, onde esse modus vivendi já está consolidado na esmagadora maioria da população urbana e, de lá para cá, através de outra forma de enxergar o nosso problema, acompanharmos a preocupação deles conosco e percebermos que empresas, governos, partidos, etc. daqui podem ter suas rédeas puxadas exatamente pela repercussão quase silenciosa que chega com força nos olhos e ouvidos do consumidor, que é quem pode fazê-los quebrar se não consumir seus produtos.

Não é uma simples questão de boicote: é a vergonha de ter seu discurso politicamente correto desmascarado como um reles embuste que, de responsabilidade social e de desenvolvimento sustentável não apresenta nada.

“Se alguém lhe bloquear a porta, não gaste energia com o confronto, procure as janelas.”

Não para fugir, nem para matá-los mas, sim, para cercá-los. Quem cerca, desarma. Quem desarma, mobiliza a si desmobilizando o outro.

Isso não significa que tal movimento seja simples nem que o sucesso seja garantido, assim como também não anula a importância nem a possibilidade de sucesso em focos nos quais ainda haja sociedades vivendo em mundos pré-históricos, medievais e modernos em plena pós-modernidade. Contudo, a resistência mais adequada a cada era é aquela que faz o melhor uso possível da tecnologia contemporânea. Usos equivocados de tecnologias inadequadas à época histórica daqueles que detêm a hegemonia só servirão para que sejamos esmagados por eles.

Milhões unem-se pela internet para forçar o G8 a obedecer o Protocolo de Kioto; para ajudar mais de um milhão de vítimas de um ciclone no Mianmar; para acabar com o clima de guerra civil e realizar novas eleições no Zimbábue; e, assim como nos mostrou o vídeo do começo deste post, também para impedir o choque de civilizações entre o islã e o cristianismo.

Dois dos caminhos possíveis são os propostos pela AVAAZ e também pelo GLOBAL VOICES ONLINE:

“O Global Voices agrega, organiza e amplifica a conversação global na rede – jogando luz nos lugares e pessoas que o resto da mídia geralmente ignora.”

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