A ECONOMIA POLÍTICA DO FUTEBOL BRASILEIRO II

No post anterior, falei sobre a importância da manutenção dos regulamentos dos campeonatos em função da regularidade exigida pelos organismos internacionais e também expus o intercâmbio das entidades clubísticas brasileiras com órgãos europeus. É sempre bom lembrar que, no futebol, quem manda é o Velho Mundo e não o Novo Mundo, mas que a mão-de-obra mais qualificada e os mercados consumidores de maior potencial situam-se  a priori na América Latina.

Pois bem: a UEFA, principal entidade do futebol europeu de seleções e de clubes (cujos torneios são melhor organizados, possuem maior repercussão midiática e obtem os maiores patrocinadores do mundo até mesmo em relação à FIFA – entidade máxima do esporte no planeta) tem, atualmente, os seguintes patrocinadores: Unicredit, Ford, Sony, Mastercard, Playstation, Heineken (Champions League) e Seat (Europa League). A FIFA – por sua vez –  tem Adidas, Coca-Cola, Emirates, Kia/Hyundai, Sony, Visa e os patrocinadores da Copa de 2010 na África do Sul (Budweiser, Castrol, Continental, McDonald’s MTN, e Satyam).

Aqui ao lado, a AFA (Associação Argentina de Futebol) adotou o calendário europeu e não possui campeonatos estaduais (o grande câncer do calendário brasileiro). Sua postura obviamente atraiu patrocinadores interessantes e rentáveis bem antes do Brasil. Ei-los: Volkswagen, Quilmes, Coca-Cola, Claro, YPF, Italcred, Standard Bank, Fibertel, Noblex, Dasani, Powerade e Aerolineas Argentinas, além da Adidas – fornecedora oficial de uniformes.

Hoje, a CBF possui como principais patrocinadores o Banco Itaú, o Guaraná Antarctica, a operadora de telefonia celular Vivo, Gilette, supermercados Extra e TAM linhas aéreas, além da fornecedora de material esportivo Nike. Porém, não sabemos ainda se esses patrocínios são mais em função das seleções do que de um Brasileirão de regulamento e veiculação televisiva previsíveis.

Apesar do prestígio do presidente da CBF, Ricardo Teixeira (ex-genro do presidente de honra da FIFA, João Havelange) como membro do Comitê Executivo da FIFA e como membro do COI, grande parte do faturamento da entidade via patrocínios e direitos televisivos não é utilizada para subsidiar o futebol como um fator de educação, de inclusão social e de reforço da identidade nacional. Para a entidade, as seleções nacionais são muito mais importantes como um produto do que uma possível equidade a partir de uma melhor distribuição de renda. O modelo de negócio da confederação é mais verticalizado e mais voltado aos interesses da vitrine midiática do esporte de alta performance inclusive do que o marketing dos principais clubes do país tem tentado realizar.

DUNGA NÃO ACEITA CRÍTICAS

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Dunga foi – só pra variar – antipático, melindrado, desrespeitoso e ignorante. Reconheço que ele foi anos-luz menos estúpido do que Ronaldo e Júlio César contra o presidente Lula. Contudo, embora cada um acredite naquilo que deseja acreditar e duvide daquilo que deseja duvidar, neste caso específico, qual a diferença entre mim e Lula? Apenas a exposição midiática que o presidente tem e o peso do cargo que ocupa. Nada mais do que isso.

Não sou jornalista, nunca fui jogador profissional, técnico, dirigente, gestor e nem tampouco político. Só ganho o prazer de trocar comentários e links com vários outros blogueiros e leitores espalhados mundo afora. O meu papel é de um entusiasta assíduo do futebol cuja posição é a de alguém que se interessa em ver o esporte ser visto com mais respeito, a fim de que a diversão que ele me proporciona seja cada vez melhor. Não foi nesse sentido que Lula se referiu ao criticar a seleção brasileira utilizando as virtudes dos argentinos como exemplo?

Ricardo Teixeira não confronta os interesses da mídia corporativa. Da mesma forma, deu um jeito de fazer com que os interesses comerciais da Globo passassem a conviver em simbiose com os interesses da CBF. Isso é muito perigoso, na medida em que existe aí uma interferência nociva para o futebol brasileiro.

Se fosse apenas por isso, eu continuaria defendendo a manutenção de Dunga no comando técnico da seleção. Porém, agora é uma questão de postura, pois a imagem do futebol brasileiro está sendo mais uma vez arranhada em outro período de transição entre gerações, assim como o fora com Falcão logo após a Copa de 1990.

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DUNGA x GLOBO: MELLO E MARONA CONCORDAM

Li ambos os blogs bem depois de ter postado o artigo anterior aqui no APITO DO BLACKÃO. Bem ou mal, com outros argumentos, tanto o ANTÔNIO MELLO como o MÁRIO MARONA também possuem uma opinião básica parecida com a minha, apesar de eu ter ido mais fundo no cerne da midiatização, questionando o superdimensionamento do poder que muitos atribuem à mídia corporativa, sobretudo à GLOBO.

De qualquer forma, faço coro ao MELLO:

“aproveito para pedir ao Dunga que faça a denúncia até o fim, dê os nomes daqueles que ‘cobriam a seleção brasileira sem sair de casa’ e que perdiam treinos porque ficavam ‘passeando no shopping’. Assim derruba a máscara de alguns de seus detratores.”
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GLOBO QUER DERRUBAR DUNGA?

