BANANAS CARAMELADAS, RACISMO E SEXISMO

Todo fardamento fruto de uma viagem que extrapola as cores oficiais tira a identidade do clube.

Todo fardamento fruto de uma "viagem" que extrapola as cores oficiais tira a identidade do clube.

Meu querido amigo Paulo Pinheiro Gomes Jr., natural de Piratini, a primeira capital do RS e professor de Jornalismo da UNISC, tem um ditado fantástico:

GOSTO NÃO SE DISCUTE: APENAS LAMENTA-SE.

Sei que nos corredores de La Bananera, dirigentes e torcedores recitam um patético mantra sempre que desejam incluir o Grêmio no assunto: “clube pequeno”, “time segundino”, “bananas de pijama”, “Gaymio”, “Coligay“, etc. Pior: a prática sexista por parte da direção colorada é, sim, institucionalizada!

Meus conhecimentos de Psicologia e de Biologia podem não ser os mais profundos e nem os mais sofisticados. Os de Sociologia são um pouquinho melhores. Mesmo assim, acho que aprendi alguma coisa. Nunca o suficiente, mas, para efeito deste post, serve.

Quando o amigo recente Carlos Josias desvelou o conceito de “macaco” e de “macacada”, ficou claro que não há mais o predomínio do racismo nessa relação corneteira entre gremistas e fragários. Porém, há na mídia guasca algumas tentativas de criminalização gratuita e oportunista contra o Grêmio. Isso faz com que tenhamos de perder tempo tentando nos defender. No fundo, acho que é isso o que eles querem…

Sendo o apelido e a analogia frutos da ironia e da jocosidade típicas da irreverência, mesmo que eles tenham como intenção valorizar o seu clube do coração e desdenhar de nós, o Pan troglodytes é um antropóide que, além de ser física e emocionalmente muito parecido com o Homo sapiens,  caracteriza-se pela imitação – não apenas dos humanos e não só por uma questão de instinto mas, sim, porque é assim que demonstra que aprende a partir da experimentação.

Dado o extremo conservadorismo, a elitização e a origem basicamente teutônica do Grêmio, é possível, sim, admitir-se uma grande dose de racismo durante suas primeiras décadas. Acho que não se pode defender o indefensável e nem tampouco taparmos o sol com a peneira. Todavia, seja por necessidade, seja porque algumas almas progressistas começaram a atuar dentro do clube, esse sentimento foi dissipando-se paulatinamente.

Por outro lado, poder-se-ia dizer também que o fato de os coloridos (vide camiseta acima; colorado é vermelho e branco – se adicionar uma cor qualquer, fica colorido) proferirem cânticos sexistas em função do Grêmio ter tido a torcida Coligay nos últimos anos da década de 1970 e no início da década de 1980 representa o mesmo nível de intolerância, de desrespeito, de discriminação e de distinção baseados não em aquisições e em qualidades obtidas mas, sim, unicamente pela aparência física e pela escolha daquilo que cada um quer fazer consigo mesmo.

Nos meus tempos de adolescente, quando me encantava com as canções bagaceiras das torcidas organizadas de então, uma coisa me marcava nos clássicos. A torcida deles cantava em coro algo muito feio:

“GREMISTA NEGÃO SÓ PODE SER PUTÃO!”

Vejam bem: de maneira velada, o senso comum da maioria dos colorados procurava segregar e legitimar duas aberrações.

A primeira delas: a de que negro só pode ser colorado porque o Grêmio “é” racista.

A segunda: a de que homossexuais “só podem” ser gremistas porque as manifestações de gêneros não-hetero supostamente não ocorriam de maneira explícita.

Se partirmos para uma análise mais fria dessas premissas, em pleno final do século XX e início do século XXI, tais sentimentos hoje felizmente ilegais e socialmente condenáveis são praticados escancaradamente muito mais pelos colorados do que pelos gremistas.

Portanto, se alguém quiser criminalizar ou tão-somente categorizar a palavra “macacada” proferida por um gremista como racismo ou como tentativa de considerar os colorados como uma “espécie inferior”, creio que a maldade, a ignorância e a estupidez estão nos olhos e na voz de quem interpreta essa questão de maneira mesquinha e oportunista. Eu, particularmente, não vejo assim. Todavia, não se pode negar que, dependendo de QUEM e COMO se refira a essa questão, pode, sim, representar manifestações isoladas e sinceras de racismo por parte de alguns gremistas.

Da mesma forma, é impossível não haver nenhum LGBT em família alguma. Afinal de contas, estima-se em pelo menos 10% a quantidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no planeta. Quando se fala em “veadagem” nos lados do Beira-Rio, parece que a insistência nesse tópico diz respeito a uma projeção a partir da negação: “Aqui também tem, mas ninguém pode ficar sabendo. Então, vamos insistir em falar sobre os que tem no lado de lá. Assim, ninguém vai discutir os que temos no nosso lado.” Veja aqui como todos tem o telhado de vidro (rolem a página até “Não é só o Grêmio, o Colorado e outros times também têm suas torcidas-gay! Mas, e daí?”) – aliás, isso não é e nem deveria ser visto como um “problema”…

Em termos explícitos e práticos, a intolerância institucional por debaixo dos panos dentro do Grêmio encerrou-se há algo entre nove e seis décadas atrás. Já por parte dos colorados, houve uma lamentável compensação que ainda persiste e que iniciou-se justamente quando eles não precisavam de NENHUM subterfúgio de autoafirmação, isto é, a partir da década de 1970, quando eles tinham um estádio novo e grande e quando conquistaram três títulos nacionais de maneira acachapante.

Enquanto isso, vejo mais negros nas sociais do Olímpico do que meus amigos veem nas sociais do Beira-Rio. Enquanto isso, o Grêmio já pôs talvez a maior proporção de mulheres por homem dentro do seu estádio em um jogo oficial de futebol no último Dia das Mães. Meu amigo Guga Türck deve estar certo quando diz que isso deve ser inédito em nível MUNDIAL (fato esse que foi lamentavelmente ignorado pelo nosso marketing).

Enfim… Termino este post sinceramente triste pelo fato de que o outrora clube de “elite”, de “gente metida”, de “alemães racistas”, “que passa de pai para filho há 106 anos”, está hoje infelizmente empobrecido financeiramente em função de péssimas gestões recentes.

Termino este post francamente inconformado em função do senso comum adversário negar que também possui uma origem germânica e que tornou-se tão hipócrita e arrogante a ponto de não admitir suas próprias contradições. Afinal de contas, a formação sociocultural de AMBOS os clubes é extremamente parecida.