Bem sei que minha opinião formada por um olhar que me força sempre a duelar contra as minhas crenças a fim de encontrar nelas as suas próprias idiossincrasias ou contradições através do distanciamento crítico cria muitas discordâncias em relação ao pensamento da própria esquerda bovina (sim, os bovinos estão por toda a parte na capital e no RS).
Fui líder estudantil no final do 1º grau em escola pública. Estudei em universidade pública, gratuita e, até então, ainda de qualidade. Viajei pelo país em três ENECOMs; fui militante do PT durante quase duas décadas e, sempre que tiver tempo ou julgar minha opinião útil e – acima de tudo – passível de ser devidamente ouvida, respeitada e aceita, ainda participarei eventualmente de reuniões no diretório municipal.
Tenho vários episódios de embates urbanos durante campanhas partidárias-eleitorais que, felizmente, posso garantir com toda a honestidade do mundo que JAMAIS foram provocadas por mim ou por qualquer um dos millitantes que estavam junto comigo em tais ocasiões:
1) No canteiro defronte à Praça da ENCOL, um homem com menos de 40 anos muito bem vestido e bem grande (gordão e com cerca de 1,90m de altura), arrogante e irônico, atravessou a rua para provocar a nossa militância. Algumas professoras estaduais e seus filhos queriam apelar para a ignorância. Felizmente, meu distanciamento permitiu-me ser o único do grupo a enxergar um carro estacionado defronte à praça com um cara de estilo muito parecido com o do que veio nos provocar cujo motorista estava sorrindo com uma câmera de vídeo. Prontamente, apontei-o para todos e apartei o princípio de desentendimento (1994);
2) Quase fui atropelado com o sinal fechado por um jovem motorista de um Gol que sentiu-se muito incomodado com as bandeiras do PT tomando conta do cruzamento da Mostardeiro com a Goethe defronte ao Parcão de maneira alegre, pacífica e hegemônica (1998);
3) Me deixei ser “espancado” pelo inócuo “pauzinho de plástico” da bandeira de uma eleitora do Rigotto defronte ao HSBC da 24 com Olavo Barreto Viana. Se o filho dela não fosse um guri sensato, a merda estaria feita: eu tinha tanta razão que fiquei parado e ameacei processá-la e chamar a imprensa (2002);
4) De 1989 até 2006 (a última campanha da qual participei nas ruas), sempre bandeirando nas avenidas Nilo Peçanha, Carlos Gomes, Plínio Brasil Milano, 24 de Outubro, Goethe, Independência, Osvaldo Aranha, Parcão, Redenção, Gasômetro e indo a todos os comícios no Largo da EPATUR (em 2008, foi a primeira vez que eu sequer soube quando haveria algum comício e perdi os dois ou três que ocorreram), cansei de ser abordado por pessoas que perguntavam se eu era CC, professor, funcionário público, dirigente sindical, delegado de partido, desempregado, se não tinha coisa melhor pra fazer, “como é que um moço tão ['bonito, inteligente, alegre, cheio de energia', etc. - dependendo do interlocutor, que quase sempre, esteve enganado em relação a mim] é capaz ‘disso’?”
Além dessas histórias urbanas, sempre tive calorosas, pouco civilizadas e extremamente traumatizantes discussões familiares (sobretudo quando eu era muito novo e era conscientemente censurado e inconscientemente humilhado perante estranhos pelo meu pai e pelo meu irmão), as quais durante muitos anos, mesmo coberto de razão, não conseguia saber me defender nem contra-atacar de maneira racional e fidalga. Essas são as marcas que mais doem e que nunca irão se apagar: mesmo sem ódio, sem raiva e procurando evitar esse tipo de desgaste, não nego minha fraqueza de, mesmo conseguindo entender o porquê deles serem assim, é impossível para mim não guardar rancor. Nenhuma demonstração atual ou futura de amor, carinho, atenção, respeito, solidariedade ou coisa parecida até hoje foi capaz de fazer com que eu esqueça, minimize ou seja capaz de me sentir melhor em relação a esses sentimentos.
Meus bons e velhos amigos, em muitos momentos foram mais significativos e mais importantes em termos de empatia e de afinidade do que com a minha própria família. Contudo, hoje sei que não há como contar nem com os amigos, nem com a família para tudo: cada grupo de afeto e de identidade supre determinadas necessidades individuais e coletivas, mas é incapaz de satisfazer a todas.
As escolhas profissionais e a maneira com que cada um foi criado, mesmo tendo uma adolescência de esquerda a partir de pais entre 10 e 20 anos mais jovens do que os meus que efetivamente tentaram lutar contra a ditadura civil e militar de direita, hoje são muito divergentes das minhas: pode-se dizer que eu nunca consegui ser pragmático e que sempre tive severas divergências em relação a me tornar ou a me sentir como um escravo do “deus-mercado”. Mantendo-me parcialmente à margem do sistema, ainda não tive filhos, não possuo patrimônio, não viajei pelo mundo e não consegui estabelecer uma rede social capaz de me ajudar profissionalmente.
Foi extremamente difícil tentar integrar-me a esse sistema. Demorei muito tempo até descobrir minha vocação autêntica e para entender que politicagem, subjetividade e, acima de tudo, a necessidade de estabelecer laços HONESTOS e SINCEROS com pessoas influentes (ou muito populares, ou dotadas de um alto poder político, social e/ou financeiro) é a única forma de se conseguir chegar aonde se quer sem sectarismo e com a capacidade de poder circular com respeito por vários ambientes diferentes inclusive em meio a severas divergências.
Jamais mudarei de lado. Porém, sei que que meu ponto-de-vista baseado em uma matriz teórica contemporânea gera um afastamento da visão reducionista e simplista que é progressivamente irreversível e autofágica em função da miopia da única forma aceita e conhecida de se fazer política: partidos e sindicatos mandam, os outros “bedecem”.
A paixão, a idolatria e a defesa incondicional de práticas e de pessoas cuja contribuição política e cidadã não vale meio centavo furado em relação a tudo o que OLÍVIO DUTRA protagonizou me fez estudar e pesquisar seriamente outras alternativas legitimamente políticas, politizadas e politizantes, atuantes, ativistas, cidadãs, esclarecidas e mobilizantes ainda emergentes cujos resultados têm sido muito mais eficientes do que sob lideranças centralizadoras baseadas em uma visão atrasada e retrógrada (que não tem nada a ver com o discurso direitista do ‘novo’).
Para mim, o declínio do sistema representativo político baseado em partidos cujo financiamento de campanha funciona de maneira X e que depende de uma espécie de relacionamento Y a fim de sobreviver às forças conservadoras (banqueiros, megacorporações globais, latifundiários, agronegócio, políticos de direita e corporações de mídia) exige uma ampla discussão a fim de buscar uma nova legislação capaz de fazer com que alterações profundas nesse modelo falido possam fazer com que ele volte a fazer sentido para a sociedade como um todo.
Enfim… Tudo o que demanda centralização, autoritarismo e pensamento único me torna extremamente pessimista e faz com que eu, alguém disposto e interessado em debater a respeito de qualquer coisa desde sempre, chegue ao extremo de considerar perda de tempo discutir política sob os moldes partidários, eleitorais e representativos sob este modelo.
Há muita gente extremamente lutadora, de biografia tão longa quanto significativa e que é muito conhecida no meio da esquerda sul-riograndense por uma quantidade enorme de militantes mergulhando em uma espiral de ilusão, de auto-enganação e de incapacidade total de analisar o macroambiente, por mais que leia, por mais que participe de palestras e cursos, por mais que viaje.
Há, tamb