Não estou acusando nenhum dirigente ou jornalista de corrupto, lobista ou de incompetente. Estou apenas fazendo uma avaliação do contexto, que pode ser rebatida por novos fatos ou por pessoas que pensem diferente de mim, desde que apresentem argumentos racionais, complexos e não simplistas ou verborrágicos.
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Dunga é inexperiente? É.

Dunga passa uma imagem antipática e arrogante? Sim.

Dunga não proporciona um ambiente de trabalho descontraído? Não.

Dunga transmite a seus comandados a mesma garra que apresentava quando jogador? Não.

Dunga e Jorginho são subalternos passivos a Ricardo Teixeira? Sim, pois sua autonomia para reivindicar e reclamar é muito reduzida – bem ao gosto de um presidente que está no poder há longos 18 anos e de uma rede de comunicação hegemônica que prefere vender a Seleção para sua audiência como pão e circo.

Dunga e Jorginho transmitem confiança e firmeza aos jogadores, à direção da CBF, à imprensa e à torcida brasileira? Não.

Dunga deve ser demitido antes que o Brasil passe por um apuro sério nas eliminatórias. Sim.

A imprensa em geral mente ou omite os fatos acima? Não.

Um fato, desde que devidamente comprovado, deve ser escondido? Não.

A intenção da cúpula de algum grupo midiático é a de meramente divulgar, denunciar, investigar ou elogiar? Definitivamente não.
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Quase todos os amantes do futebol brasileiro e da seleção querem Dunga e Jorginho fora da CBF. Mesmo que não haja unanimidade nem consenso, tal opinião é predominante.

Esperava-se de Dunga e Jorginho mais carisma, menos conflito, maior conhecimento de causa e, acima de tudo, maior sensibilidade. Tudo isso influencia diretamente no rendimento de um grupo.

Apesar de tantas evidências, o cerne da questão não é a personalidade de A ou B nem tampouco os resultados de campo. Não enquanto o que interessa à banca são a publicidade, a politicagem e o poder. Os negócios no mundo capitalista funcionam assim. Infelizmente, esta é uma lógica da qual raramente se pode escapar.
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A Globo tem mais dinheiro e mais profissionais para cobrir a Seleção do que qualquer outro concorrente. Isso resulta em equipamentos de ponta, melhor imagem, maior cobertura, chegar antes e furar os outros veículos e assim por diante. Por ter mais audiência, atrai patrocinadores mais ricos. Com tamanho aporte de renda, pode adquirir a exclusividade de uma série de eventos esportivos, mesmo que seja para não transmiti-los.

Quer queiram ou não, enquanto não houver uma alteração na lei de imprensa, nas leis comerciais e enquanto não houver uma lei anti-truste decente no Brasil, esse tipo de relação comercial não é “indecente”.

O que não pode é várias emissoras ficarem com suas câmeras distantes ou não terem a mesma possibilidade da Globo para realizarem entrevistas exclusivas. O que não pode é a Globo não liberar os gols e os melhores lances de uma partida para as outras emissoras divulgarem em seus noticiários, já que elas são, nesse ponto, mais éticas do que a “vênus platinada”.

A CBF gosta da Globo porque a Globo a critica muito pouco. A Globo não investiga as relações políticas e econômicas da CBF.
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Dunga, mais do que uma ameaça ao futebol brasileiro, é uma ameaça à exclusividade e aos privilégios legais porém anti-éticos que a CBF costumava dar ao jornalismo esportivo dos veículos da Rede Globo.

Dunga merece elogios e aplausos não por ser arrogante, pouco inteligente, arredio, hostil, medroso e agressivo perante a imprensa em geral mas, sim, por dar a todos os jornalistas de todos os grupos midiáticos as mesmas oportunidades.

Mais do que divulgar um fato, oferecer uma pauta diferente, criativa e curiosa, já repararam que as ditas “leituras labiais” dos técnicos e jogadores de futebol apresentados no Fantástico só surgem quando o risco do time ir para o buraco é iminente?

Por que ela (a Globo) só mostra as inconfidências quando o trabalho do técnico praticamente não possui mais volta?!

Além do mais, não surgiu nada diferente nessa conversa de casamata que a maioria dos telespectadores e torcedores brasileiros não soubesse.
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FORA DUNGA. Infelizmente, por causa da Globo e não do futebol em si. Este seria um lado da história e uma constatação possível.

Contudo, evidências não são provas. Ao mesmo tempo, será que o poder e a força da Globo são tão significativos assim?

Se o técnico estivesse indo bem e se tivéssemos uma geração de jogadores brilhante, nem Bill Gates, nem George W. Bush, nem a Monsanto, a Sony, a General Motors, Hollywood ou a máfia teriam força, competência ou vontade suficientes para derrubar Dunga, pois há um limite que determina aonde começa e aonde termina a autonomia, a liberdade e o poder das alianças entre os diversos entes pessoais e institucionais que compõem a indústria do futebol como negócio e como entretenimento.

Consenso e concorrência andam de braços dados: há uma multiplicidade de opiniões dentro da mesma rede social que pode alterar radicalmente uma articulação antes previsível.

Então, seja entre a torcida, dentro da própria CBF ou na Globo, há uma porção de gente que quer a caveira do técnico, outros estão em dúvida, outros ponderam mais para sim ou mais para não e, finalmente, há aqueles que o defendem.

Agora, quem, o que, como, quando, aonde e por que irá decidir contra ou a favor de Dunga, não há como prever com certeza: isso depende muito da influência e do interesse dos caras que decidem (na CBF, na mídia, nas empresas anunciantes).

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